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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Chico Buarque - Dia Voa

   Não tenho certeza, mas creio que este vídeo seja o material completo do qual saíram os pequenos vídeos que a produção do disco Chico (2011) foi lançando gradativamente a título de campanha publicitária. Nele Chico reflete sobre várias questões inerentes ao próprio disco, à música e à vida. Bom material para os que apreciam a obra desse artista.

terça-feira, 26 de julho de 2011

CHICO 2011

Por Ricardo Moreno

   O lançamento de um disco, ou livro, do Sr. Francisco Buarque de Holanda, é por si, para a tristeza e irritação do cantor Lobão, um acontecimento cultural de grande magnitude. Refiro-me ao roqueiro pelo fato dele ter recentemente atacado a obra de Chico Buarque com um agastamento (bom esse termo, hein...) que me causou espécie.
O disco foi lançado no último dia 22 de julho com uma estratégia diferente que envolvia diretamente a internet. A gravadora Biscoito Fino iniciou as vendas antecipadas no dia 22 de junho, exatamente um mês antes do lançamento, e possibilitou aos compradores o acesso a momentos íntimos das gravações. Aqueles momentos que outrora todo fã ficava imaginando e especulando como teria sido. Pois então, todos os dias um novo vídeo era postado com trechos de músicas ou diálogos entre Chico e alguns integrantes do processo. Tem em particular um vídeo em que Chico dá boas risadas comentando as cartas virtuais que são enviadas ao site “Chico bastidores”, criado especialmente para o lançamento, nas quais alguns declaravam morrer de amor pelo compositor, e outras que o “espinafravam”. Enfim, coisas do mundo virtual. “Não sabia que o jogo era tão pesado”, disse o cantor.
Recentemente perguntaram a Chico Buarque por que ele não fazia mais canções como aquelas de antigamente. Ele respondeu que a razão era porque não precisava mais, pois as que tinham que ser compostas, já o tinham sido. Ele parece ser desses criadores que não querem ficar presos ao passado, mesmo que este tenha sido glorioso. Creio que seja até certo ponto normal que os fãs, ou parte deles, tenham esse tipo de apego, afinal as canções vão tecendo a nossa história, e poderíamos mesmo dizer que as canções vão nos compondo. Mas é preciso criar margens para compreender as nuances que uma obra precisa ter, no momento mesmo que ela está sendo composta. Há uma relação entre a obra e o tempo. Isso é inescapável.
As novas tecnologias não estão presentes apenas como aparato tecnológico para o lançamento do disco, mas também é tema da belíssima valsa “Nina”. Nela o narrador revela sutilmente que a relação dos dois se dá através de conversas virtuais, pois eles estão longe: “Nina adora viajar, mas não se atreve / num país distante como o meu”. Ou ainda: “Nina anseia por me conhecer em breve / me levar pra noite de Moscou”.  Recursos como o Google earth também são sutilmente mencionados: “Nina diz que posso ver na tela / a cidade, o bairro, a chaminé da casa dela / posso imaginar por dentro a casa / a roupa que ela usa, as mechas, a tiara...”. Em outro momento da canção, como bom poeta que é, extrai das palavras em português sonoridades que remetem à língua russa como em “Nina diz que embora nova”.
Na faixa “Sem você nº 2” Chico dialoga explicitamente com Tom Jobim, criando uma atmosfera e um ambiente tanto na letra quanto na música, semelhante à canção “Sem você”, uma das primeiras parecerias de Tom e Vinícius. Mas as referências a Tom não ficam só aí, e pra não deixar barato e também fazer uma brincadeira, eu diria que enquanto todo mundo quer ser Chico Buarque, ele próprio quer ser Tom Jobim. Na canção “Se eu soubesse” Chico abusa da influência jobiniana, mas abusar é só um modo de falar, pois o velho Tom ficaria feliz em ouvir essa bela canção, filha em linha direta do aprendizado que Chico fez com o ele. E ficaria feliz também em ouvir a bela voz de Thais Gulin, que divide com Chico a parte vocal da faixa.
O samba, que foi sempre uma marca tão forte na obra de Chico aparece, pois não poderia ser diferente, mas de uma forma mais discreta, pois só lá na sétima faixa é que ele dá o ar da graça. Mas também vem em alto nível. É a faixa “Sou eu” parceria com Ivan Lins cantada no disco pelo próprio Chico e por Wilson das Neves, que sabe tudo de samba além de ter uma voz sensacional. E o samba continua em “Barafunda”, cujo texto tematiza um assunto bem caro ao autor: a memória. Lembra um pouco o “Velho Francisco” e também o seu romance “Leite derramado”. Em todas essas obras a memória recebe um tratamento semelhante, a saber, é tratada como uma invenção e ora aqui, ora ali, se confunde e vai sendo re-significada a partir das velhas imagens guardadas (“Foi na Penha, não / Foi na Glória / Gravei na memória / Mas perdi a senha / Misturam-se os fatos / As fotos são velhas / Cabelos pretos, bandeiras vermelhas / Foi Garrincha, não / Foi de bicicleta / Juro que vi aquela bola entrar na gaveta / Tiro de meta...”). O samba vai deslizando e quando vemos, ou melhor, ouvimos, ele já virou salsa, pra voltar ao samba de novo.
Mas o ponto alto do disco está na última faixa, guardada talvez de propósito pra pegar o ouvinte de jeito. Pois quando não se espera mais muita coisa, somos surpreendidos com uma canção cuja densidade emotiva nos leva a uma reflexão emocionada sobre a experiência do cativeiro no Brasil. É uma parceria de Chico com João Bosco, que participa tocando violão e num discreto vocal. A levada, de um samba mais pra rural do que urbano, nos conduz a um ambiente estético que reforça o texto lamurioso. Nele, vemos um negro prestes a ser chicoteado por conta de ter visto a sinhá da fazenda a tomar banho nua no rio. Ele tenta se explicar negando que a tenha visto: “Para que me pôr no tronco /Para que me aleijar / Eu juro a vosmecê / Que nunca vi Sinhá / Porque me faz tão mal / com olhos tão azuis / Me benzo com o sinal da santa cruz” . Ao longo do seu arrazoado o escravo vai utilizando todas as corruptelas da palavra você, “vosmicê”, “vosmincê” e “vassuncê”, e vai perdendo as forças e “chorando em yorubá” e “orando por Jesus”. Por fim o narrador do texto descreve a própria condição de mestiço dizendo ter a “voz de pelourinho” e “ares de senhor”.
O time de músicos que acompanha Chico nesse novo empreendimento é o mesmo de sempre. Competentíssimo!! Com destaque para Franklin da Flauta, que reaparece, depois de muitos anos, tocando outra vez com Chico.
Chico Buarque não faz concessões e não simplifica sua arte. É um artista de seu tempo e elabora suas ideias musicais e textuais com o rigor dos que sabem o que estão fazendo, apesar das eternas maledicências da revista Veja, mas isso já é outra história... 

