quinta-feira, 17 de junho de 2010

Fé na festa – o novo álbum de Gilberto Gil

No final do mês de maio Gilberto Gil lançou mais um álbum na sua carreira: “Fé na festa”. O lançamento nesse período que antecede as grandes festas juninas não foi por acaso, pois o disco é repleto de baiões, xotes e xaxados. Não há nenhuma novidade no fato de Gil trazer em seu álbum esses gêneros musicais, pois ele sempre transitou com intimidade e maestria por essas plagas. Mas talvez o novo esteja na intensidade e quantidade em que esses gêneros aparecem. Eles dão mesmo a tônica do álbum, e nesse sentido podemos dizer que se trata de um disco “sanfônico”. O acordeom, instrumento que Gil também domina, é como uma espinha dorsal do álbum, se juntando muitas vezes a rabecas e flautas produzindo timbres muito bonitos.
                A única peça do disco que sai dessa atmosfera nordestina é a também bonita “não tenho medo da vida”, na qual Gil dialoga com uma canção de sua própria autoria intitulada “não tenho medo da morte”. Nesta última, faixa que integra o disco anterior – “Banda Larga Cordel” – Gil tematiza a morte e suas implicações sobre o próprio ato de viver. Em uma determinada estrofe ele diz: “não tenho medo da morte/
mas medo de morrer, sim / a morte é depois de mim / mas quem vai morrer sou eu / o derradeiro ato meu / e eu terei de estar presente / assim como um presidente / dando posse ao sucessor / terei que morrer vivendo sabendo que já me vou”
. É sem dúvida uma bela canção.
Já neste novo disco Gil se auto-parafraseia e diz que: “Não tenho medo da vida, mas medo de viver, sim / A vida é um dado em si, mas viver é que é o nó /
Toda vez que vejo um nó, sempre me assalta o temor / Saberei como afrouxá-lo, desatá-lo eu saberei? / A vida é simples, eu sei, mas viver traz tanta dor!”
É uma toada que destoa das outras faixas, mas sem desequilibrar o todo. Destoa porque é uma das poucas, e talvez a única, cuja letra produz uma atmosfera mais reflexiva e abstrata, compondo um texto lírico-dissertativo.
Mesmo sendo um disco cuja ênfase está mais no aspecto rítmico-dançante, Gil não se desarma de seu olhar antropológico e já de início, na faixa que dá nome ao disco – “Fé na Festa”, observa os aspectos sacros e profanos contidos nas festas que constituem o calendário católico popular brasileiro. Esse já foi um tema muito estudado por figuras luminares da intelectualidade brasileira: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Alfredo Bosi, entre outros. Diz o refrão da canção: “Festa, festa na fé
Fé, fé na festa”.
Ou seja, a festa por dentro da fé, e a fé por dentro da festa, num jogo binário-dialético de oposições complementares que vão por fim compor o tecido no qual se desenha a brasilidade tão cara a este compositor.
Há no disco algumas regravações como “no norte da saudade”, e “Dança da moda”, um delicioso clássico de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, bem como novas parcerias: “Lá vem ela”, com Vanessa da Mata e “São João carioca”, com Nando Cordel.
Gil mesmo quando redunda inventa, e vai aprendendo e ensinando na medida em que palmilha e elabora suas experiências estético-sonoras. E tem mais: quem olhar direitinho na capa do cd vai perceber que está lá, ainda que supostamente apenas como um adorno gráfico, uma figura do trigrama (conjunto de três linhas) chinês que compõe o I ching – O livro das mutações. E por coincidência ou não, o trigrama que lá está tem como imagem natural o céu, e como definição qualidades que poderiam facilmente estar associadas a Gilberto Gil: Criatividade, força e iniciativa.

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