domingo, 25 de outubro de 2009

as tradições afro-brasileiras frente à televisão ou uma história de apropriação.

As pessoas que me conhecem sabem que gosto de contar histórias. Atribuo isso, em parte, a minha formação cultural nordestina. Cresci vendo e ouvindo pessoas contarem histórias, e percebia como a audiência ficava atenta ao narrador numa espécie de transe lúdico-mágico. Pois bem, durante uma aula no mestrado o professor nos falava a respeito do conceito de apropriação, desenvolvido pelo historiador Michel de Certeau e muito utilizado pelo seu pupilo, o Roger Chartier. No momento em que ele falava me ocorreu à memória uma interessante história contada pela antropóloga Rita Segato quando de sua pesquisa sobre o Xangô em Pernambuco. Daí perguntei ao professor se eu poderia contar a história, e se ela explicava o fenômeno da apropriação. A história é a que segue:

Rita Segato quando de sua pesquisa sobre os cultos de Xangô, na década de 1980, na cidade de Recife, Pernambuco, percebeu uma curiosidade interessante. Todos os dias às 20:00 Hs. a comunidade do terreiro no qual realizava a pesquisa suspendia as atividades do culto para assistirem coletivamente a uma determinada novela, veiculada nacionalmente por uma grande emissora de televisão. No início parecia bastante enfadonho e aborrecido para a “doutora”, aquele tipo de procedimento. Aos poucos, no entanto, ela foi se dando conta do fenômeno que transcorria à sua frente. A comunidade do santo, enquanto audiência daquela novela elaborava uma recepção do que estava sendo produzido e veiculado pela televisão, se utilizando de uma espécie de filtro cuja mediação era dada pelo metro do mito. Em outras palavras, a Antropóloga percebeu que ela e o resto do auditório não estavam vendo a mesma coisa. Ela ficava intrigada quando ouvia determinadas pessoas da comunidade se referir aos personagens chamando-os, muitas vezes, pelos nomes das entidades com as quais eles estavam sendo identificados. A realidade e a ficção em suas fugacidades intrínsecas eram examinadas contra um pano de fundo estável: o mito. Este em sua eterna potência atualizadora mediava a compreensão do enredo remetendo-o ao universo mítico da comunidade. Dessa forma, os personagens Nélson Fragonard (Reginaldo Farias) e Miguel Fragonard (Raul Cortez) eram respectivamente Xangô e Ogum. E ambos disputavam, conforme a narrativa mítica, o amor de Lígia (Betty Farias), que representava Iansã. O desfecho dessa história é ainda mais interessante na medida em que revela, reforçando a leitura mítica, a eficácia preditiva do prognóstico mítico. No final, os personagens cumprem um destino já previsto pelo mito. Conforme previsto neste, os filhos de Ogum costumam ter uma morte violenta. Assim como assassinatos ou acidentes. Não foi outro o destino de Miguel/Ogum. Este personagem, conforme a predição do mito encontra a morte através de um assassinato.Essa história nos revela de como uma determinada produção no âmbito da cultura massiva veiculada pela televisão, pode ser recepcionada e apropriada de uma forma imprevista. A comunidade do santo de Recife, dessa forma, se apropriou da narrativa televisiva através da narrativa mítica, reforçando seus laços simbólicos de pertencimento.

PS. o texto no qual a antropóloga conta essa história chama-se "as tradições afro-brasileiras frente a televisão"

Um comentário:

  1. É verdade! Fazemos muito isso, leituras de acordo com nossa realidade, tradições e costumes. Imaginamos coisas...
    Engraçado, pensando sobre esse comportamento afro relatado, me vem a mente outros segmentos religiosos, que ao seu modo, também se apropriam, nesse caso particular, nem seria da ficção, mas dá própria realidade. Justificando sua literatura através do cenário mundial, a mesma espécie de filtro cujo a mediação é dada pelo metro do mito. Como a mente humana se apresenta difusa. Esse mundo é mesmo muito louco, rs, e os mais doidos são os que não se declaram insanos.

    Bjo Ricardo.

    PS.:(Pode mandar bjo depois do comentário? rs)

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