sábado, 23 de julho de 2011

Chico Buarque e mais uma canção do novo cd...

Chico Buarque, como parte do lançamento do seu novo disco, fez nessa última quarta-feira, 20 de julho, uma apresentação ao vivo junto com João Bosco, cantando uma das canções que integra o novo cd. A canção em questão, "sinhá", é uma composição dos dois. A apresentação foi feita no portal "chicobastidores" criado pela gravadora biscoito fino justamente para a divulgação pela internet do novo cd, cujo nome é apenas "Chico".

Watch live streaming video from chicobastidores at livestream.com

domingo, 19 de junho de 2011

Disco novo de Chico Buarque

Chico Buarque, para tristeza de Lobão..rsss, está lançando disco novo. Neste curtíssimo vídeo é possível acompanhar alguns momentos dos bastidores. Aliás, no site www.chicobastidores.com.br é possível acompanhar outros momentos, pois parece que cada dia tem um vídeo diferente. Aos interessados então...


Chico: Bastidores (2) from Chico Buarque: Bastidores on Vimeo.

sábado, 29 de maio de 2010

O meu capitão não aceita a ordem de matar!

O texto abaixo foi escrito para o site do grupo Tortura Nunca Mais. Essa é uma das histórias que devem ser contadas aos mais jovens, para que se tenha sempre em mente até onde um regime autoritário pode chegar. Logo em seguida do texto segue um vídeo com uma música, que me parece ser de autoria do Chico Buarque. Quem canta é o próprio Chico com a Joyce. e é uma gravação da década de 1980. Já perguntei a várias pessoas se conheciam essa música e muitos me responderam que não. Então é uma boa ocasião para conhecer.

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  Era uma vez um homem, um militar completo, um herói que vivia na selva, comandando o PARASAR, abrindo fronteiras e salvando vidas. A selva era a sua casa, com tamanha desenvoltura que lhe valeu o apelido carinhoso de “macaco” entre seus companheiros. Os índios o chamavam de Nhambiguá Caraíba, homem branco bom. Seu nome era Sérgio e era capitão, quando o mal lhe cruzou o caminho. 
  A Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, guerreiro sem medo, pediram que matasse inocentes, que derramasse sangue. Um brigadeiro assassino ordenou-lhe que explodisse um gasômetro, trucidasse estudantes, atentados terroristas que desencadeariam um verdadeiro massacre em resposta a um suposto golpe atribuído a “comunistas”.

