quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Lula fecha governo com avaliação positiva recorde, diz CNT/Sensus



SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fechou o governo com avaliação recorde de 87% para seu desempenho pessoal, conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e Instituto Sensus divulgada nesta quarta-feira. Em setembro deste ano, essa percepção era de 80,7%. O número de pessoas que desaprovaram o desempenho do presidente recuou, saindo de 16,4% para 10,7%. A pesquisa mostra ainda que houve uma redução na parcela de pessoas que não souberam responder, saindo de 3% para 2,4%.
  Quanto ao governo de Lula, a pesquisa mostra novamente avaliação positiva. Na opinião de 2 mil entrevistados, o governo obteve um bom desempenho. Dos entrevistados deste mês, 83,4% consideraram a administração atual como positiva. A avaliação anterior era de 79,4%.
A proporção com impressão negativa do governo caiu para 2,2% no estudo de dezembro ante os 4% do último levantamento. Também houve recuo na parcela dos entrevistados que classificaram a gestão atual como regular - de 15,9% para 13,7%.
Os números mais recentes fazem parte da 92ª Rodada da Pesquisa de Opinião Pública Nacional, realizada com 2 mil pessoas em 136 municípios do país entre os dias 23 e 27 de dezembro. A margem de erro é de 3 pontos percentuais.

CHICO MÁRIO: UM ARTISTA BRASILEIRO

Por Ricardo Moreno 
Artigo publicado originalmente no jornal "Pôr-do-sol".
  

   Há anos atrás, uma amiga ao me ver tocando violão me perguntou se eu conhecia Francisco Mário, ou Chico Mário, como também era muito conhecido. Respondi um tanto desatento que não, não conhecia! Na verdade sequer ouvira falar dele. Ao ouvir esta resposta que denunciava minha ignorância musical, minha amiga passou a quase todo encontro repetir a pergunta: “Você já ouviu Chico Mário?” Eu continuava dizendo que não, o que a deixava num misto de incrédula e irritada. As coisas continuaram assim até o dia em que ela resolveu acabar com a minha ignorância em torno da obra do Chico. Chegou pra mim com um Lp debaixo do braço e disse: "tome! Você agora vai conhecer o Chico Mário". Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi botar o Lp pra girar. Aí entendi todo aquele empenho da amiga para que eu o conhecesse. O disco é maravilhoso!
   Em seguida passei a procurar outros discos dele e descobri que este que eu tinha ouvido, era o último de sua produção, e tinha sido lançado postumamente, em 1988. Este disco foi concebido e gravado com Chico já consciente de ser portador do vírus HIV. Assim como seus irmãos, Henfil e Betinho, Chico Mário era hemofílico, e contraiu a doença num processo de transfusão de sangue. Foi, sem dúvida, uma das perdas terríveis daquele primeiro momento de expansão da AIDS. Chico era mineiro de Belo Horizonte e ao todo ele gravou sete discos de carreira e mais um com o líder camponês pernambucano Francisco Julião, um dos grandes líderes das famosas ligas camponesas em Pernambuco nas décadas de 1950 e 1960. Essa parceria evidencia uma tendência militante do compositor, que durante toda sua vida esteve ao lado das boas causas do seu tempo: lutou contra a ditadura militar (foi membro da Juventude Estudantil Católica) e atuou como vice-presidente da Associação dos Produtores de Discos Independentes.
   Seus discos são heterogêneos no sentido de que se alternam entre discos de canções e discos instrumentais. Mas em ambos os campos Chico deu provas de sua excelência. O seu primeiro disco, “Terra”, um disco de canções, foi bastante elogiado pela crítica, bem como por um conterrâneo seu de muita importância no cenário cultural brasileiro: Carlos Drummond de Andrade. Esse disco conta com a participação de uma turma de craques da música. Lá estão: Joyce, Quarteto em Cy, Antonio Adolfo, Danilo Caymmi, Luli e Lucinda e mais um pessoal de primeira.
   Em seguida vieram outros discos dentre os quais eu destacaria o “Conversa de cordas, couros, palhetas e metais” de 1983. É um verdadeiro primor! Timbres maravilhosos, temas lindos e arranjos graciosos. Esse disco recebeu o prêmio de melhor disco instrumental do ano fazendo seu autor ganhar o troféu Chiquinha Gonzaga. Toadas, baiões e choros e outros gêneros marcam presença. O disco demonstra um controle sobre a obra que só a maturidade pode trazer. Chico tinha consciência disso. Logo a seguir veio o LP “Pijama de seda” feito em homenagem ao mestre Pixinguinha. O tema que abre o disco, “Ressurreição” é dedicado ao seu irmão Henfil, e é simplesmente uma melodia inspiradíssima, com intervalos melódicos que tecnicamente diríamos de quinta ascendente que nos dá a sensação de uma ressureição.

   No disco “revolta dos palhaços”, o temperamento irrequieto do Chico o levou a fazer uma empreitada inusitada. Ele propôs que duzentas pessoas amigas adquirissem o disco antes mesmo de ser lançado, como numa espécie de cooperativa entre consumidores e produtores. Deu certo! E o disco teve a participação dos poetas Aldir Blanc e Paulo Emílio, do ator Gianfrancesco Guarnieri, dos músicos Mauro Senise, Luiz Cláudio Ramos (atual arranjador e violonista de Chico Buarque), e dos cantores Ivan Lins e Lucinha Lins. A capa era do seu irmão Henfil.
Pois bem, faço com vocês o que minha amiga fez comigo: Vocês conhecem Chico Mário? Não? Então corram a procura dos seus discos (creio que todos estejam disponíveis em cd). Comprar não será fácil, mas graças à internet é possível encontrá-los em sites e blogs do pessoal que pesquisa e garimpa. Comecem bem o ano com a música de um grande brasileiro.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O DUPLO SENTIDO NA MPB, COM RODRIGO FAOUR

Muito bacana esse programa do Rodrigo Faour: História sexual da MPB. Neste que posto abaixo o tema é o duplo sentido na música popular brasileira. Vale a pena ver:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

AMBIÇÃO HUMANA

Vídeo interessante com mais de oito milhões de acessos no youtube: The black hole. Vejam:

sábado, 11 de dezembro de 2010

As contradições do Agronegócio

Dificilmente veremos a professora Rosemeire Aparecida de Almeida, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) ser entrevistada por uma empresa de comunicação da grande mídia. Mesmo que ela seja uma especialista no que diz respeito a análise de produtividade rural, empreendimentos agrícolas, etc. isso porque Rosemeire em tudo por tudo atenta, com o resultado de suas análises, contra os interesses dos setores do grande capital do meio rural. Sua análise é límpida e cristalina e sua fala é facilmente compreendida por qualquer não-especialista no assunto. Bom, como o grande capital das comunicações não a põe no ar, cabe às redes de cominicação alternativas a ele fazer o trabalho limpo. Eis aqui a entrevista dada pela professora à Rádio  Agência NP. Leiam:

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Ao final de 2010, a safra brasileira de grãos deverá bater o recorde nacional e atingir a marca de 148 milhões de toneladas, segundo informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A área a ser colhida é de 46,7 milhões de hectares, 1% inferior ao último ano.
O Paraná é um dos responsáveis pelo recorde. Sozinho, o estado responderá por 21,5% da safra 2010. Esses números podem ser explicados pela pesquisa coordenada pela professora Rosemeire Aparecida de Almeida, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Baseada nos censos agropecuários do IBGE de 1995/96 e 2006, ela analisou as transformações territoriais ocorridas nos estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul e chegou a resultados surpreendentes.
Em entrevista à Radioagência NP, a professora garante que a agricultura familiar é responsável pela comida que está na mesa do brasileiro. Ela anuncia que o agronegócio recebeu financiamento de R$ 1 bilhão e produziu apenas a metade desse valor. Já as pequenas propriedades multiplicaram por 20 a quantia recebida.
Radioagência NP: Professora, entre os estados analisados, qual deles teve o melhor desempenho agrícola e como isso se explica?
Rosemeire Aparecida de Almeida: Nós podemos dizer que o estado do Paraná tem uma estrutura fundiária mais democrática, em comparação com o Mato Grosso do Sul. E essa estrutura fundiária democratizada é responsável por uma maior geração de renda e também de ocupação. No estado do Paraná 0,32% dos estabelecimentos possuem mais de 1 mil hectares, o que representa 19% da área. No Mato Grosso do Sul, é 10% dos estabelecimentos dominando mais de 76% da área.
RNP: Dê um exemplo de como essa diferença se reflete na produção.
RAA: O rebanho bovino do norte central paranaense é cinco vezes menor em relação à região leste do Mato Grosso do Sul. Porém, a quantidade de leite produzido é superior. No caso da região leste [MS], 42% do leite produzido vêm de estabelecimentos até 100 hectares. Na região norte paranaense, representa 76% dessa produção.
RNP: Como o agronegócio atua nessas regiões?
RAA: Ele vem se apropriando das melhores áreas no MS. Há um recuo do arroz e do feijão. Nós só não tivemos uma crise de desabastecimento porque aumentou a produtividade e 64% dessa produção foi de responsabilidade das pequenas unidades de produção, tanto no MS quanto no Paraná. Então, a gente pode dizer com muita segurança que as pequenas propriedades são responsáveis pela comida que está na mesa dos brasileiros.
RNP: O que você observou na comparação entre os índices de financiamento público e a produtividade?
RAA: A classe de área de mais de mil hectares no MS obteve financiamento de mais de R$ 1 bilhão e gerou um valor de produção de R$ 524 milhões. A pequena unidade de produção, com menos de 50 hectares, acessou R$ 2,4 milhões – ou seja, 0,21% do valor de financiamento – e gerou um valor de produção de R$ 42,9 milhões. Isso quer dizer que as áreas menores que 50 hectares multiplicaram por 20 o valor do financiamento. E a grande propriedade dividiu por dois o valor do financiamento.
RNP: O agronegócio se sustenta com monocultivos como o da soja?
RAA: Existem muitos dados, inclusive em relação ao questionamento da grande propriedade como sinônimo de progresso, de geração de emprego e de produtividade. O que é um mito, uma ideologia. Quando olhamos os dados referentes ao MS, percebemos que a produtividade alegada pela soja é a de grande extensão de terra. É uma produção que está açambarcando as terras disponíveis, mas quando analisamos a produtividade por hectare, ela é insignificativa em relação ao censo anterior.
RNP: Por que há tanta resistência em relação à atualização dos índices de produtividade?
RAA: A gente fala como se a grande propriedade fosse sinônimo de agronegócio. E não é verdade. O MS tem oito milhões de hectares de terras improdutivas, um dos estados que é o eixo de sustentação do agronegócio. Apenas uma parte da grande propriedade se modernizou no país. O restante é reserva de valor. Daí, a luta contra a revisão dos índices [de produtividade], que são da década de 1970. A revisão é necessária, é uma dívida que tem que ser paga pelo Governo Dilma. E mais do que isso, deve ser utilizada como um termômetro da existência da improdutividade, que é o mote da reforma agrária no país.
RNP: Que critérios devem ser observados nos programas de reforma agrária?
RAA: A estrutura fundiária voltada a estabelecimentos onde as pessoas não só trabalham, mas também vivem, gera uma dinâmica local. A política agrária do Brasil deve concentrar os assentamentos em determinadas microrregiões para que se possa impactar a cidade porque essas pessoas vão viver do comércio local e também vão produzir para o mercado da cidade.
De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

