sábado, 2 de junho de 2012

A MÚSICA E OS NOVOS TEMPOS DE SIMULAÇÃO




              Vivemos realmente o tempo da simulação e da dissimulação. Não, prezado leitor, não farei aqui aquele discurso do tipo “ah, que tempos horríveis estes em que vivemos”, ou aquele outro: “antigamente é que era bom”. Há uma tendência em muitas pessoas em ver o presente sempre como ruína e o passado como um tempo ideal no qual parece que tudo era muito melhor. Há sobre esse assunto um conto do escritor dinamarquês Hans C. Andersen intitulado “as galochas da fortuna”, no qual uma certa galocha encantada fazia com que todos que a usassem fosse automaticamente transportados para o tempo ou condição em que o usuário considerasse ideal. Os desfechos das histórias de cada usuário da galocha não eram os melhores possíveis, mostrando assim que o “ideal” é só uma construção da nossa consciência.
            Mas o que trouxe realmente esse assunto à baila nesta coluna foi o fato de um aluno ter me chamado atenção para uma, como dizer, artista virtual (quase que eu dizia inexistente). Trata-se de Hatsune Miko, uma criação holográfica com voz sintetizada por um software chamado vocaloid. Não se trata de dublagem, e sim de um programa que sintetiza a voz humana. A cantora virtual é uma criação da empresa japonesa Crypton Future Media e faz muito sucesso entre o público jovem japonês. Ela é na verdade uma boneca holográfica tridimensional, e em seus shows é acompanhada por uma banda atual (uso o termo como sugerido pelo pensador canadense Pierre Levy, para quem o contrário de virtual não é “real” e sim “atual”). São mega espetáculos com a presença de milhares de pessoas que pulam, dançam e cantam junto com a cantora.  
            É verdade, como diriam alguns menos entusiastas dessas novidades tecnológicas, que se trata apenas de um grande feito tecnológico completamente esvaziado de qualquer profundidade ou densidade artística. De fato, a música veiculada por esse projeto é extremamente banal, mas que cumpre sua função de fazer dançar os adolescentes, e considerando que este seja o objetivo, ela cumpre de forma exemplar. As letras também, pelo que pude ver, estão na esfera do interesse dos adolescentes. Fala de encontros, beijos, ficar juntinhos, etc.
Mas talvez haja mais que isso para ver na novidade. Os usos futuros dessa tecnologia são talvez ainda impensáveis, e mais a frente é possível que utilizações menos banais possam surgir no horizonte. Não há dúvida de que as tecnologias não são apenas meros suportes para a veiculação de conteúdos. Elas guardam, com esses últimos, uma relação de proximidade na qual as interferências são inevitáveis. “o meio é a mensagem”, já foi dito nos anos 1960 pelo também canadense Marshall McLuhan. Há diversos estudos no sentido de evidenciar como que novas plataformas tecnológicas possibilitam formulações novas, que seriam inviáveis em suportes antigos.
            Mas voltando à nossa japonezinha, ela tem uma página no facebook que faz a alegria da galera teen. A página já conta com mais ou menos 500.000 pessoas e a própria cantora (se é que é possível) interage com os fãs fazendo promoções, mostrando novas canções etc. É muito curioso! Ela própria é uma simulação de uma adolescente de mais ou menos 14 anos, e considerando sua condição virtual, nunca vai passar disso. Vai ser sempre uma adolescente. Como alguém que encontrou a fonte da juventude. Isso também trás alguns elementos para que se reflita. Ela cumpriria mais ou menos o mesmo papel da nossa Sandy aqui no Brasil, com a diferença que nunca viraria mulher.
            Outra coisa que chama a atenção na figura de Hatsune é que assim como outros desenhos japoneses, ela não possui os olhos puxados, tão característicos dos japoneses. Lembro-me de um dos primeiros desenhos japoneses que vi, o Speed Racer, ele também não tinha os olhos nipônicos característicos. É possível que isso seja por conta da ambição de que o produto tenha uma aceitação internacional. É possível que os olhos puxados pudessem caracterizar por demais a origem étnica do personagem impedindo uma empatia internacional. Mas os olhos redondos podem ser também a caracterização externa de uma emulação através da qual os japoneses se modernizariam imitando o ocidente. Ou ainda, os japoneses produziriam em sua própria carne as marcas e os emblemas daqueles que encarnam a modernidade-mundo.
            Quem estiver curioso para ver a cantora é só dar um pulinho no youtube e ver os shows que lá estão disponíveis.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O INÍCIO, O FIM E O MEIO... o filme


A sessão começaria às 18:25 hs., mas desde às 18:00 hs. eu já estava lá: vendo o cartaz, lendo os nomes, igualzinho como eu e meu irmão, na adolescência, fazíamos quando comprávamos um disco novo do Raul Seixas. Ficávamos lendo e relendo as letras, a lista dos músicos e até mesmo do pessoal da produção. A sensação pré-filme foi a mesma que eu senti no primeiro show de Raulzito que vi em 1983, no circo voador. Lembro que nesse show, por causa da lotação, tive que sentar no palco. Não me incomodei em nada, pois fiquei há pouquíssimos metros dele. Foi este um dos últimos, se não o último show, em que Raul aparece elétrico e bem disposto. Fez performances, dialogou com o público, tocou guitarra, cantou. Enfim, fez tudo que se espera de um artista no palco. Alguns anos depois eu voltaria a um show na praia, no qual Raul parecia lento e cansado. Esquecia as letras e tocava errado, tudo isso resultando num show apático e sem vigor. Logo em seguida tive notícias de um espetáculo no Parque Lage, em 1985, no qual Raul caiu no palco e não conseguiu terminá-lo.
Parte dessas histórias – subtraindo às minhas, é claro –, estão no esperado documentário de Walter Carvalho: “O início, o fim e o meio”, sobre a vida e a obra daquele que é considerado o pai do rock brasileiro: Raul dos Santos Seixas. O trabalho de Walter tem a intenção, me parece, de captar as tensões e contradições de uma figura excepcional, portador de uma enorme potência criativa, mas que apesar disso, ou mesmo por isso, é atravessado por contradições. Raul nunca foi linear e sua obra expressa até mesmo na recepção que teve, uma abrangência enorme de público. Sua obra continha elementos resultado de leituras e estudos formais, mas como embalava tudo isso num formato musical que flertava até mesmo com o brega, ficava tudo muito acessível ao grande público. E era mesmo o que ele queria, como Walter consegue evidenciar. Há sobre isso um depoimento de Caetano Veloso, que é um dos depoentes do filme, no qual ele tece comentários sobre a canção “ouro de tolo”, e o impacto que causou no momento em que surgiu. Caetano depois de um silêncio diz: “aquilo era genial”.
Mas por falar em Caetano, talvez o documentário tenha perdido um pouco por não explorar mais as diferenças entre as propostas estéticas que Raul representava de um lado, e o que Caetano e o tropicalismo representavam por outro. Quem acompanhou um pouco a obra de Raul sabe que ele mencionou isso em várias entrevistas. Há até uma canção, em seu último disco – “a panela do diabo” – em que ele tematiza essa questão: “no teatro vila velha / velho conceito de moral / bosta nova pra universitário / gente fina intelectual / oxalá, oxum, dendê / Oxossi de não sei o quê / de não sei o quê...” Ou em outra canção quando diz: “acredite que eu não tenho nada a ver / com a linha evolutiva da música popular brasileira / a única linha que eu conheço / é a linha de impinar uma bandeira...”. Fica mais do que evidente que Raul não se filiava de modo nenhum a aquela corrente que vinha de Dorival, passava por João Gilberto e chegava a Caetano e Gil. Ele se achava de outra rua...
É verdade que o documentário toca nessa questão, mas não o penetra, e Caetano por sua vez, é só elogios. Aliás, a mim pareceu que tem Caetano demais e Jerry Adriane de menos. Isso porque Jerry, apesar de estar mais ligado à fase inicial de produtor, quando Raul ainda era Raulzito, teve um papel essencial na segunda e definitiva vinda de Raul para o Rio de Janeiro. Sem essa oportunidade aberta por Jerry, dada quando os dois se conheceram na Bahia ainda na década de 1960, talvez nunca tivesse havido a transformação alquímica de Raulzito em Raul Seixas. Senti também a falta de alguns intérpretes da obra de Raul, que é bem verdade que não são muitos, mas poderiam estar ali: Ney Matogrosso, Bethânia (que gravou Gitâ no antológico show “Chico e Bethânia ao vivo no Canecão”) e outros, que poderiam falar das razões que os levaram a gravar canções do “maluco beleza”.
Raul tinha um universo feminino muito forte. Era muito apegado à mãe, casou muitas vezes e só teve filhas. (além disso, era canceriano, que dizem ser um signo feminino) e possivelmente por isso o diretor tenha tentado captar, através de suas ex-mulheres, um pouco desse universo. Mas talvez tenha errado a mão e exagerado em observações comezinhas e domésticas em excesso. Em alguns momentos parece “lavagem de roupa suja”, como se diz no vulgo.
Mas se há excessos na parte do filme que trata das ex-esposas, o depoimento do irmão, Plínio e dos parceiros, por outro lado, são, junto com a pesquisa de imagens, os pontos altos do filme. Tanto Paulo Coelho, que não é muito bem visto por uma parte dos fãs de Raul, quanto Cláudio Roberto, dão uma visão muito clara do que era aquele convívio afetivo e como funcionava o processo criativo dos dois. Paulo Coelho deixa claro que Raul inventou um Paulo Coelho compositor, e por outro lado Paulo ajudou Raul a construir o personagem Raul Seixas, personagem este do qual Raul parece que nunca mais conseguiu sair.

