terça-feira, 15 de setembro de 2009

20 anos da morte de Raul Seixas


20 ANOS SEM RAUL SEIXAS


No próximo dia 21 de agosto estará completando 20 anos da morte de Raul Seixas e uma efeméride como esta é sempre um momento para comemoração e reflexão. Um momento para que lembremos juntos (coo-memorar) um acontecimento ou alguém cuja existência, de alguma forma iluminou os caminhos de outrem. É sem dúvida, o caso da obra do maluco beleza Raul Seixas. Raul, como era seu desejo, deixou sua marca no planeta, e essa marca se traduz pela capacidade que teve de apontar caminhos, seduzir pessoas e traduzir sentimentos.
A sua obra é tão fácil de se apaixonar, quanto difícil de analisar. Difícil pelo fato dela ser multifacetada e até mesmo contraditória. Raul, como diz uma de suas letras mais autobiográficas – “metamorfose ambulante” – se define como um ator, abrindo aí, portanto a possibilidade de encarnar múltiplos personagens e discursos diversos. Num esforço classificatório poderíamos distinguir em sua obra dois momentos distintos: a primeira fase, que vai de 1973 – ano do lançamento do álbum Krig-Há-Bandolo – até o final da década, quando lança dois Lp’s: “o dia em que a terra parou” de 1978, e “mata virgem” de 1979. Esses dois últimos álbuns da década de 1970 são como uma transição para um Raul mais cheio de altos e baixos da década seguinte.
Musicalmente Raul pertence àquela geração denominada pós-tropicalista, que incorpora ao seu modo, as propostas estéticas do movimento tropicalista. Lembremos que na década de 1960 havia, em linhas gerais, dois grupos de contestação ao regime, ou ao sistema, no sentido mais amplo. De um lado uma produção de canções identificadas com uma esquerda mais engajada, vinculada aos Centros Populares de Cultura e a música de protesto; e do outro uma proposta mais conectada a uma estética contracultural ou hippie, cujo foco estava na atitude, no comportamento e nas transformações estéticas. Geraldo Vandré, que podemos tomar aqui como ícone do primeiro grupo dá uma “estocada” na rapaziada da contracultura, quando põe na letra da sua célebre “caminhando e cantando” os versos: “... pelas ruas marchando indecisos cordões / ainda fazem da flor seu mais forte refrão / e acreditam nas flores vencendo canhão...” um claro recado ao pessoal do flower Power.
Raul então funde tropicalisticamente a influência rock, a música brega e a música nordestina. Ele costumava dizer que tinha tanto influência de Elvis Presley quanto de Luiz Gonzaga. Aliás, ele escreveu em uma de suas últimas canções que há muito tempo tinha percebido que Genival Lacerda tinha a ver com Elvis e com Jerry Lee. Mas o que marcou mesmo Raul em sua primeira fase, foi aquela mistura de posturas na qual se fundiam a irreverência; a anarquia, como proposta político-existencial; o inconformismo e o misticismo oriental, tão ao gosto das correntes contraculturais estadunidense do final da década de 1960.
Raul era um entusiasta do individualismo – “eu sou meu país”, teria declarado certa feita –, talvez por isso nunca tenha estado ligado a nenhuma corrente musical. Artistas como Zé Ramalho, que chegou a gravar um cd fazendo uma releitura de sua obra; Tom Zé, que o cita em uma de suas canções e Belchior, que gravou “ouro de tolo”, tinham afinidades musicais com ele, mas nunca estiveram muito próximos musicalmente. Em um certo momento a gravadora WEA, na qual Raul gravou “o dia em que a terra parou” quis fazer uma aproximação musical entre ele e Gilberto Gil. A idéia era que os dois compusessem juntos uma canção para este disco do Raul. Mas não deu certo... o máximo que aconteceu foi Gil participar fazendo uns vocais da faixa “que luz é essa?”.
Se formos tomar de empréstimo a classificação feita pelo poeta Ezra Pound, na qual ele categoriza os artistas em inventores, diluidores e mestre (existem outras categorias, mas ficaremos apenas com as três), poderíamos afirmar que Raul estaria na condição de mestre. Pound define como inventores aqueles que instituem formas novas, anunciando uma nova configuração ainda desconhecida. Os diluidores são aqueles que se valem das formas já prontas, mas as simplificam, diluindo seus conteúdos mais profundos. E por fim, mestre seriam aqueles que se valem dos inventores, mas ao contrário dos diluidores, realizam uma obra de excelência. Consignamos Raul na condição de mestre (para a contrariedade de muitos fãs), por acreditar que ele se valeu de elementos oriundos da estética e da postura tropicalista, mas realizou com este espólio uma obra virtuosa.
Havia nas décadas de 1960 e 1970 discussões relativas ao que se chamava na época de música comercial versus música de qualidade. As duas eram como que antagônicas. Estava presente dentro da perspectiva dos tropicalistas de forma clara e consciente, a possibilidade de estar dentro das estruturas comercias de gravadoras, e, portanto, da indústria cultural, etc., e produzir canções de qualidade. Pensando as duas produções como não excludentes, era possível estar no programa do Chacrinha, sem se tornar uma arte menor por isso. Raul usou e abusou dessa “orientação”. Em uma de suas canções, “as aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor” ele diz textualmente: “pra se entrar num buraco de rato / de rato você tem que transar”, ou mais a frente, ainda de forma mais incisiva: “Raul Seixas e Raulzito / sempre foram o mesmo homem / mas pra aprender o jogo dos ratos transou com Deus e com lobisomem”. Ele foi, nessa perspectiva, uma invenção dele mesmo. Aprendeu dentro das estruturas burocráticas de produção de música comercial a criar um personagem cuja auto-mistificação servia para que ele pudesse passar a sua mensagem. Uma contradição total: Raul dizia mentiras para expressar a sua verdade e suas idéias.
Seja como for, Raul dos Santos Seixas, encarna como poucos o que já foi chamado de zeitgeist, ou o espírito do tempo. Sua obra dá corpo a um conjunto de inquietações que estavam pairando nos espíritos rebeldes de então. Ela viabiliza e faz escoar todo um conjunto de posturas que ansiavam por se manifestar, por isso sua aparição com o canto falado “ouro de tolo”, calou fundo nos corações e mentes da juventude brasileira do início da década de 1970.

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