segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Marcus Pereira e a memória musical brasileira

Em uma bela canção intitulada “o que foi feito deverá”, Milton Nascimento nos canta uns versos que podem ser tomados como referência pra todo país ou toda sociedade que preze sua memória. Dizem eles: “falo assim sem saudade / falo por acreditar / que é cobrando o que fomos / que nós iremos crescer”. Muito se tem dito sobre o Brasil ser um país desmemoriado e que não costuma dar o devido valor a seus artistas quando estes não são sucesso de massa. É para lutar contra essa falta de memória nacional, que falaremos aqui de um brasileiro cujo destino trágico deve nos servir de lição para tempos vindouros. Refiro-me ao publicitário e produtor musical Marcus Pereira.
Marcus Pereira realizou na década de 1970 um empreendimento que resultou em um dos maiores registros da música popular brasileira não comercial. Pelos seus registros passaram: Elomar, Quinteto Armorial, Cartola, Clementina de Jesus, Quinteto Violado e tantas outras jóias da cultura musical brasileira. Pra se ter uma ideia, foi sob seus auspícios que o mestre Cartola fez, em 1974, sua primeira aparição em disco, já contando com sessenta e quatro anos de idade.
Tudo começou no final da década de 1960 quando Marcus era dono de uma rentável empresa de publicidade em São Paulo. Ele e mais outros amigos freqüentavam o bar Jogral, que era uma espécie de ponto de encontro do pessoal que curtia Música Popular na capital paulista. Junto com o dono do bar Luís Carlos Paraná e mais alguns circunstantes, Marcus realizou o lançamento do disco “onze sambas e um capoeira”, em homenagem a Paulo Vanzolini. Este lançamento foi o embrião do que viria a ser posteriormente o selo Marcus Pereira Discos. Este primeiro disco foi usado para servir de brinde de final de ano da empresa do publicitário. A coisa foi dando certo e poucos anos depois Marcus abandona a empresa de publicidade e se dedica totalmente ao seu novo empreendimento.
No início da década seguinte ele faz um mapeamento de toda a música regional brasileira lançando 4 lp’s para cada uma das cinco regiões do Brasil. Logo na primeira, a região Nordeste, Marcus recebeu o prêmio Estácio de Sá, outorgado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Mas os tempos eram difíceis, e em plena ditadura militar esse não era um empreendimento fácil de se levar a cabo. De todo modo, Marcus ainda conseguiu o financiamento de algumas agências de fomento, e algumas parcerias com secretarias de cultura de uma ou outra cidade. Mas era pouco, e logo o ex-publicitário se viu enredado pela máquina mortal dos juros bancários.
Um dos gargalos da produção da Marcus Pereira Discos estava na distribuição, e dessa forma seu mentor firmou contrato com a Copacabana Discos para tentar sanar o problema. Mas não teve êxito. Não conseguindo cumprir todas as cláusulas do contrato – que segundo Paulo Eduardo Neves, da revista “samba e choro” era por demais leonino – Marcus viu sua empresa ir a falência. Dessa forma, depois de todo esforço realizado com brilhantismo, abnegação e acima de tudo com originalidade, Marcus Pereira se suicida, e todo o acervo de mais de 140 lp’s vai parar nos estoques da gravadora Copacabana.
Posteriormente todo o acervo Marcus Pereira foi parar nos porões da gravadora multinacional EMI, que por sua vez não demonstrou nenhum interesse nesse acervo, uma vez que seu verdadeiro interesse eram as gravações da jovem guarda. A multinacional ainda publicou alguns títulos, como o primeiro disco do Cartola, por exemplo, mas o fez sem nenhum tratamento de áudio e com a parte gráfica deixando muito a desejar. Dessa forma, o esforço de uma vida de pesquisa está mofando nas prateleiras de uma empresa totalmente descompromissada com a cultura brasileira. Tente encontrar, caro leitor, no sítio eletrônico da Emi Music Brasil, algum disco do selo Marcus Pereira e se sentirá, como eu, absolutamente desapontado. Este é, sem dúvida, um crime de lesa cultura nacional.
São duas tragédias numa só. Por um lado a tragédia pessoal de Marcus Pereira, e do outro a não publicação comercial desse riquíssimo acervo resultado de tão importante pesquisa. O que minimiza um pouco toda essa tragédia é a possibilidade de acessar uma parte desse acervo através dos blogs de música.
Ao concluir este artigo tentei achar na internet uma foto desse grande brasileiro e, pasmem, não achei nenhum registro visual seu. Lamentável...

Um comentário:

  1. Prezado Ricardo,
    Li este seu ótimo artigo no jornal "Pôr do Sol", edição de março do corrente. e gostaria de parabenizá-lo pelo mesmo. Além de muito bem escrito, o artigo faz uma justa, sincera e sensível homenagem ao grande homem que foi Marcus Pereira. Fiquei emocionado com o mesmo, pois, finalmente, alguém se lembra de Marcus e vem a público falar dele, de um modo tão sincero e bonito.
    Em meu entender, temos a música popular mais bela e rica do mundo e, paradoxalmente, damos muita pouca importância a isto. Não fosse assim, este ilustre brasileiro estaria constantemente sendo lembrado e enaltecido. Sequer algum concurso ou prêmio foi criado com seu nome, até hoje. Você mesmo cita que procurou uma foto de Marcus na Internet, e não encontrou! É muito triste isto...
    Tenho, em minha discoteca, pouco mais de 50 LPs de sua gravadora, verdadeiras jóias que guardo com muito carinho e que ouço com muito prazer. Creio que, em um deles, há a foto de Marcus; vou procurá-lo e lhe enviar a foto. Vou, também, enviar seu artigo para o maestro, compositor e arranjador Marcus Vinícius de Andrade, diretor da pequena gravadora paulista CPC-Umes (que só lança CDs de qualidade!), já que este foi o "fiel escudeiro" de Marcus Pareira, na gravadora de mesmo nome.
    Finalizando: como brasileiro, amante apaixonado de nossa música, só me resta agradecer a você por ter me dado a certeza de que nem tudo está perdido, que a luta continua. Tomara que acordemos, ainda em tempo, para a riqueza inestimável de nossa música.
    Um grande e fraterno abraço,
    Nilton A. R. Maia

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