Gonzaguinha, Marlene e o resgate digital


Não é nenhuma novidade dizer que uma das coisas mais incríveis ligadas à interface música e digitalização é o fato de muitos acervos terem sido ou salvo do esquecimento, ou simplesmente estarem a disposição de um público muito maior do que se o mesmo acervo estivesse nos escaninhos de um museu. Já foi dito também que esse tipo de disponibilização configura o que se convencionou chamar de “civilização do acesso”, em contraposição a civilização da posse. Em música isso é bem evidente, pois enquanto eu, e todos de minha geração, na minha juventude comprava os lp’s dos artistas preferidos, a geração do meu filho aprendeu a, ao invés de comprar a obra do autor preferido, baixa-la. Alguns vão argumentar que fazer o download é de alguma maneira ter a posse da obra. Mas vamos combinar que é diferente. Hoje se armazena os arquivos em “nuvens”, faz-se o download e depois se descarta, enfim é uma relação diferente, caracterizando, como disse anteriormente, mais o acesso do que a posse.
Uma das surpresas que tive com relação a essa questão de acervos recuperados, foi o áudio dos shows que cantora Marlene e Luiz Gonzaga Jr (era assim que ele assinava no início) fizeram para a Funarte em 1977 e 1978. Como minha idade não é tão provecta assim, esse foi o primeiro show que assisti na minha vida. O espetáculo fazia parte do projeto Pixinguinha e era dirigido por Fauzi Arap. Dispensa dizer que a música popular nesse momento era um dos principais núcleos de resistência ao regime militar, cantada por Chico Buarque como uma “página infeliz da nossa história”, e dessa forma o espetáculo não poderia se furtar a ironias, duplos sentidos, etc. É importante também lembrar que Gonzaguinha, como também era chamado, era um dos artistas mais censurados do momento, tendo seu disco de estreia sido proibido na íntegra em 1973, tornando-se um Lp raro, daqueles que só alguns poucos possuíam.
Pois bem, cursava eu a escola secundária, e participava do movimento secundarista, que viria anos depois a refundar as AMES (Associações Metropolitanas de Estudantes Secundaristas) e a UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas). Então lá fomos em grupo assistir o espetáculo. Não conhecia ainda a obra de Gonzaguinha, e Marlene era uma cantora de outra geração. Ela era uma daquelas cantoras do rádio que junto com Emilinha Borba foi considerada como uma das mais populares, lá pelos idos da década de 1940 e 1950. Era essa a proposta do projeto: um cantor novo com um veterano, e Gonzaguinha era naturalmente o novo. Ainda não era um cantor popular de sucesso no rádio, pois isso só viria a acontecer no início da década de 1980, e ainda tinha em torno de si a aura de maldito, pelo seu temperamento meio mal humorado. Quem o conhecia mais de perto não concordava com essa fama, mas ele mesmo tempos depois reconheceu que tinha um temperamento difícil. Eram tempos espinhosos mesmo.
A essa altura Gonzaguinha estava lançando o belíssimo disco “Recado”, e o repertório do show tinha muitas canções desse disco. Mas lá estavam outras joias como “É preciso”, canção psicanalítica na qual ele passa em revista sua relação com seus pais adotivos. Canção delicada e profunda cantada sem acompanhamento, o que potencializa sua carga dramática. E também estava lá uma singela canção chamada “Revista do rádio”, cujo sentido original era só de falar sobre o desejo de se realizar eleições para a rainha do rádio, evento que nos tempos áureos mobilizava muitos fãs das divas cantantes. Acontece que naquele momento de ditadura a simples menção da palavra eleição trazia em si um componente político muito forte. Era, como se dizia no jargão dos milicos, um ato de subversão explícita. Quando Marlene canta os versos “bons tempos aqueles / em que a gente votava... / na rainha do rádio”, no fundo, Gonzaguinha com uma voz debochada pergunta: “votava nega?”, ou em outro momento em que ele canta “Pra frente Brasil” de Miguel Gustavo em um andamento fúnebre. Os mais novos podem não entender, mas essas ironias já poderia ser caso para enquadrar o espetáculo na famigerada Lei de Segurança Nacional. Que tempos eram esses...
Muito haveria para se falar desse espetáculo e de outros ali contidos, mas sugiro que o próprio leitor dirija-se ao site da Funarte e esmiúce as preciosidades ali contidas. Faça isso leitor, e garanto que não vai se arrepender. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

ROBERT CRUMB E A MÚSICA

         

