quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mário Maestri: A peste integralista no Brasil


  Mais um belo texto do historiador Mario Maestri. Trata-se de um intelectual que não se furta às questões do seu tempo, e toma partido claro em defesa das conquistas progressistas da contemporaneidade. Mario está consciente de que estas conquistas têm um enraizamento histórico e como tal necessitam ser compreendidas e defendidas, sob o risco de extinguir-se por acomodação dos atores sociais. Recentemente vimos marchas em defesa da liberdade, organizada por grupos que defendem o direito ao consumo de maconha, os direitos da mulher, o direito ao aborto e o direito à união civil por pessoas do mesmo sexo, entre outros. Mas vimos também, por outro lado, marchas contrárias a estas organizadas, ao meu ver, por grupos obscurantistas-fundamentalistas (e é um direito deles se manifestarem). O texto também discute o argumento de que ao se instalar o direito de união civil entre pessoas do mesmo sexo e a lei contra a homofobia, ninguém poderá mais individualmente considerar erradas essas práticas. Leiam:

Mário Maestri: A peste integralista no Brasil

 É direito constitucional crer que os homossexuais queimarão no inferno. Ou que os negros descendem de macacos e os arianos de cisnes brancos. É lícito crer que o fato de Karl Marx ter escrito O capital comprova que o judeu só pensa em dinheiro. Ninguém pode ser reprimido por pensar que a mulher é um ser incompleto. Sequer há crime em sentir-se atraído por criança. As concepções e as pulsações individuais são direitos individuais inarredáveis, por exóticas e desviadas que sejam.

É socialmente inaceitável que homofóbicos, racistas, pedófilos, misóginos e assemelhados afirmem positivamente suas concepções e impulsos, com palavras ou ações, ferindo comunidades frágeis ou discriminadas e, através delas, a sociedade como um todo. Realidade que a lei toma crescentemente consciência, ao punir em forma cada vez mais ampla o racismo anti-negro, o anti-semitismo, o sexismo, a pedofilia e, ultimamente, a homofobia.

Preceitos religiosos não justificam atos anti-sociais. Quem incentivar ou praticar o bíblico “olho por olho, dente por dente” terminará diante do delegado. Ninguém defende hoje a condenação à morte do adúltero e da adúltera – que despovoaria nosso país! Todos concordam que não teríamos vereadora, governadora ou presidenta, se seguíssemos a ordem da Bíblia que as mulheres “sejam submissas aos maridos” e “fiquem caladas nas assembléias (...)”!

O integralismo – evangélico, católico, mulçumano, judaico etc. – não nasce da vontade de respeitar estritamente preceito religioso. Ele exacerba a consciência alienada e ferida das populações para propagandear conservadorismo que viabiliza seus objetivos políticos, ideológicos e econômicos. A família real saudita é a mais pia, a mais conservadora e a mais rica do Oriente. Edir Macedo construiu reino nesta terra prometendo a salvação na outra. Se fosse pelo papa, ele seguiria mandando sobre Roma, onde ninguém teria votado neste domingo!

O proselitismo integralista luta para formatar a sociedade segundo o seu arbítrio e a sua autoridade, apoiado no que diz ser a vontade divina inquestionável. Ancora seu reacionarismo na negação obscurantista da racionalidade como padrão de convivência e de organização social. Os integralismos comungam na defesa da superioridade da revelação sobre a razão; da autoridade sobre a autonomia; da tradição sobre o progresso. Em sua militância, recebem o apoio magnânimo dos grandes interesses econômicos, no Brasil e através do mundo, interessados na conservação dos privilégios sociais.

No Brasil, o integralismo mobiliza-se contra o divórcio; contra a interrupção voluntária da gravidez; contra o reconhecimento civil da homoafetividade; contra a escola laica, pública, de qualidade; contra os direitos plenos da mulher etc. Tudo em defesa de ordem natural, determinada pelos céus, onde reinam indiscutidos o patriarca sobre a mulher e os filhos, o patrão sobre os trabalhadores, os governadores sobre os governados, o pastor e o sacerdote sobre os fiéis.

No Brasil, avança a galope desenfreado o integralismo religioso, expandindo sua peste, suas sombras e suas tristezas sobre a mídia, sobre a educação, sobre a política, sobre o lazer, sobre a educação etc., com o apoio oportunista e interessado de autoridades e representantes públicos. Recua o laicismo acanhado, parido em 1889 pela República elitista, e apenas estendido, à custa de duras lutas, neste pouco mais de meio século.

Mário Maestri (publicado originalmente no blog Pragmatismo Político)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

QUE TAL O SILÊNCIO?

   Por Ricardo Moreno

  Há anos atrás quando eu fazia graduação em música, eu costumava passar pela livraria da Universidade e dar uma olhada nas novidades. Um dia dei de cara com um título que me chamou atenção, pela sua natureza inusitada. O livro se chamava “ódio à música”. Tentei ler de novo achando que estava sendo traído pela minha visão, afinal não era razoável um manifesto contra a música numa universidade que forma músicos, professores e pesquisadores de música. Não era nem mesmo razoável imaginar alguém com tanto ódio dessa arte a ponto de escrever um livro. Que não goste, tudo bem, mas daí escrever um livro, já era demais.
            Esperei um momento em que tivesse mais tempo para saciar minha curiosidade, e quando pude voltei à livraria para acertar contas com ela. Fiquei muito surpreso quando ainda na introdução vi que o autor, Pascal Quignard, era um compositor, regente e educador musical. Realmente um espanto! Mas ainda nas primeiras páginas ficou clara a razão que o levou a tal empreitada. Ele estava simplesmente se rebelando contra uma prática que se tornou, se não universal, ao menos muito disseminada. Refiro-me à prática da banalização da música e a ampliação geral do nível sônico nas sociedades contemporâneas.
            Pensa-se muito pouco nisso, mas os efeitos do som sobre os corpos humanos e dos demais animais não são desprezíveis. Pesquisas militares do governo dos Estados Unidos feitas desde a década de 1960, já apontavam os efeitos danosos do som em altos decibéis em animais. O compositor canadense Murray Schafer relata em seu livro “O ouvido pensante” algumas dessas ocorrências. Numa, por exemplo, ele descreve a morte de um rato quando colocado em um campo sonoro de altos decibéis. Na autópsia fica demonstrado que ele morreu de superaquecimento instantâneo. Outros testes científicos demonstraram que ocorrem mudanças na circulação sanguínea e no funcionamento do coração quando uma pessoa é exposta a uma determinada intensidade de ruído. Na mesma perspectiva, cientistas do Instituto Max Planck realizaram há tempos atrás pesquisas para saber por que pessoas que trabalham em ambientes muito barulhentos tendem a ter mais problemas emocionais e familiares.
            A falta de reflexão sobre os ambientes sonoros acaba por gerar situações esdrúxulas, como a que eu mesmo presenciei anos atrás numa viagem de ônibus que ligava a Penha ao Cosme Velho. A empresa, para demonstrar atenção com seu público resolveu instalar televisores em toda a sua frota. Acontece que os ônibus já possuíam um serviço de rádio, o qual não foi desativado para a instalação do novo serviço. Talvez para agregar mais valor, ficavam os dois meios de comunicação funcionando ao mesmo tempo. É verdade que a televisão ficava sem som, mas era possível, como eu mesmo vi, o vídeo transmitir uma imagem de um guitarrista tocando rock numa performance típica de guitarrista solo, enquanto o rádio tocava um pagodão a todo vapor. Uma loucura!  
            Há uma relação inversamente proporcional entre sociedades pré-industriais de um lado e sociedades industriais, de outro, no que diz respeito aos sons naturais, humanos e de utensílios tecnológicos. Segundo Schafer nas culturas pré-industriais a presença de sons naturais era de 69% dos sons vivenciados, enquanto os sons humanos eram de 26%, e os sons de utensílios e tecnológicos alcançavam apenas 5%. Nas sociedades contemporâneas a proporção é de 68% de sons tecnológicos, 26% de sons humanos e apenas 6% de sons naturais. Isso explica as razões pelas quais o ruído vem sendo incorporado ao discurso musical. Ainda no começo do século XX, em 1913, o compositor Luigi Russolo, escreveu um manifesto no qual defendia a incorporação dos ruídos, presença marcante na vida cotidiana do período industrial, na música desse momento. É “A arte dos Ruídos” o título de seu manifesto futurista.
            De todo modo, é preciso estar consciente das marchas e contra-marchas do nosso tempo e perceber de que modo podemos interferir nos rumos da nossa jornada. A ideia de assimilar os ruídos ao discurso musical pode até ser um jeito de esconjurar, em parte, o demônio-ruído, mas faz-se necessário reduzir seus efeitos nocivos e para isso são necessários consciência do problema e educação para transformá-lo. Urge uma gestão social e democrática do som.