wikileaks...

Mais uma bola dentro do presidente Lula. A questão é que o "sol da noite agora tá nascendo, alguma coisa está acontecendo", e não há resposta para o que ainda não foi perguntado. A lei Azeredo do PSDB era uma tentativa de mordaça da internet, e esta não admite limite, wikileaks...


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

PONTOS DE CULTURA: UMA REVOLUÇÃO BRASILEIRA


Por Ricardo Moreno 

Artigo publicado originalmente no jornal "Pôr-do-sol".

No momento em que vai terminando os oito anos do governo do presidente Lula, é chegada a hora de fazer uma pequena reflexão sobre o que foi feito na área a qual nos dedicamos aqui em nossa coluna: música. Não tenho dados para uma análise de grande envergadura, mas em particular gostaria de tratar de um assunto que considero da maior importância para a cultura brasileira, qual seja, a relação entre a cultura popular e as políticas públicas no Brasil.
Costumo, em linhas muito gerais, distinguir três grandes momentos de aproximação do governo brasileiro com as culturas populares. Primeiro foi no final década de 1940, quando na II Semana Nacional de Folclore o grande pesquisador e intelectual brasileiro Renato Almeida, diz que “proteger o folclore não é tarefa de estudiosos (como até então) nem de alguns homens de boa vontade, é obra do Estado”. A fala de Almeida dá ênfase à proteção das “artes populares”, ao “folclore brasileiro” etc. e não ao sujeito concreto que é detentor desse saber. Claro que este homem, muitas vezes em situação de risco social, poderia tirar proveito dessa “proteção”, mas não era ele o objeto da iniciativa, e sim o patrimônio simbólico.
O segundo momento eu defino como tendo sido entre as décadas de 1970 e 1980 quando em associação com a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, a FUNARTE – instituição ligada ao Ministério da Cultura – realiza uma espécie de inventário da música folclórica brasileira e faz diversas gravações de manifestações musicais folclóricas de várias partes do Brasil. Essas gravações foram publicadas na forma de discos de vinil no formato de compactos (eram discos de vinil de duração aproximada de doze minutos). Ainda que precárias, essas gravações representam até hoje uma boa fonte de pesquisa para os interessados no assunto. Mas do ponto de vista de políticas públicas, mais uma vez vimos os esforços do Estado brasileiro (cheio de “boas intenções”) em atuar no sentido de preservar, ou resgatar, como é muito comum que se diga, a manifestação musical popular, mas sem dar a mesma atenção ao homem de carne e osso que é detentor desses saberes.
Chegamos então ao terceiro momento: O Ministério da Cultura, primeiramente com Gilberto Gil e posteriormente com Juca Ferreira, desenvolveu um projeto chamado Pontos de Cultura. Esse projeto coloca pela primeira vez a perspectiva de atuar na valorização do patrimônio simbólico, ao mesmo tempo em que valoriza também o homem que dá corpo e vida ao patrimônio imaterial. Este projeto, entre outras coisas, articula cultura popular e economia solidária de modo a fazer com que os praticantes e detentores desses saberes populares se capacitem para atuar como profissionais, extraindo dividendos materiais de seus saberes imateriais. Dessa forma, as praticas culturais populares são revalorizadas fazendo com que os mais jovens passem a se interessar por aquela dança, música ou técnica de construção de instrumentos, por exemplo, mas sempre na perspectiva inevitável de dar novos significados a estes fazeres.
Hoje já são mais de dois mil pontos espalhados pelo Brasil. Eles são encontrados tanto nas periferias das grandes cidades, quanto em pequenos municípios. Além de articular cultura e cidadania o projeto gera visibilidade para práticas e saberes musicais que estiveram durante muito tempo relegados a uma condição de cultura inferior. Isso quer dizer que tanto a “alta cultura” como a “cultura popular” são reconhecidas e financiadas pelo Estado brasileiro. Cada ponto de cultura pode receber apoio financeiro de até R$ 185.000,00 para ser utilizado conforme o projeto apresentado. A articulação de cultura e cidadania gera importantes ganhos simbólicos e materiais para as comunidades detentoras dos saberes tradicionais. Isso é muito importante e gera inclusão e cidadania, pois muitas dessas comunidades estão em situação de risco social.       
Para o economista Paul Singer, há muita cultura na economia solidária, e muita economia solidária na cultura. É preciso, no entanto, juntar essas duas pontas. Não há dúvida que um novo Brasil está surgindo a partir da idealização dos "pontos de cultura", e que esse novo Brasil se apresentará ao mundo como síntese das possibilidades humanas ilimitadas baseadas na generosidade e na solidariedade. Somos, como diria Darcy Ribeiro, uma “nova Roma”, ainda melhor, pois lavada a sangue negro e índio.
Muito temos que caminhar para que de fato essa terra se torne uma “mãe gentil” e para que este belo sonho se efetive, mas acho que já começamos o caminho. Viva Gilberto Gil e esta bela revolução dos tambores! Viva o Brasil!
Um feliz natal a todos e um ano novo com muita disposição para as lutas que hão de vir.

ps. Para saber mais sobre este assunto sugiro o livro “Pontos de Cultura, o Brasil de baixo pra cima”, de Célio Turino.

Pedro Simon, o veemente a favor.

O fundo social criado pelo governo Lula para vincular parte da receita do pré-sal às áreas de educação, saúde, combate à pobreza e ciência e tecnologia. Não se trata de outra coisa a emenda do senador Pedro Simon (o veemente a favor, como diria um amigo) que causa perda de receita para Estados produtores de petróleo, como o Rio de Janeiro e Espírito Santo, argumentando que essas perdas poderão ser compensadas com o fundo social. Ora, isso faria com que, como disse o deputado petista Antonio Palocci, o fundo fosse sendo esvaziado resultando com a impossibilidade dele efetivamente atender os campos aos quais ele se destina. Manobras como essa denunciam o caráter elitista e reacionário do senador autor da emenda. O governo, no entanto, nas palavras de alguns congressistas irá vetar a emenda. Ainda bem!!!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Choro Acadêmico - Nonato Luiz

Aqui, Nonato Luiz interpreta o seu belíssimo "choro acadêmico", acompanhado por Wilson Asfora e bandolim com intérprete não identificado. Essa música integra o seu primeiro lp do início da década de 1980, intitulado "Terra". É um disco muito bonito e já na estreia Nonato chamou atenção do mundo musical brasileiro. Em seguida Nonato começa uma carreira internacional principalmente na Alemanha. Vejam:

Uma violonista de primeira

Recebi de uma amiga e professora de música este vídeo. Achei a técnica da vilonista muito interessante. Postei no youtube e compartilho aqui. Infelizmente não sei nada sobre a instrumentista. Quem souber alguma coisa sobre ela envie-me por favor. Vejam:

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Escola do MST tem a melhor nota no Enem em Abelardo Luz

   Por que a grande mídia tão zelosa dos interesses da sociedade não alardeou esse êxito da Escola do MST?
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Por Ernesto Puhl
Do Jornal Sem Terra

Na Escola Semente da Conquista, localizada no assentamento 25 de Maio, em Santa Catarina, estudam 112 filhos de assentados, de 14 a 21 anos. A escola é dirigida por militantes do MST e professores
indicados pelos próprios assentados do município de Abelardo Luz, cidade com o maior número de famílias assentadas no estado. São 1418 famílias, morando em 23 assentamentos.

A escola foi destaque no Exame Nacional do Ensino médio (Enem) de 2009, divulgado na pagina oficial do Enem. Ocupou a primeira posição no município, com uma nota de 505,69. Para muitos, esses dados não são mais do que um conjunto de números que indicam certo resultado, mas para nós, que vivemos neste espaço social, é uma grande conquista.