     O sujeito que atende pelo nome que dá título a coluna deste mês é um dos mais festejados artistas da cena underground estadunidense. Nascido na Filadélfia, em 1943, e há 20 anos morando na França, ele afirma que tem vergonha de ter nascido no país em que nasceu por tratar-se de um país fascista e absolutamente nefasto. A contundência de suas opiniões só reforça a imagem criada em seu entorno a partir de sua obra como artista gráfico e criador de histórias em quadrinhos.
            Em 1993 Crumb juntou todas as histórias que tinha criado sobre música, capas de discos e cartazes e publicou numa edição intitulada Robert Crumb draws the blues, edição esta que foi publicada no Brasil em 2004 e reeditada em 2010 com o simples título “blues”, pela Conrad Editora. Nela o cartunista faz um verdadeiro tributo à música da década de 1920 e 1930, notadamente os blues rurais cantados por negros. Aliás, ele não só faz declarações de amor à música dessa época, como deplora com toda sua força tudo, ou melhor, quase tudo que foi feito depois. Certa feita ele declarou ao crítico Gary Groth: “eu odeio Frank Sinatra!”, e acrescentou que “é repulsivo o sentimento dos anos 1950 e 1960 que exalta esse estilo gângster-sofisticado de vida”.
            Crumb era colecionador de discos folk e de blues feitos numa época em que o papel da indústria de entretenimento, segundo ele, ainda não determinava padrões, modas e gostos como veio depois a fazer. Nesse sentido ele se irmana com as críticas feitas pelo filósofo alemão Theodor Adorno, que morou nos Estados Unidos na década de 1940, para quem a burocratização da produção cultural levaria essa esfera a uma condição de tal modo padronizada que pouco ou nada escaparia que pudesse ser chamada legitimamente de arte.  Mas voltando ao cartunista da Filadélfia, ele conta em uma das histórias contidas na edição citada, sua própria aventura na década de 1970, ao ir à procura dos discos antigos, dos fundadores da alma musical americana, como ele mesmo diz. Esses discos, naturalmente não eram fáceis de encontrar, uma vez que muitas das pequenas gravadoras que os produziam tinham sido extintas ou sido incorporadas por gravadoras de grande porte.
            O que Crumb queria encontrar eram aquelas primeiras gravações feitas ainda na década de vinte pelas tais gravadoras que estavam realizando experiências com artistas rurais absolutamente desconhecidos, o blues primitivo, como ele dizia. O momento era auspicioso, pois estavam na década que precedeu o grande crash da economia dos EUA, e as coisas ainda estavam muito bem. Por muito pouco dinheiro os agentes das gravadoras selecionavam os bluesman das zonas rurais e improvisavam um estúdio ali mesmo no hotelzinho da cidade. O cantor se acompanhava ao violão e cantava voltado para a parede com o objetivo de melhorar a condição acústica. Gravações precárias, sem dúvida, mas suficiente para alimentar um mercado em crescimento. A viagem que ele fez valeu não só pelas aquisições, mas porque também o colocou em contato com os fundadores da alma musical do seu país. O sul profundo, como se dizia.
            No que diz respeito à música, Crumb não era só pesquisador e melômano. Ele também botava a mão na massa. Ainda na década de 1970 fundou uma banda que tinha como repertório justamente a sua paixão musical: os bons e velhos blues e countries das primeiras gravações da sua década de ouro. A banda se chamava Cheap suit serenaders e chegou a gravar alguns discos. Crumb tocava banjo e violão, e uma curiosidade é que nas gravações apareciam alguns instrumentos atípicos tais como apitos de caçar patos e o serrote musical.
Não obstante sua ojeriza pela cultura musical contemporânea do seu país, Crumb colaborou com alguns artistas da cena pop. Ele foi amigo da Janis Joplin e pra ela fez a capa do legendário lp cheap thrills, e as letras do título de um outro:  I Got Dem OI’ Kozmic Blues Again Mama! São letras como que elétricas para expressar a “pegada” da rainha branca do Blues.           
Crumb ouvia e lia muito sobre a música dos anos 1920. Uma coisa que ele descobriu é que em Chicago, por exemplo, havia grupos conservadores muito atuantes que viam os salões como um antro de iniquidade no qual se cultivavam os piores valores. Daí, segue que esses grupos agiam como fiscais da moralidade pública indo aos tais “antros” e observando o comportamento da plebe e relatando o mesmo à prefeitura local. Os músicos e arranjadores ao perceber que ao tocar os blues mais lentos os casais tendiam a se agarrar mais, e que isso gerava relatórios muito ácidos dos moralistas, começaram, como estratégia, a tocar cada vez mais músicas mais rápidas. Isso fez com que esse tipo de música mais cadenciada começasse a cair no esquecimento. Mas mesmo essa estratégia não impediu que muitos clubes fossem sumariamente fechados, colaborando para que a música dessa década sucumbisse ante as avalanches industriais da novas modas musicais.
Há ainda muitas outras histórias deliciosas envolvendo grandes figuras do blues e do jazz como o caso do Bluesman Charlie Patton e de um dos pioneiros do jazz, Jelly Roll Morton. Este último, morto aos 36 anos, é considerado um dos inventores do Jazz. Crumb se baseou numa entrevista dada por Morton ao etnomusicólogo Alan Lomax, na qual o jazzista afirma ter sido vítima de magia negra. Enfim... um pouco da cultura pop estadunidense do século XX desfila através das histórias desse genial Robert Crumb, na visão particularíssima desse autor controvertido e genial.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Letra da paródia "Quem dá mais?"

Atendendo à solicitação do amigo Nilton Maia transcrevo abaixo a letra da paródia do samba "Quem dá mais?" de Noel Rosa postada abaixo:


Quem dá mais
(Noel Rosa, psicografado por A. A. Fontes e Ricardo Moreno)

Quem dá mais?
Por uma floresta que é cobiçada
Uma linda amazona toda enfeitada
De verde e amarelo tão linda e formosa
Tão cheia de vida florida e generosa
Cinco reais? Cinquenta reais? Quinhentos reais?
Ninguém dá mais... A Silvério dos Reis
Aceito em moeda podre ou bichada
Ou qualquer marmelada
Ainda leva de quebra uma mamata
Quem dá mais??

Por uma mineira tão rica e faceira
Com um belo dote, não é brincadeira
Um vale dourado um rio de prata
Entrego barato com uma bela cascata
Vinte reais? Vinte e um e cinquenta? Quinhentos reais?
Ninguém dá mais, de trinta reais...
Quem arremata o lote não é plebeu
Quem garante sou eu
Pra vendê-lo pelo dobro entre os seus
Quem dá mais???

Por um deputado que veio do Acre
Tão necessitado de uns poucos trocados
Votou no plenário a favor do reinado
Deu continuidade ao que foi planejado
Quem dá mais? Quem é que dá mais?
De um conto de reis
(quem dá mais? quem dá mais?)
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três...
Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
Quem em três lotes
Vendeu o Brasil inteiro
Quem dá mais???

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MELÔ DA PRIVATARIA TUCANA


  Em 1997, mais ou menos, em pleno processo de privatização do governo FHC, um amigo, como eu muito indignado com tudo aquilo que estava acontecendo, me propôs fazermos uma paródia de um samba de Noel Rosa. O samba já trazia em seu título a "deixa" para nosso tema: "quem dá mais?". No original Noel fazia como que leilão irônico de alguns itens. Mas no final da letra ele perguntava: "quanto é que vai ganhar o leiloeiro / que é também brasileiro / que em três lotes vendeu o Brasil inteiro... quem dá mais??" Esta indagação soa ou não soa profética? 
  Bom, o fato é que fizemos a paródia e a gravamos. Agora, com as bombásticas informações trazidas a baila no livro "privataria tucana", resolvemos dar-lhe um aporte visual e disponibiliza-la no youtube. A gravação é caseira, e portanto feita com poucos recursos técnicos. Tivemos a ocasião, quando do lançamento do livro no Rio de Janeiro, de entregar uma cópia dessa montagem ao próprio autor, Amaury Ribeiro Jr. Esperamos que gostem...




Quem dá mais
(Noel Rosa, psicografado por A. A. Fontes e Ricardo Moreno)

Quem dá mais?
Por uma floresta que é cobiçada
Uma linda amazona toda enfeitada
De verde e amarelo tão linda e formosa
Tão cheia de vida florida e generosa
Cinco reais? Cinquenta reais? Quinhentos reais?
Ninguém dá mais... A Silvério dos Reis
Aceito em moeda podre ou bichada
Ou qualquer marmelada
Ainda leva de quebra uma mamata
Quem dá mais??

Por uma mineira tão rica e faceira
Com um belo dote, não é brincadeira
Um vale dourado um rio de prata
Entrego barato com uma bela cascata
Vinte reais? Vinte e um e cinquenta? Quinhentos reais?
Ninguém dá mais, de trinta reais...
Quem arremata o lote não é plebeu
Quem garante sou eu
Pra vendê-lo pelo dobro entre os seus
Quem dá mais???

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ladrão de galinhas ou: o livre mercado mundial

Ladrão de galinhas 
por Luís Fernando Veríssimo

Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia. 
   - Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia! 
   - Não era para mim não. Era para vender. 
   - Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha! 
   - Mas eu vendia mais caro. 
   - Mais caro? 
   - Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons. 
   - Mas eram as mesmas galinhas, safado. 
   - Os ovos das minhas eu pintava. 
   - Que grande pilantra... 
   Mas já havia um certo respeito no tom do delegado. 
   - Ainda bem que tu vais preso. Se o dono do galinheiro te pega... 
   - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Eu me comprometi a não espalhar mais boatos sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio. 
   - E o que você faz com o lucro do seu negócio? 
   - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços. 
   O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira  estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou: 
   - Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário? 
   - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior. 
   - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinha? 
   - Às vezes. Sabe como é. 
   - Não sei não, excelência. Explique-me. 
   - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa  proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova. 
   - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não. 
   - Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro! 
   - Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SÉRGIO RICARDO, UM GUERREIRO DA CULTURA BRASILEIRA