LULA E OS BLOGUEIROS PROGRESSISTAS

 Este blog se sente homenageado pelo ex-presidente Lula, quando em encontro com blogueiros progressistas ele assinala a importância dos blogs na consolidação da tecno-democracia. Ele não usa esse termo, mas é a isto que ele se refere. Lula, com seu olhar sempre aguçado, menciona a importância do papel desses blogs para possibilitar que mais pessoas e grupos da sociedade, tenham acesso à mídia. A monoglosia vai sendo rompida, e uma quantidade cada vez maior de pessoas e de visões do mundo vai se espraiando pelo tecido social. Eis, na íntegra, a fala do ex-presidente:


domingo, 19 de junho de 2011

tecno-democracia e tecno-controle

   Da mesmo forma que as redes sociais e as tecnologias midiáticas de um modo geral possibilitam o que alguns pensadores têm chamado de tecno-democracia, é preciso também estar atento ao que poderíamos chamar de tecno-controle. Este é um tema que sem dúvida irá gerar muita reflexão nas ciências sociais. Há tempos atrás publiquei aqui um pequeno texto sobre o "neuromarketing", que também é uma tendência contemporânea que aponta para a utilização de conhecimentos para o controle das pessoas, mas voltado para as relações de consumo. Talvez o "neuromarketing" esteja inscrito dentro daquilo que o filósofo Michel Foucault chamou de biopolítica.
  Acabei de ler uma pequena matéria sobre uma site chamado "matcha" (matcha.tv), cujo propósito é o de indicar filmes aos seus clientes a partir de um conjunto de informações que ele obtém a partir das pistas que o usuário deixa na web. Em princípio é uma utilização banal e sem maiores desdobramentos, mas pense-se nas utilizações possíveis deste mesmo procedimento para finalidade outras...
   As novas plataformas tecnológicas são isso mesmo, espaços abertos para disputas de várias ordens, e não é possível pre-dizer o que vai acontecer. Mas acima de tudo é preciso estar atento aos desdobramentos possíveis e para, numa perspectiva ativista-militante, impedir, como disse brilhantemente a professora e pesquisadora Lucia Santaella (autora de um livro fantástico chamado "culturas e artes do pós-humano): "é preciso impedir que o grande capital colonize o futuro".

Disco novo de Chico Buarque

Chico Buarque, para tristeza de Lobão..rsss, está lançando disco novo. Neste curtíssimo vídeo é possível acompanhar alguns momentos dos bastidores. Aliás, no site www.chicobastidores.com.br é possível acompanhar outros momentos, pois parece que cada dia tem um vídeo diferente. Aos interessados então...


Chico: Bastidores (2) from Chico Buarque: Bastidores on Vimeo.

sábado, 18 de junho de 2011

UM ANO SEM E COM SARAMAGO...

   Hoje faz um ano da morte do escritor português José Saramago. Este blog faz uma pequena homenagem a este que foi, em grande medida, parte significativa da consciência de seu tempo. Este autor soube como poucos aliar talento criativo e posição política em defesa da justiça social. Nunca reduziu sua literatura a um panfleto contestatório, e mesmo quando tocou em assuntos de ordem política e social, como em "levantados do chão", soube conduzir a narrativa com maestria. Como disse em texto belíssimo Pilar del Rio, a viúva do escritor, esta é uma estranha ausência, uma vez que a todo tempo suas palavras são lembradas. Elas estão em camisas de jovens, em concertos de rock, e sobretudo nas manifestações sociais proferidas por ativistas que lutam por um mundo mais justo e solidário. É realmente uma ausência muito estranha!!
   Viva José Saramago e sua obra, porque ambos são imprescindíveis!!


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Religião, lavagem cerebral e educação

Por Paulo Ghiraldelli Jr.

