segunda-feira, 30 de abril de 2012

O INÍCIO, O FIM E O MEIO... o filme


A sessão começaria às 18:25 hs., mas desde às 18:00 hs. eu já estava lá: vendo o cartaz, lendo os nomes, igualzinho como eu e meu irmão, na adolescência, fazíamos quando comprávamos um disco novo do Raul Seixas. Ficávamos lendo e relendo as letras, a lista dos músicos e até mesmo do pessoal da produção. A sensação pré-filme foi a mesma que eu senti no primeiro show de Raulzito que vi em 1983, no circo voador. Lembro que nesse show, por causa da lotação, tive que sentar no palco. Não me incomodei em nada, pois fiquei há pouquíssimos metros dele. Foi este um dos últimos, se não o último show, em que Raul aparece elétrico e bem disposto. Fez performances, dialogou com o público, tocou guitarra, cantou. Enfim, fez tudo que se espera de um artista no palco. Alguns anos depois eu voltaria a um show na praia, no qual Raul parecia lento e cansado. Esquecia as letras e tocava errado, tudo isso resultando num show apático e sem vigor. Logo em seguida tive notícias de um espetáculo no Parque Lage, em 1985, no qual Raul caiu no palco e não conseguiu terminá-lo.
Parte dessas histórias – subtraindo às minhas, é claro –, estão no esperado documentário de Walter Carvalho: “O início, o fim e o meio”, sobre a vida e a obra daquele que é considerado o pai do rock brasileiro: Raul dos Santos Seixas. O trabalho de Walter tem a intenção, me parece, de captar as tensões e contradições de uma figura excepcional, portador de uma enorme potência criativa, mas que apesar disso, ou mesmo por isso, é atravessado por contradições. Raul nunca foi linear e sua obra expressa até mesmo na recepção que teve, uma abrangência enorme de público. Sua obra continha elementos resultado de leituras e estudos formais, mas como embalava tudo isso num formato musical que flertava até mesmo com o brega, ficava tudo muito acessível ao grande público. E era mesmo o que ele queria, como Walter consegue evidenciar. Há sobre isso um depoimento de Caetano Veloso, que é um dos depoentes do filme, no qual ele tece comentários sobre a canção “ouro de tolo”, e o impacto que causou no momento em que surgiu. Caetano depois de um silêncio diz: “aquilo era genial”.
Mas por falar em Caetano, talvez o documentário tenha perdido um pouco por não explorar mais as diferenças entre as propostas estéticas que Raul representava de um lado, e o que Caetano e o tropicalismo representavam por outro. Quem acompanhou um pouco a obra de Raul sabe que ele mencionou isso em várias entrevistas. Há até uma canção, em seu último disco – “a panela do diabo” – em que ele tematiza essa questão: “no teatro vila velha / velho conceito de moral / bosta nova pra universitário / gente fina intelectual / oxalá, oxum, dendê / Oxossi de não sei o quê / de não sei o quê...” Ou em outra canção quando diz: “acredite que eu não tenho nada a ver / com a linha evolutiva da música popular brasileira / a única linha que eu conheço / é a linha de impinar uma bandeira...”. Fica mais do que evidente que Raul não se filiava de modo nenhum a aquela corrente que vinha de Dorival, passava por João Gilberto e chegava a Caetano e Gil. Ele se achava de outra rua...
É verdade que o documentário toca nessa questão, mas não o penetra, e Caetano por sua vez, é só elogios. Aliás, a mim pareceu que tem Caetano demais e Jerry Adriane de menos. Isso porque Jerry, apesar de estar mais ligado à fase inicial de produtor, quando Raul ainda era Raulzito, teve um papel essencial na segunda e definitiva vinda de Raul para o Rio de Janeiro. Sem essa oportunidade aberta por Jerry, dada quando os dois se conheceram na Bahia ainda na década de 1960, talvez nunca tivesse havido a transformação alquímica de Raulzito em Raul Seixas. Senti também a falta de alguns intérpretes da obra de Raul, que é bem verdade que não são muitos, mas poderiam estar ali: Ney Matogrosso, Bethânia (que gravou Gitâ no antológico show “Chico e Bethânia ao vivo no Canecão”) e outros, que poderiam falar das razões que os levaram a gravar canções do “maluco beleza”.
Raul tinha um universo feminino muito forte. Era muito apegado à mãe, casou muitas vezes e só teve filhas. (além disso, era canceriano, que dizem ser um signo feminino) e possivelmente por isso o diretor tenha tentado captar, através de suas ex-mulheres, um pouco desse universo. Mas talvez tenha errado a mão e exagerado em observações comezinhas e domésticas em excesso. Em alguns momentos parece “lavagem de roupa suja”, como se diz no vulgo.
Mas se há excessos na parte do filme que trata das ex-esposas, o depoimento do irmão, Plínio e dos parceiros, por outro lado, são, junto com a pesquisa de imagens, os pontos altos do filme. Tanto Paulo Coelho, que não é muito bem visto por uma parte dos fãs de Raul, quanto Cláudio Roberto, dão uma visão muito clara do que era aquele convívio afetivo e como funcionava o processo criativo dos dois. Paulo Coelho deixa claro que Raul inventou um Paulo Coelho compositor, e por outro lado Paulo ajudou Raul a construir o personagem Raul Seixas, personagem este do qual Raul parece que nunca mais conseguiu sair.

