quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Educação pública não é só uma questão de "garra"

    
      Hoje, dia 23 de fevereiro de 2011, a secretária de educação do Rio de Janeiro, Cláudia Costin, publicou em seu twitter uma frase que no meu entendimento é muito infeliz. Na tentativa de elogiar o empenho das professoras cujas escolas se sairam bem no IDEB, ela acaba produzindo uma pérola que opera na lógica do senso comum. Disse a secretária: 

"Saindo da Secretaria. Cansada, mas feliz! Impressionada com a garra das professoras das escolas com maiores IDEBs. Gente guerreira!"

 Ora, o que faz a secretária? Vincula o sucesso no IDEB de algumas escolas ao empenho e a "garra" de algumas professoras. Isso é, no meu entender, a saída mais voluntarista que se pode apontar, pois é como se dissesse que basta que todas as escolas, ou melhor, que todas as professoras reproduzam a mesma garra e o mesmo empenho que chegaremos lá. Ou ainda pior: as escolas que não alcançaram os bons índices foi por causa da falta de "garra" das professoras. 
    É possível que não tenha sido esta a intenção da secretária, mas seu discurso acaba por reforçar  uma tese que viceja em certos meios de que o que falta é esforço por parte do professorado. Outro dia mesmo eu vi uma matéria de um jornal na televisão, que dava conta de uma escola municipal na qual o ensino era de alto nível. Esperei para ver a matéria, imaginando que a referida escola ficava lá em Paciência, ou lá em Santa Cruz, ou em qualquer outra perifeira. Mas não, a escola era na Urca. Escola na qual parte das famílias dos alunos têm um nível bem alto de escolaridade, quando comparada com escolas da periferia, e que participam com mais intensidade na vida escolar. Mas eis que surge a diretora da escola sendo perguntada qual é o segredo do bom ensino. Ela não titubeia em afirmar que é só uma questão de empenho dos profisionais que lá trabalham. Que primor!!!
     Essa lógica voluntarista despreza aquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu teorizava sobre os capitias simbólicos e culturais de uma determinada sociedade, que por ser uma sociedade hierarquizada, distribui esses capitais diferentemente entre os grupos sociais que a integram. Bourdieu chega a dizer que a injustiça da educação pública, se referindo a realidade francesa, não estava em tratar diferentemente os gruos socias (ricos, médios e pobres), mas justamente pelo contrário: por tratá-los como iguais. Aí está, no seu entendimento, um dos núcleos da reprodução da desigualdade social praticada pela instituição escolar. Quando se trata como iguais grupos sociais que partilham diferentemente dos capitais culturais e sociais, está-se condenando os que detém menos determinados capitais ao insucesso.
     

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Dilma, a Folha de São Paulo e os novos tempos

A folha de São Paulo, este jornal que esprestava seus carros para a ditadura matar e torturar seus oponentes, ao completar 90 anos de (des) serviços a democracia convidou a presidenta Dilma para escrever um artigo. A presidenta aceitou e escreveu com todas as letras aquilo que tem repetido sempre que pode: " a figura chave do processo que levará o Brasil a um novo patamar é o educador". Reparem que ela parece estar bem consciente do que está dizendo, pois ela evita a palavra professor e utiliza "educador". Isso faz uma diferença enorme. Ela, no texto, demonstra estar bem consciente quanto ao papel dos educadores no novo cenário desejado para o nosso país. Talvez não seja demais dizer que nunca na história desse país um presidente (a) se importou tanto, ou deu tanto espaço à questão da educação. Leiam abaixo o artido na íntegra:

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PAÍS DO CONHECIMENTO, POTÊNCIA AMBIENTAL
por DILMA ROUSSEFF

Hoje, já não parece uma meta tão distante o Brasil se tornar país economicamente rico e socialmente justo, mas há grandes desafios pela frente, como educação de qualidade
Há 90 anos, o Brasil era um país oligárquico, em que a questão social não tinha qualquer relevância aos olhos do poder público, que a tratava como questão de polícia.

O país vivia à sombra da herança histórica da escravidão, do preconceito contra a mulher e da exclusão social, o que limitou, por muitas décadas, seu pleno desenvolvimento.

Mesmo quando os grandes planos de desenvolvimento foram desenhados, a questão social continuou como apêndice e a educação não conquistou lugar estratégico. Avançamos apenas nas décadas recentes, quando a sociedade decidiu firmar o social como prioridade.

Contudo, o Brasil ainda é um país contraditório. Persistem graves disparidades regionais e de renda. Setores pouco desenvolvidos coexistem com atividades econômicas caracterizadas por enorme sofisticação tecnológica. Mas os ganhos econômicos e sociais dos últimos anos estão permitindo uma renovada confiança no futuro.

Enorme janela de oportunidade se abre para o Brasil. Já não parece uma meta tão distante tornar-se um país economicamente rico e socialmente justo. Mas existem ainda gigantescos desafios pela frente. E o principal, na sociedade moderna, é o desafio da educação de qualidade, da democratização do conhecimento e do desenvolvimento com respeito ao meio ambiente.

Ao longo do século 21, todas as formas de distribuição do conhecimento serão ainda mais complexas e rápidas do que hoje.

Como a tecnologia irá modificar o espaço físico das escolas? Quais serão as ferramentas à disposição dos estudantes? Como será a relação professor-aluno? São questões sem respostas claras.

Tenho certeza, no entanto, de que a figura-chave será a do educador, o formador do cidadão da era do conhecimento.

Priorizar a educação implica consolidar valores universais de democracia, de liberdade e de tolerância, garantindo oportunidade para todos. Trata-se de uma construção social, de um pacto pelo futuro, em que o conhecimento é e será o fator decisivo.

Existe uma relação direta entre a capacidade de uma sociedade processar informações complexas e sua capacidade de produzir inovação e gerar riqueza, qualificando sua relação com as demais nações.

No presente e no futuro, a geração de riqueza não poderá ser pautada pela visão de curto prazo e pelo consumo desenfreado dos recursos naturais. O uso inteligente da água e das terras agriculturáveis, o respeito ao meio ambiente e o investimento em fontes de energia renováveis devem ser condições intrínsecas do nosso crescimento econômico. O desenvolvimento sustentável será um diferencial na relação do Brasil com o mundo.

Noventa anos atrás, erramos como governantes e falhamos como nação.

Estamos fazendo as escolhas certas: o Brasil combina a redução efetiva das desigualdades sociais com sua inserção como uma potência ambiental, econômica e cultural. Um país capaz de escolher seu rumo e de construir seu futuro com o esforço e o talento de todos os seus cidadãos.