   Nossas universidades públicas, na seqüência do “modelo USP”, possuem uma forte tradição de ensino laico.
A herança dos ideais positivistas dos primeiros republicanos vingou nesse meio intelectual, quase todo ele afrancesado. A França viveu as grandes disputas entre católicos e protestantes e criou um antídoto a essas discordâncias, algo diferente da “tolerância” inglesa, na linha de John Locke. A França gerou, na esteira da fusão do Iluminismo com o Romantismo, um pensamento fortemente não-religioso que seguiu de Augusto Comte para Émile Durkheim, e que entrou para o campo pedagógico de modo fecundo, vindo aportar no Brasil de uma maneira muito direta. Os próprios parentes de Durkheim estiveram no Brasil, na linha da sociologia de educação, dando os passos iniciais no campo das Humanidades uspianas. (1)
   No Rio de Janeiro, Durkheim não teve o peso que ganhou em São Paulo. A Universidade do Brasil, na capital carioca, ao menos no início da República, respirou ares mais cosmopolitas. Por isso mesmo, na capital do país outras tendências se fizeram sentir. O pensamento de John Dewey deu o tom para certos núcleos de investigação e, durante um tempo, também atingiu a administração pública municipal. Ao invés do positivismo francês, ou melhor, não só com o positivismo francês, a tradição carioca de reflexão pedagógica se fez marcar pelo pragmatismo americano, não tão aguerridamente laico, mas fortemente materialista.
   Assim, se na Europa o positivismo francês entrava em concorrência com o pragmatismo americano, aqui no Brasil essas tendências se agruparam, tendo como inimigo o pensamento religioso, especialmente o da Igreja Católica.
   A minha geração veio dessa tradição. Filósofos e professores aprenderam com a nossa universidade pública (ou até mesmo com as PUCs, após os anos 60) os benefícios do ensino laico. República laica, ensino laico. Este era o nosso lema. Este é o nosso lema que está sendo desafiado desde os anos noventa.
   O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil tem sido enorme. O conservadorismo delas tem sido assustador. E a Igreja Católica, tanto no Brasil quanto no mundo, tem reagido a isso ampliando seu discurso mais conservador ou até mesmo retrógrado. Ao invés de se diferenciar, resolveu competir na mesma faixa, todos em busca de almas e, é claro, de dízimos ou “patrocínios”, como é na linguagem de alguns evangélicos, agora já pagos em cartão.
   Assim, nessa linha atual do novo samba de pastores e padres, o misticismo supera os mitos, o dogmatismo abafa a teologia e a lavagem cerebral substitui o ensino religioso. A religião deixa de ser um lugar de filósofos religiosos, pois ela se transforma no campo do não-pensamento. As vítimas desse tipo de trabalho, pela conta do baixo nível de nosso ensino médio, acabam conseguindo um diploma e, pelas vias mais diversas, chegam à universidade. Ao invés de ficarem em universidades ou faculdades confessionais de suas próprias religiões, adentram a universidade pública. Uma vez nela, começam a desenvolver uma barreira contra a ação educativa universitária. Agem como “quintas colunas”. De dentro da universidade, beneficiados pela “tolerância religiosa” que é bem mais alta no interior da academia que na sociedade em geral, alunos completamente robotizados pelo discurso igrejeiro tentam impor à escola laica o não-pensamento. A sala de aula tornar-se um lugar de difícil desenvolvimento de qualquer dialética de ensino.
   Alguns professores acreditam que isso pode ser resolvido pelo diálogo. Mas eles estão errados. O diálogo pressupõe pessoas racionais em conversação. Não é o caso. O que estamos vivendo nesses tempos é que, de um lado, o lado dos professores laicos, liberais, a disposição para o diálogo existe, mas do lado dos alunos religiosos que sofreram a lavagem cerebral, nada é ouvido senão a voz do pastor – em geral alguém completamente despreparado do ponto de vista intelectual (e moral) – dentro de seus cérebros. Quando o discurso dos conteúdos universitários contraria ou se choca com a voz do pastor, esses alunos “se desligam”, não escutam mais a aula. Outros saem da sala. Outros, ainda, tentam criar confusão – iniciam uma fala decorada de trechos bíblicos, expondo um repentino título de doutor em teologia do besteirol. Em nome da democracia liberal e da tolerância religiosa, muitos professores permitem que esses monstros da barbárie mental falem qualquer coisa e, ao final, para se livrarem deles, os professores acabam os aprovando. Por essa irresponsabilidade nossa, essas pessoas ganham diplomas de nossa universidade pública e, então, uma vez no ensino básico, como professores (!) reproduzem a lavagem cerebral da qual foram vítimas – com os nossos filhos e netos.
   No passado, essas pessoas eram silenciosas. Elas sabiam que estavam num lugar de conhecimento. Elas tinham a noção de que se o pastor era autoridade para elas, não era autoridade nenhuma diante da universidade laica. Agora, a barbárie do ensino médio conduziu-as à perda dessa dimensão. Elas querem, por todos os meios, impor aos colegas e aos professores uma verdade que não é do feitio universitário, porque parte de pressupostos não compartilhados pelo mundo do ensino. Ou seja: nada que é de fé, nada que é do campo dogmático, pode ser levado a sério na universidade, a não ser como dado histórico. O saber acadêmico pede sempre fundamentos e justificativas. Tudo precisa ser argumentado racionalmente, empiricamente, hermeneuticamente, mas nada pode ser mágico. A Bíblia Sagrada é um livro muito importante para a universidade, mas como documento histórico de uma filosofia moral poderosa, que deve ser lido sob múltiplas facetas e perspectivas. Mas isso não é possível diante dos que foram submetidos à lavagem cerebral da ignorância pastoral. O resultado, em curto prazo, pode ser a barbárie. Nosso país pode, rapidamente, ficar mais burro do que já está.
   Caso os professores, diretores e reitores não atacarem esse problema de frente, criando estratégias no sentido de reiterar a autoridade dos professores enquanto agentes laicos, nós poderemos, em pouco tempo, inviabilizar nossa pesquisa, principalmente no campo das Humanidades. Pois o princípio da academia, contra qualquer igreja, é a descrença, o ceticismo, a investigação livre e, principalmente, a inteligência e não a mentalidade fechada. É preciso lançar mão de um novo slogan, algo do tipo: “não é preciso ser burro para ser religioso”. As pessoas podem ter suas religiões, mas elas precisam aprender que o caráter sagrado de suas crenças religiosas pertence à vida privada, e que no campo público, a regra é laica e liberal (2).
   A tolerância religiosa do Estado laico não implica em permitir que as doutrinas religiosas ou, no caso, pseudo-religiosas, retire da universidade o seu prêmio maior para a sociedade, o de ser o lugar onde os jovens entram com uma opinião e podem sair com algo mais que ter opiniões, podem sair com justificativas racionais para suas novas opiniões. As religiões de lavagem cerebral que dominam o Brasil atual são, nesse sentido, um foco de barbárie que, se não tomarmos atitudes agora, poderá vir a  destruir nossas cátedras universitárias. Acreditem, sei do que estou falando. O Brasil corre perigo.

(1) Ver: Ghiraldelli Jr., P. Filosofia e história da educação brasileira. São Paulo: Manole, 2009, segunda edição.
(2) Ver: Zabala, O futuro da religião. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2005. E ainda: Rorty, R. Uma ética laica. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

domingo, 12 de junho de 2011

PENTECOSTALIZAÇÃO DO MOVIMENTO DOS BOMBEIROS


   Não há nenhuma dúvida de que a campanha salarial dos bombeiros é justa e merece todo nosso apoio. Mas como em todo movimento há interesses escusos. Afora questões de utilização partidária, eu gostaria de chamar atenção para um outro tipo de ocorrência. Refiro-me a "pentecostalização" das instituições públicas brasileiras (dizem até que essa tendência extrapola nossas fronteiras) que deveriam ser laicas e seculares. Não há nenhum problema em uma pessoa ser católica ou adeptas de seitas pentecostais e ser bombeiro, professor ou médico, mas transformar um ato de luta política em culto pentecostal é gravíssimo. Há anos atrás uma profissional do Estado do Rio de Janeiro me disse que foi participar de uma reunião na qual a própria Rosinha estaria presente. Ao chegar com um pouco de atraso pensou ter entrado em uma sala errada, visto que o que via se assemelhava mais a um culto do que a uma reunião de trabalho.
   O que vi e ouvi ontem na frente da assembleia legislativa do Rio foi uma coisa pavorosa. Pode ser que aquilo que vi tenha sido apenas naquele momento pontual, mas mesmo assim era horrível. O orador (sem trocadilho) conclamava a todos a apoiarem a luta dos bombeiros garantindo que Jesus estava "do nosso lado". Em seguida pediu a todos que fechassem os olhos e orassem. Tudo naquele clima de histeria típico desses atos. 
   Fiquei ainda mais chocado quando li no blog do Luís Nassif, uma matéria veiculada pelo jornal "o globo", na qual se evidencia as relações entre alguns líderes do movimento e grupos religiosos. A matéria, sem dizer claramente, parece querer fazer uma crítica ao fato de que esses líderes têm ambições políticas partidárias. Pessoalmente não acho que há um crime ou uma imoralidade nisso, sendo que também reconheço como é fácil essas ambições estarem, para alguns líderes, acima dos interesses da categoria. Mas o que mais me chamou a atenção é o fato de que há, como disse o governador, uma utilização indevida de aspectos religiosos num ambiente em que as questões deveriam ser tratadas no âmbito da palavra secular. Pois como vou me opor a uma tese que é respaldada por Deus???
   Não quero com isso minimizar as responsabilidades do governador. Acho legítima a luta dos bombeiros por melhores salários e condições de trabalho, e creio que o Estado tenha condições de remunerar melhor categorias vitais como os professores e os próprio bombeiros. Mas o que quero chamar a atenção aqui, é que este é mais um capítulo do que venho chamando de "pentecostalização" da coisa pública. Tenho refletido sobre isso e tenho colecionado episódios nos quais fica evidente uma assunção dos discursos pentecostais histéricos dentro de instituições que deveriam, por força até mesmo constitucional, serem ambientes laicos.
   Quem estiver curioso de saber das relações entre alguns líderes do movimento e lideranças pentecostais, leia o link abaixo:

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Recorde de emendas revela compromisso nacional com o PNE

  Enquanto a mídia corporativa tenta nos pautar com uma discussão vazia, como aquela do livro "por uma vida melhor", um feito histórica está acontecendo. Refiro-me a PL 8035/2010 que institui o Plano Nacional de Educação para o próximo decênio. A emenda recebeu 2.915 emendas, o que é um indicativo do interesse que ela desperta. Fui ao google para ver o que a grande mídia divulgou sobre o fato. Sabe o que achei? Nada!! Pelo menos nas primeiras 30 ocorrências.
 Há uma campanha, com a qual concordo, que cobra que o governo federal comprometa 10% do PIB com a educação pública, em todos os seus níveis. Mas o Projeto do governo acena com 7%, o que não é o ideal. Mas se pensarmos que 7% é uma marca histórica, e se levarmos em conta que o Produto Interno Bruto tem crescido muito nos últimos anos, chegaremos a conclusão de que é uma marca importante. Por tudo isso podemos entender porquê tem tanto economista falando de educação (principalmente na Veja).
Leiam o texto da UNDIME (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação)
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PNE recebe mais de 2,9 mil emendas

A Câmara dos Deputados encerrou o prazo de emendas ao PL 8035/2010, com um conjunto de 2.915 propostas de alteração ao texto apresentado pelo Poder Executivo em dezembro do ano passado. É o maior número de emendas recebido até hoje, na Câmara, para um projeto.

Com a previsão de vinte metas a serem cumpridas para os próximos dez anos, o texto original do PL 8035/2010 está sendo debatido por todo o país, por diversas entidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil, além de casas legislativas estaduais. Para analisar a matéria, o Congresso Nacional instituiu uma Comissão Especial dedicada ao tema. Até agora, esta instância deliberativa, majoritariamente composta por parlamentares ligados à educação, realizou quatro audiências públicas na Câmara dos Deputados, sobre 
qualidade na educação, expansão e universalização do acesso ao ensino, financiamento das políticas educacionais e educação especial e inclusiva.


Audiências nos estados
Por iniciativa da Comissão Especial, deputados federais estão estabelecendo parcerias com deputados estaduais e organizando audiências públicas nos estados, geralmente nas assembleias legislativas. A intenção é de que o assunto seja discutido por todos e enriqueça o texto final. O relator da matéria, deputado Angelo Vanhoni (PT/ PR), tem afirmado que uma primeira versão do relatório será entregue entre meados de agosto e início de setembro. Mas com o número alto de emendas, não é possível determinar, neste momento, quando o relatório estará pronto para ser votado. A priori, a análise dos deputados da Comissão é terminativa, ou seja, após votado nesta esfera da Câmara dos Deputados, o texto deverá seguir diretamente para o Senado Federal.

Compromisso com o relatório
Pioneira na construção de emendas, distribuindo um primeiro quadro com mais de 80 contribuições ao PNE em 15 de fevereiro de 2011, a expectativa da Campanha Nacional pelo Direito à Educação é de ter o texto aprovado ainda este ano. A rede, da qual a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) é membro de seu Comitê Diretivo desde 2001, começou a debater o PNE 2011/ 2020 em 2008, nos marcos das etapas municipais e estaduais da Conferência Nacional de Educação (Conae). Na etapa final, em março de 2010, em Brasília, a rede defendeu mais de 180 emendas ao Documento Base, todas de sua autoria. Praticamente todas elas foram aprovadas na Plenária Final da Conferência. Membro da Comissão Organizadora da Conae, a Campanha coordenou o eixo de “Financiamento da Educação e Controle Social”, cabendo à Undime a coordenação do eixo “Democratização, Acesso, Permanência e Sucesso Escolar”. O objetivo da Conae era propor diretrizes ao Plano Nacional de Educação.

Nas quatro audiências públicas em que participaram na Câmara dos Deputados, por convocação da Comissão Especial do PNE, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação e a Undime têm afirmado seu pleno compromisso em colaborar com o relator, deputado Ângelo Vanhoni, na construção de seu relatório.

A Undime começou a construir banco de dados com as emendas apresentadas ao PNE, para, a partir da análise de seu conteúdo, subsidiar a organização de seminários regionais “A educação municipal na construção do PNE”. Os encontros acontecerão nos meses de julho e agosto e reunirão dirigentes, técnicos das secretarias municipais de educação, conselheiros, educadores, vereadores e movimentos sociais.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Educação e a prova dos nove


    Belíssimo artigo do professor Antonio Lassance. Explica, por exemplo, o porquê de tantos ataques ao ministro Fernando Haddad. Não nos iludamos, a sanha privatista continua a todo vapor, e no caso da educação ela traria danos enormes tanto a democratização da mesma quanto a autonomia dos professores. Os lucros parecem muito promissores, e essa turma não medirá esforços para abocanhar essa fatia. Leiam, reflitam e repassem...

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Por Antonio Lassance para o site "Carta Maior"

  Ao contrário do que parece, não existe e nunca existiu no Brasil o propalado consenso sobre a importância da educação. O que impera é não só o dissenso, fustigado pelo obscurantismo, como um disputa sobre o papel do sistema público, seu peso no orçamento do Estado e sua relação com o mercado da educação, um dos mais rentáveis do País. 

É curioso, mas dificilmente fruto de uma mera coincidência, que o fogo cruzado contra o ministro da Educação, Fernando Haddad, tenha se intensificado justamente quando o debate sobre o Plano Nacional de Educação e sobre o futuro de suas políticas no País deveria ser o mais relevante a ser travado neste momento. 

Apesar de inúmeros e significativos avanços nos últimos anos, estamos apenas caminhando em uma área na qual o País precisaria estar voando. 

O principal obstáculo decorre do fato de que a educação sofreu um profundo processo de fragmentação, confusão gerencial, subfinanciamento, desmonte de suas estruturas e desarticulação dos setores defensores do sistema público. 

A Constituição de 1988 promoveu uma positiva institucionalização da autonomia dos sistemas estaduais, municipais e da universidade. Promoveu a descentralização e a expansão da oferta de vagas, rumo à quase universalização do ensino fundamental. 

