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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tonga da Mironga do Cabuletê

Há muitas explicações que tentam dar conta do sentido de composições da música popular brasileira. Algumas, apesar da verossimilhança, são apenas mentiras criativas muito bem engendradas. Lembro agoras de estalo de duas delas: "pedaço de mim" de Chico Buarque e "gostava tanto de você" de Edson Trindade, cantada por Tim Maia. Mas essa que recebi do amigo Emerson, explicando a canção e a expressão "a tonga da mironga do cabuletê" me pareceu bastante interessante. Se não é verdade deveria ser... Segue abaixo a explicação:

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Por acaso, descobri esta jóia de informação sobre o significado da expressão
"na tonga da mironga do cabuletê".

1970. Vinícius e Toquinho voltam da Itália onde tinham acabado de inaugurar a parceria com o disco “A Arca de Noé”, fruto de um velho livro que o poetinha fizera para seu filho Pedro, quando este ainda era menino. Encontram o Brasil em pleno “milagre econômico” da ditadura militar. A censura em alta, a Bossa em baixa. Opositores ao regime pagando com a liberdade e a vida o preço de seus ideais.
  O poeta é visto como comunista pela cegueira militar, e ultrapassado pela intelectualidade militante que, pejorativa e injustamente, classifica sua música de "easy music". No teatro Castro Alves, em Salvador, é apresentada ao Brasil a nova parceria.Vinícius está casado com a atriz baiana Gesse Gessy, uma das maiores paixões de sua vida, que o aproximaria do candomblé, apresentando-o à Mãe Menininha do Gantois. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”. O mote anal e seu sentimento em relação aos homens de verde-oliva inspiram o poeta.
  Com Toquinho, Vinícius compõe a canção para apresentá-la num show no Teatro Castro Alves.
Era a oportunidade de xingar os militares sem que eles compreendessem a ofensa. E o poeta ainda se divertia com tudo isso: “Te garanto que na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”.

Tonga da Mironga do Cabuletê
Eu caio de bossa, eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa, xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala,

Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe

Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê
Na tonga da mironga do cabuletê

Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga

Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê
Pra tonga da mironga do cabuletê


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

VINÍCIUS DE MORAES: ENTRE O SINGULAR E O PLURAL

Artigo escrito para o jornal "Pôr-do-sol", a ser publicado em 01 de novembro, data na qual já saberemos se o  Brasil vai seguir mudando com o projeto democrático-popular que está dando certo, ou se vai retroceder para um tempo de trevas peessedebista (bem maniqueísta mesmo...). Oxalá, e tudo nos leva a crer que sim, o Brasil avançe para melhorar o que ainda falta, e sabemos que não é pouco.  
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VINÍCIUS DE MORAES: ENTRE O SINGULAR E O PLURAL

Por Ricardo Moreno

No momento em que o leitor estiver lendo esse artigo, um novo Brasil já estará sendo desenhado e configurado como fruto do voto popular que se deu no último dia trinta e um de outubro. Oxalá, seja o desejo do povo a continuação de um projeto que entre outras realizações (algumas frustrações, é certo) fez, como o projeto “pontos de cultura” um caminho rumo ao encontro de um Brasil profundo, como diria o saudoso Mário de Andrade. Esse Brasil profundo foi muitas vezes escamoteado, e não raro, de certa forma, até envergonhou alguns brasileiros que, como diz outro grande pensador nativo, Ariano Suassuna, já quiseram ser franceses, no século XVIII; ingleses no XIX; e estadunidenses no XX. Quiseram ser tudo, menos brasileiros. Esses brasileiros são, para Suassuna, os representantes do Brasil oficial – da elite, que se opõem aos brasileiros do Brasil real – o do povo. Mas falando em Brasil profundo, eu lembrei de um de seus legítimos representantes, Vinícius de Moraes.  
Certa feita o escritor Carlos Drummond de Andrade disse sobre Vinícius de Moraes: “foi o único de nós que teve vida de poeta”. E o que isso significa? Significa acima de tudo que Vinícius teve a precisa consciência e exata percepção do seu tempo e de seu lugar. Soube como ninguém ser a síntese de um país tão misterioso, heterogêneo e complexo como o Brasil. Ao contrário de muitos que nasceram nas condições em que nasceu Vinícius, homem de classe média e tendo freqüentado os melhores bancos escolares, ele soube como ninguém compreender o Brasil, e mais do que isso: amá-lo profundamente. É desse amor que brota a profunda generosidade de Vinícius, seu ímpeto em realizar o melhor do Brasil. Mesmo sendo branco e de classe média soube ver na alma brasileira a presença criativa do negro. Sua cultura, sua música, suas danças e sua rica mitologia.  
Vinícius foi poeta, letrista de música popular, embaixador, escreveu para o cinema, foi boêmio e muito mais... Participou da criação da bossa nova, e foi dentro desse movimento, um dos mais importantes parceiros do maestro Tom Jobim, compondo com ele peças inesquecíveis como: “Garota de Ipanema”, “Eu sei que vou te amar” “chega de saudade” e tantas outras. Mas não se acomodou nesse movimento. No final dos anos 60 idealiza junto com seu parceiro, o grande violonista Baden Powell, uma incursão ao “Brasil profundo”. É nesta perspectiva que vai até a Bahia, numa viagem memorável para se encontrar com os orixás e receber deles suas bênçãos, e criar os “Afro-sambas”. Vinícius e Baden transformam em belíssimas canções de música popular os toques e os mitos yorubanos.
Após essa memorável passagem com Baden, Vinícius estabeleceu uma parceria profícua com outro violonista de peso: Toquinho. A parceria, que se iniciou quando Toquinho tinha apenas 23 anos e Vinícius 56, se desenvolveu até praticamente a morte do poeta em 1980. O encontro entre os dois rendeu à música popular brasileira um sem número de canções preciosas.
Há no belíssimo filme “Vinícius de Moraes” de Miguel Faria Jr. uma passagem na qual o escritor e ensaísta Antonio Cândido dá um depoimento preciso sobre nosso poeta. Ele diz que o primeiro Vinícius da poesia do livro (refiro-me a diferença entre a poesia do livro e a poesia da canção), ainda não era o “nosso” Vinícius. Ainda era uma poesia empolada, de gabinete. Ainda não era o Vinícius que bebeu nas fontes originais da cultua brasileira. Ainda era um europeu. Só depois é que Vinícius se torna efetivamente o poeta que aprendemos a admirar. É nesse segundo momento que Vinícius realiza o ideal dos modernistas de 1922 e produz uma poesia do cotidiano e sem empolação. E Vinícius gostava de ir ao encontro do povo simples. Um ano antes de morrer, Vinícius aceita o convite do então presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, Luís Inácio Lula da Silva, e vai até lá para ler seus poemas.
Com sua generosidade e amor pelo seu povo, Vinícius revela ao Brasil, o Brasil profundo. O Brasil bom. O Brasil do bem. O Brasil que pode dar certo, e que comparece frente às outras nações com dignidade e uma qualidade criativa já reconhecidas por todo o mundo. Vinícius é, enfim, a síntese do Brasil com que sonhamos. Vinícius continua sendo um ser plural em sua singularidade. Que as novas gerações conheçam e amem esse grande brasileiro! Saravá Vinícius!