Gonzaguinha, Marlene e o resgate digital


Não é nenhuma novidade dizer que uma das coisas mais incríveis ligadas à interface música e digitalização é o fato de muitos acervos terem sido ou salvo do esquecimento, ou simplesmente estarem a disposição de um público muito maior do que se o mesmo acervo estivesse nos escaninhos de um museu. Já foi dito também que esse tipo de disponibilização configura o que se convencionou chamar de “civilização do acesso”, em contraposição a civilização da posse. Em música isso é bem evidente, pois enquanto eu, e todos de minha geração, na minha juventude comprava os lp’s dos artistas preferidos, a geração do meu filho aprendeu a, ao invés de comprar a obra do autor preferido, baixa-la. Alguns vão argumentar que fazer o download é de alguma maneira ter a posse da obra. Mas vamos combinar que é diferente. Hoje se armazena os arquivos em “nuvens”, faz-se o download e depois se descarta, enfim é uma relação diferente, caracterizando, como disse anteriormente, mais o acesso do que a posse.
Uma das surpresas que tive com relação a essa questão de acervos recuperados, foi o áudio dos shows que cantora Marlene e Luiz Gonzaga Jr (era assim que ele assinava no início) fizeram para a Funarte em 1977 e 1978. Como minha idade não é tão provecta assim, esse foi o primeiro show que assisti na minha vida. O espetáculo fazia parte do projeto Pixinguinha e era dirigido por Fauzi Arap. Dispensa dizer que a música popular nesse momento era um dos principais núcleos de resistência ao regime militar, cantada por Chico Buarque como uma “página infeliz da nossa história”, e dessa forma o espetáculo não poderia se furtar a ironias, duplos sentidos, etc. É importante também lembrar que Gonzaguinha, como também era chamado, era um dos artistas mais censurados do momento, tendo seu disco de estreia sido proibido na íntegra em 1973, tornando-se um Lp raro, daqueles que só alguns poucos possuíam.
Pois bem, cursava eu a escola secundária, e participava do movimento secundarista, que viria anos depois a refundar as AMES (Associações Metropolitanas de Estudantes Secundaristas) e a UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas). Então lá fomos em grupo assistir o espetáculo. Não conhecia ainda a obra de Gonzaguinha, e Marlene era uma cantora de outra geração. Ela era uma daquelas cantoras do rádio que junto com Emilinha Borba foi considerada como uma das mais populares, lá pelos idos da década de 1940 e 1950. Era essa a proposta do projeto: um cantor novo com um veterano, e Gonzaguinha era naturalmente o novo. Ainda não era um cantor popular de sucesso no rádio, pois isso só viria a acontecer no início da década de 1980, e ainda tinha em torno de si a aura de maldito, pelo seu temperamento meio mal humorado. Quem o conhecia mais de perto não concordava com essa fama, mas ele mesmo tempos depois reconheceu que tinha um temperamento difícil. Eram tempos espinhosos mesmo.
A essa altura Gonzaguinha estava lançando o belíssimo disco “Recado”, e o repertório do show tinha muitas canções desse disco. Mas lá estavam outras joias como “É preciso”, canção psicanalítica na qual ele passa em revista sua relação com seus pais adotivos. Canção delicada e profunda cantada sem acompanhamento, o que potencializa sua carga dramática. E também estava lá uma singela canção chamada “Revista do rádio”, cujo sentido original era só de falar sobre o desejo de se realizar eleições para a rainha do rádio, evento que nos tempos áureos mobilizava muitos fãs das divas cantantes. Acontece que naquele momento de ditadura a simples menção da palavra eleição trazia em si um componente político muito forte. Era, como se dizia no jargão dos milicos, um ato de subversão explícita. Quando Marlene canta os versos “bons tempos aqueles / em que a gente votava... / na rainha do rádio”, no fundo, Gonzaguinha com uma voz debochada pergunta: “votava nega?”, ou em outro momento em que ele canta “Pra frente Brasil” de Miguel Gustavo em um andamento fúnebre. Os mais novos podem não entender, mas essas ironias já poderia ser caso para enquadrar o espetáculo na famigerada Lei de Segurança Nacional. Que tempos eram esses...
Muito haveria para se falar desse espetáculo e de outros ali contidos, mas sugiro que o próprio leitor dirija-se ao site da Funarte e esmiúce as preciosidades ali contidas. Faça isso leitor, e garanto que não vai se arrepender. 

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