Todavia, sobretudo a partir dos anos 1990, o federalismo brasileiro passou por um processo de grave distorção. A falência econômica de muitos Estados, por conta de gestões irresponsáveis ao longo dos anos 1980, e suas políticas de terra arrasada (torrar recursos e deixar a casa destruída para governos seguintes) levaram a um contexto favorável ao ajuste fiscal rígido. 

Estados e Municípios foram obrigados a reduzir custos, e a educação foi um dos setores prioritários da operação-desmonte. Salários dos professores foram achatados e proliferaram os contratos temporários. Muitos se tornaram “concurseiros”, policiais, funcionários de bancos, analistas de carreiras vinculadas à gestão da máquina do Estado (tributação, orçamento, administração) e tudo o que, com salários bem mais elevados, demonstrava que a educação não era prioridade. 

Ao mesmo tempo, escolas desmoronavam sobre a cabeça de alunos e professores. O ensino técnico havia sido abandonado. O ensino médio, excluído do Fundef, foi deixado à míngua. A maioria dos governadores, na prática, abandonou por completo seu compromisso com a educação, preferindo redirecionar a missão essencial dos Estados às políticas de desenvolvimento econômico, com estímulo à guerra fiscal e obsessão por atrair empresas e e empreendimentos que guardariam relação direta com o financimento de campanhas políticas.

A educação chegou ao fundo do poço, e é por isso que ainda é tão difícil esperar que ela dê saltos. Cada tentativa tem o provável resultado de bater com a cabeça na parede. 

A fragmentação é tal que há diferenças muito pronunciadas de desempenho entre Estados vizinhos, em uma mesma região, e mesmo de escolas vizinhas, em um mesmo município. A depender do governador, do prefeito e até do diretor, a cada quatro anos tudo pode ser perdido, e a educação passar do vinho ao vinagre. Avanços de uma gestão podem ser revertidos pelas gestões seguintes.

O governo Lula patrocinou grandes conquistas, sob o comando do ministro Haddad. Elevou o gasto com educação e transformou o Fundef em Fundeb, finalmente abrangendo o Ensino Médio. Lula também tomou a decisão crucial de suspender a Desvinculação das Receitas da União (a famigerada DRU), que diminuía o valor dos recursos a serem repassados para a educação. Desde 2003, foram construídos 214 centros de formação profissional e tecnológica, mais do que os 140 erigidos desde 1909. Há 14 novas universidades, além de mais de 30 novos campi ligados às universidades já existentes. 

O Judiciário brasileiro também deu uma contribuição importante, recentemente, derrotando cinco governadores que haviam pedido a decretação da inconstitucionalidade do piso salarial dos professores estabelecido nacionalmente. 

Reverteu-se a absurda situação anterior, na qual, em nome da “responsabilidade” fiscal, o Governo Federal se desincumbia de cumprir sua responsabilidade com a educação.

O fato de o Brasil ocupar, segundo a Unesco, o 88º lugar, entre 127 países, e o 53º, entre 65 países pesquisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem muito a ver com o fato de a educação ser, igualmente, não a primeira, mas a 53ª ou a 88ª prioridade de muitos governos estaduais e municipais.

É fácil jogar toda a culpa, ou a maior parte dela, sobre o Ministério da Educação (MEC), e mais especificamente, sobre os ombros do ministro Fernando Haddad. Fácil, mas simplista.

Certamente, o MEC cometeu vários erros. O ministério não se empenhou por consolidar a coalizão de defesa do sistema público para além de suas reuniões com outros governos. Demorou muito para fazer a Conferência Nacional de Educação e está longe de ter uma boa relação com as organizações nacionais de professores. Não priorizou o tema da gestão democrática, verdadeira pedra de toque da autonomia do ensino, mas que precisa de parâmetros claros para que não seja mais um ingrediente de desagregação do sistema.

Também não conseguiu estabelecer uma nova estratégia de relacionamento com Estados, Municípios e DF. Hoje, a política do Governo Federal para a educação não é uma política de educação nacional. O que existe são diferentes políticas educacionais espalhadas pelo país, e o esforço do MEC no sentido de harmonizá-las por estratégias de apoio e cooperação. 

Mas os ataques que Haddad tem sofrido ultimamente vêm de quem nunca o aplaudiu, quando de seus acertos. A coalizão que mira no MEC quer acertar na testa destes avanços proporcionados em menos de uma década

Quem conhece um pouco da história da educação no Brasil sabe que inúmeras tentativas de transformá-la mais profundamente são estigmatizadas com pesadelos e fantasmas. 

Por exemplo, nos anos 1930, o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, chamou para conduzir seu projeto de reforma do ensino ninguém menos do que o honorável Anísio Teixeira, velho batalhador da educação pública, laica e inovadora. Ambos criaram, como modelo, a Universidade do Distrito Federal. Entre em seus quadros, estavam nomes que reinventaram as ideias sobre o Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda, Cândido Portinari, Heitor Villa Lobos, Cecília Meirelles, Álvaro Vieira Pinto, Josué de Castro, Gilberto Freyre e Mário de Andrade. Portanto, gente de todos os matizes. 

O que isso rendeu a Pedro Ernesto? A acusação, feita pelos conservadores, de abrigar comunistas, de ser um ateu, contrário ao ensino da palavra de Deus. Anísio Teixeira demitiu-se. O prefeito foi exonerado e preso, acusado de simpatia com comunistas. A UDF foi absorvida, no Estado Novo, pela Universidade do Brasil (atual UFRJ) e seus professores passaram a ser contratados com crivo sobre suas convicções ideológicas e religiosas, sob a lupa de Alceu Amoroso Lima e do Cardeal Leme. 

O projeto de Anísio Teixeira retornou revigorado, décadas depois, em Brasília, no projeto de Escola Parque, de tempo integral, e com Darcy Ribeiro, com a Universidade de Brasília. Nova ditadura, a de 1964, interrompeu o experimento.

A educação no Brasil, sucessivamente golpeada pelo autoritarismo, em períodos democráticos é bloqueada quando pretende avançar. É por isso que ela se arrasta vagarosamente. A primeira Lei de Diretrizes e Bases só foi promulgada em 1961, sendo que estava prevista desde a Constituição de 1934 (na forma de um Plano Nacional de Educação). Foram 13 anos de tramitação, desde o envio de seu projeto, em 1948. A segunda LDB, estabelecida pela Constituição de 1988, só chegaria à sua redação final em 1996. 

A institucionalização das regras nacionais para a educação é sempre muito lenta. Isso nada tem a ver com democracia e tempo de debate. Pelo contrário. Esses projetos são deliberadamente entregues a uma tramitação modorrenta, com parlamentares que se esmeram por mantê-los em total monotonia, enquanto agridem a compreensão pública com polêmicas disparatadas. Atiram para todos os lados em questões pontuais, enquanto agem solenemente em prol do silêncio de cemitério, trilha sonora mais comum do debate sobre os rumos da educação.

Enquanto esperamos que o MEC seja rápido para corrigir seus erros e evitar que eles se repitam (como no caso do 10-7=4), é preciso ter clareza dos grandes desafios que se tem pela frente. O importante já não é apenas superá-los, evitando retrocessos, mas fazê-lo ainda mais rapidamente. O atraso histórico amargado pelo sistema público de educação é de tal monta que mesmo alguns resultados exuberantes colecionados nos últimos anos deixam a sensação de uma vitória de Pirro para professores e estudantes.