No entanto, essa conquista, histórica para uma instituição de ensino do campo, ficou fora da atenção da mídia, como também pouco reconhecida pelas autoridades políticas de nosso estado. A engrenagem ideológica sustentada pela mídia e pelas elites rejeita todas as formas de protagonismo popular, especialmente quando esses sujeitos demonstram, na prática, que é possível outro modelo de educação.

A Escola Semente da Conquista é sinal de luta contra o sistema que nada faz contra os índices de analfabetismo e do êxodo rural. Vale destacar que vivemos numa sociedade em que as melhores bibliotecas, cinemas, teatros são para uma pequena elite.

E mesmo com todas as dificuldades a Escola Semente da Conquista foi destaque entre as escolas do Município. Este fato não é apenas mérito dos educandos, mas sim de uma proposta pedagógica do MST, que tem na sua essência a formação de novos homens e mulheres, sujeitos do seu processo histórico em construção e em constante aprendizado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

BOLSONARO E SUA INCORRIGÍVEL HOMOFOBIA

Até quando esse crápula do Bolsonaro vai continuar a dizer coisas desse tipo sem ser processado. Parece-me que nesse depoimento ele explicita uma conduta homofóbica inaceitável passível de uma ação judicial. Vejam (mas só se tiver estômago):


Gols perdidos

Vocês têm notado a quantidade de gols perdidos ultimamente? Alguma coisa está acontecendo. Não é possível! Talvez tenham razão os que falam de ressonância Schumann, mudança do eixo da terra ou de conspiração extra-terrestre, ou ainda qualquer outro fenômeno dessa natureza. Só os gols perdidos domingo último pelo Fluminense contra o São Paulo, já foram um escândalo, agora esse aqui embaixo... pelo amor de Deus. Até o Val baiano faria. Vejam:


Frans Post e "A vista de Itamaracá" - A Primeira imagem do Brasil

 

 

 

    Frans Post veio para o Brasil na época em que o nosso querido e ensolarado Nordeste estava sob o domínio holandês e era governado por Maurício de Nassau. Post nasceu em Leiden, na Holanda, chegou ao Brasil com apenas 24 anos de idade, já com a missão de participar de missões e montar uma grande coleção de desenhos sobre o Brasil. Foi neste mesmo ano que este jovem entraria para a história, ao produzir o que é considerada a primeira imagem fiel das Américas, por consequência a primeira imagem do Brasil: o quadro "Vista de Itamaracá", uma obra de pouco mais de 60 por 80 centímetros, pintada em óleo sobre tela, que consegue mostrar a paisagem brasileira com qualidade quase fotográfica, mesmo que ainda de uma vista simplória.
    É claro que antes de Vista de Itamaracá foram feitos desenhos e gráficos sobre o Brasil, mas Frans Post foi o primeiro a realmente retratar nosso pais. Atualmente, infelizmente o quadro Vista de Itamaracá não se encontra no Brasil. Ele está no Royal Picture Gallery Mauritshuis, na Holanda. Pelo menos podemos dizer que está muito bem acompanhado. Neste museu estão o famoso quadro "Menina com Brinco de Pérola" de Johannes Vermeer e a obra "Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp", de Rembrandt.
    Mas se vista de Itamaracá está na holanda, a maior coleção de Obras de Frans Post está no Brasil. O Instituto Ricardo Brennand, em Recife, possui o maior acervo do artista no mundo, com dezessete obras (o Mauritshuis possui três).
    Um aspecto interessantes sobre Frans Post é que ele continuou pintando paisagens brasileiras mesmo quando já faziam décadas que o pintor havia saído do país, graças a uma excelente memória visual. Post foi embora do Brasil em 1644, com o fim do governo de Maurício de Nassau no Nordeste. Mas seu último quadro sobre o Brasil seria pintado em 1669, 25 anos depois, mostrando uma paisagem de Pernambuco.

 Do blog do Andolfato

LAICIDADE E ESPAÇOS PÚBLICOS.

  A cada dia que passa torna-se mais clara a tendência de se pensar os espaços públicos, e neste caso aqui é o espaço televisivo que está em jogo, como espaços essencialmente laicos. Isso não quer dizer que o tema religião não possa ou não deva ser tratado. É o caso da escola, por exemplo, espaço no qual o tema da religião tem que ser tratado. Mas o tratamento deve ser isento, ou melhor, não prosélito, propiciando uma abordagem histórica, sociológica, filosófica, etc., mas nunca de louvor ou coisa que o valha. Tenho, como professor de rede pública no Rio de Janeiro, assistido a uma escalada de ocupação religiosa dentro das escolas, malgrado o esforço de vários profissionais de educação que têm se esforçado no sentido de demarcar o espaço público de educação como um espaço laico. No caso da televisão creio que será uma decisão acertada a de tirar do ar programas católicos, evangélicos e outros de qualquer denominação religiosa. Leiam abaixo a notícia veiculada pelo portal imprensa:

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O Conselho Curador da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) deverá tirar do ar os programas católicos e evangélicos veiculados pela TV  Brasil e em oito canais de rádio que integram a rede pública criada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A proposta será apresentada para votação no órgão a ser realizada no dia 7 de dezembro, sob a forma de minuta de resolução.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a ideia do conselho é abordar o tema religião de forma mais ampla, sem a necessidade de se ter um programa específico sobre uma ou outra crença. Além disso, os integrantes do órgão da EBC acreditam que a rede pública de TV deve aumentar o diálogo com as diversas religiões presentes no país.

Após o anúncio de que o Grupo Silvio Santos, que pertence ao empresário e dono do SBT Silvio Santos, passava por problemas financeiros, a emissora recebeu propostas de ao menos três igrejas evangélicas para a compra de horário na faixa da madrugada. A assessoria do canal declarou que as ofertas não eram recentes, mas que até o momento "não surgiu nenhuma proposta que tenha interessado". Entre as negociantes, destacam-se a Igreja Internacional da Graça, de R.R. Soares, e o Ministério Silas Malafaia.

domingo, 21 de novembro de 2010

Marilena Chauí, em entrevista, afirma que nossa mídia é uma das mais autoritárias do mundo

Um dos grandes debates, ou enfrentamentos, do governo Dilma se dará no âmbito da democratização das comunicações. O atual oligopólio que é visto por alguns analistas como uma espécie de atualização da relação casa-grande / senzala é um dos gargalos da nossa democracia e cidadania. O modo autoritário e avesso a diversidade de vozes que pauta a mídia eletrônica ataca diretamente a liberdade de expressão. Sempre que possível trataremos aqui dessa questão crucial para os destinos deste país. Segue abaixo uma entrevista sobre o tema com a professora Marilena Chauí, dada ao sítio "Carta Maior". Leiam:

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CARTA MAIOR: Qual sua avaliação sobre a cobertura da chamada grande mídia brasileira nas eleições deste ano? Na sua opinião, houve alguma surpresa ou novidade em relação à eleição anterior?

MARILENA CHAUÍ: Eu diria que, desta vez, o cerco foi mais intenso, assumindo tons de guerra, mais do que mera polarização de opiniões políticas. Mas não foi surpresa: se considerarmos que 92% da população aprovam o governo Lula como ótimo e bom, 4% o consideram regular, restam 4% de desaprovação a qual está concentrada nos meios de comunicação. São as empresas e seus empregados que representam esses 4% e são eles quem têm o poder de fogo para a guerra.

O interessante foi a dificuldade para manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou, então, para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula.

Isso me parece a novidade mais instigante, isto é, uma sociedade diretamente informada pelas ações governamentais que mudaram seu modo de vida e suas perspectivas, de maneira que a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação.

CM: Passada a eleição, um dos debates que deve marcar o próximo período diz respeito à regulamentação do setor de comunicação. Como se sabe, a resistência das grandes empresas de mídia é muito forte. Como superar essa resistência?

MC: Numa democracia, o direito à informação é essencial. Tanto o direito de produzir e difundir informação como o direito de receber e ter acesso à informação. Isso se chama isegoria, palavra criada pelos inventores da democracia, os gregos, significando o direito emitir em público uma opinião para ser discutida e votada, assim como o direito de receber uma opinião para avaliá-la, aceitá-la ou rejeitá-la.

Justamente por isso, em todos os países democráticos, existe regulamentação do setor de comunicação. Essa regulamentação visa assegurar a isegoria, a liberdade de expressão e o direito ao contraditório, além de diminuir, tanto quanto possível, o monopólio da informação.

Evidentemente, hoje essa regulamentação encontra dificuldades postas pela estrutura oligopólica dos meios, controlados globalmente por um pequeno número de empresas transnacionais. Mas não é por ser difícil, que a regulamentação não deve ser estabelecida e defendida. Trata-se da batalha moderna entre o público e o privado.

CM: Você concorda com a seguinte afirmação: "A mídia brasileira é uma das mais autoritárias do mundo".

MC: Se deixarmos de lado o caso óbvio das ditaduras e considerarmos apenas as repúblicas democráticas, concordo.

CM: Na sua opinião, é possível fazer alguma distinção entre os grandes veículos midiáticos, do ponto de vista de sua orientação editorial? Ou o que predomina é um pensamento único mesmo.

MC: As variações se dão no interior do pensamento único, isto é, da hegemonia pós-moderna e neoliberal. Ou seja, há setores reacionários de extrema direita, setores claramente conservadores e setores que usam “a folha de parreira”. A folha de parreira, segundo a lenda, serviu para Adão e Eva se cobrirem quando descobriram que estavam nus.

