terça-feira, 30 de agosto de 2011

"LÁ VINHA O BONDE NO SOBE E DESCE LADEIRA"

Era uma vez um lugar no coração de uma grande cidade. Mas seu tempo era outro, seu fluxo era outro e seu recorte geográfico já avisava aos que ali se aventuravam que se tratava de um lugar diferente, para o qual seria necessário um modo também diferente de percorrê-lo. Havia nesse lugar muita dança, muita música e de todos os recantos da cidade acorriam pessoas dispostas a penetrar naquela atmosfera. A comungar com ela. Era, sem dúvida, muito sedutor.


            Além das ladeiras, curvas, casario do século passado e outras idiossincrasias, havia a presença de um bonde. Este sim parecia que vinha de um tempo sem tempo, como o tempo da poesia, do sonho, ou da música. Talvez o “tempo dos quintais”, tempo que, como diz o poeta do cancioneiro popular, havia fadas e bondes, e nesse bonde havia sempre um anjo pra guiar, e outro pra dar lugar, pra quem quisesse sentar... este bonde cumpria dois tipos de itinerários: em um, ele saia de um ponto físico material e chegava em outro, também físico e material; em outro, ele nos fazia percorrer outro tipo de roteiro. Menos material e mais espiritual, seja lá o que possa significar esta palavra. Ele nos levava diretamente a um país da delicadeza perdida, para citar outro poeta do nosso cancioneiro. Por um momento poderíamos estar como que encantados pela poesia que ele emanava e nos sentir em um país cordial e generoso.

            Este bonde, assim como o do poeta Carlos Drummond de Andrade no seu poema das sete faces, também passava cheio de pernas. E eram também pernas pretas, amarelas, brancas, etc. isto porque não acorriam apenas pessoas da cidade para este lugar, mas gente do mundo todo. Poderíamos até pensar que o mundo vivia em paz. Que os homens enfim tinham abandonado suas ganâncias, loucuras e vontade de subjugar o outro homem. Mas não era! Era que esse bondinho nos deixava tão terno e tão amolecido (como o conhaque do poeta mineiro), que por um átimo de tempo tínhamos do mundo outras notícias. Mas tratava-se de sonho, e sonho, como nos diz um outro poeta Calderón, sonhos são...

            Por estas ladeiras de tanto sobes e desces o motorneiro parava a orquestra um minuto. Largava a batuta e contava casos de outros tempos e outras campanhas. Campanhas contra a privatização, campanha contra o desmantelamento daquele mais que meio de transporte, um verdadeiro símbolo de que outro mundo é possível, outra forma de se relacionar é possível.  Mas não era só poesia e música a serem transportadas por essas ladeiras, curvas e paralelepípedos. Lá estavam os próprios poetas. Lá estava Bandeira a pedir em oração que a própria santa, a Teresa, olhasse pelos que ali moravam: “Santa Teresa olhai por nós / moradores de Santa Teresa”. Lá estava também Drª Nise da Silveira, com Bandeira, a discutir filosofia no Curvelo... enquanto o bonde não vinha.
            Assim como Milton Nascimento em sua bela canção “conversando no bar”, eu também levei um susto imenso: o sonho, a música e a poesia que eram o bondinho de um lugar de verdade chamado Santa Teresa descarrilou e se chocou contra a dureza e o concreto da indiferença dos marqueses de terras perdidas. Chocou-se também contra a negligência e a mesquinhez. Chocou-se contra a aspereza das almas sebosas cujo afã acumulador as fazem cegas.

            No momento em que escrevo essas linhas, não ouço, compondo a paisagem sonora do meu lugar, os sons do bom e velho bondinho. É um silêncio que incomoda e entristece. Mas torçamos e lutemos, sobretudo, para que esse silêncio seja apenas momentâneo, e nesse sentido conclamo toda cidade a se unir e se solidarizar com o bairro de Santa Teresa e seus moradores, para que o descaso e a mesquinhez não se tornem a regra e triunfem sobre a poesia e o sonho.  Vivo estarão na nossa memória o motorneiro-maestro-anjo Nelson e os demais passageiros que foram vitimados no último sábado dia 27 de agosto, ao cair da tarde.

domingo, 28 de agosto de 2011

Tragédia em Santa Teresa

Preferimos colocar aqui o bondinho na sua forma festiva
integrado às atividades culturais do nosso bairro.
 Em face da tragédia ocorrida no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro (a poucos metros da casa do animador deste blog), vamos publicar abaixo a nota oficial da AMAST, Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa. Como diz a nota, esta tragédia não pode ser vista como uma fatalidade do destino. Antes trata-se de uma tragédia anunciada por conta do descaso e abandono do poder público para com este misto de transporte e cartão postal que é o nosso querido bondinho. As pessoas que não moram em Santa Teresa talvez não tenham a dimensão do amor que os moradores nutrem por este transporte. Ele é o símbolo do nosso bairro. Mas lamenta-se aqui também, e com maior pesar, a falecimento das 05 pessoas que perderam suas vidas, e entre eles o querido motorneiro Nelson. O momento é de tristeza, mas também deve ser de indignação e luta.