   A proposta desse assassino fardado não era nova nem original. Já funcionara na Alemanha, sob o nazismo, quando atrocidades inomináveis foram cometidas e justificadas por militares e civis sob a alegação de estar apenas “cumprindo ordens”.

Sergio era de outra estirpe. Com a coragem, determinação e desassombro de quem tem alma e caráter disse não ao criminoso e evitou o que poderia ter sido a maior tragédia humana de nossa História. A ira dos criminosos no poder caiu sobre ele como um raio. Tiraram-lhe quase tudo. Não adiantou figuras históricas como o Brigadeiro Eduardo Gomes, lutarem por ele e tomarem a sua defesa. O arbítrio e o crime mandavam naquele triste Brasil dos anos de chumbo.

Sérgio perdeu a farda, o trabalho e a alegria. Só não puderam quebrar sua integridade e honra, sua firmeza de homem e soldado, um soldado que dizia preferir a pior das democracias à melhor das ditaduras.

Sérgio jamais pleiteou anistia por considerar que anistia é esquecimento, perdão, e julgava – com absoluta razão – que seu gesto de resistência, sua desobediência a uma ordem criminosa eram exemplos a serem seguidos.

Exemplos de predomínio do bem e da consciência sobre o crime e a cegueira. Se ao longo da história, tivéssemos tido mais Sérgios quantos crimes não teriam sido evitados?

Só os grandes homens tem coragem de resistir como ele resistiu. Sergio lutou incansavelmente e até o final de sua vida pela justiça que lhe era divida. Foi derrotado pela doença e morreu sem poder ver a sua vitória, devido à pequenez de um presidente da república: Itamar Franco, que – mesmo sabendo que o capitão estava ferido de morte, acometido de um câncer terminal – e tendo o decreto promovendo-o a brigadeiro sobre a sua mesa, esperou a morte do herói para assiná-lo. Tal é a pequenez de alguns homens deste grande país.

É este grande homem, Sérgio, este brasileiro ímpar, este companheiro de todos nós que estamos homenageando aqui hoje. Homens como o brigadeiro Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho, o imortal Sérgio Macaco, estarão para sempre vivos nos corações e mentes da nação brasileira. Saudemos o glorioso capitão da vida. Capitão Sérgio Presente!

Fritz Utzeri

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Segue abaixo um pequeno trecho de uma entrevista recente de Chico Buarque feita originalmente para a revista Brazuka, uma publicação bilíngue sobre cultura brasileira que circula em Paris e Bruxelas.

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Você acabou de citar o Le Monde. Para nós, que trabalhamos com comunicação, sempre existiu uma crítica pesada contra os veículos de massa no Brasil. Você acha que existe um plano cruel para imbecilizar o brasileiro?

Não, não acredito em nenhuma teoria conspiratória e nem sou paranoico. Agora, aí é a questão do ovo e da galinha. Você não sabe exatamente. Os meios de comunicação vão dizer que a culpa é da população, que quer ver esses programas. Bom, a TV Globo está instalada no Brasil desde os anos 60. O fato de a Globo ser tão poderosa, isso sim eu acho nocivo. Não se trata de monopólio, não estou querendo que fechem a Globo. E a Globo levanta essa possibilidade comparando o governo Lula ao governo Chavez. Esse exagero.


Você acha que a mídia ataca o Lula injustamente?

Nem sempre é injusto, não há uma caça às bruxas. Mas há uma má vontade com o governo Lula que não existia no governo anterior.

E o que você acha da entrevista recente do Caetano Veloso, onde ele falou mal do Lula e depois acabou sendo desautorizado pela própria mãe?

Nossas mães são muito mais lulistas que nós mesmos. Mas não sou do PT, nunca fui ligado ao PT. Ligado de certa forma, sim, pois conheço o Lula mesmo antes de existir o PT, na época do movimento metalúrgico, das primeiras greves. Naquela época, nós tínhamos uma participação política muito mais firme e necessária do que hoje. Eu confesso, vou votar na Dilma porque é a candidata do Lula e eu gosto do Lula. Mas, a Dilma ou o Serra, não haveria muita diferença.

O que você tem escutado?

Eu raramente paro para ouvir música. Já estou impregnado de tanta música que eu acho que não entra mais nada. Na verdade, quando estou doente eu ouço. Inclusive ouvi o disco do Terça Feira Trio, do Fernando do Cavaco, e gostei. Nunca tinha visto ou ouvido formação assim. Tem ao mesmo tempo muita delicadeza e senso de humor.


http://www.outraspalavras.net/?p=1175