quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Centenário de dois grandes mestres

Noel Rosa e Adoniran Barbosa, um centenário para dois cronistas...



Neste ano de 2010 dois expoentes do cancioneiro popular brasileiro assinalam seus respectivos centenários de nascimento. Pois é, o paulista Adoniran Barbosa e o carioca Noel Rosa completariam, se vivos fossem, a marca dos cem anos. Mas o importante de assinalar nessa coincidência não é apenas a data redonda e cheia, mas o fato de que os dois se constituem como dois gigantes da crônica social e de costumes do tempo em que produziram.

Noel e Adoniran se inscrevem em uma longa e rica tradição narrativa dos elementos que compõem as realidades cotidianas. Por suas letras desfilam os personagens da malandragem, e entendemos aqui esse termo não apenas como característica de pessoas malfazejas, mas também como um conjunto de habilidades necessárias para situar os indivíduos dentro de uma ordem social excludente. A astúcia do pobre, como diz Ariano Suassuna se referindo ao seu personagem João Grilo, é a forma que o pobre tem para conseguir sobreviver.

Esses dois artistas podem ser considerados como sambistas, uma vez que o samba foi a forma musical predominante na qual os dois desenvolveram suas canções. Compuseram marchas e emboladas (no caso de Noel), mas foi mesmo no samba que os dois se notabilizaram. Nesse sentido é importante lembrar que a década de 1930 é, segundo alguns pesquisadores, o período em que no Rio de Janeiro esse gênero vai passar por uma transformação fundamental. As mudanças referidas se dão tanto no que diz respeito aos elementos intra-musicais – modificações rítmicas que o faria ficar mais distante do gênero maxixe, e mudanças timbrísticas –, mas também extra-musicais, como por exemplo, o papel simbólico que o samba iria desempenhar na sociedade carioca e brasileira nos anos seguintes até se tornar o gênero musical identitário brasileiro por excelência. É na geração de Noel que o samba vai de certa forma “embranquecendo”, sendo ele talvez o primeiro compositor branco de destaque no cenário do samba carioca.

O humor é também uma característica comum aos dois compositores. Mas registremos que são “humores” diferentes. Noel é sarcástico e irônico inclusive com ele mesmo, haja visto o samba “Tarzan, o filho do alfaiate”, samba no qual ele fala de um personagem que apesar de ser muito magro tem um alfaiate que com seu corte faz dele um sujeito aparentemente forte. “cheguei até a ser contratado / prá subir em um tablado / pra vencer um campeão / mas a empresa / prá evitar assassinato / rasgou logo meu contrato / quando me viu sem roupão”. Noel descreve como ninguém uma certa malandragem carioca, basta ouvir “conversa de botequim”, para entender do que se fala aqui. Enfim... uma jóia!

Por outro lado, Adoniran tem várias passagens engraçadas extraídas do cotidiano sofrido das pessoas comuns. Mas não raro, essa alegria tende a resvalar numa tristeza que na verdade parece que sempre esteve ali. Faz lembrar muito a alegria/tristeza do palhaço, que não obstante nos fazer rir, acaba por nos entristecer com um desfecho que aponta para uma carência, uma falta. É muito comum ainda esse humor vir junto com uma resignação, que faz com que o texto seja ao mesmo tempo de denúncia social e de aceitação das coisas tal qual elas se arranjaram. Esse viés aparece em inúmeras obras do mestre paulista. No clássico “Saudosa maloca” o tema é, sem dúvida, o da especulação imobiliária, ou em outras palavras, de um tipo de ocupação do espaço público que privilegia o capital e relega o indivíduo pobre a uma condição de não-cidadania. Mas o arremate que Adoniran dá a esta peça que deveria ou poderia ser de denúncia das injustiças do cotidiano, ganha um ar de fatalidade quando ele diz: “os ‘home’ tá com a razão nóis arranja outro lugar”, ou mais a frente quando em tom de consolo fala “Deus dá o frio, conforme o cobertor”. É ou não é uma primor de resignação e aceitação. Há ainda, entre outras tantas, uma canção que se chama “Despejo na favela”, samba gravado em duo com Gonzaguinha, que como o próprio título já adianta, trata de uma ação na favela na qual o poder público vai desalojar a todos. O máximo de rebeldia que ele professa é quando diz “não tem nada não seu doutor / não tem nada não / amanhã mesmo vou deixar meu barracão / não tem nada não seu doutor / vou sair daqui pra não ouvir o ronco do trator”.

Para encerrar eu gostaria de destacar aqui uma análise feita pelo compositor e professor de Literatura da USP José Miguel Wisnik. Em um texto chamado “Te-manduco-não-manduco: a música popular de São Paulo” Wisnik analisa o modo como a cidade de São Paulo se imprime na música de Adoniran em um tentame de interpretação das relações entre o indivíduo e a cidade. Wisnik conta uma passagem em que Paulo Vanzolini (o compositor da canção “Ronda”) certa feita perguntou a Adoniran por que é que no samba “trem das onze” ele falava “em Jaçanã” e não no Jaçanã como de fato falam os moradores daquele bairro. Adoniran teria dito “e eu sei lá onde fica essa porcaria”. Wisnik analisa que isso equivale pensar Noel não saber onde é Vila Isabel ou Cartola não saber onde é a Mangueira. Claro que Adoniran estava ligado àquela parte da cidade mais italianizada como o Bexiga, mas o fato dele ter citado o Jaçanã sem ter nenhuma relação com o lugar evidenciava uma relação ficcional entre o artista e a cidade, diferente dos artistas do Rio, que citava os espaços geográficos com os quais eles tinham uma relação orgânica. Nesse sentido ele considera que pelas dimensões e configurações da cidade de São Paulo, esta seria na obra do compositor uma peça ficcional, e em sendo assim o próprio cantor compositor que era Adoniran, era também um personagem dessa criação.

De todo modo, registremos aqui a importância desses dois criadores e intérpretes da alma brasileira que foram Noel de Medeiros Rosa e João Rubinato, ou simplesmente Noel Rosa e Adoniran Barbosa.


p.s. quem puder dê uma olhada na série feita pela jornalista Aline Midlej e que está disponível no link:

http://videos.band.com.br/v_65609_adoniran_100_anos_na_boca_do_povo_sotaque.htm

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