Por Ricardo Moreno

Acredito que todo mundo que escreve sente no íntimo uma curiosidade sobre quem é e como reage seu leitor ante o texto seu. Imagino que isso aconteça tanto com escritores consagrados quanto com simples rascunhadores de notas musicais como este que vos escreve. A curiosidade se desfaz um pouco quando algum leitor sai de sua condição silenciosa e vem para uma área que o torna visível para o escritor. Vez em quando isso acontece, e aconteceu recentemente com o e-mail que recebi do arguto leitor Nilton Maia que me sugeriu que tratasse nessa coluna de um dos grandes nomes da nossa música: Sérgio Ricardo.
            Meu primeiro encontro com Sérgio Ricardo foi numa calçada em Recife, lá pelos idos de 1981. Não exatamente com o homem Sérgio Ricardo, mas com sua obra. Tratava-se de um LP exposto à venda, e nesse tempo eu era ávido frequentador de sebos – na verdade ainda sou –. Estava eu e um amigo, o Haroldo, e foi este na verdade quem adquiriu a preciosidade. Fiquei tão empolgado na volta pra casa lendo os textos que acompanhavam o disco que ele resolveu me presentear. Tratava-se do LP (que até hoje possuo) sem nome de 1973. Em pleno (des) governo da ditadura Médici, Sérgio cantava logo na primeira faixa com sua voz de tiro certeiro: “olho aberto ouvido atento e a cabeça no lugar / do canto da boca escorre metade do meu cantar / eis o lixo do meu canto que é permitido escutar / fala / olha o vazio nas almas olha um violeiro de alma vazia...” e nessa batida seguiam os versos cortantes de mal-dizer endereçados aos que se julgavam donos de tudo.
            Há nesse disco uma inesperada parceria com Glauber Rocha, na faixa “Antonio das Mortes”. A canção foi criada para um personagem do filme Deus e o Diabo na terra do sol, de 1964, e contém versos que Glauber recolheu no sertão nordestino: “Se entrega Corisco / eu não me entrego não / não me entrego ao tenente / não me entrego ao capitão / só me entrego na morte / de parabelo na mão”. O disco é todo composto, com exceção dessa faixa com Glauber, por Sérgio Ricardo, e isso de certa forma aponta para uma característica sua. Nunca esteve definitivamente ligado a grupos. Esteve na bossa-nova, fez música de protesto, se aproximou da musicalidade nordestina através de Glauber, mas manteve-se numa trilha individual sempre a parte.
            Sérgio tem uma carreira artística que pode, sem chance de erro, ser chamada de plural. Fez cinema (premiado inclusive); cantou em boate, ainda com o nome de batismo João Mansur Lufti; foi ator de novela, despertando suspiro como um verdadeiro galã; fez trilhas sonoras para filmes; enveredou com sucesso pelas artes plásticas e participou dos memoráveis e importantes festivais da década de 1960. Em 1967, por exemplo, protagonizou aquela cena que se tornou histórica para todo o sempre, quando impedido pelas vaias do público de cantar a sua música “Beto bom de bola”, quebrou seu violão e o atirou no público.
Respondendo recentemente sobre esse acontecimento no documentário “Uma noite em 67”, Sérgio afirmou com toda simplicidade que jamais faria aquilo de novo. Foi apenas um ato impensado. Recorre à psicologia para dizer que se tratou naquele momento de um animal acuado, que no desespero do apuro partiu para a agressão. Curioso que a música que ganhou o primeiro lugar neste festival, a canção “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam dizia no refrão, quase que dialogando com Sérgio: “quem me dera agora eu tivesse uma viola pra cantar...”. Que ironia! E mais uma curiosidade, já de cunho psicanalítico, sobre esse ocorrido insólito é uma história que dá conta que o pai de Sérgio, Abdala Lufti, certa feita quebrou seu alaúde, que ele tocava amadoristicamente, por conta de que toda vez que ele tocava recebia uma notícia de morte de sua terra natal, o Líbano.
A bossa-nova foi a porta de entrada para que Sérgio Ricardo pudesse desenvolver seu potencial criador. Foi quando veio ao Rio de Janeiro (Sérgio é paulista de Marília) ainda na década de 1950 que ele, tocando em boates na noite em Copacabana, fez contato com Tom Jobim, João Gilberto e outros integrantes do movimento carioca, o que acabou possibilitando que a cantora Maysa fizesse a gravação de sua canção “Buquê de Isabel”. Nesta canção já se percebe um veio que o autor cultivou durante toda sua carreira: a preocupação com o sofrimento do outro. Com o passar do tempo essa perspectiva iria se desenvolver e se politizar de modo que ainda no início da década de 1960 Sérgio parte para uma linha composicional e até mesmo existencial cuja pesquisa musical situava-se numa perspectiva mais popular, buscando no universo sonoro do povo elementos a serem utilizados na sua obra. Nesse sentido ele se aproxima do ideário estético-musical do CPC – Centro Popular de Cultura, e se aproxima de Chico de Assis, um dos fundadores do movimento. Dessa forma, Sérgio torna-se, como ele mesmo diz, um dissidente do movimento bossanovista e abandona “os valores pequeno-burgueses de Ipanema e aquele negócio de muito sorriso, amor e flor”.
Em 2008 saiu pela gravadora biscoito fino o cd “Ponto de partida”, no qual ele regravou composições feitas em quase 60 anos de carreira. A regravação atendeu a critérios de re-elaboração na qual atuam um time de músicos jovens de excelente nível, que criaram um ambiente harmônico e timbrístico muito interessante. Em 2012 este artista multifacetado completará 80 anos, e quem pensa que ele está planejando se aposentar está completamente enganado. Muitas comemorações estão sendo programadas para este octogenário militante de boa cepa. Salve Sérgio!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Los sabios de Córdoba


  O artigo abaixo fala sobre um belo doumentário, cujo trailer postei em seguida, que trata de uns momentos mais interessantes no que diz respeito a colaborações culturais entre ocidente e oriente. Se hoje é lugar comum falar de "choque de civilizações" como um processo inevitável o documentário mostra como já aconteceu de haver o oposto. Talvez essa ideia de conflito exponha as vísceras de um processo racionalista que por sua vez vem a ser a pedra angular da modernidade ocidental.
 Esse tema já foi explorado num belíssimo filme chamdo "O destino", ou Al massir, que retrata a corte de Averroes e mostra um pouco da Espanha um pouco antes da explusão dos muçulmanos. Este é um tema pra refletir...

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Texto do sítio ICArabe inspirado no intelectual palestino Edward Said


  Morador de Nova York, o documentarista Jacob Bender presenciou os atentados de 11 de setembro de 2001. Após o impacto inicial, passou a refletir sobre as políticas de segurança adotadas pelos Estados Unidos, baseadas em teses como a do choque de civilizações entre Ocidente e Oriente, que inviabilizaria a convivência entre povos de diversas origens e religiões.
    O questionamento dessa impossibilidade é o ponto de partida da jornada empreendida por Bender, que se apoia em duas figuras importantíssimas do pensamento tanto do Ocidente como do Oriente, os filósofos Averroes e Maimônides, para retornar à Espanha medieval, onde judeus, muçulmanos e cristãos coexistiam pacificamente.
    Na Andaluzia, sua primeira parada, Bender constata, com a ajuda dos dois “sábios de Córdoba”, que a cultura árabe está no coração da cultura ocidental. O período em que essa região esteve sob domínio árabe foi de florescimento das ciências e da criatividade de forma geral, enquanto o resto da Europa estava mergulhada na privação de conhecimento que caracterizou a Idade Média.
    As obras de Aristóteles, por exemplo foram redescobertas pelos estudiosos árabes que viviam em Al Andalus. Averroes, muçulmano e de origem árabe, fez comentários importantíssimos sobre seus escritos, sendo um dos responsáveis pelo diálogo de Al Andalus com a Grécia Clássica. Já Maimônides, de origem judaica, estudou medicina e relacionou a ciência com suas atividades religiosas, rejeitando qualquer forma de dogmatismo. Ambos nasceram em Córdoba e tiveram de deixar a cidade após a expulsão dos árabes pelos cristãos.
    Bender segue os passos dos filósofos por Marrocos e Egito, além de visitar locais onde suas obras voltaram a ser estudadas posteriormente, como França e Itália. Em paralelo, o diretor busca elementos que refutam a teoria do choque de civilizações, demonstrando a contemporaneidade do pensamento dos “sábios de Córdoba”, que já se colocavam contra qualquer forma de segregação baseada na religião.
    A jornada do diretor termina com a passagem por Israel e Palestina, onde o documentarista reflete sobre o conflito entre judeus e palestinos, se posicionando contra iniciativas como a construção do muro da Cisjordânia, o estabelecimento de assentamentos irregulares e a derrubada de casas de famílias palestinas.
Ao passar por esses locais, relacioná-los ao conhecimento produzido por Averroes e Maimônides, e entrevistar pessoas que estão utilizando suas tradições religiosas para desafiar as proposições mais conservadoras, Jacob Bender produz um libelo à tolerância religiosa e à convivência pacífi ca entre povos de diferentes origens.

