sábado, 12 de setembro de 2009

Paisagens Sonoras

Por Ricardo Moreno

Chega de saudade: Disco manifesto faz 50 anos

2008 foi o ano oficial em que se comemorou o cinquentenário da bossa-nova. Nada mais justo, uma vez que cinqüenta anos antes, 1958, foi gravado o antológico “Canção do amor demais” da divina Elizeth,considerado o marco zero desse movimento. Na concepção desse disco maravilhoso estavam simplesmente Tom Jobim e João Gilberto, que se encarregaram dos arranjos e participaram como músicos: Tom ao piano e João ao violão. Conta-se que a divina, como era chamada Elizeth, preferia que o violão fosse tocado por um outro violonista, o consagradíssimo Mão de Vaca. No calor da hora, parece que a divina não tinha se dado conta da revolução da mão direita do violão protagonizada pelo músico baiano, que àquela altura já estava em curso.

Mas quero chamar atenção aqui para outra efeméride: o lançamento no ano seguinte, em 1959, do Lp “Chega de saudade” de João Gilberto. Ali está, sem dúvida, o núcleo básico da Bossa Nova, e se “Canção do amor demais” de Elizeth é o marco zero, “Chega de saudade” é o Lp manifesto. Neste disco toda a elaboração da bossa nova estava devidamente concebida de forma clara e consciente. Já é lugar comum falar do impacto causado pela batida e pelas harmonias que saiam do violão de João Gilberto. Era efetivamene muito estranho.

Uma coisa interessante de se perceber nesse Lp, é que João Gilberto assina apenas duas faixas, não se destacando, portanto, como compositor e sim como intérprete. O destaque entre os compositores está sem dúvida com Tom Jobim, que assina três faixas, sendo duas delas da maior importância – Chega da saudade, que dá nome ao disco, e Desafinado, uma das canções que melhor traduz o espírito da bossa nova. Não obstante compor poucas canções para o disco, João tem a maior importância como criador não por compor canções, mas por imprimir duas características fundamentais à música popular daquele momento: o canto e a batida do violão. Claro está que dizer assim é dizer muito pouco, mas entenda prezado leitor (a), o espaço que temos aqui é também muito pouco.

Há um comentário feito pelo professor Arthur Nestrovski que expressa poética e filosoficamente essa novidade da voz bossanovista. Diz ele que quando João Gilberto “começa a cantar, a música volta pra dentro, na direção do que tem de mais calado”. Nestrosvsky acrescenta que no centro do canto gilbertiano há uma simplicidade antinatural, uma silabação metafísica que de certa forma nos faz intuir uma temporalidade que ultrapassa a temporalidade mais evidente ou mais superficial. Esse descompasso entre um tempo mais evidente e o tempo no qual a voz de João Gilberto perfaz o arco melódico, acentua sobremaneira o potencial expressivo de sua interpretação. Para que seja plenamente compreendido o que foi dito acima, sugiro ao leitor que faça a seguinte experiência: ponha um disco do João Gilberto para tocar numa faixa conhecida e tente cantar junto. O leitor perceberá que em vários momentos haverá entre os dois uma pequena diferença de tempo.

Quanto às ligações da bossa nova com o jazz muita coisa já foi dita e não vamos aqui repisar o tema. Acrescentaríamos apenas que do nosso ponto de vista o que ocorreu naquele momento foi um fenômeno muito corriqueiro na história da música e da cultura. Um fenômeno de trocas culturais. O crítico e pesquisador José Ramos Tinhorão, em que pese sua grande e inegável contribuição a história da música popular brasileira, não percebia essa troca. Via apenas uma postura subalternizada dos brasileiros frente a uma música produzida por uma potência hegemônica, que ditava a nós um padrão estético a ser seguido. Contrariamente a essa postura de Tinhorão alguns compositores e intérpretes de jazz contemporâneos da bossa nova, afirmaram, como fez Chet Baker, que não foi o jazz que influenciou a bossa nova, mas o contrário. Para além de saber quem influenciou quem, o mais importante é pensar o intercâmbio e as trocas que foram possíveis.

Nas comemorações, portanto, dos cinqüenta anos do lançamento do disco manifesto da bossa nova, muitas reflexões podem e devem ser feitas. Esse disco ouvido hoje, ainda tem um sabor de novidade. Prezado leitor, sugiro que ao terminar de ler esse texto, vá direto à vitrola ou ao cd player, e ouça essa jóia.

Ricardo Moreno é músico, professor de Educação Musical nas redes municipais do Rio de Janeiro e Duque de Caxias e mestre em Etnomusicologia • morenoricmelo@yahoo.com.br

Entrevista com Dom Ladislau Biernaski ou, o que está por trás da grita da mídia sobre a alteração dos índices de produtividade...

A propósito da campanha que propus no texto abaixo, gostaria de acrescentar essa entrevista feita com o Presidente da CPT Nacional, Dom Ladislau Biernaski:



“O Brasil pode produzir alimentos para o mundo”

11 de setembro de 2009

Presidente da CPT Nacional, Dom Ladislau Biernaski veio a público pedir a atualização dos índices de produtividade rural. Ele nos concedeu esta entrevista, por telefone, onde parabeniza o presidente Lula pela iniciativa de assinar a atualização deste tão importante dado, que está 30 anos atrasado. Mas também aproveita para criticá-lo por, em oito anos na presidência, não ter realizado um processo de reforma agrária efetivo. “Lula perdeu uma oportunidade histórica”, afirmou ele.