Na mídia, a “folha de parreira” consiste em dar um pequeno e controlado espaço à opinião divergente ou contrária à linha da empresa. Às vezes, não dá certo. O caso do Estadão contra Maria Rita Kehl mostra que uma vigorosa voz destoante no coral do “sim senhor” não pode ser suportada.

sábado, 20 de novembro de 2010

MÍDIA E PODER

  A grande mídia na qual se destaca o grupo Abril, Estadão, Folha e Globo (e seus serviçais como o sociólogo Bolivar Lamounier), se esmera em desfechar golpes contra as iniciativas do governo, mas não só, de implementar o controle social da mídia. Esses grupos acusam o governo e as organizações ligadas às comunicações de estarem tentando realizar um controle que colocaria em xeque os interesses da democracia, uma vez que a mesma limitaria a liberdade de expressão. O controle social dos meios de comuniação, como nos diz o professor Francisco Fonseca da FGV em seu livro "Mídia e Poder", atua justamente no sentido contrário ao da limitação do direito de expressão. Ele nos diz que muitos países europeus, que não podem de modo nenhum serem chamados de ditatoriais, realizaram esse tipo de iniciativa, e que sem ele é que a democracia correria perigo.
 Por outro lado essa grande mídia silenciou qundo das discussões em torno da famigerada Lei Azeredo, esta sim, um verdadeiro atentado contra a democratização da internet. Para quem quiser se aprofundar nesse necessário debate, este blog recomenda a entrevista dada por Marcelo Branco a Antonio Martins do Le monde Diplomatique. Marcelo foi um dos organizador do 10º FISL (Fórum Internacional de Software Livre) realizado no ano passado. Na entrevista Marcelo distingue claramente as posições do PSDB e do PT sobre o assunto, definindo as posições dos tucanos como contra as liberdades de expressão na internet. O próprio encontro teve como tema “Liberdade. Contra o controle e a vigilância na internet”, dada a importância do assunto nos novos cenários políticos. A entrevista está no link abaixo:

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Entrevista de Maria Victoria Benevides

A professora Maria Victória Benevides deu uma excelente entrevista à revista "ISTO É". Aliás, essa revista representa uma novidade no mercado editorial brasileira, pois de um tempo pra cá ela não tem engrossado as fileiras do que se vem chamando de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Mas voltando ao assunto, a entrevista é muito boa e vale a pena dar uma olhada. Segue o link:

http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/109159_LULA+NAO+PODERA+SER+UMA+SOMBRA+DE+DILMA+

Costinha e as raspadinhas do Rio... para rir um pouco.

Certa feita o comediante Costinha foi contratado para fazer a propaganda das "Raspadinhas do Rio". Ele fez, e acho que na época foi ao ar. Mas em tom de brincadeira a equipe fez uma segunda versão, que obviamente não foi ao ar. Vejam nessa gravação as duas versões. É muito engraçado.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O PORTUGUÊS DO BRASIL

 Já falamos aqui sobre o lançamento da "Gramática do português brasileiro" do professor Mário Perini, e suas implicações ideológicas no que diz respeito à luta de muitos linguistas contemporâneos. Nessa luta destaca-se a figura do professor Marcos Bagno, que com contundência denuncia a língua como um campo no qual se explicita as lutas ideológicas e sociais e as formações autoritárias implícitas na cultura brasileira. Postamos aqui o artigo do professor Bagno quando do lançamento da Gramática do seu colega Mário Perini. Leiam:

ENFIM, UMA GRAMÁTICA BRASILEIRA!


Por Marcos Bagno

  Demorou, mas chegou. Exatos 188 anos. Finalmente, temos à nossa disposição uma gramática que descreve o que realmente acontece na nossa língua: a Gramática do português brasileiro, de Mário Perini, que acaba de ser lançada (Parábola Editorial). O fato histórico merecia banda de música e fogos de artifício. Afinal, vamos poder nos livrar dos mofados compêndios que, mesmo publicados no Brasil, mesmo publicados recentemente, continuam a chamar nossa língua simplesmente de “português” e a tentar impor como modelos de correção as opções de um punhado de escritores lusitanos mortos há uns bons 200 anos. Chega! Xevra! Xispa! Xô!
  Mário Perini é um linguista que há muito tempo vem se dedicando ao exame atento do que é a língua majoritária dos brasileiros. Já em 1985, propôs que se abandonasse a prática multissecular de recorrer à escrita literária em favor de uma referência ao padrão que de fato se verifica na prática escrita das pessoas altamente letradas. Em vez do romance e da poesia, que a gramática se debruce sobre a escrita jornalística, acadêmica, ensaística, técnico-científica. Se é para ensinar os brasileiros a escrever, que se ensine a escrever como se escreve no Brasil, e não como Eça de Queiroz ou Camilo Castelo Branco nem, muito menos, Machado de Assis (um gênio assim só a cada 500 anos!).
  É preciso libertar a língua da retumbante maioria das pessoas do peso insuportável de ser comparada aos usos feitos pelos grandes escritores. É preciso que professores de português, dicionaristas, gramáticos e neogramatiqueiros (esses que invadiram a mídia brasileira atual para vender um peixe linguístico mais podre e fedido que as águas do Tietê) parem de dizer que tal uso é “errado”, “não existe” ou “não é português” só porque não aparece na obra dos “clássicos”. Além de ser uma mentira, também é uma grande injustiça, e por duas razões. Primeiro, porque na obra dos grandes escritores também aparecem transgressões das normas tradicionais (embora os gramáticos se esforcem por escondê-las, como se os grandes autores só escrevessem de acordo com as regras que eles, gramáticos, tentam impor). Segundo, porque os escritores não devem nem querem ser transformados em régua para corrigir, em peso e medida para avaliar a produção linguística de ninguém.
  Se lá em cima escrevi que esperamos 188 anos por uma gramática da nossa língua é porque a nossa independência política (1822) não representou uma independência linguística. Nem poderia. Afinal, foi uma independência tramada de cima para baixo, proclamada pelo próprio representante da potência colonial que, mais tarde, para provar o quanto tinha ficado “independente”, abandonou seu império tropical para defender o trono português e se sentar nele com o nome de Pedro IV. Isso explica por que, no estudo e no ensino de língua, permanecemos igualmente atrelados aos manuais que vinham de Lisboa. E mesmo quando se começou a produzir gramáticas no Brasil, elas ofereciam como norma linguística uma modalidade extremamente restrita de língua literária lusitana pós-Romantismo.
  Bem-vinda, Gramática do português brasileiro! Talvez agora os autores de livros didáticos parem de tentar ensinar uma língua que nunca existiu por aqui (e, pensando bem, nem em Portugal) e reconheçam que a língua que nossos alunos querem aprender é o português brasileiro urbano culto, a língua que de fato molda a nossa identidade nacional e é moldada por ela. Libertas quae sera…!

domingo, 14 de novembro de 2010

Entrevista de Naomi Klein

Após a última postagem que fiz na qual há um explícito questionamento sobre a vida inteligente nos EUA, vou colocar aqui uma entrevista muito legal da jornalista e ativista canadense Naomi Klein. Nessa entrevista a bela Naomi mostra que não é só um rostinho bonito no movimento alter-mundista. Ela é autora do maravilhoso livro "A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre", no qual ela mapeia o crescimento do neoliberalismo da escola de Chicago a partir da década de 1950, e seus experimentos radicais no Chile de Pinochet na década de 1970. O livro é imperdível e o documentário (com o mesmo nome), idem. Aqui uma entrevista que ela concedeu a globonews. Vejam:



Entrevista de Naomi Klein na Globo News por nortontavares no Videolog.tv.

sábado, 13 de novembro de 2010

Estadunidenses são estúpidos??

Esse programa poderia ser muito bem uma montagem, mas pessoas que conheço que já moraram por lá, afirmam que é perfeitamente possível que essas respostas tenham sido dadas a sério. Bom, de todo modo é engraçado. Vejam isso:

Alunos do CIEP 318 interpretam Egberto Gismonti

Neste vídeo, meus alunos do CIART no CIEP 318, em Saracuruna - Duque de Caxias-, interpretam o tema "Circense" de Egberto Gismonti. O solo é feito na viola caipira por Gabriel Rodrigues. Vejam:

Professor Kabengele Munanga responde a Demétrio Magnoli

  O geógrafo Demétrio Magnoli é evidentemente um intelectual orgânico - tal qual preconizava Gramsci -, a serviço dos interesses reacionários brasileiros. Não é a toa que ele tem tanto espaço midiático pra defender o ideário conservador, com o beneplácito do não contradito, como aliás, é a tônica da grande imprensa. Mas o não contradito está apenas na mídia, porque na "vida real" abundam as respostas dadas a esses funcionários da reação. Do outro lado das trincheiras (sim, claro, pois trata-se de uma guerra mesmo), está, entre outros, Kabengele Munanga (foto ao lado), Professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, que é um grande intelectual a serviço da descolonização e se torna, nesse sentido, um intelectual pós-colonial. É por isso que não o vemos com tanta frequência nas cbn's e band news da vida. É claro que nunca darão a ele o mesmo espaço, pois se o fizerem, muitos corações e mentes que hoje se posicionam contra a ideia das cotas, compreenderiam melhor o tema e perceberiam a necessidade histórica dessa iniciativa. Parabéns ao professor Kabengele Munanga pela excelente resposta dada a Demétrio Magnoli.
 Vejam a resposta acessando o link:

http://www.geledes.org.br/em-debate/kabengele-munanga-responde-a-demetrio-magnoli-04/07/2009.html

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tonga da Mironga do Cabuletê

Há muitas explicações que tentam dar conta do sentido de composições da música popular brasileira. Algumas, apesar da verossimilhança, são apenas mentiras criativas muito bem engendradas. Lembro agoras de estalo de duas delas: "pedaço de mim" de Chico Buarque e "gostava tanto de você" de Edson Trindade, cantada por Tim Maia. Mas essa que recebi do amigo Emerson, explicando a canção e a expressão "a tonga da mironga do cabuletê" me pareceu bastante interessante. Se não é verdade deveria ser... Segue abaixo a explicação:

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Por acaso, descobri esta jóia de informação sobre o significado da expressão
"na tonga da mironga do cabuletê".

