terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O BURACO NO MURO

 O título acima parece aquelas brincadeiras de falar português com sonoridade japonesa, mas não é nada disso. Trata-se de um maravilhoso projeto de inclusão digital realizado por um chefe de departamento de uma grande empresa de telecomunicações da Índia. Parece que o que anima esse pesquisador é a ideia de que a inclusão digital não é aquele superfluo que todos têm que ter acesso, mesmo os pobres. Não! Não é isso! Penso que ele está afinado com um conjunto de pensadores contemporâneos que acreditam que a internet, ou o "ciberespaço" está criando uma nova etapa do desenvolvimento humano, assim como, as tecnologias da oralidade, a escrita, o alfabeto, a imprensa, etc... A "cibercultura" é vista por esses pensadores como capaz de engendrar novos modos de pensar e de sentir. 
 A professora Lucia Santaella diz uma coisa interessante no seu livro "culturas e artes do pós-humano". Ela analisa que  o ciberespaço será, ou já está sendo, disputado pelo grande capital no sentido de reproduzir ali as mesmas (e ainda outras) clivagens já realizadas no mundo não virtual. Mas também afirma que os artistas, intelectuais, professores e outros devem entrar nessa disputa tentando impedir que eles (o capital) "colonize o infinito".
  Vejam o video:

ANTROPOLOGIA E PROCESSOS NEO-COLONIAIS

    Artigo interessante este que trata das relações entre ciências sociais e processos neo-coloniais.  É largamente sabido que nos seus inícios a disciplina antropológica serviu, ou até melhor, ela nasceu sob os auspícios dos processos coloniais levados a cabo pelos europeus no século XIX. No caso desse artigo, fruto da farta documentação levantada pelo site Wikileaks, o processo é bem menos sutil, pois não se trata de teses que vão produzir um arcabouço teórico que em última instância servirão ao domínio colonial. Trata-se do antropólogo em campo, como um soldado, disponibilizando seus saberes para uma melhor ocupação. Leiam:
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«Não se pode fazer antropologia na ponta de uma pistola».
Por Gilberto López y Rivas
 
O Human Terrain Team Handbook (2008), do estrategista Nathan Finney, é um dos documentos importantes disponíveis no Wikileaks que permite analisar a aplicação da antropologia nas campanhas contra-insurreccionais e na ocupação neocolonial por parte das forças armadas dos Estados Unidos.
Será um antropólogo?  
Será um antropólogo?
Esse manual destina-se principalmente a ser usado na preparação e na actividade das equipas (human terrain teams, HTT) que actuam nas estruturas militares norte-americanas (regimentos, brigadas, divisões, forças combinadas, etc.). Estas equipas integram entre 5 e 9 pessoas, apoiando os comandantes no terreno com o objectivo de compensar a sua falta de conhecimento do contexto cultural em que manobram. As equipas conjugam soldados e especialistas militares e académicos, fornecidos por contratantes do Exército, supostamente com uma preparação sólida na área das ciências sociais.
080709A-7969G-146O manual tem como pressuposto que «uma condição fundamental da guerra irregular e das operações contra-insurreccionais é que o comandante e o seu estado-maior não podem continuar a preocupar-se apenas com as questões tradicionais: missão, inimigo, terreno e condições meteorológicas, tropas amigas e apoios disponíveis, e tempo. O comandante deve considerar a população da área de conflito como um aspecto importante e específico do diagnóstico do teatro da guerra. […] A dimensão humana constitui a própria essência da guerra irregular. Compreender a cultura local e os factores políticos, sociais, económicos e religiosos é crucial para a contra-insurreição e para o êxito das operações de estabilização e, em última análise, para o triunfo da guerra contra o terror».
 
Antropólogo numa pesquisa de campo.
São três os aspectos-chave da missão das equipas HTT: 1) Investigação mediante as ciências sociais (utilização de métodos antropológicos e sociológicos clássicos, tais como entrevistas abertas e estruturadas, análises de texto, inquéritos e observação participativa. 2) Recolha de informação relevante para a unidade castrense e sua apresentação em termos familiares a um público militar. 3) Criação de um marco analítico-cultural para a planificação, a tomada de decisões e os diagnósticos operacionais.
O programa, em suma, destina-se a investigar, interpretar, arquivar e fornecer informações e conhecimentos culturais com o objectivo de optimizar as operações e de harmonizar as acções com o meio cultural. Embora parta da suposição errada de que o programa não faz parte da actividade de espionagem militar, o manual indica contraditoriamente que os seus resultados devem ser incorporados ao plano de operações dessa secção e que as suas equipas devem estar presentes em todas as etapas do processo de tomada de decisões militares.
As equipas HTT de civis e militares têm um chefe (geralmente um oficial no activo ou na reforma), um cientista social, um processador de informação e dois analistas. Segundo o manual, a composição óptima inclui pelo menos um membro da equipa que fale a língua da região, outro que seja perito no país em questão e outro que seja mulher, para permitir que a equipa tenha acesso aos 50% da população frequentemente subestimados nas operações militares.
O carácter do programa, o papel e os objectivos das equipas são variáveis, consoante a acção de intervenção das forças armadas norte-americanas for classificada no manual como «contra-insurreição, edificação de nações (nation building), ocupação, manutenção da paz, operações de movimento ou qualquer combinação destes objectivos». Na medida em que o programa compreende o espectro completo da sociedade e da cultura, as equipas devem determinar como obter o apoio da população local, como diminuir a sua desconfiança e como usar a ampla familiaridade com todos os aspectos da sociedade para alcançar esses objectivos.
É significativo que as equipas HTT não disponham de veículos próprios. Para realizarem a pesquisa de campo utilizam o transporte e a protecção das secções militares de que fazem parte. O manual menciona que os membros destas equipas são portadores apenas de armas de autodefesa (sic), ou seja, andam armados e precisam do apoio logístico da unidade militar para que actuam, incluindo alojamento, alimentação, segurança e espaços de trabalho (certamente no interior do sector de espionagem).
 
Descubra quem é o antropólogo.
Descubra quem é o antropólogo.Por seu lado, o Informe Final da American Anthropological Association (AAA), concluído em Outubro de 2009 — após uma exaustiva análise — afirma que este programa constitui um motivo de preocupação para a Associação, porque, na medida em que executa funções de investigação, está, por sua vez, na origem de uma actividade de espionagem e leva a cabo funções tácticas de guerra de contra-insurreição. Perante esta sobreposição, qualquer antropólogo que trabalhe no programa terá dificuldade em cumprir o Código Disciplinar de Ética. O programa está adscrito ao sector de espionagem do Departamento da Defesa, e no Iraque e no Afeganistão a informação resultante do programa faz parte do acervo da espionagem militar.
A AAA conclui: «Quando a investigação etnográfica está determinada por missões militares, não ficando sujeita a uma revisão externa; quando a recolha de informação ocorre num contexto de guerra, integrada nos objectivos da contra-insurreição, e com um potencial coercitivo — tudo factores característicos das concepções e da aplicação do programa — não é possível que esta actividade seja considerada um exercício profissional de antropologia legítimo».
Um dos cientistas sociais que participou no programa no Iraque observou com razão: «Não se pode fazer antropologia na ponta de uma pistola».
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