NOTA DA AMAST SOBRE O ACIDENTE DE HOJE, 27/08/2011, COM O BONDE Nº 10, EM SANTA TERESA

TRAGÉDIA ANUNCIADA (MAIS UMA!)
A Diretoria da AMAST lamenta profundamente o acidente ocorrido na tarde de hoje e se solidariza com a família das vítimas fatais e dos feridos. Nós, moradores de Santa Teresa, estamos profundamente abalados com a notícia e com a perda irreparável do motorneiro Nelson.
Nesse momento de dor e indignação, temos a dizer à imprensa, à sociedade civil e aos poderes constituídos que não aceitamos, em hipótese alguma, a classificação desse acidente como fatalidade. Trata-se de uma tragédia anunciada; mais uma, como foram a morte da Profa. Andréa de Jesus e, recentemente, do turista Francês Charles Damien.
Qualquer que seja o motivo apontado pela perícia, é certo que o Estado do Rio de Janeiro, na pessoa de seu Governador Sérgio Cabral e, principalmente, na pessoa do Secretário de Transportes Júlio Lopes, omite-se de forma vil e dolosa há anos, tratando o sistema de bondes de Santa Teresa com descaso.
Mais do que o abandono de um bem tombado, que, quando convém, tem a imagem utilizada para ilustrar interesses politiqueiros de divulgação da cidade, estamos diante de uma situação criminosa, na medida em que pessoas morrem ou sofrem lesões corporais de natureza grave, que certamente poderiam ser evitadas se o Governador e o Secretário cumprissem a decisão judicial que, há mais de 2 (dois) anos ordenou a recuperação integral do sistema de bondes, com a devolução dos 14 bondes tradicionais em perfeitas condições de operação.
A superlotação, alegada pelo Secretário à imprensa, é fruto do número reduzido de bondes em operação. A verba que deveria ter sido utilizada para restabelecer a operação dos 14 bondes foi aplicada indevidamente em uma tentativa fracassada de modernização dos bondes, verdadeira aventura tecnológica que resultou em pseudo-VLT's com aparência de bondes, os quais seguem apresentando problemas de freio, poluição sonora e instabilidade nas curvas. Em paralelo, os poucos bondes tradicionais que não sofreram desmantelamento, foram relegados ao abandono, à falta de manutenção preventiva e seguiram operando em condições totalmente precárias.
Estes fatos foram exaustivamente denunciados pela AMAST às autoridades competentes em âmbito administrativo e judicial, porém nada de concreto foi feito para reverter a situação.  
O CREA, em relatório da CAPA (Comissão de Prevenção de Acidentes) divulgado publicamente, recomendou que os bondes modificados não fossem colocados em circulação devido à falha grave na localização do sistema de freios. A recomendação foi solenemente ignorada pelo Governo do Estado (Sérgio Cabral), Secretaria de Transportes (Júlio Lopes) e Central Logística (empresa que administra o sistema de bondes).
O Ministério Público Estadual, apesar de ter movido Ação Civil Pública na qual obteve liminar, sentença e decisão em recurso favoráveis à restauração completa do sistema de bondes, jamais fez qualquer pedido à justiça de execução provisória das referidas decisões.
O Tribunal de Contas do Estado julgou ilegal o contrato da T'TRANS com a Central Logística (empresa estadual que administra o sistema de bondes de Santa Teresa), o que, em tese, acarretaria a necessidade de punir os responsáveis pela negociata e reparação dos prejuízos causados ao erário, mas até o momento não se teve notícia de qualquer punição e muito menos de restituição da verba pública ilegalmente empregada.
A Comissão de Transportes da Câmara Municipal, após intensos trabalhos, propôs uma série de medidas e recomendações, além de apontar fatos merecedores de atenção e providências, relacionados à ordenação do trânsito em Santa Teresa. Contudo, a Prefeitura do Rio de Janeiro (Eduardo Paes), a CET Rio e a Secretaria Municipal de Transportes não moveram uma palha para alterar a triste e perigosa realidade em que nós, moradores de Santa Teresa, vivemos diariamente.
Pelas razões acima, e por todos os outros motivos que até as pedras centenárias das ladeiras de Santa Teresa conhecem, reputamos como principais culpados as autoridades aqui mencionadas, com especial destaque para:
  1. O Governador Sérgio Cabral, que com sua habitual desfaçatez, suscitou à época do acidente que vitimou a Profa. Andréa de Jesus Rezende, uma possível municipalização dos bondes, com o único propósito de desviar o foco da imprensa quanto à raiz do problema, haja vista que nenhuma palavra voltou a ser dita sobre o assunto nos últimos 2 (dois) anos. 
  2. O Secretário Júlio Lopes, pela malversação da verba pública que deveria ter sido aplicada na recuperação dos 14 bondinhos tradicionais, e que foi aplicada na aventura tecnológica fracassada empreendida pela empresa T'TRANS, que resultou na criação de aberrações com aparência de bonde porém repletas de problemas de projeto que até hoje não foram superados;
  3. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, pela omissão em requerer à justiça a execução provisória das decisões que ordenaram a recuperação integral do sistema de bondes de Santa Teresa, mesmo após o esgotamento dos principais recursos em que o Estado saiu-se perdedor;

É duro e difícil acreditar que os verdadeiros responsáveis pelas mortes, ferimentos, famílias e sonhos destruídos algum dia serão culpados, mas é esse o nosso desejo e nossa luta, pois temos a convicção de que somente a punição exemplar seria eficaz no sentido de reverter a situação crítica que tem sido imposta ao nosso bairro, ao nosso sistema de transporte e às nossas vidas.

Por fim, convocamos os moradores de Santa Teresa e a população do Rio de Janeiro para se juntarem a nós nessa luta hercúlea e contínua que constitui uma missão histórica da AMAST. Pedimos que continuem acompanhando e participem dos atos públicos e manifestações, virtuais e presenciais, programados pela associação, com destaque para o dia do aniversário do bonde, 01/09, cuja comemoração já seria substituída por protesto em forma de luto, agora com mais razão de ser em função desse lamentável acontecimento.

A Diretoria

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