Mais do que dar continuidade ao que foi feito, seria hora de uma guinada.

domingo, 5 de junho de 2011

Bancos Comunitários II - Uma moeda para chamar de sua.

Matéria do Jornal "O Globo".

 Moradores do Preventório, em Charitas, estão às voltas com a escolha do nome de uma moeda que será lançada entre junho e julho deste ano para circular exclusivamente dentro da comunidade. O que, num primeiro olhar, parece uma brincadeira nos moldes do Banco Imobiliário é iniciativa séria, com 52 cases de sucesso espalhados pelo Brasil. O Preventório e seus cerca de 12 mil habitantes serão os primeiros em Niterói a receber um banco comunitário, que vai oferecer microcrédito a empreendedores e moradores e fará circular, na favela, uma moeda social com valor igual ao do real.


 A novidade está sendo desenvolvida pela Incubadora de Empreendimentos em Economia Solidária da Universidade Federal Fluminense (UFF), cuja equipe multidisciplinar reúne economistas, psicólogos e sociólogos. A Ampla apoia o projeto, concedendo descontos na conta de luz dos moradores, que serão convertidos para a moeda social.


 Líder do projeto, a professora de Sociologia da UFF Bárbara França explica que o banco será gerido exclusivamente pelos moradores, sem participação do poder público. A instituição financeira realizará a troca de reais por moeda social e oferecerá linhas de microcrédito aos moradores, para incentivar o desenvolvimento da comunidade. Mesmo quem estiver com o nome sujo poderá ter acesso a empréstimos, desde que sejam aprovados pelos funcionários do banco, também moradores do Preventório.

— A inadimplência costuma ser baixa, porque a cobrança é diária e realizada pelos próprios vizinhos. Há bancos que colam papéis com os nomes dos maus pagadores na porta e passam carros de som pela comunidade divulgado quem são os inadimplentes — explica Bárbara.

 Os empréstimos podem ser feitos em real ou na moeda social, que será aceita nos estabelecimentos da comunidade. Quem usá-la terá desconto na compra de produtos, como forma de impulsionar a circulação. Desta forma, o banco comunitário incentiva que moradores priorizem adquirir itens dentro do Preventório, aquecendo o mercado interno.

Bancos comunitários I

 A iniciativa não é tão nova, mas tem cada vez mais mobilizado pessoas e comunidades pelo Brasil afora. Trata-se de Bancos Comunitários, cuja finalidade é dinamizar as economias locais e conscientizar os moradores das comunidades do potencial político do ato de consumir. Como desdobramento desse processo surge a consciência dos poderes locais, ou, como dizem atualmente, do empoderamento local. Joaquim de Melo, que não é economista formado, e sim um teológo, é um dos mais importantes defensores dessa ideia. Certa vez o vi em um programa da TV Brasil (ele só encontraria espaço numa TV pública) e fiquei realmente impressionado com a proposta que ele defendia, pois articulava num só movimento vários aspectos da vida social. 
 Abaixo segue uma pequena entrevista do Joaquim:
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 Ele criou o primeiro Banco Comunitário do Brasil em conjunto com a Associação de Moradores do Conjunto Palmeiras, bairro da zona sul de Fortaleza, no Estado do Ceará. Formado em Teologia preferiu dedicar seu tempo ao desenvolvimento de comunidades pobres. Hoje ele está com a Incubadora de Empreendimentos em Economia Solidária da UFF para ajudar as comunidades de Saracuruna e do Preventório a criarem seus próprios bancos.
Como você avalia a participação das comunidades do Preventório e de Saracuruna no Projeto?
O povo das duas comunidades está muito feliz com a ideia de terem seus Bancos Comunitários. E participam muito das reuniões, são criativos e principalmente gostam do lugar em que vivem. Por isso querem melhorar a vida das pessoas que moram lá.
Qual a diferença entre um Banco Comercial e um Banco Comunitário?
Os Bancos Comerciais são todos iguais, atendem as pessoas de forma linear. No Banco Comunitário quem trabalha lá são as pessoas da comunidade. Então o atendimento é humanizado. Se uma senhora chega precisando pagar uma conta com algum problema de saúde é atendida primeiro, pode sentar, beber uma água. As pessoas que trabalham lá conhecem ela e vão cuidar dela. Isso faz a diferença! O atendimento humanizado e feito por pessoas da sua rua, do seu bairro. Sem falar que o Banco Comercial pega o dinheiro da comunidade e vai investir onde ele achar que pode dar mais lucro e o Banco Comunitário é feito para que o dinheiro da comunidade seja usado no próprio local, gerando consumo e desenvolvimento da região.
Uma comunidade é pobre porque suas riquezas vão ser usadas fora dela. O dinheiro que os trabalhadores ganham é gasto em produtos feitos em outras cidades. A comunidade não é pobre, apenas não tem ferramentas para segurar o seu dinheiro ali, no local. E a Moeda Social foi pensada para esse fim, ser usada dentro da própria comunidade. Aí as riquezas começam a aparecer.
E as condições de Saracuruna e do Preventório, são boas para a criação dos Bancos?
Muito boas! A oportunidade que a Ampla está dando é única! Eu queria uma dessas lá no Banco Palmas, no Ceará. Além desse empurrão inicial com o patrocínio dos bancos durante o primeiro ano, a concessionária ainda vai dar um bônus para cada pessoa que for no banco pagar sua conta de luz em dia. Vai dar o bônus em moeda social. Já pensou? Receber um troco na hora de pagar a conta de luz? Qual banco faz isso?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A EDUCAÇÃO BRASILEIRA E AS MANOBRAS PRIVATISTAS...

  
   É possível que alguém venha me dizer que estou, como diziam os antigos, vendo chifre em cabeça de cavalo. Mas acho que não. Senão, vejamos:  O que tem a ver esses fatos? A) a professora sindicalista Amanda Gurgel, que bombou nas redes sociais recentemente com um pronunciamento comovente numa audiência pública no Rio Grande do Norte, ter sido convidada para o programa do Faustão e terem lhe concedido preciosos 27 minutos de um horário nobilíssimo. lembrando que neste horário muitas mães e pais de alunos de rede pública de educação estão devidamente conectados à telinha numa espécie de liturgia dominical; B) a mídia escrita, televisada e radiofônica fez um ataque  fortíssimo ao MEC por este ter admitido um livro que supostamente ensinava o português errado (por mais que tenha saído em defesa do livro instituições como a ABRALIN - Associação Brasileira de Linguística, e  linguístas da maior importância como Marcos Bagno); C) o grupo Abril, dono da revista Veja, que tem escrito sistematicamente sobre o tema da educação brasileira, sempre numa perspectiva conservadora, adquiriu recentemente um dos maiores colégios privados do Brasil, o PH. 
  Essas três ocorrências citadas acima tem uma conexão clara ao meu ver: um programa de privatização para a educação, visto que esta aparenta ser um dos "gargalos" que impediram o Brasil de dar o salto para o futuro. As denúncias sistemáticas dos problemas da educação, que realmente existem, visam na verdade criar um consenso. O ardil se colocaria da seguinte forma: o Estado se mostrou historicamente incapaz de resolver o problema da educação no Brasil, de modo que a única solução é a contratação de grupos privados, o grupo Abril, por exemplo, ou Fundações, como a Fundação Roberto Marinho ou Ayrton Sena. E por aí vai... o modelo de privatização não seria obviamente feito naquele molde feito por FHC, pois seria até inconstitucional, visto que nossa carta magna declara que a educação, sem prejuízo à educação privada, seja feita pelo Estado. O processo seria feito através de parceria, na qual os grupos privados entraria com o "software", ou seja, com a tecnologia, estabelecendo metas, fiscalizando professores, criando apostilas, etc.
  Creio que seja muito grave tudo isso, e conclamo que fiquemos espertos a manobras que venham a ser feitas nesse sentido. Escola pública é pública e o estado brasileiro tem que prover os recursos para que possamos superar o atraso e realizar uma educação pública de qualidade. 10% já!!!!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AS PEDRAS ENCANTADAS DE LULA CORTES