domingo, 18 de dezembro de 2011

“Os índios nunca foram atrasados, eles sempre viveram seu próprio tempo”


Entrevista do professor Carlos Walter Porto Gonçalves
Por Joana Tavares para o jornal "Brasil de Fato"

Brasil de Fato – Por que há tanto desconhecimento no Brasil em relação à América Latina?
Carlos Walter Porto Gonçalves – A história do processo colonial, o fato de o Brasil ter sido colonizado por Portugal e a maioria dos países pela Espanha, implica certas diferenças. Nosso continente foi marcado por presenças coloniais diversas, como a inglesa, francesa, holandesa, e ainda há países que são colônias mesmo hoje, como a Guiana Francesa. Mas não é só isso. Parece que a nossa dificuldade de nos aproximar do resto da América Latina e do Caribe não é uma questão de língua – com certo esforço a gente acaba se entendendo –, mas o processo de independência diferenciado. O Brasil não seguiu a ideia do “inventar ou errar” – uma expressão de Simón Rodríguez – dos outros países, que tentaram inventar um regime republicano, diferente do regime monárquico que reinava nas metrópoles colonizadoras. O Brasil foi o único que fez a independência e se manteve como império, inclusive com uma monarquia, com uma casa real. E achava que por ser uma monarquia era superior às “repúblicas de caudilho” da América Latina, expressão que continua a ser usada hoje pelas elites brasileiras e pela mídia. E de certa forma os países de colonização hispânica são obrigados a conhecer um pouco mais uma história que lhes é comum, haja visto que muitos países surgiram se emancipando de outros, como a Colômbia da Venezuela. A história deles tem que se remeter uma à outra. A história do Brasil em face de nossos vizinhos é mais desconfortável, por ter se apropriado de territórios que, a rigor, eram de outros países. Cabe também falar que a maior parte das elites formadas na América Latina continuou preocupada em se integrar com as elites europeias e dos países imperialistas para continuar exportando seus diversos produtos.

Qual o sentido político do termo “América Latina”?
O termo “América Latina” foi usado pela primeira vez por um poeta colombiano, José María Caicedo, num poema chamado “As duas Américas”, em 1854. Ele usou essa expressão com clara posição de tensão em relação à América anglo- saxônica. Ele estava muito impactado pelo que havia acontecido, numa data que todos nós deveríamos ter sempre em mente: 1845- 1848, que é o período da guerra dos EUA contra o México. Quando os EUA fizeram a independência eram apenas as 13 colônias situadas a leste. Todas as terras do Texas até a Califórnia – com todos aqueles nomes em espanhol – foram tomadas do México. De certa forma, o Caicedo dá continuidade ao que Simón Bolívar tinha percebido nos anos de 1820 em função da posição norte-americana em relação ao Haiti, o primeiro país do mundo a abolir a escravidão. O que faz os Estados Unidos? Junto com a França, faz pressão para que o Haiti pague por cada escravo que tinha se tornado livre, o que faz com que o país fique sufocado em dívidas. E Simón Bolívar, que recebeu armas dos revolucionários haitianos para fazer os processos de libertação da América Latina, percebe que a doutrina de Monroe, “América para os americanos”, era para os americanos do norte, para os estadunidenses. Percebeu isso em 1823 e denunciou imediatamente, convocando uma integração entre os países, entre iguais, não uma integração subordinada. Ele usava a expressão “Pátria Grande”, a América integrada; ele dizia que tínhamos uma “pátria chica” – Brasil, Venezuela etc. – mas também a Pátria Grande. Então, a expressão “América Latina” tem um significado muito forte, porque abriga o caráter anti-imperialista, antagoniza com a América anglo-saxônica. Mas ao lado do seu caráter emancipatório, Caicedo não estava livre de um certo eurocentrismo. A expressão ‘latina’ ignora todo o patrimônio civilizatório que aqui existe e que não é de origem latina, como os quéchuas, os aimarás, os tupiguarinis, os maias.

Qual o papel dos países latinoamericanos no mercado mundial?
A demanda de matérias-primas em países como a China faz com que o Brasil e outros países da América Latina passem por um processo de reprimarização da sua pauta de exportações. E as pessoas estão vendo isso como uma vantagem! Para os capitalistas com visão de curto prazo é bom, porque estão ganhando dinheiro. Na verdade, isso é uma nova fase de um processo que tem 500 anos. Sempre fomos exportadores de produtos primários ou manufaturas. Há um mito de que estamos vivendo um processo de modernização tecnológica, com o agronegócio e seus equipamentos modernos. É um mito porque o Brasil no século 16 já exportava manufaturados, como o açúcar. Nossa história é muito colonizada, contamos a história como os europeus nos contaram. Inclusive europeus que nos são caros, como Marx. Marx conta a história da revolução industrial a partir da Europa, mas as primeiras manufaturas, os engenhos de açúcar, estavam no Brasil, no Haiti, em Cuba. Nós já éramos modernos tecnologicamente, mas uma tecnologia colocada aqui não para nos servir, mas para nos explorar. A rigor, um trator e computador fazendo plantio direto hoje é o equivalente ao que fazíamos no século 16, com tecnologia de ponta. Que ideologia é essa da “modernidade” que achamos que veio para nos salvar? A modernidade sempre nos fez ser o que somos. A gente não consegue se desprender da ideologia eurocêntrica da modernidade e acabamos propondo como solução o que é parte do problema.

O que são os megaprojetos de infraestrutura colocados para o continente hoje?
Há muitos projetos de infraestrutura em curso. Na América Central, há um projeto de integração física, que é o Plano Puebla Panamá, hoje rebatizado como Plano Mesoamérica. E temos a Iirsa, Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana, proposta numa reunião convocada pelo Fernando Henrique Cardoso no ano 2000. É um grande projeto de portos, aeroportos, estradas, uma rede de comunicação, que torna o espaço geográfico mais fluido e diminui o tempo socialmente necessário para a produção. Essas obras estão sendo feitas a partir de uma proposta das elites, feita pelo capital. No caso do Brasil, feitas com a presença muito incisiva do BNDES, que tem mais dinheiro que o Banco Mundial para investir. Esses investimentos já estão trazendo problemas, no Equador, na Bolívia, na Argentina.

O Brasil tem uma postura imperialista em relação aos outros países da América Latina?
A estratégia brasileira não é antagônica com a estratégia norte-americana. A burguesia brasileira sabe manejar muito bem o Estado quando lhe é conveniente. Sabe manejar o BNDES para os seus interesses, usar os recursos. As grandes empresas de engenharia civil do Brasil estão presentes em todos os países da América Latina. O complexo de poder envolvido no agrobusiness é um belíssimo exemplo: é um complexo de aliança política entre as burguesias brasileiras articuladíssimas com a burguesia internacional, que estão se beneficiando dessas estruturas. É uma burguesia associada ao imperialismo americano, mas que tem um projeto próprio ao mesmo tempo. A ideia de subimperialismo de Ruy Mauro Marini me parece correta. A diplomacia brasileira não usa o termo “América Latina”, diz “América do Sul”, quer dizer, está preocupada com a integração física para exportar. Estamos fazendo com nossos povos aquilo que sempre fizemos desde o período colonial.