1970. Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde tinham acabado de inaugurar a parceria com o disco “A Arca de Noé”, fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino. Encontram o Brasil em pleno “milagre econômico” da ditadura militar. A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais.
  O poeta é visto como comunista pela cegueira militar, e ultrapassado pela intelectualidade militante que, pejorativa e injustamente, classifica sua música de "easy music". No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria.Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”. O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde-oliva inspiram o poeta.
  Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la num show no Teatro Castro Alves.
Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa. E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”.

Tonga da Mironga do Cabuletê
Eu caio de bossa, eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa, xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala,

Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe

Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê

Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga

Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê


sábado, 6 de novembro de 2010

O fotógrafo Antonio Augusto Fontes em entrevista ao Canal Brasil

Belíssima esta entrevista dada ao canal Brasil pelo fotógrafo Antonio Augusto Fontes. Para quem ainda não conhece, Antonio Augusto é um dos grandes da fotografia brasileira contemporânea e nessa entrevista, dada ao programa "foto em cena" do canal Brasil, ele nos fala um pouco de sua vida e da sua obra. Vale a pena ver:



Ao Sul da fronteira

Imperdível!

Finalmente um dos documentários mais esperados do ano! Do aclamado diretor Oliver Stone, "South of the Border" é certamente um filme que irá fazer despertar muita gente!

A imprensa latino americana é por tradição alinhada com a norte americana. Se pensarmos que esses grupos na verdade fazem parte de um mesmo grupo internacional (mídia, petroleiras, farmacêuticas, bancos, etc.), que detém cerca de 80% de todos os canais de TV, das rádios, jornais e revistas do mundo ocidental, fica fácil saber o porquê desse alinhamento.

E não é difícil notar que esse grupo constantemente cria no imaginário coletivo, através de notícias, a ideia de que sempre estamos sendo ameaçados por alguma terrível nação ou ditador, que merecem, por isso, ser alvos de golpes de Estado e Guerras.

Mas, nos últimos anos, a América do Sul mudou radicalmente a forma de ver seus governantes. Apesar de 95% da mídia tradicional massacrar diariamente os presidentes "desobedientes" em relação às políticas dos EUA, todos contam com enorme apoio popular.

Provavelmente o mais desobediente de todos seja Hugo Chávez, e que por isso seja tão demonizado por quase toda a mídia internacional. Essa demonização veio arquitetada justamente por uma das personalidades mais odiadas do mundo: George W. Bush e toda sua equipe de Governo, ligadas às corporações.

O documentário visa justamente quebrar alguns dos mitos criados pela mídia oligárquica, e de desmascarar as mentiras noticiadas frequentemente e trazer uma mensagem de esperança rumo a um caminho que deixaria todos os países latinos muito melhores: A Integração.

(Comentários: Docverdade)
 
 
 
 

Sobre os 3% que não aprovam o governo Lula.


  Vejam a que ponto chega o nível de ensandecimento de parte da nossa imprensa. Em um artigo para a Folha de São Paulo (o jornal que emprestava carros para a ditadura matar e torturar, como diz sempre um amigo), o jornalista João P. Coutinho, escreve sobre os níveis de aprovação do governo Lula, segundo as últimas pesquisas. Num tom quase místico o articulista tenta exaltar o contingente mínimo de 3% que desaprova o governo (neste índice estão os que dizerm ser péssimo ou ruim o governo). Ele chega às altas esferas do sublime místico de exaltação quando diz "quando penso nessa gente residual, marginal, divinal...". Nâo é pouca coisa. Quem quiser se divertir (se nao se enojar antes) é só dar uma olhada no artigo seguindo o link abaixo. Em seguida posto um e-mail que enviei para o jornalista (não perco essa mania)

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/823639-os-heroicos-3.shtml


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Prezado colunista da Folha de São Paulo,

 Por acaso tive o desprazer de ler um artigo seu cujo foco era expressar seu apreço pelos 3% de brasileiros que desaprovam o governo Lula. Que o senhor tenha direito de dizer com todas as letras o que pensa é legítimo e me incluo entre aqueles que daria a própria vida para garantir este direito. Mas, em nome da democracia que ambos defendemos, sinto-me no dever de expressar o que penso sobre seu artigo. Um primor de cinismo! No meu entender o senhor se inclui entre aqueles supostos bem pensantes do país, que são contratados pela grande imprensa para emitir a opinião do chefinho dono do jornal (oh!!! Quão pequenas são essas almas). Aliás, foi o que vi abundantemente nessa campanha eleitoral: sociólogos e jornalistas a soldo dos interesses menores das corporações midiáticas, supostamente emitindo opiniões abalizadas. Ora, ora... divinizar 3% da população brasileira como sendo o melhor que nós temos é querer, como dizia minha boa vó, "fazer dos mais, bestas".
 Creio que no fundo o senhor, como boa parte das corporações acima citadas, desprezam a democracia, e instituem como salvaguarda da inteligência do país um grupelho de sabichões que não chegam a encher um ônibus (aliás, vocês devem ter ojeriza de ônibus, não?). No fundo o senhor e gente da mesma estirpe, acreditam que os bem pensantes deveriam reger o país e determinar seus destinos. Só resta saber se esse minguado grupo teria capacidade, por exemplo, de dar corpo à cultura do país, uma vez que a mesma é criada e re-criada diariamente por um conjunto de pessoas chamadas pela direita brasileira de "massa mal cheirosa". Bom, é verdade que vocês se deliciariam com Ivete Sangalo e Caetano Veloso... bom proveito!!!
 Ricardo Moreno

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Em cada esquina da internet, uma Auschwitz virtual. Reflexo da campanha tucana, diz Mauro Carrara

  Vale a pena ler esse artigo que trata das articulações fascistas do momento.
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Em cada esquina da internet, uma Auschwitz virtual. Reflexo da campanha tucana, diz Mauro Carrara


Por Mauro Carrara

 Durante a II Guerra Mundial, milhões de judeus foram enviados a campos de concentração e extermínio pelo governo nazista de Adolf Hitler.

No entanto, no principal complexo da morte, Auschwitz-Birkenau, na Polônia, foram encarcerados também membros da resistência democrática, intelectuais, artistas, religiosos, elementos considerados anti-sociais, ciganos e homossexuais.

Cidadãos alemães, poloneses, franceses, italianos, russos e de outras nacionalidades, inclusive crianças e idosos, encontraram ali a angústia de seus últimos dias.

Pelo menos 2 milhões de seres humanos foram mortos nessas instalações. Muitos pereceram nas câmaras de gás, envenenados pelo pesticida Zyklon B.

Não por acaso, o sistema remete à campanha informal “afogue um nordestino”, em curso nas redes sociais virtuais brasileiras, movida por militantes da candidatura derrotada de José Serra à presidência da República.

A autora da proposta é a estudante de Direito paulista Mayara Petruso, para quem os nordestinos são “vagabundos” que “fazem filho” para receber benefícios do programa Bolsa Família.

De acordo com os seguidores do grupo, como Maxi Franzoi, ativo no Twitter, a perseguição é legítima. Segundo o jovem, as nordestinas “nem banho tomam” e não há chuveiros instalados na região.

A campanha de perseguição aos diferentes movida pela juventude tucana, porém, alcança outros grupos minoritários divergentes.

Amarela azeda e aleijado FDP

Na comunidade Brasil (1,3 milhão de membros), da rede Orkut, por exemplo, a professora sansei Marina Okuhara, procurava argumentar civilizadamente em favor das políticas de distribuição de renda no Brasil quando foi chamada de “amarela azeda”, “vaca oriental sem bunda” e intimada a deixar o Brasil e se mudar para a “Coreia do Norte”.

Agressões e graves ameaças também têm sido registradas contra nortistas (os “índios burros”, como escreveu um simpatizante de José Serra no Twitter), cariocas, mineiros, bolivianos, homossexuais, deficientes físicos, negros e obesos.

Na rede Orkut, o termo “aleijado filho da puta tem que virar sabão” foi utilizado várias vezes, entre risadas escritas, contra um estudante portador de necessidades especiais que defendia a candidatura de Dilma Rousseff.

Nas rotulagens padronizadas por esses grupos, cariocas são “traficantes e prostitutas”, mineiros são “comedores de pão de queijo vendidos”, bolivianos são “sub-raça que infecta São Paulo”, homossexuais são “pecadores aidéticos” a serem eliminados, deficientes são “estorvos”, negros são “indolentes” (embora muitos revoltosos afirmem até mesmo conversar “normalmente” com eles) e obesos compõem a “escória da raça”.

O último tipo de classificação gerou até mesmo um novo “esporte” universitário. Na Unesp, um grupo de alunos instituiu o chamado “Rodeio das Gordas”, que também ganhou uma comunidade na rede Orkut e inúmeras adesões no Twitter.

Durante uma festa, os rapazes saltavam sobre as costas das garotas consideradas obesas e as dominavam por estrangulamento. Diante do desespero das vítimas, os “cowboys” berravam: “pula, pula, gorda bandida”.

