domingo, 27 de fevereiro de 2011

Caetano e Gil em lados opostos sobre questões da gestão cultural

Estava demorando que viesse a público algumas divergências entre dois importantes artistas da música popular brasileira: Caetano Veloso e Gilberto Gil. A questão está situada na nova lei de direito autoral.  Gil acredita que com os novos aportes tecnológicos não é mais possível se pensar em uma configuração legal de um tempo pré-internet, e do outro lado Caetano diz "ninguém toca em um centavo dos meus direitos autorias", fincando pé em antigas fórmulas de vínculo entre autor e obra. 


  No meu entender o que acontece é que esse pessoal da elite da música popular brasileira, que tanto produziu para a glória de nosso cancioneiro, não se dá conta, como apontou o próprio Gil há um tempo atrás, que faz parte de uma elite, sim, e isso não é por princípio uma coisa do “mal”. Mas o que acontece é que eles estão parececendo aqueles “ludistas” do tempo da revolução industrial, que vivia quebrando máquinas porque estas iriam tirar os empregos de parte dos trabalhadores. E ia mesmo, pois estava havendo uma reconfiguração dos padrões de produção. Uma nova plataforma tecnológica colocava as coisas em outro patamar. Agora é isso que está acontecendo e a elite não se dá conta. O que fazer?? Repactuar novas leis, novos arranjos legais, etc. como propõe Gil, e não ficar optando por ações repressivas, que é isso que em última instância poderá acontecer caso se insista nas antigas formas de gerir a produção cultural. Gil está correto, e não é verdade que ele está deslumbrado com a internet. É Caetano e seus colegas que não se tocaram ainda das novas configurações em curso. Saúdo mais uma vez o ex-ministro e grande artista Gilberto Gil.

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Artigo de Marcus Preto para a FSP

Parceiros na criação do movimento tropicalista, em 1967, os dois acabaram se tornando, nas últimas semanas, símbolos da polarização de opiniões dos artistas da MPB na discussão em torno da lei de direito autoral.
Em 20 de janeiro, a ministra Ana de Hollanda retirou o selo Creative Commons do site do MinC, colocado na gestão de Gil (2003-2008).
As licenças Creative Commons tornam mais flexível o uso de obras artísticas (como liberação prévia para uso em blogs ou remixes), em contraposição ao “copyright” (no qual o artista precisa autorizar caso a caso).
De um lado do ringue, Gil entende que as flexibilidades das licenças CC estão mais de acordo com a era digital, com o mundo pós-internet.
Do outro lado, Caetano, apoiado pela maior parte dos compositores que entraram na discussão –Roberto Carlos, Joyce, Jorge Mautner e outros– se posicionou contra as CC, dizendo que “ninguém toca em um centavo dos meus direitos autorais”.
Em seguida, Gil criticou os opositores às CC de não levarem o diálogo para “uma dimensão esclarecedora”.
Procurado pela Folha no começo da semana passada, Caetano disse, por e-mail, que vestia a carapuça tecida pelo velho companheiro.
“Visto. Mas não me causa incômodo”, disse. “Eu não teria tocado no tema se a discussão, que o ministério Gil trouxe para dentro da política oficial, não me parecesse atraente e inevitável.”
STATUS QUO
“Pois está na hora de ele tirar a carapuça”, rebateu Gil, na quarta-feira passada, depois de fazer um show para internet. “De encarapuçados não precisamos. Todos têm que estar com suas feições claras, nítidas, à mostra, dizendo o que acham.”
E seguiu. “Foi sempre assim: os que defendem o novo têm que ter argumentos mais nítidos. Os que reagem, porque estão defendidos pelo status quo, não precisam disso, precisam apenas reagir.”
A reportagem retomou o assunto com Caetano, no dia seguinte. O músico chamou a paixão de Gil pelos avanços tecnológicos de “um pouco fascinada demais, tendendo para deslumbrada”.
“Gil escreveu [a canção] ‘Pela Internet’, mas, diferentemente de mim, não é uma pessoa de internet. Não é muito familiarizado, não anda muito nem no e-mail. Ele gosta mais é da ideia.”

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