Como esse projeto impacta as populações indígenas e camponesas?
Quem está se revelando os maiores antagonistas desse projeto são as populações indígenas, camponesas e afro-latino- americanas. Elas que estão sendo expulsas de suas terras. A Iirsa diz claramente que os projetos vão se expandir para áreas de vazios demográficos. A Amazônia não é vazia. Não é à toa que o imperialismo diz que os indígenas são os novos comunistas. São áreas cujas populações historicamente sempre viveram com a Pachamama. Os índios sequer têm um nome para a “natureza”, porque significaria pensar o homem como fora da natureza. A Pachamama não é a natureza, é a origem de tudo, de todas as energias, todos nós fazemos parte dela. Eles não são antropocêntricos, não vivem na matriz da racionalidade que vem da Europa, que hoje é parte da crise. Se há 50 anos as forças hegemônicas podiam passar um trator por cima dessas comunidades, hoje essas populações conseguem se mobilizar e encontram eco para suas denúncias. O próprio capitalismo não sabe o que fazer com essas áreas. Tem um setor novo do capitalismo que é o da biotecnologia, que depende de informação do geoplasma. Para esse capitalismo, a diversidade biológica é um valor, ele se confronta com o capitalismo predador que quer derrubar a mata para entrar com gado na Amazônia. Hoje, o capitalismo tem dentro de si um confronto sobre o que fazer com essas regiões. Nessa brecha de dúvida sobre o modelo que vai imperar, abriu-se um espaço para que as populações indígenas encontrassem uma possibilidade maior de falar. Antes havia um consenso, inclusive entre a esquerda, com raríssimas exceções, que achava que tinha que passar o trator. Era uma noção eurocêntrica de “moderno” e “atraso”. Os índios nunca foram atrasados, eles sempre viveram seu próprio tempo. Para nós é fundamental fazer a crítica não só ao capitalismo, mas à mentalidade colonial, à colonialidade do saber e do poder. A discussão dessas populações que estão sendo atingidas é fundamental. A própria ideia de uma Via Campesina só é possível na medida em que essas populações adquirem uma centralidade muito mais importante nos dias de hoje; o campesinato e aquilo que o Darcy Ribeiro chamava de indigenato, um campesinato etnicamente diferenciado. Estamos vivendo uma crise do capitalismo e ao mesmo tempo uma crise de padrão civilizatório. E, nesse sentido, até setores de esquerda, que embarcaram numa visão desenvolvimentista, não perceberam que na verdade existem múltiplas forças produtivas que se desenvolveram por populações outras. Já havia uma sofisticada metalurgia entre as populações originárias de nuestra América, uma sofi sticada agricultura, arquitetura, como Machu Pichu. Os indígenas, sabe-se lá como, conseguiram preservar muitas das coisas desse período, conseguiram manter sua identidade própria. Esses povos têm algo a nos ensinar. Temos que ter a humildade de ver como, depois de 500 anos, eles ainda resistem com essa força. Eles estão mais vivos do que nunca.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A DÉCADA DE 1930 E A CANÇÃO POPULAR BRASILEIRA


          A música popular do Brasil sempre foi dadivosa no que diz respeito ao aparecimento de personagens importantes para sua história. Este campo talvez só seja igualado em sua abundância de craques, por outro campo também pródigo: o futebol.  A década de 1960, por exemplo, fez surgir uma quantidade espantosa de compositores, músicos e cantores que se tornaram como que canônicos no campo. Mas antes dessa geração valorosa sessentista, uma outra foi também, e primeiramente, chamada de “era de ouro da música popular brasileira”: a década de 1930.
Ela ganhou essa alcunha, digamos assim, por conta de ver florescer uma geração que para sempre ficou marcada no imaginário musical brasileiro. Surgiram nesse período compositores tais como Noel Rosa, Assis Valente, Dorival Caymmi (surgido no final da década) e Wilson Batista associados com intérpretes como Francisco Alves; Orlando Silva e Mário Reis. Este último considerado como um dos cantores que influenciaram João Gilberto na criação de um jeito diferente de cantar, que seria a marca da bossa-nova no final da década de 1950. 
            Não foram poucos os sucessos que permaneceram para sempre no repertório do cancioneiro nacional: carinhoso, de Pixinguinha; com que roupa, de Noel Rosa; Camisa listrada e boas festas, de Assis Valente, esta última vindo a se tornar um verdadeiro hino do natal brasileiro gravada na ocasião pelo estreante Carlos Galhardo (“anoiteceu / o sino gemeu / e a gente ficou / feliz a rezar / Papai Noel...). A lista dos sucessos é grande e tomaríamos o espaço desse artigo se tentássemos nos referir a todas. 
            Mas, como bem gosta de assinalar os historiadores, toda essa movimentação artística e musical não poderia ter se dado no vazio. Transformações políticas e tecnológicas estavam ocorrendo e dando combustível para o surgimento e proliferação da canção popular, e em particular o samba. Em 1922 começam as atividades do rádio no Brasil, e na década seguinte ele já era um meio de entretenimento e informação amplamente popular no país. Começa então a consagração de ídolos nacionais e canções que vão ser conhecidas por todo o Brasil. A rádio nacional, no fim da década de 1930 foi importante para a construção de um imaginário nacional, e foi também ela responsável em grande medida pela transformação do samba como gênero nacional. A ambição de construir uma identidade nacional, que já era uma ambição das elites brasileiras desde o século XIX, vai ganhar grande impulso com o projeto identitário brasileiro levado a cabo pelo governo Vargas. Foi na noite de 10 de novembro de 1937 que Getúlio em sua “proclamação ao povo brasileiro”, em gesto simbólico, queima as bandeiras regionais por considerá-las uma ameaça a unidade nacional. Esse ato foi transmitido para todo país através das ondas do rádio.
            Um pouco depois da criação do rádio no Brasil, outro fator foi de suma importância para a propagação da canção popular e em particular do samba: o início das gravações elétricas, em 1926, em substituição ao antigo sistema mecânico. Se no antigo sistema mecânico se destacava a Casa Edison, como empresa ligada a gravação dos discos, na nova plataforma tecnológica surgem várias empresas multinacionais interessadas no novo empreendimento: Odeon, Victor, Columbia e outras. O mercado de discos torna-se promissor ainda mais pelo processo de modernização pelo qual passava o país, com a concomitante criação de uma classe média urbana, a qual seria a primeira a adquirir esses novos produtos, que não obstante estavam destinados a se popularizar cada vez mais.
 Há também nesse período, segundo alguns pesquisadores como o professor e musicólogo Carlos Sandroni, uma transformação do samba fazendo com que este se “livrasse” de suas raízes ligadas ao maxixe e se tornasse o que veio a se tornar posteriormente. Ele atribui essa transformação a um grupo de sambistas cariocas do bairro do Estácio, dentre eles Ismael Silva. A professora Walnice Nogueira Galvão, no prefácio do livro de Sandroni, conta que Donga, representante da primeira geração de sambistas teria dito que Ismael não compunha sambas e sim marchas, e em resposta Ismael teria dito que Donga não fazia samba e sim maxixe. Curioso assinalar que tanto as elaborações da primeira geração, que se deu predominantemente nas casas das famosas tias baianas na Praça onze, quanto à da segunda geração, no início da década de 1930 no bairro do Estácio, se deram num espaço geográfico batizado por Heitor dos Prazeres como “pequena África do Rio de Janeiro”.
            Polêmicas a parte, fato é que a década de 1930 foi um divisor de águas na história dessa venerável senhora chamada Música Popular Brasileira.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um Nobel de Economia explica Occupy Wall Street

    Um Nobel de Economia explica Occupy Wall Street
    Por Joseph Stiglitz | Tradução: Antonio Martins 

    O movimento de protesto que começou na Tunísia em janeiro e se espalhou em seguida para o Egito e a Espanha tornou-se agora global. Os protestos abraçaram Wall Street e dezenas de cidades nos Estados Unidos. A globalização e as novas tecnologias permitem aos movimentos sociais vencer fronteiras tão rapidamente quanto as ideias. E os protestos sociais encontraram terreno fértil em toda a parte. Um sentimento de que? o sistema? faliu, e a convicção de que, mesmo nas democracias, o processo eleitoral não é suficiente ? ao menos, sem forte pressão das ruas. Em maio, estive no local onde se deram protestos, na Tunísia. Em julho, falei para os indignados da Espanha. De lá, fou ao Cairo, encontrar os jovens revolucionários na Praça Tahrir. Há algumas semanas, falei com o pessoal do Occupy Wall Street, em Nova York. Uma frase simples, criada por eles, expressa um pensamento comum: ?Somos 99%?. 
    O slogan ecoa no título de um artigo que recentemente publiquei: ?Do 1%, para o 1% e pelo 1%?. Ele descreve o enorme aumento de desigualdade nos Estados Unidos, onde 1% da população controla mais de 40% da riqueza e recebe mais de 20% da renda. E os que pertencem a este grupo rarefeito são frequentemente remunerados, de forma extravagante, não por terem contribuído para a sociedade, mas porque são, para dizer de forma franca, bem-sucedidos (e às vezes corruptos) caçadores de rendas alheias.
    Esta afirmação não nega que alguns entre o 1% tenha feito contribuições importantes à sociedade. Na verdade, os benefícios sociais de algumas inovações reais (ao contrário dos ?produtos? financeiros que acabaram desencadeando destruição na economia mundial) são bem maiores do que aquilo que os inovadores recebem. 