Logicamente, os esquerdistas recebem um tratamento especial na Internet. Nomeados “comunistas de merda”, devem se transferir para Cuba ou para o Vietnã. Frequentemente recebem ameaças físicas.

O Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães, por exemplo, registrou logo após as eleições um “aviso” do gênero, escrito por um certo Ruiz:

- Vocês estão fudidos, nem que a gente tenha que quebrar vocês na rua… só no taco de baseball e se vier é melhor cair dentro neném, que aqui não tem perdão

Esses movimentos têm umbilical relação com as campanhas movidas pelas tropas de choque virtuais da candidatura do PSDB à presidência. Um olhar mais atento atestará que os animadores das gangues da intolerância estiveram empenhados na propaganda tucana.

Sabe-se, portanto, de onde vem essa educação para a hostilidade. Os exemplos de cima são muitos e variados, capazes de gerar e consolidar uma cultura de intransigência e ódio.

Em 2005, num evento com empresários, por exemplo, o político catarinense Jorge Bornhausen, do atual DEM, foi questionado sobre um suposto desencanto com a política. E respondeu da seguinte forma:

- Desencantado? Pelo contrário. Estou é encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos 30 anos.

Em 2006, numa entrevista ao SPTV, da Rede Globo, o então candidato tucano ao governo paulista foi interrogado pelos apresentadores sobre as causas do péssimo desempenho da educação no Estado mais rico do país.

Sem titubear, Serra colocou a culpa nos migrantes e ainda deturpou os dados sobre movimentação populacional interna, alegando que “muita gente continua chegando” a São Paulo.

Com a derrota nas urnas no dia 31 de Outubro, os guerreiros do atraso, influenciados pela TPF, pela Opus Dei, pela Tribuna Nacional, pelos monarquistas e pela ala reacionária e golpista do episcopado brasileiro, revelam-se decididos a manter a cruzada pela desestabilização do país.

Portanto, muito cuidado, especialmente se você ousou votar em Dilma, se está entre os 49% de gaúchos e 46% de paulistas “vermelhos”, se simpatiza com a esquerda, se tem princípios humanistas, se segue a lição do verdadeiro Cristo, se é nordestino, se é nortista, se é carioca, se é mineiro, se ainda vive de maneira humilde, se foi beneficiado pelo Prouni, se é oriental, se é afro-descendente, se é ameríndio, se sua família tem origem em outro país latino, se é contrário à entrega de Itaipu e Petrobrás aos amigos de FHC e também se ganhou uns quilinhos a mais…

Em cada esquina virtual, tem uma Auschwitz a sua espera. E o Hélio Bicudo continua calado.

Mayara Petruso e o proto fascismo brasileiro

  O episódio Mayara Petruso no qual esta jovem de classe média paulistana destilou todo seu ódio classista e racista foi apenas mais um episódio instrutivo dessa passagem eleitoral. Em um post na sua página no twitter a jovem incita ao assassinato de nordestinos. Diz ela: "SP, mate um nordestino afogado!". Ainda acrescenta ataques ao bolsa família, ao qual se refere como "bolsa 171", e por aí vai. Não creio que seja possível generalizar esse pensamento e afirmar que ele representa a mentalidade de São Paulo, ou de toda sua classe média. Não!! Seria insensato. Mas também creio que não seja correto afirmar que seja este um caso totalmente isolado. Eu mesmo já senti na pele esse tipo de raciocínio, se é que se pode chamar assim, que atribui aos nordestinos a responsabilidade pelos grandes problemas brasileiros (não era isso que Hitler fazia com relação aos judeus??).
  Lembro que recém chegado ao Rio nos idos de 1983, encontrei um sujeito num elevador, onde havia mais algmas pessoas, que dizia claramente em alto e bom som, que o Rio de Janeiro não era mais como antigamente, e a culpa por esta decadência era "desses nordestinos". Ele falava olhando para o grupo como que pedindo o assentimento dos demais, e sem se dar conta de que eu era um daqueles culpados pela decadência do Rio de Janeiro. Mas como eu não preenchia os requisitos biotípicos que ele tinha na cabeça de como era o "verdadeiro" nordestino (sim, porque esse pessoal vive de estereótipos), ele insistia para que concordássemos com ele. Um idiota!!
  Mas voltando ao caso Mayara, é preciso reconhecer que este não é um caso tão isolado assim. Ele expressa uma fatia social de viés nitidamente fascista que por ora, me parece, encontra-se desorganizada. Não sei se o José Serra e sua campanha concordam com isto, mas sei que sua candidatura expressaria,s em dúvida, o interesse dessa parcela "nazi" da sociedade. Não é difícil imaginar que nos ambientes íntimos dessas casas-grandes circulem esse tipo de assunto criando assim uma espécie de caldo de cultura racista, que deixa marcas fortes nas formações subjetivas de seus jovens, que por sua vez vão ser novos agentes da perpetuação do ódio e do desprezo pelo outro.
   O episódio é lamentável, mas mais do que lamentar devemos estar atentos aos rumos das coisas. Não um, mas vários "ovos de serpentes", como na expressão de Bergman, podem estar sendo gestados na contemporaneidade. Só para não pensar que Mayara está só nessa linha de raciocínio, acredito que seja interessante dar uma olhada nesse vídeo:




terça-feira, 2 de novembro de 2010

NEM O APARTHEID DERROTARIA DILMA...

NEM O APARTHEID DERROTARIA DILMA

Mesmo que o Nordeste - onde Dilma teve 10.717.434 de votos a mais do que Serra - fosse excluído do acesso às urnas, como acalentam o elitismo preconceituoso e a extrema direita política, ainda assim a petista venceria o tucano por um saldo de 1,3 milhão de votos, ou 0,9%. 


A PRESIDÊNCIA DE UM PROJETO HISTÓRICO

Passada a refrega eleitoral de 12 milhões de votos -- vantagem de Dilma sobre Serra-- 'formuladores' tucanos e jornalistas associados tentavam ansiosamente, ontem, em diferentes sessões televisivas, e hoje, nos jornais, curar cicatrizes fundas com unguentos falsos. Um deles, o mais ingenuo, endossado pelo candidato derrotado em seu pronunciamento, sugere que o robusto revés dos votos credenciou Serra a ocupar o posto de líder da oposição a Dilma Rousseff. A união oposicionista que ancora esse raciocícnio é puro miolo de pote, não existe. Sintomático foi o desconcertante antagonismo entre um discurso pretensioso, embora calcado em lugares comuns ginasianos --"estamos apenas começando'; não é um adeus, mas um até logo'-- e o gélido isolamento do derrotado. Dos dez governadores eleitos pela oposição, apenas Geraldo Alckmin fazia figuração ao lado de Serra depois que as urnas deram seu veredicto. Ninguém se baldeou do estado de origem para prestigiar o 'novo líder da oposição' na sua hora mais difícil. São prenúncios de que o ex-governador de SP, a partir de agora, é serio candidato a virar pasta de atum no acerto de contas com desafetos e tubarões da coalizão demotucana. A eles Serra se impôs mais pelo uso da truculência abaixo da linha da cintura, do que pelo endosso a um projeto ou a uma vontade manifesta. Se projeto havia no caso da sua candidatura era autobiográfico. Sugestivamente, trata-se de um critério que a mídia demotucana considera legítimo, da mesma forma que manifesta estranhamento em relação à arquitetura oposta, dardejada com manifestações de ignorancia depreciativa. O estranhamento é recíproco. Dilma sempre se colocou como candidata de um projeto histórico, que tem em Lula seu principal líder e fiador. Nisso reside a sua força, assim como no oposto individualista mora o esfarelamento previsível de Serra. Se o tucano sai menor das urnas, como disse o Presidente Lula, o desafio de Dilma, a partir de agora, será consolidar as linhas de passagem que tornem transparente aquilo que de fato ela representa e seu governo deve espelhar: constituir-se em um novo patamar de aglutinação das forças sociais e da respectiva agenda de prioridades a elas associadas nos oito anos de governo Lula. Somente esse sentido coletivo de projeto, ausente no repertório da direita nativa e de seu candidato, dará a Dilma a base necessária e a clareza de objetivos para avançar. Nesse sentido, certas lições reiteradas mais uma vez nesta campanha não podem ficar de fora do reordenamento de prioridades para os próximos anos: uma delas é a necessidade de se romper o monopólio midiático para que a democracia brasileira possa, de fato, ser o regime cujo poder emana do povo. 
 
