domingo, 29 de novembro de 2009

Quando a mídia perdeu o Rumo


Há uma dívida histórica da mídia, e em particular da mídia que lida com música, no que diz respeito a obra de um certo grupo paulista da década de 1980. O grupo ao qual me refiro chama-se “Rumo”. Certamente alguns leitores dessa coluna sabem do que estou falando, mas infelizmente a maioria das pessoas que gostam de música não teve a oportunidade de ouvir e analisar o que representou no cenário da canção popular, o aparecimento do grupo.
Após o surgimento da bossa nova no final da década de 1950 e do tropicalismo, na década seguinte, a grande inflexão da canção popular, a meu ver, ficou por conta das criações do mentor intelectual do grupo, Luiz Tatit. Obviamente ocorreram outras tentativas estéticas, como a protagonizada por Arrigo Barnabé, que chegou a ser saudado como o grande inovador da canção, ali pelos inícios da década de 1980, quando lançou o lp “Clara crocodilo”. Sim, certamente foi uma investida e tanto a do Arrigo, tentando lançar mão de elementos da chamada música de vanguarda. O resultado foi bem interessante, e mesmo hoje as canções desse disco devem soar estranhas para muitos ouvintes desavisados.
Mas o vôo de Arrigo foi curto, o que não aconteceu com o do pessoal do Rumo. Em síntese, podemos dizer que a ambição do mentor intelectual do grupo, o Luiz Tatit, era de produzir uma canção que de certa forma se ligasse a uma origem da canção. Um canto falado, no qual a linha melódica seria uma espécie de moldura para o texto. O canto falado não era uma invenção do Tatit, mas o modo como isso foi feito é que distingue o trabalho do grupo. Essa linha melódica diferenciada precisava para seu acompanhamento uma “harmonização” também diferenciada, e é aí que surge o violão do Tatit tocado de uma forma sui generis. Certa vez, o próprio Tatit declarou em uma entrevista que no passado tentou fazer aula de violão, mas sentiu muita dificuldade. Ao invés de desistir de tocar, inventou outra forma totalmente pessoal. E esse “violão” coube certinho nas criações que veio posteriormente a fazer.
É impossível, caro leitor, descrever como esse violão é tocado. É necessário ouvi-lo para perceber toda sua estranheza e toda a sua profundidade. A primeira vez que eu ouvi, senti de cara que se tratava de uma forma de tocar que não tinha nada a ver com a tradição violonística brasileira. Não era o violão de Baden, não era o violão de João Gilberto, enfim... Era o violão de Luiz Tatit, simples.
As letras das canções são também dignas de nota, pois ocorre nelas um rebuscamento e um potencial informativo de maior qualidade. Seria impossível aqui, por absoluta falta de espaço, desenvolver uma análise sobre esse aspecto das canções do grupo, mas vamos brevemente tratar de uma canção em especial. Trata-se da canção “Saudade moderna”. Diz a letra: “uma saudade / é do tempo em que andávamos juntos / era um verdadeiro temporal / mas estávamos sempre juntos / outra saudade era do tempo em que nem te conhecia / e simplesmente eu desejava estar sozinho / era tão bom, era tão calmo, era tão feliz / Uma terceira saudade é completamente inesperada para mim / ela pega um tempo que absolutamente não vivi / nessa saudade não tem você, não tem ninguém, não tem recordação (...) ela incide sobre um tempo que não cabe na história / ela escapa da consciência e se projeta pra fora.
O narrador trata de três tipos de saudades. As duas primeiras são saudades tradicionais, ou seja, saudade de um tempo e um espaço específico. Mas a terceira saudade, que ele chama de moderna, tem uma característica especial, ela não se refere a um tempo ou um espaço determinados. Ela vem de dentro pra fora, ou seja, o espaço ao qual a saudade se refere não é um espaço objetivo, mas um espaço subjetivo. É um tempo que não cabe na história, portanto não é um tempo histórico, e sim um tempo do sujeito, um fluxo temporal interno. Ela ocorre, ao contrário da saudade tradicional, primeiramente na consciência e depois é que se projeta pra fora, invertendo completamente a rota. Este texto é quase uma tese de doutorado.
Ao todo, o Rumo lançou seis discos, estreando em 1981 com o lp intitulado simplesmente como “rumo”, e encerrando suas atividades em 1991 com um disco ao vivo. Há também um DVD lançado em 2006 pela TV cultura de São Paulo. Do grupo saíram a cantora Na Ozzetti (já apontada como uma das maiores cantoras da atualidade); o próprio Luiz Tatit, que desenvolve um trabalho solo e Paulo Tatit, seu irmão, que desenvolve um trabalho de música infantil através do selo “palavra cantada”.
Fica aqui então, a crítica explícita ao silêncio da mídia especializada, que não teve a devida percepção para reconhecer no grupo paulista uma das maiores inflexões da canção popular dos últimos tempos. Registre-se também aqui o papel de sonegação de informação praticado pela mídia radiofônica, que impossibilitou a um número enorme de pessoas de terem acesso a este precioso trabalho.

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