Mas, em todo o mundo, influência política e práticas de oligopólio (frequentemente garantidas por meio da política) foram centrais para o aumento da desigualdade econômica. E os sistemas tributários nos quais um bilionário como Warren Buffett paga percentualmente menos impostos que sua secretária ? ou em que os especuladores que ajudaram a derrubar a economia global são menos tributários do que os trabalhadores ? reforçaram a tendência. 
     Pesquisas recentes mostram como as noções de justiça são importantes e estão arraigadas entre os participantes dos protestos na Espanha. Eles, e seus colegas de outros países, têm razão de estar indignados. Este é um sistema no qual os banqueiros são resgatados, enquanto suas vítimas são obrigadas a lutar pela sobrevivência. Pior: os banqueiros estão de volta a seus gabinetes, recebendo bônus anuais superiores ao que a maioria dos trabalhadores espera ganhar durante toda a vida, enquanto jovens que estudaram muito e seguiram as regras do jogo não veem perspectivas de um emprego decente. 
      O aumento da desigualdade é produto de uma espiral viciosa. Os rentistas usam seus recursos para criar leis que protejam e ampliem sua riqueza ? e sua influência. A Suprema Corte dos Estados Unidos, deu às corporações, numa decisão que se tornou conhecida como Citizens United, rédea solta para usar dinheiro e influenciar os rumos da política. Mas enquanto os ricos podem usar seu dinheiro para ampliar o alcance de seus pontos de vista, a polícia não permitiu que eu usasse um megafone para me dirigir aos manifestantes do Occupy Wall Street. O contraste entre a democracia ultra-controlada e os banqueiros livres de regulação não passou despercebido. Mas os manifestantes são engenhosos. Eles ecoavam o que eu dizia entre a multidão, para que todos pudessem ouvir. E, para evitar que o diálogo fosse interrompido por palmas, usavam sinais de mão, quando queriam expressar concordância. 
  Eles estão certos ao dizer que há algo errado com nosso sistema?. Em todo o mundo, temos recursos desaproveitados ? gente que quer trabalhar, máquinas paradas, edifícios vazios? e imensas necessidades não realizadas: luta contra a pobreza, promoção do desenvolvimento e reorganização da economia para enfrentar o aquecimento global, apenas para citar algumas. Nos Estados Unidos, depois de mais de 7 milhões de despejos, nos últimos anos, temos casas vazias e gente sem casas. 
    Os manifestantes têm sido criticados por não terem uma agenda. Mas esta crítica não compreende o sentido dos movimentos. Eles expressam frustração com o processo eleitoral. Eles são um alarme. 
  Em 1999, os protestos em Seattle, durante o que seria o início de uma nova rodada de negociações comerciais, chamaram atenção para as falhas da globalização e das instituições e acordos que a governam. Quando a imprensa examinou as alegações dos manifestantes, descobriu que havia verdade nelas. As negociações comerciais que se seguiram foram diferentes ? ao menos, em princípio. Elas deveriam levar a uma Rodada de Desenvolvimento, para enfrentar algumas das deficiências sublinhadas pelos protestos. O Fundo Monetário Internacional foi submetido, mais tarde, a reformas significativas. Também os manifestantes pelos direitos civis nos Estados Unidos chamaram atenção, nos anos 1960, para o racismo institucionalizado na sociedade norte-americana. Os traços do racismo não foram superados, mas a eleição do presidente Barack Obama mostra quanto estes protestos mudaram os Estados Unidos. 
      Num certo sentido, os manifestantes de agora pedem pouco: uma chance para usar seus talentos e habilidades. O direito a trabalho com salário decente. Uma economia e sociedade mais justas. Seu desejo é de evolução, não de revolução. Mas num outro plano, eles estão lutando por algo grande: uma democracia em que as pessoas, e não os dólares, falem mais alto; e uma economia de mercado que entregue o que promete. 
    Ambas reivindicações estão ligadas. Como vimos, mercados sem regulação conduzem a crises econômicos e políticas. Os mercados funcionam de forma apropriada apenas quando enquadrados por regulações apropriadas, definidas por governos. E estas regulações só podem ser estabelecidas numa democracia que reflita o interesse comum, não o interesse do 1%. O melhor governo que o dinheiro possa comprar já não é suficiente

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

DE PALÍNDROMOS E CANÇÕES



          Em um verso inesquecível da música popular brasileira, na canção “Clube da esquina nº2”, o letrista Márcio Borges diz que “de tudo se faz canção”. E é mesmo! Nada que é humano escapa aos cronistas e letristas de nossa MPB. Talvez tenhamos apenas que lamentar o fato de não haver um maior número de experimentações de temas e formas para se compor letras de canções em tempos mais recentes. É claro, por outro lado, que muito se fez nesse sentido e podemos contar em nosso cancioneiro com um repertório de temas muito variados. Alguns até diriam, fazendo eco ao vulgo, que estou chorando de barriga cheia... Pode ser!
            Mas de toda essa trama de assuntos que inspiram os nossos artesãos da palavra cantada, uma me chama atenção para esta breve nota/comentário: é a canção “Relp” de José Miguel Wisnik. Nela o autor, um experimentado nas lides literárias, pois é professor de Literatura na USP, escritor e ensaísta de mancheia, constrói um ambiente um tanto fantástico – como o de “Alice no país das maravilhas” –. Ambiente labiríntico e enigmático no qual as palavras refletidas ganham novo colorido e se espraiam tal qual um cristal a refratar sentidos. Tudo isso em uma atmosfera infantil, ou, para ser mais preciso, infanto-juvenil.
            Esta situação “espelhar” ou refletida para a qual a canção nos remete é elaborada primeiramente com o recurso do palíndromo, que para quem não conhece, é uma construção escrita na qual a leitura da esquerda para a direita, que é a nossa forma normal de leitura, se iguala a leitura feita da direita para a esquerda. A palavra “arara” é um bom exemplo. Só que um bom palíndromo é feito com frases, e para além da brincadeira e do jogo “espelhado”, ele também tem, quando bem feito, uma carga de deslocamento de sentido muito interessante.
            No início da canção, na gravação feita pelo próprio Wisnik, Jussara Silveira e Arnaldo Antunes, este último, com sua inconfundível voz grave nos diz o primeiro dos palíndromos que vão se desdobrar durante a canção: “lá vou eu em meu eu oval”. Ressoa bastante psicodélico, não? O que seria um eu oval?  A frase é dita sem nenhum acompanhamento instrumental, a título de introdução mesmo, como que para nos situar dentro da atmosfera onírica a qual a canção irá em breve nos conduzir.  Em seguida instaura-se o ambiente “Alice nos país das maravilhas” quando ele diz: “a menina olha no espelho pelo ralo e diz oi rato otário, que que tu faz aí?” (colocarei em negrito os palíndromos do versos). Mas quem responde não é o rato e sim a própria voz da menina que na condição de eco, e olha aí a situação “espelhar” de novo, diz “eco vejo hoje você.
            A canção segue desvelando a situação psicológica da menina: “a menina fica assim, meio assim, quer ser cor e ser ocres”. E “num repente começa a sussurrar a rezar, uma reza que mais parece um rap / um help pro céu um salmo / ó mãe tu era réu te amo / ó mãe tu era réu te amo”. Aqui o clima deriva para uma situação psicanalítica, ou então, como disse o próprio Wisnik, para um tema do escritor russo Dostoievski. A nossa “Alice” fica ali, “rindo e polindo / o que parece ter dentro e fora de si / ou então construindo um lindo palíndromo (e aqui a canção torna-se auto-referente) / outro tesouro de ouro e marfim / que mima a mina e anima a mim / num breque sem fim (e aqui “breque” poderia ser uma referência consciente ou inconsciente ao pintor cubista Georges Braque) / de um samba tão velho que bate no espelho e se vê no cristal / ela faz o seu e o meu carnaval cantando assim: só dote e dádiva é a vida de todos... o ambiente agora se abre para um gozo dionisíaco no qual o coletivo “todos” é indício de uma totalidade que exercita o pleno direito ao prazer e a um gozo comunal proporcionado pelo carnaval, festa do des-limite e do prazer orgiástico.
            A canção palíndromo de José Miguel Wisnik, como é próprio da linguagem dos grandes poetas, pode ser explorada e tateada milimetricamente até nos cansarmos de encontrar nela os múltiplos sentidos de sua polissemia. E, como disse o próprio Wisnik comentando as relações entre canção popular e literatura no Brasil: “isso não é pouca coisa”.