Carta Maior - 02/11
 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

500 anos esta noite

500 anos esta noite
Pedro Tierra



De onde vem essa mulher
que bate à nossa porta 500 anos depois?
Reconheço esse rosto estampado
em pano e bandeiras e lhes digo:
vem da madrugada que acendemos
no coração da noite.
De onde vem essa mulher
que bate às portas do país dos patriarcas
em nome dos que estavam famintos
e agora têm pão e trabalho?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem dos rios subterrâneos da esperança,
que fecundaram o trigo e fermentaram o pão.
De onde vem essa mulher
que apedrejam, mas não se detém,
protegida pelas mãos aflitas dos pobres
que invadiram os espaços de mando?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem do lado esquerdo do peito.
Por minha boca de clamores e silêncios
ecoe a voz da geração insubmissa
para contar sob sol da praça
aos que nasceram e aos que nascerão
de onde vem essa mulher.
Que rosto tem, que sonhos traz?
Não me falte agora a palavra que retive
ou que iludiu a fúria dos carrascos
durante o tempo sombrio
que nos coube combater.
Filha do espanto e da indignação,
filha da liberdade e da coragem,
recortado o rosto e o riso como centelha:
metal e flor, madeira e memória.
No continente de esporas de prata
e rebenque, o sonho dissolve a treva espessa,
recolhe os cambaus, a brutalidade, o pelourinho,
afasta a força que sufoca e silencia
séculos de alcova, estupro e tirania
e lança luz sobre o rosto dessa mulher
que bate às portas do nosso coração.
As mãos do metalúrgico,
as mãos da multidão inumerável
moldaram na doçura do barro
e no metal oculto dos sonhos
a vontade e a têmpera
para disputar o país.
Dilma se aparta da luz
que esculpiu seu rosto
ante os olhos da multidão
para disputar o país,
para governar o país.
Brasília, 31 de outubro de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

Pesquisa CNT/SENSUS dá Dilma 57,2 % contra 42,8% de Serra

Última pesquisa cnt/sensus que saiu agora a tarde (30/10) confirma a vitória de Dilma Roussef neste dia 31. Vamos nos manter ligados e só comemorar depois dos votos apurados. Mas com todo cuidado que devemos ter é inevitável a sensação de dever cumprido e a certeza de que daremos um golpe importante na turma do PSDB. Quanto ao futuro político de José Serra talvez ele volte a ser um político paulista sem maiores expressões, restando Aécio Neves como único quadro dos tucanos projetado nacionalmente. Mas aí vem a pergunta: Aécio tem estofo para enfrentar Lula em 2014?? Façam suas apostas, mas de antemão eu digo o que penso: É Lula-lá!!!!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Índio da Costa foi escorraçado na Roçinha... mas a grande mídia não mostrou. Viva o youtube!!

Querem ver uma coisa reconfortante? Então se liguem no vídeo abaixo e vejam imagens que a grande mídia não levou ao ar. Trata-se simplesmente do Índio da Costa sendo enxotado da comunidade da Roçinha. Uma coisa realmente boa de se ver. Mas notem que os repesentantes da comunidade não estavam impedindo que ele entrasse lá, só estavam se negando a acompanhá-lo como o candidato queria. Vejam e deliciem-se:

Tantinho da Mangueira em "bolinha de papel"

Que coisa bonita essas manifestações absolutamente espontâneas de cidadania e consciência social. Muita gente se mobilizando em torno de garantir os avanços realizados pelo governo do presidente Lula. Aqui os sambistas dão aaula de consciência política. Uma maravilha, Tantinho da Mangueira com sua bela voz e bela presença. Vejam:


VINÍCIUS DE MORAES: ENTRE O SINGULAR E O PLURAL

Artigo escrito para o jornal "Pôr-do-sol", a ser publicado em 01 de novembro, data na qual já saberemos se o  Brasil vai seguir mudando com o projeto democrático-popular que está dando certo, ou se vai retroceder para um tempo de trevas peessedebista (bem maniqueísta mesmo...). Oxalá, e tudo nos leva a crer que sim, o Brasil avançe para melhorar o que ainda falta, e sabemos que não é pouco.  
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VINÍCIUS DE MORAES: ENTRE O SINGULAR E O PLURAL

Por Ricardo Moreno

No momento em que o leitor estiver lendo esse artigo, um novo Brasil já estará sendo desenhado e configurado como fruto do voto popular que se deu no último dia trinta e um de outubro. Oxalá, seja o desejo do povo a continuação de um projeto que entre outras realizações (algumas frustrações, é certo) fez, como o projeto “pontos de cultura” um caminho rumo ao encontro de um Brasil profundo, como diria o saudoso Mário de Andrade. Esse Brasil profundo foi muitas vezes escamoteado, e não raro, de certa forma, até envergonhou alguns brasileiros que, como diz outro grande pensador nativo, Ariano Suassuna, já quiseram ser franceses, no século XVIII; ingleses no XIX; e estadunidenses no XX. Quiseram ser tudo, menos brasileiros. Esses brasileiros são, para Suassuna, os representantes do Brasil oficial – da elite, que se opõem aos brasileiros do Brasil real – o do povo. Mas falando em Brasil profundo, eu lembrei de um de seus legítimos representantes, Vinícius de Moraes.  
Certa feita o escritor Carlos Drummond de Andrade disse sobre Vinícius de Moraes: “foi o único de nós que teve vida de poeta”. E o que isso significa? Significa acima de tudo que Vinícius teve a precisa consciência e exata percepção do seu tempo e de seu lugar. Soube como ninguém ser a síntese de um país tão misterioso, heterogêneo e complexo como o Brasil. Ao contrário de muitos que nasceram nas condições em que nasceu Vinícius, homem de classe média e tendo freqüentado os melhores bancos escolares, ele soube como ninguém compreender o Brasil, e mais do que isso: amá-lo profundamente. É desse amor que brota a profunda generosidade de Vinícius, seu ímpeto em realizar o melhor do Brasil. Mesmo sendo branco e de classe média soube ver na alma brasileira a presença criativa do negro. Sua cultura, sua música, suas danças e sua rica mitologia.  
Vinícius foi poeta, letrista de música popular, embaixador, escreveu para o cinema, foi boêmio e muito mais... Participou da criação da bossa nova, e foi dentro desse movimento, um dos mais importantes parceiros do maestro Tom Jobim, compondo com ele peças inesquecíveis como: “Garota de Ipanema”, “Eu sei que vou te amar” “chega de saudade” e tantas outras. Mas não se acomodou nesse movimento. No final dos anos 60 idealiza junto com seu parceiro, o grande violonista Baden Powell, uma incursão ao “Brasil profundo”. É nesta perspectiva que vai até a Bahia, numa viagem memorável para se encontrar com os orixás e receber deles suas bênçãos, e criar os “Afro-sambas”. Vinícius e Baden transformam em belíssimas canções de música popular os toques e os mitos yorubanos.
Após essa memorável passagem com Baden, Vinícius estabeleceu uma parceria profícua com outro violonista de peso: Toquinho. A parceria, que se iniciou quando Toquinho tinha apenas 23 anos e Vinícius 56, se desenvolveu até praticamente a morte do poeta em 1980. O encontro entre os dois rendeu à música popular brasileira um sem número de canções preciosas.
Há no belíssimo filme “Vinícius de Moraes” de Miguel Faria Jr. uma passagem na qual o escritor e ensaísta Antonio Cândido dá um depoimento preciso sobre nosso poeta. Ele diz que o primeiro Vinícius da poesia do livro (refiro-me a diferença entre a poesia do livro e a poesia da canção), ainda não era o “nosso” Vinícius. Ainda era uma poesia empolada, de gabinete. Ainda não era o Vinícius que bebeu nas fontes originais da cultua brasileira. Ainda era um europeu. Só depois é que Vinícius se torna efetivamente o poeta que aprendemos a admirar. É nesse segundo momento que Vinícius realiza o ideal dos modernistas de 1922 e produz uma poesia do cotidiano e sem empolação. E Vinícius gostava de ir ao encontro do povo simples. Um ano antes de morrer, Vinícius aceita o convite do então presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, Luís Inácio Lula da Silva, e vai até lá para ler seus poemas.
Com sua generosidade e amor pelo seu povo, Vinícius revela ao Brasil, o Brasil profundo. O Brasil bom. O Brasil do bem. O Brasil que pode dar certo, e que comparece frente às outras nações com dignidade e uma qualidade criativa já reconhecidas por todo o mundo. Vinícius é, enfim, a síntese do Brasil com que sonhamos. Vinícius continua sendo um ser plural em sua singularidade. Que as novas gerações conheçam e amem esse grande brasileiro! Saravá Vinícius!        

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A vitória cada vez mais próxima

Dilma tem 58,6 e Serra 41,4 dos votos válidos, segundo o instituo Sensus

  Claro que não é prudente baixar a guarda agora nesse momento eleitoral, mas, pelo contrário, é preciso ganhar com uma boa margem. Por isso vamos disputar cada voto até o dia 31. Mas é muito bom ver o fruto do nosso trabalho cidadão ser retratado nas pesquisas. A cada dia avançamos e fica mais claro que o povo brasileiro está atento ao desenrolar das coisas. Segundo o instituto Sensus Dilma só perde na região Sul, que pena, mas em compensação ela ganha em todas as outras regiões com as margens cada vez mais ampliada.

 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

As Novas Configurações do Estado na América Latina: democracia em ação

Saindo só um pouco da questão eleitoral propriamente dita, eu gostaria de publicar aqui no blog um artigo escrito pelo meu amigo Carlos Eduardo P. de Pinto. Carlos Eduardo é professor, mestre e doutorando em História, e trata em seu artigo das novas configurações do Estado no âmbito da América Latina, ou Abya Yala, como queiram. Seu enfoque atenta para o fato de como um novo estado vai se configurando no continente a partir, ou em seguida da vaga neoliberal que varreu o continente. Muito bom!! 