A noite era convidativa. Uma lua alta e minguante desenhava no céu uma luminosidade inspiradora. Afora o problema de estacionamento, tudo concorria para uma noite auspiciosa para assistir um documentário, que para além de suas qualidades intrínsecas, era pra mim um encontro com uma cena musical que – apesar de eu não ter convivido com ela diretamente – fazia parte de minha adolescência. O documentário era “Nas paredes das pedras encantadas” dos diretores Leonardo Bonfim e Cristiano Bastos, e veiculado no Rio de Janeiro na mostra de documentários musicais In-Edit.

            O documentário é uma tentativa de recriar as histórias em torno do álbum “Paebiru” gravado em 1975 pelos então desconhecidos artistas Zé Ramalho e Lula Cortes – artista recentemente falecido. Foi o primeiro disco do Zé, e o segundo de Lula, que dois anos antes, 1973, havia gravado o não menos psicodélico “Satwa”, com o hoje cartunista Laílson. Paebiru seguiu uma trajetória que o envolveria anos mais tarde em uma atmosfera meio mítica. Isso porque logo depois de concluído, a Rozemblit, gravadora pernambucana na qual o disco foi gravado, sofreu uma inundação (uma cheia como dizemos em bom pernambuquês) e sobraram apenas algumas centenas do LP. Esse acontecimento fez com que as poucas unidades que circularam na época fossem vendidas “a peso de ouro”. Parte deles, inclusive, foi vendida pra gente de outros países, o que acabou fazendo-o conhecido de pesquisadores estrangeiros ensejando com isso seu lançamento em cd na Inglaterra e Alemanha.

            A inspiração desse disco está num sítio arqueológico situado na Paraíba em uma localidade chamada Ingá do Bacamarte, na qual se encontra uma pedra com muitos desenhos supostamente criados por uma antiga civilização já extinta. O primeiro contato que se tem notícia com este acervo arqueológico foi feito em 1598 pelos soldados liderados pelo capitão-mor da Paraíba, Feliciano Coelho de Carvalho, quando os mesmos iam no encalço dos índios potiguares.  Essa história foi contada no citadíssimo livro “Diálogos das grandezas do Brasil”, de 1618, cujo autor, Ambrósio Fernandes Brandão, interpretava os tais símbolos como “figurativos de coisas vindouras”. Algo como uma profecia.

            O documentário não apresenta imagens da época. Talvez porque não haja mesmo nenhum registro em filme daqueles momentos, mas ele consegue recriar o ambiente místico alucinógeno em que o disco foi concebido, e quais eram as ambições estéticas existenciais dos artistas envolvidos. Há momentos muito interessantes tais como o encontro de Lula e Alceu, ou as entrevistas dadas pelos moradores da redondeza da Pedra do Ingá, localidade onde se encontra a tal pedra mística que serviu de inspiração para Lula e Zé. Mas não há dúvida que o ponto alto do documentário são as falas bem humoradas e inteligentes do próprio Lula Cortes. Logo no início ele diz, em tom de chiste, que é muito dura a vida de um “pobre star” brasileiro. Isso ele fala quando estão indo na expedição à Pedra do Ingá “no pior carro do mundo, com a pista molhada e o motorista chama ‘Seu Morte’”. Sem dúvida, temos que concordar com ele!

            Lula Cortes foi um dos artistas mais “roots” (aprendi essa com meu filho) do cenário artístico musical do Brasil. Inquieto; culto; bom letrista; bom compositor e dono de um timbre de voz muito bonito, mas incapaz, assim me parece, de produzir sua própria carreira, como fizeram Alceu, Zé Ramalho e outros. Lula permaneceu até o final de sua vida como um marginal na MPB. No início da década de 1980 até que houve uma tentativa de colocá-lo em outro plano. Ele gravou pela gravadora Ariola, um álbum muito bem gravado, com encarte bonito e bom som, chamado “o gosto novo da vida”. O disco seria para colocá-lo num plano nacional, com shows de divulgação no Brasil inteiro. Era um disco que sem dúvida cairia no gosto do público, pelo menos de um público que curtia MPB, etc., mas o disco, apesar de muito bonito, não aconteceu. E não foi por causa de enchentes ou qualquer ocorrência fortuita, mas talvez por uma incapacidade de Lula em administrar a própria carreira. Uma pena para os amantes dessa senhora chamada MPB, pois muitos se tornariam, como eu me tornei, fã desse artista pernambucano.

            Em muitos momentos da projeção eu ficava pensando na necessidade de se fazer conhecer aquela cena musical que se desenvolvia em Pernambuco da década de 1970. Era sem dúvida uma ocorrência antropofágica, na qual os jovens músicos assimilavam o rock e o fundia com as manifestações culturais locais. Era uma re-leitura do rock na qual lisergia e contestação se associavam ao canto árido dos caminhos do sertão. Mas tudo isso feito por jovens urbanos cheios de referências culturais da chamada “alta-cultura” ocidental e elementos da cultura oriental (Lula trouxe do Marrocos uma cítara popular batizado por ele de tricórdio). Este foi um momento de uma florescência musical na qual muitos artistas despontaram e criaram coisas belíssimas. Ali estavam Flaviola, o grupo Ave Sangria, Marconi Notaro e outros tantos músicos como Zé da Flauta, Robertinho do Recife e Paulo Rafael. Esta cena precisa ser revisitada!

            Registre-se ainda que tudo isso acontecia em paralelo com o conhecido movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna. Como eram tempos bastante radicalizados esses dois grupos, por motivos estético-existenciais, não se misturavam. Depois tudo mudou, pois Antônio Nóbrega, filho dileto do movimento Armorial cantava junto no carnaval com Chico Science, filho dileto da cena rock-underground recifense.

            No final da película dei de cara com Lenine, que olhava absorto para a tela no momento em que rolavam os créditos. Seu olhar parecia focado em algum ponto do passado, em que uma geração de artistas pernambucanos, como ele, mostrou uma força e uma qualidade criativas dignas de serem conhecidas pelo Brasil e pelo mundo. Viva a multifacetada cultura musical brasileira!