Os. Os palíndromos contidos na canção foram construídos pela filha do compositor, cujo nome no momento me escapa.

domingo, 30 de outubro de 2011

Tem aldeia no hip hop


Cristiano Navarro, de Dourados (MS)
Para o Jornal Brasil de Fato


  Na apresentação de um trabalho de escola sobre meio ambiente, Bruno começou a rimar. No ano de 2005, o improviso com as palavras era apenas uma brincadeira que o aluno Guarani Kaiowá da escola Araporã, da terra indígena de Dourados, gostava de fazer com seus colegas no recreio. Hoje Bruno é o líder do Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena no Brasil a lançar um disco.
E o que canta o Brô MC’s? Segundo eles mesmos, canta rap com compromisso. “A gente canta nossa realidade, porque a mentira não cola com a nossa cara”, afirma Bruno.
Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena no Brasil a lançar um disco
Com mais de 11 mil pessoas vivendo em 3,5 mil hectares, a reserva indígena de Dourados está longe da imagem idílica de uma aldeia espaçosa de natureza exuberante e muito próxima da realidade das favelas das grandes cidades. Consumo de drogas, trabalho infantil e altos índices assassinatos estão presentes no cotidiano dos jovens do Brô. E no entorno de sua aldeia, a restrição do acesso aos seus territórios, o preconceito e o racismo da sociedade envolvente. “A gente tenta mostrar a verdade do que a acontece na aldeia, na nossa comunidade. O pessoal da aldeia quando vai para a cidade sofre muito preconceito, os lugares que fecham a porta na cara dos índios. Isso a gente coloca no rap. Na verdade o rap já um protesto” explica Clemerson, irmão de Bruno.
Mas o caminho até o primeiro disco demo foi longo. Os irmãos Clemerson e Bruno iniciaram sua carreira artística descobertos durante as gravações do filme Terra vermelha, do diretor Marco Bechis, sobre a luta pela reconquista do território, quando compuseram a primeira letra “Saudação da Aldeia”. Mais tarde, em parceria com o grupo Fase Terminal, a música recebeu uma base e outro nome, “Yankee No”. “A música era um canto que o pajé do Panambizinho fazia nas gravações do filme. Daí, eu vi e modifiquei pra levada do rap”, conta Bruno.


Capaz em tudo”
Em seguida ao filme, uma oficina de hip hop organizada pela Central Única de Favelas (Cufa) aproximou outros dois irmãos, Kelvin e Charlie. Assim os quatro formaram o primeiro grupo de rap indígena brasileiro. Ao final da série de oficinas os rappers gravaram um disco demo em cima de bases de outras músicas.
No início da gravação do CD os caciques passaram a criticá-los. “Diziam que esse não era o nosso futuro. Meu avô, que é cacique, veio me perguntar por que a gente gravou isso. Foi aí que eu peguei um CD e falei ‘senta aqui que eu vou mostrar pra você. Presta a atenção nas letras. O que tá falando é coisa da nossa realidade, da nossa cultura’. E depois eu mostrei para todas as lideranças da região e mostrei a música e a letra. Numa reunião onde estavam todas as lideranças eles falaram: ‘está certo é isso mesmo que acontece’”, relata Clemerson. “Os mais velhos entenderam e sabem que a gente tem que mostrar que o índio é capaz em tudo. E pode ser professor, agente de saúde, advogado ou cantor de rap. E que nosso povo não é só isso ou aquilo, a gente é o que pode fazer a diferença”, completa o irmão.
Higor Lobo, do grupo Fase Terminal e membro do Cufa, que produziu o disco da banda, conta que a formação feita na aldeia não se dedicou apenas ao aprendizado das “técnicas” do rap, mas também à leitura crítica da realidade. Hoje, o produtor, que também é geógrafo e militante do movimento hip hop desde 1995, percebe “uma formação crítica consistente nas letras”.

Multicultural

Bruno: “A gente canta nossa realidade, porque a
mentira não cola com a nossa cara - Foto: Divulgação
Misturando letras em guarani e português, o grupo também introduziu instrumentos da música de sua etnia. “As músicas surgem em conjunto, sentado na roda, trocando altas ideias. E a bases foram usadas de outros grupos, de que a gente só modificou usando os instrumentos da aldeia mbaraka, para a base ficar legal, para diferenciar e ter a nossa cara. Porque o grupo sai da aldeia e leva o conhecimento daqui para fora”, explica Bruno.
Se no Brasil o Brô MC’s é um grande surpresa no meio do movimento hip hop, em outros países da América Latina, não. O antropólogo Spensy Pimentel, autor do Livro vermelho do Hip-Hop, chama atenção para a penetração do movimento. “A internet tem nos permitido descobrir, pouco a pouco, o quanto o movimento hip hop espalhouse pela América Latina. Até onde eu descobri, há grupos de rap cantando em língua indígena em lugares como Bolívia (aymara) e Chile (mapuche). Independente da questão linguística, a identificação étnica/racial com a matriz indígena aparece em inúmeros contextos. Há muito rap em favor das comunidades zapatistas de Chiapas, por exemplo, não necessariamente feito por quem mora nas comunidades”.
Além do ineditismo, Lobo destaca o fato de o grupo trabalhar contra os estereótipos negativos e preconceituosos. “O hip hop serve como ferramenta de acesso para as demandas deles e acesso para os não indígenas. A partir do Brô se cria outra perspectiva de protagonismo. São eles mesmos falando dos problemas deles, pra eles e pra os não índios”.

Natural
Lobo esclarece que o interesse pelo hip hop surgiu espontaneamente e não é apenas dos quatro integrantes do Brô. “Do ano de 2000 ao ano de 2008 havia um programa de rádio muito popular chamado “Ritmos da batida”, do Naldo Rocha. Logo todo o pessoal começou a ouvir o som e procurar as roupas do rap”.
Uma década depois, entre os jovens da aldeia, o movimento hip hop avança. O sucesso do Brô fez nascer uma série de grupos de break, grafite e novas bandas rap. “Tem grupos novos na aldeia e em outras também. Grupos de break e até um pessoal que tirou o desenho do papel para por na parede”, diz Bruno.
E o sucesso do Brô tem ultrapassado os limites do seu povo. “Agora a gente toca nas rádios, principalmente no programa Blackout, na rádio AM Tupinambá. Os pedidos vêm de fãs da cidade, especialmente das universidades locais”, comenta Clemerson, entusiasmado.
Além da realidade urbanizada da aldeia de Dourados com a qual convivem os rappers, outro tema é importante para o grupo. “Nossas letras falam muito das lideranças que morreram nas áreas de conflito. Muitas vezes a gente recebe notícias, relatos e vídeos contando como foram esses confl itos. Como o vídeo que assistimos sobre o confl ito em Paranhos e aí mostraram a expulsão das famílias que foram retiradas. Os pistoleiros chegaram atirando, contra os velhos, contra as crianças e xingavam os Guarani dizendo que eram porcos, que só queriam a terra para sujar. Isso para gente é tema pra música”.

Além do MS
Fora do Mato Grosso do Sul, o Brô se apresentou em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, onde ganhou o respeito de artistas reconhecidos. “A gente tem parceiros que moram longe. Lá em São Paulo, a gente conheceu o Xis, que acolheu o grupo. Em Brasília, o Gog ajudou a gente para caramba. Foi bem bacana ouvir ele dizer: ‘segue em frente, que essa é a realidade que vocês têm que mostrar para o mundo e através disso mudar a vida de outras pessoas’”, lembra Bruno. Alguns destes parceiros citados pelo rapper devem aparecer no próximo disco do grupo. Além dos parceiros, o próximo disco deve ter produção e distribuição profi ssionais e 80% das faixas serão cantadas só em Guarani.
Perguntados sobre influências, os nomes que surgem são Racionais MC’s, Gog, MV Bill, A Família, Dexter, Fase Terminal, no Brasil. Internacionais são Notorious B.I.G., Tupac Shakur, Eminem e até um artista mais pop como Chris Brown. Outros ritmos, não. “A gente é rap na veia”, brinca Clemerson. “Mas claro, tudo na levada do Guaxiré [dança típica]”, ressalta o irmão.

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