As Novas Configurações do Estado na América Latina: democracia em ação[i]
Carlos Eduardo P. de Pinto

Uma retrospectiva panorâmica sobre notícias relativamente recentes a respeito do universo político da América Latina pode passar pela acusação da OEA de que Hugo Chávez estaria aplicando práticas totalitárias na Venezuela; pela liberação dos gastos na Argentina, seguida de cerceamento da imprensa por parte da presidente Cristina Kirchner; por posições contrárias ao crescimento dos gastos estatais durante o segundo mandato do governo Lula no Brasil, criando um “Estado gordo” e ineficiente; pela candidatura de Dilma Rousseff à presidência da República, defendendo um “Estado forte”; pela suposta declaração – depois retratada - da então presidente Michelle Bachelet de que o Chile não necessitaria de ajuda internacional após o terremoto que matou mais de 800 pessoas; e pela reunião de líderes regionais para a formação da CELAC, Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, que visa criar maior integração regional, longe da influência norte-americana. Ainda que o foco seja diferente em cada caso, não se pode deixar de notar que o questionamento sobre o papel do Estado é um denominador comum nas sociedades latino-americanas contemporâneas. Esse artigo propõe uma reflexão sobre as novas configurações que o Estado vem assumindo ao longo dos últimos anos, com interesse especial pela relação entre os novos papéis estatais e o fortalecimento da democracia na América Latina.
A história recente da região, em que pesem as expressivas diferenças locais, tem apresentado enorme sincronia quanto às mudanças nas formas de governo, na estrutura estatal e conseqüentes políticas econômicas. As diversas modalidades de ditadura, estabelecidas nos anos 1960 e 1970, seguiram os postulados da Escola de Chicago, berço do neoliberalismo. Estados ainda fortes e atuantes garantiram o mercado livre e a conseqüente entrada do capital internacional, preparando o caminho para a chegada do neoliberalismo à região, no final da década de 1980.

Ponha-se no seu lugar: o neoliberalismo e a exigência de um Estado mínimo

A partir dos anos 1990, com processos de redemocratização recentes, a América Latina recorreu às “reformas de Estado”, para se ajustar à nova matriz da economia globalizada, seguindo o receituário das agências multilaterais (ONU, FMI, Bird, entre outras). O Estado assumiu ainda mais profundamente o dever de garantir a atratividade para os capitais internacionais, reduzindo o quanto pôde sua atuação, restringindo-se a cobrir reformas de infra-estrutura que não eram atraentes para o setor privado. Através de privatizações, procedeu à descentralização das políticas, aplicando incentivos fiscais, garantindo escoamentos e abrindo mercados, em nome da competitividade. Rompeu-se o paradigma do Estado popular desenvolvimentista e o que era política social transformou-se, para este Estado mínimo, em atendimento emergencial aos mais pobres.

Neste ponto o Estado passou a ter menos poder que as empresas internacionais, cujos interesses orientavam suas ações. Os processos eleitorais tornaram-se uma forma de legitimar o sistema, deixando de ter a força de transformação que já experimentara em outros contextos. A sociedade civil foi desencorajada a participar ativamente dos processos decisórios, estabelecendo-se uma “relação dura e antidemocrática com os segmentos mais críticos e combativos da sociedade civil” [i]. As garantias sociais se tornaram assuntos privados e os governos focalizavam os pontos sociais em que desejavam investir, ao mesmo tempo em que incentivavam a “solidariedade” individual e voluntária, bem como de instituições filantrópicas e ONGs prestadoras de serviços de atendimento. “A democracia vê-se ameaçada, num quadro em que a política no âmbito do Estado, que supõe uma visão de conjunto, é substituída pela política empresarial. Então o que se tem é uma não-política, inclusive no que se refere ao enfrentamento da questão social [...]” [ii]. Novos paradigmas estão na base deste processo, principalmente o deslocamento das explicações macroestruturais para as soluções micro-sociais, que pregam a substituição dos sujeitos coletivos (classes sociais) por atores individuais[iii].

Século XXI: uma nova configuração do Estado no horizonte

Ao longo da primeira década do século XXI, no entanto, essa situação começou a mudar, principalmente depois da crise do capital gerada pelas políticas neoliberais, que atingiram gravemente países como a Argentina e o Equador. Outra reconfiguração do Estado estava em curso. Naomi Klein afirma que, após o fim do “medo coletivo, que foi instilado por meio dos tanques e dos ferretes, das fugas repentinas de capital e dos cortes brutais, muitos estão reivindicando mais democracia e mais controle sobre o mercado” [iv]. A autora se refere à nova esquerda eleita ao longo da primeira década do século XXI. Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Hugo Chávez na Venezuela, Daniel Ortega na Nicarágua, Rafael Correa no Equador, Tabaré Vazquez e José Mujica no Uruguai e Evo Morales na Bolívia chegaram ao poder defendendo, em diferentes graus, uma posição contrária às linhas da Escola de Chicago. Sem posições esquerdistas tão enfáticas, Michelle Bachelet no Chile (recém sucedida por Sebastián Piñera, político de direita) e Néstor Kirchner e sua sucessora Cristina Kirchner, na Argentina, também buscariam alternativas ao neoliberalismo. Embora expressiva, deve-se lembrar que a força da esquerda na América Latina não é absoluta, como nos lembram os casos de Álvaro Uribe na Colômbia e o recém eleito presidente chileno. A orientação à direita, contudo, não deve ser compreendida como opção automática pelo neoliberalismo, embora tal arranjo seja freqüente.
Nesta conjuntura emergiu um processo referido por Renato Boschi e Flávio Gaitán como neodesenvolvimentismo[v]. Entre os presidentes em exercício, é comum haver a defesa da necessidade de interferência do Estado na economia e de “incluir o conteúdo e a orientação das políticas públicas de cada Estado-nação” [vi]. Observa-se que sem intervenção estatal não há forma de se superar as desigualdades sociais internas e entre os países. “Desse modo, em detrimento da privatização e do livre mercado, [destaca-se] a centralidade do Estado desenvolvimentista na geração das condições para o desenvolvimento, incluindo altas taxas de investimento em infra-estrutura, educação, ciência e tecnologia, além de gasto público social” [vii]. Porém, é necessário ressaltar que este não é o mesmo intervencionismo do passado. Em primeiro lugar, o Estado não se apresenta como produtor, apesar desse aspecto aparecer em alguns casos, como o do petróleo no Brasil, Venezuela e Equador, do cobre no Chile e do gás na Bolívia. A atenção estatal está mais voltada agora para a reversão das diferenças sociais e a busca de consensos com os outros Estados latino-americanos.
Este último item é ponto fundamental do processo, uma vez que o Estado neodesenvolvimentista depende das conjunturas políticas locais e regionais, sendo garantido por coalizões políticas que acreditem nele. Percebe-se que, sem um projeto nacional – termo que nada tem a ver com nacionalismo, mas pressupõe a renúncia aos postulados das agências multilaterais e países centrais - não há desenvolvimento. Aqui entra a importância de criação da CELAC, por exemplo, e o mal estar causado pela suposta recusa de ajuda internacional proferida por Bachelet.
Boschi e Gaitán reforçam a importância da política para os resultados na economia, sendo impossível explicar o desempenho das sociedades sem levar em consideração as relações entre as duas esferas. Na América Latina encontram-se diferentes arranjos políticos, que possibilitam maior ou menos grau de exercício democrático. De um lado, um grupo formado por Equador, Bolívia e Venezuela, marcado pela negação da legitimidade de seus líderes e pela dificuldade em se formar uma oposição coerente e estável. O jogo partidário é substituído pela relação direta com a população, fortalecida por movimentos sociais. Um segundo conjunto pode incluir Brasil, Uruguai, Chile e Colômbia, com um sistema partidário que apresenta uma saudável alternância de poder e um papel ativo do Parlamento. Por fim, o caso da Argentina e do Peru, em que não há negação da legitimidade dos governantes, mas também não se apresenta uma oposição significativa.
Neste contexto, o título do artigo ganha sentido, ficando claro que as novas configurações do Estado na América Latina são fruto da ação democrática. Se num passado não tão remoto, a resolução de problemas passava por militarização e autoritarismo, agora se percebe a potência das instituições democráticas, que vem sendo capazes de lidar com situações de crise, como a de 2008/2009. Entre os três casos apresentados no parágrafo acima, os melhores resultados são alcançados pelos países do segundo conjunto, com governos equilibrados entre a estabilidade macro-econômica, a participação de setores políticos e empresariais e a ampliação das políticas sociais. É um equilíbrio complexo, mas fundamental para se evitar o grande risco de que o Estado fortalecido, que tem se mostrado um aliado importante da democracia, venha a comprometê-la.
Não se trata aqui de engrossar o coro dos partidários do neoliberalismo, que insistem em confundir o Estado forte - que interfere na economia com vistas a resolver crises e garantir os avanços sociais - com o Estado gordo, ineficiente, que gasta demais para manter a máquina burocrática e se opõe à suposta liberdade calcada em valores mercadológicos. O intuito é alertar para o risco de se confundir Estado forte com Estado autoritário, o que seria sem dúvida um retrocesso no avanço alcançado pela democracia nos últimos dez anos. As conquistas sociais não se justificariam se para mantê-las tivéssemos que abrir mão da verdadeira liberdade: a de se expressar e de votar.



[i] Elaine Rosseti Behring, As novas configurações do Estado e da sociedade civil no contexto da crise do capital, p.6. Em www.prof.joaodantas.nom.br [consultado em 13 de março de 2010].
[ii] Idem, p. 17.
[iii]Anete Brito Leal Ivo, As transformações do Estado Contemporâneo. In: Caderno CHR, n. 35, jul/dez. 2001. Em www.cadernocrh.ufba.br [consultado em 19 de março de 2010].

[iv] Naomi Klein, A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 532.
[v] Renato Boschi e Flávio Gaitán. Intervencionismo estatal e políticas de desenvolvimento na América Latina, p. 306. In: Caderno CRH, vol 21, n.53, maio/ago. 2008. Em www.cadernocrh.ufba.br [consultado em 20 de março de 2010].
[vi] Idem, p. 307.
[vii] Ibidem, p. 310.



[i] Publicado em Revista Novamerica, n. 126, abr-jun 2010.
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