ENTREVISTA COM OLIVER SACKS SOBRE MÚSICA E CÉREBRO HUMANO

O GLOBO: O senhor concorda com Charles Darwin quando ele diz que a música teve um papel importante na evolução? Especificamente na seleção sexual, como um atrativo a mais para o sexo oposto?
OLIVER SACKS: Como o comportamento e as suscetibilidades não deixam registros fósseis, é difícil saber como nossos ancestrais se comportavam.
Mas estou inclinado a pensar que a música surgiu muito cedo na espécie humana, tão cedo quanto a linguagem. Linguagem e música são fontes de comunicação primordiais.

O GLOBO: O senhor discorda, portanto, de Steven Pinker e de outros especialistas que sustentam que a música é um subproduto do aparato sensorial, prazerosa mas dispensável?
SACKS: Sim, discordo de Pinker.Não vejo a música como algo acidental e trivial, como um subproduto da linguagem.A música está presente em todas as culturas e apresenta, nos seres humanos, aspectos únicos que não têm paralelo na linguagem. Falo do ritmo, do fato de respondermos à música com movimentos. Nenhum outro animal faz isso. É preciso ver o ritmo como algo primordial na evolução humana.Porque todos os seres humanos respondem a ele. A música une as pessoas. E há conexões específicas no cérebro para isso.

O GLOBO: Unir as pessoas poderia ser uma vantagem evolutiva?
SACKS: Não posso dizer que a musicalidade humana se desenvolveu para unir as pessoas.Mas algo surgiu, se mostrou vantajoso e houve a seleção dessa característica. É claro que a musicalidade é uma vantagem evolutiva. Nenhum outro animal dança com ritmo, mas qualquer criança o faz. Isso pode ter sido um fenômeno quando surgiu, todos esses pequenos seres dançando.

O GLOBO: De que forma isso é marcado no cérebro humano?
SACKS: Muitas partes do cérebro se desenvolvem com a percepção, o aprendizado e a imaginação do ritmo. De novo, nenhum outro animal tem a capacidade de ouvir e analisar sons complexos, com tons, semitons, ritmos, palavras.Essa habilidade é especificamente humana. Mesmo pessoas que sofrem de mal de Alzheimer ou tiveram um derrame respondem à música.Várias estruturas do cérebro se relacionam a isso.

O GLOBO: De que forma?
SACKS: A música se apossou de muitas partes do cérebro humano. É possível ver como o cérebro se modifica em resposta à música. Estudos com imagens do cérebro já comprovaram a ampliação de determinadas regiões no cérebro de músicos. Vendo imagens de cérebros, não dá para dizer quem é matemático ou escritor. Mas dá para dizer facilmente quem é músico quando essas estruturas ampliadas aparecem.

O GLOBO: Há alguma parte do cérebro especialmente voltada para música? SACKS: Não há uma só parte do cérebro. A música está em todo mundo, por todo o cérebro, envolve várias partes desse órgão e não necessariamente as mesmas. Isso é que é o mais incrível.

Mas há também os que não respondem de forma alguma à música, não é?
SACKS: Sim, há algumas pessoas que não percebem musica e ficam muito impressionados com os relatos. Há outros que não ouvem determinados tons ou semitons. Essas amusias ocorrem em razão de danos no cérebro. Parte da rede que está faltando.

O GLOBO: E as alucinações musicais? Até que ponto elas poderiam ser interpretadas como um problema psicológico? SACKS: Quando uma pessoa tem alucinação musical (ouve música que ninguém mais está ouvindo), a primeira coisa que pensa é que ficou louco, que está ouvindo coisas. Mas é um processo completamente diferente de ouvir vozes como os esquizofrênicos. Eles recebem ordens, é bem diferente e as pessoas enfatizam isso. Alucinações musicais são bem comuns, são como velhas memórias que tocam na mente. Não é uma doença mental.

O GLOBO: Por que a música muitas vezes provoca uma reação emocional? Como o cérebro é capaz de diferenciar uma melodia triste de uma alegre?
SACKS: Um dos maiores poderes da música é controlar emoção, desenvolver, provocar respostas emocionais. Anatomicamente, podemos dizer que algumas regiões do cérebro afetadas pela música estão perto daquelas ligadas às emoções, envolvidas nas percepções dos cheiros que despertam memórias. Mas ainda não está claro como essas respostas emocionais ocorrem.
Não se sabe ainda o quanto depende da cultura.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Secretário diz que ditadura assassinou Neruda

Contribuição enviada pelo amigo Ronaldo Bortolini

A Agência Ansa, italiana, divulgou em sua página em português um notícia estarrecedora: o último assistente pessoal do poeta Pablo Neruda, Manuel Araya,afirmou que ele foi assassinado por agentes da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Araya contou à revista mexicana Proceso que, nos doze dias transcorridos entre o golpe militar, perpetrado em 11 de setembro de 1973, e a morte de Neruda, em 23 do mesmo mês, houve várias invasões de militares à casa do poeta, em Isla Negra.

Neruda, que sofria de câncer de próstata, foi internado na Clínica Santa Maria, em Santiago, pelo embaixador do México, que pretendia tira-lo da capital chilena. Segundo Araya, um dia antes da viagem foi administrada ao poeta uma injeção que provocou sua morte.

Esta clínica é a mesma em que se suspeita que o ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) tenha sido envenenado, em 1982, a mando do Governo Pinochet.

Em memória de Neruda, reproduzimos acima uma das última gravações que dele se tem, declamando dois dos seus “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”.

domingo, 22 de maio de 2011

Polêmica sobre o livro da discórdia e o poeta Zé da Luz...

  A associação Brasileira de Linguistas, ABRALIN, produziu em texto em resposta a toda essa controvérsia em torno do livro "Por uma vida melhor" da coleção Viver http://www.abralin.org/noticia/Did.pdf. Foi sem dúvida uma resposta técnica, lúcida e tranquila aos ataques histéricos (como diz a carta) de uma camada social que supostamente defende os interesses da língua portuguesa. Sem querer, muitas dessas pessoas foram, ao meu ver, instrumentalizadas a defender os "falares" da casa-grande. Este foi o caso do senador Cristóvam Buarque e também da ABL. Mas o que se pode esperar de uma instituição que institui José Sarney e Roberto Marinho como imortais da literatura brasileira.
  Aproveitando a ocasião gostaria de dizer que toda essa discussão me fez lembrar de um texto de um poeta "inculto". Dizem que esse poeta, Zé da Luz (nome bastante sugestivo) manifestou seu desejo de escrever um poema. Aí lhe disseram que poesia era coisa pra gente que sabe escrever; que conhece bem a língua, e não para um matuto que nem ele, Zé da Luz. Então Zé, do baixo de sua condição de iletrado, teria composto essa jóia que segue abaixo. Reparem como na sua linguagem "errada" ele constrói uma beleza de poema repleto de "fanopeia*", "melopeia*" e "logopeia*", tal como sugere Ezra Pound em seu "ABC da literatura".

AI SE SESSE
(Zé da Luz)

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.


Fanopeia - Projetar o objeto (fixo ou em movimento) na imaginação visual.
Melopeia - Produzir correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala.
Logopeia - Produzir ambos os efeitos estimulando as associações (intelectuais ou emocionais) que permaneceram na consciência do receptor em relação às palavras ou grupos de palavras efetivamente empregados.

Extraído do livro "ABC da literatura" de Ezra Pound.