Dom Ladislau disse que um novo índice de produtividade rural “vai obrigar que as grandes propriedades, de fato, usem as terras para produzir alimentos”. Ele discorda do ministro Stephanes, que é contra a revisão, pois pensa que o Brasil pode produzir ainda mais alimentos, não apenas para suprir as necessidades da população do país, mas também para exportar alimentos para o resto do mundo. “Nos últimos anos, tivemos um grande crescimento, e é bom que nos orgulhemos disso. O Brasil produz já cerca de 130 milhões de toneladas de alimentos. Eu acho que poderia produzir muito mais, algo como 500 milhões toneladas. Isso mostra que as terras são mal utilizadas. O crescimento da produtividade no Brasil está bem situado diante de outros países. Mas poderemos dar muito mais ainda”, afirmou.

Confira a entrevista, divulgada pela CPT.

Porque a Igreja pede novo índice rural de produtividade?

A questão do índice da produtividade agrícola está prevista na própria Constituição. Há também uma lei federal que diz que ele deve ser atualizado a cada cinco, seis anos. Esse índice é, de fato, muito importante. Nós constatamos que, no Brasil, existem muitas áreas improdutivas, sobretudo de latifúndios. Essas terras deveriam ser melhor ocupadas para produzir alimentos para o Brasil e o mundo.

Um novo índice de produtividade muda a lógica do agronegócio brasileiro?

Sim, porque ele vai obrigar as grandes propriedades, de fato, a usarem as terras para produzir alimentos, conservando, evidentemente, aquelas áreas reservadas para a mata. O que importa é que as terras sejam bem aproveitadas para produzir alimentos. Hoje, infelizmente, já estamos 30 anos defasados no que diz respeito ao índice de produtividade. Pelas estatísticas que colhemos, quem produz mais são as pequenas propriedades que chamamos de agricultura familiar. Além disso, estamos numa grande campanha para que todos, grandes e pequenos, possam produzir alimentos sadios, ou seja, agroecológicos. Hoje li uma notícia em que o ministro Stephanes dizia que não é o momento adequado para se rever os índices, então quando será? Nós, hoje, sabemos que, de 30 anos para cá, a produção de carne triplicou em função das novas técnicas que possuímos. Queremos que essas terras sejam usadas para o bem da humanidade. Dizer que aumentar o índice de produtividade gerará uma quebradeira geral é uma grande falácia. Se eu quero produzir mais, eu vou ganhar mais. Não podemos aceitar esse argumento para não rever o índice, porque ele não é verdadeiro.

Quais as mudanças mais significativas entre o último índice de produtividade e a realidade de hoje?

A lei não é cumprida, existe pouca fiscalização. Temos ótimas leis, mas pouca gente para fiscalizar. Falta organização dos agricultores e da sociedade para pedir essa fiscalização.

O Ministério da Agricultura é o primeiro responsável. O presidente determinou que o índice fosse refeito porque isso é uma ordem constitucional, mas quem deve fazer é o Ministério da Agricultura, ajudado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Depois, as organizações dos próprios agricultores podem ajudar, assim como as pessoas que querem trabalhar na terra.

Nos últimos anos, tivemos um grande crescimento e é bom que nos orgulhemos disso. O Brasil produz já cerca de 130 milhões de toneladas de alimentos. Eu acho que poderia produzir muito mais, algo como 500 milhões toneladas. Isso mostra que as terras são mal utilizadas. O crescimento da produtividade no Brasil está bem situado diante de outros países. Mas poderemos dar muito mais ainda.

Onde as ideias do ministro Guilherme Cassel destoam do que defende o ministro Reinold Stephanes?

Exatamente, as ideias são muito diferentes. Lamentamos que o ministro Stephanes esteja defendendo uma coisa retrograda. Ao invés de estimular, ele diz: “Para que produzir tanto, se o Brasil não tem necessidade dessa quantidade?” Como que não tem? O Brasil tem necessidade de mais alimentos, temos pessoas que passam fome. Será que ele não sabe isso? Além disso, o Brasil pode produzir alimentos para o mundo. Embora eu tenha o maior respeito pelo ministro Stephanes, nesse aspecto ele está muito atrasado.

Quando deve sair um novo estudo sobre o índice de produtividade rural brasileiro?

Ele poderia ter aproveitado mais esse segundo mandato e realmente ter trabalhado numa reforma agrária efetiva. Ele perdeu um tempo precioso e não tem mais tempo para organizar uma reforma agrária que traria menos conflitos. Lula perdeu uma oportunidade histórica. Ainda assim, tenho que dizer parabéns ao presidente Lula que pediu que se revise os índices de produtividade.

Olá Pessoal, essa é a primeira postagem desse blog, que se destina a ser um espaço de divulgação e reflexão a cerca de temas como educação, cultura, política e temas afins. Aqui também disponibilizarei artigos e textos meus e de amigos, ou ainda outros que eventualmente eu considere interessante. As pessoas que eventualmente acessarem esse blog fiquem a vontade pare enviar material.
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