quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Música brega, o que é isso?




Música brega, o que é isso?

Por Ricardo Moreno

O termo brega sempre esteve pejorativamente associado ao mau gosto, a algo desqualificado e cafona. Não sei exatamente desde quando o termo é usado, mas com relação à música, o meu primeiro contato com o termo foi associado a uma geração de cantores que chegou ao sucesso em fins da década de 1960 e início dos 1970. Essa geração a qual me refiro contava, entre outros integrantes, com: Odair José; Fernando Mendes; José Augusto; Reginaldo Rossi e Evaldo Braga, o ídolo negro. Havia muitos outros, mas estes acima, compunham, entre si, uma unidade. Eles surgem num momento em que do ponto de vista de consumo de massa para a juventude, o que estava fazendo sucesso era a jovem guarda.

Se por um lado a jovem guarda era uma espécie de diluição ou de tradução para os brasileiros do que estava acontecendo no cenário pop internacional, do outro, esta geração chamada de brega, era uma tradução ou diluição da jovem guarda, para uma juventude mais popular. Não obstante essa ligação com a jovem guarda, os compositores das canções “bregas” criavam em suas letras um ambiente muito próximo dos antigos boleros, e, não raro, construíam letras ainda mais dramáticas e carregadas. Títulos como “cadeira de rodas”, que fala de amor não realizado com uma paraplégica; “eu vou tirar você desse lugar”, que trata do amor de um jovem por uma prostituta, entre outras, denotam bem essa tendência.

Se é certo que essa geração nunca compôs propriamente um movimento, e nunca deram a si, pelo menos em um primeiro momento, o nome de brega, de onde vem essa definição? É quase inescapável, quando tentamos responder a essa questão, perceber o viés classista nela embutida. Se formos falar do ponto de vista absolutamente musicológico pode ser (não estou certo disso) que encontremos elementos que nos dê alguma unidade para a definição. Mas é possível que o que se chama brega ou mau gosto esteja menos na melodia do que no arranjo e na letra. Na letra sim, porque ela fala diretamente à emoção de milhares de pessoas das classes subalternas da sociedade. A forma que usa para falar desses temas também não se pauta pelos cânones da “boa” escrita. Os temas e personagens que desfilam são também todos de um mundo socialmente subalterno: empregadas domésticas, prostitutas, amores suburbanos, etc.

No fundo, talvez, a definição do que é ou que não é brega, esteja por conta de determinados grupos que se encontram na posição de “legítimos” definidores do que é o bom e o mau gosto. A definição me parece, portanto, produzida pelos grupos que não são bregas, ou em outras palavras: brega é uma determinada música ou cultura produzida e consumida pelos grupos socialmente subalternos, que não são os possuidores da legitimidade de dizer o que é e o que não é “bom gosto”.

Sobre a etimologia da palavra brega paira um mistério. Há várias versões, e também vou produzir a minha, com licença: o termo brega vem de um outro termo maior chamado “xumbrega” – consignado inclusive no dicionário Houaiss, como coisa reles, ordinária e de mau gosto – este termo, muito utilizado no nordeste brasileiro, por sua vez, deriva de uma situação curiosa: quando da expulsão dos holandeses de Pernambuco no século XVII, foi designado para governador desse estado um homem chamado Jerônimo Furtado. Este ganhou do povo o apelido de Xumberga, por usar bigodes parecidos com os do general alemão Von Schomberg. Ora, este último gozava de muito respeito por ter tido presença de destaque nas lutas contra os holandeses. Havia entre os naturais de Pernambuco a intenção de enxovalhar a figura de Jerônimo Furtado, uma vez que este se identificava com a corte portuguesa justamente em um momento de grande sentimento nativista naquele estado. O apelido de “xumberga” para o novo governador, tinha então a intenção de designá-lo como uma cópia inferior e ridícula do general Schomberg.

Resumindo, portanto, podemos deduzir que a palavra brega vem do adjetivo “xumbrega”, que por sua vez deriva de Schomberg, nome de um general alemão. Claro que esta é apenas mais uma hipótese para a etimologia da misteriosa palavra “brega”...




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