terça-feira, 20 de outubro de 2009

literatura de cordel em sala de aula

Estou desenvolvendo um projeto com duas turmas do sétimo ano (antiga sexta série), que visa o desenvolvimento da leitura a partir dos romances de cordel. Nessa empreitada lemos diversos folhetos: "história de Lampião", "proezas de João Grilo", "a peleja de Riachão com o diabo", e, claro, "o romance do pavão misterioso". É muito interessante perceber como a exigência da leitura rítmica induz o aluno a uma leitura mais fluente. Fizemos vários exercícios de expressão, para que a história pudesse ser assimilida por um ouvinte imaginário.
É curioso também que a estrutura de sete sílabas, presente na maioria dos romances de cordel, também está presente na maior parte, ou pelo menos em boa parte dos funks que a rapaziada canta. Esse paralelismo, se pudemos chamar assim, facilita muito as coisas, para que eles compreendam o "desenho" rítmico dessa forma poética.
Muitos outros dividendos podem ser extraídos dessa atividade, pois ela mexe com muitos aspectos. A nossa atração por histórias, por exemplo. Não é novidade para ninguém o fascínio que elas exercem em talvez todos os seres humanos. Os alunos, nesse sentido, se mostraram bem interessados pelos enredos, pelos aspectos jocosos da história, enfim, pela narratividade como um todo.
Há um outro aspecto também muito intressante. A literatura de cordel funciona como se fosse uma dobradiça entre o univesos das tradições orais e escritas. Ela é sem dúvida um literatura escrita, mas que guarda em si todo um sabor das narrativas orais. É como se fosse uma escrita para ser lida em voz alta, como num passado em que a voz vivificava o texto. A leitura silenciosa é um hábito, se não recente, pelo menos tardio com relação a leitura em voz alta. Nas próprias condições "originais" de consumo dos folhetos, era muito comum a leitura em voz alta para uma audiência que não dominava o código da leitura. Há um estudo da professora Ana Maria de Oliveira Galvão, sobre processos de letramentos realizados entre 1930 e 1950, período de grandes vendagens dos folhetos, no interior de Pernambuco. A pesquisadora descreve verdadeiros processos de letramento em torno da leitura/escuta de romances populares. Mostra como grupos sociais, que se encontravam fora das instituições como a escolar tradicionalmente mediadoras da alfabetização, se inseriam na cultura escrita através da “socialização do escrito” nas rodas de leitura dos romances de cordel.
Enfim, esse é um assunto palpitante que dá margem a uma série enorme de desdobramentos e reflexões.







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