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sábado, 2 de junho de 2012

A MÚSICA E OS NOVOS TEMPOS DE SIMULAÇÃO




              Vivemos realmente o tempo da simulação e da dissimulação. Não, prezado leitor, não farei aqui aquele discurso do tipo “ah, que tempos horríveis estes em que vivemos”, ou aquele outro: “antigamente é que era bom”. Há uma tendência em muitas pessoas em ver o presente sempre como ruína e o passado como um tempo ideal no qual parece que tudo era muito melhor. Há sobre esse assunto um conto do escritor dinamarquês Hans C. Andersen intitulado “as galochas da fortuna”, no qual uma certa galocha encantada fazia com que todos que a usassem fosse automaticamente transportados para o tempo ou condição em que o usuário considerasse ideal. Os desfechos das histórias de cada usuário da galocha não eram os melhores possíveis, mostrando assim que o “ideal” é só uma construção da nossa consciência.
            Mas o que trouxe realmente esse assunto à baila nesta coluna foi o fato de um aluno ter me chamado atenção para uma, como dizer, artista virtual (quase que eu dizia inexistente). Trata-se de Hatsune Miko, uma criação holográfica com voz sintetizada por um software chamado vocaloid. Não se trata de dublagem, e sim de um programa que sintetiza a voz humana. A cantora virtual é uma criação da empresa japonesa Crypton Future Media e faz muito sucesso entre o público jovem japonês. Ela é na verdade uma boneca holográfica tridimensional, e em seus shows é acompanhada por uma banda atual (uso o termo como sugerido pelo pensador canadense Pierre Levy, para quem o contrário de virtual não é “real” e sim “atual”). São mega espetáculos com a presença de milhares de pessoas que pulam, dançam e cantam junto com a cantora.  
            É verdade, como diriam alguns menos entusiastas dessas novidades tecnológicas, que se trata apenas de um grande feito tecnológico completamente esvaziado de qualquer profundidade ou densidade artística. De fato, a música veiculada por esse projeto é extremamente banal, mas que cumpre sua função de fazer dançar os adolescentes, e considerando que este seja o objetivo, ela cumpre de forma exemplar. As letras também, pelo que pude ver, estão na esfera do interesse dos adolescentes. Fala de encontros, beijos, ficar juntinhos, etc.
Mas talvez haja mais que isso para ver na novidade. Os usos futuros dessa tecnologia são talvez ainda impensáveis, e mais a frente é possível que utilizações menos banais possam surgir no horizonte. Não há dúvida de que as tecnologias não são apenas meros suportes para a veiculação de conteúdos. Elas guardam, com esses últimos, uma relação de proximidade na qual as interferências são inevitáveis. “o meio é a mensagem”, já foi dito nos anos 1960 pelo também canadense Marshall McLuhan. Há diversos estudos no sentido de evidenciar como que novas plataformas tecnológicas possibilitam formulações novas, que seriam inviáveis em suportes antigos.
            Mas voltando à nossa japonezinha, ela tem uma página no facebook que faz a alegria da galera teen. A página já conta com mais ou menos 500.000 pessoas e a própria cantora (se é que é possível) interage com os fãs fazendo promoções, mostrando novas canções etc. É muito curioso! Ela própria é uma simulação de uma adolescente de mais ou menos 14 anos, e considerando sua condição virtual, nunca vai passar disso. Vai ser sempre uma adolescente. Como alguém que encontrou a fonte da juventude. Isso também trás alguns elementos para que se reflita. Ela cumpriria mais ou menos o mesmo papel da nossa Sandy aqui no Brasil, com a diferença que nunca viraria mulher.
            Outra coisa que chama a atenção na figura de Hatsune é que assim como outros desenhos japoneses, ela não possui os olhos puxados, tão característicos dos japoneses. Lembro-me de um dos primeiros desenhos japoneses que vi, o Speed Racer, ele também não tinha os olhos nipônicos característicos. É possível que isso seja por conta da ambição de que o produto tenha uma aceitação internacional. É possível que os olhos puxados pudessem caracterizar por demais a origem étnica do personagem impedindo uma empatia internacional. Mas os olhos redondos podem ser também a caracterização externa de uma emulação através da qual os japoneses se modernizariam imitando o ocidente. Ou ainda, os japoneses produziriam em sua própria carne as marcas e os emblemas daqueles que encarnam a modernidade-mundo.
            Quem estiver curioso para ver a cantora é só dar um pulinho no youtube e ver os shows que lá estão disponíveis.

domingo, 2 de outubro de 2011

NEUROPOLIS

  Sabe essas ideias que quando a gente vê alguém realizando nos ocorre a pergunta: “puxa como é que não pensei nisso antes?” Pois é... me deparei com uma dessas outro dia. Milton Nascimento fez, em parceria com Tunai, uma bela canção sobre esse assunto – “certas canções” (“certas canções que ouço / cabem tão dentro de mim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz...”) –. Mas a ideia a qual me refiro era tão boa que mesmo antes de vê-la realizada já pressenti sua qualidade. Estou me referindo ao projeto “neuropolis” de autoria do músico e compositor paulista Lívio Tragtenberg. A palavra é escrita assim sem o acento agudo no primeiro ‘o’, mas é para ser pronunciada como se tivesse. Excentricidade do autor.

  Nesse projeto Lívio pôs no estúdio artistas, músicos e compositores que fazem das ruas de São Paulo o seu espaço de exibição. Claramente se coloca já de cara um grande problema: que unidade é possível dentro de uma tremenda diversidade que esses músicos encarnam? Pra se ter uma ideia do arco musical de Sampa representado no projeto, temos desde os emboladores Sonhador e Peneira à Yuko Ogura, musicista e professora de koto e sanguen, instrumentos tradicionais japoneses. Porém, não obstante a dificuldade, Lívio consegue não só produzir um clima de unidade no trabalho, como consegue interessantes encontros, com excelentes resultados timbrísticos.

  A praça pública, já sabemos, é o espaço, como diria o mestre russo Mikail Bakhtin, do vozerio e da polifonia. Ele é o lugar do multifacetado, do divergente, ou numa última palavra: da democracia. Ao contrário das mídias, no seu viés corporativo, o espaço da rua possibilita a emergência das singularidades e das experiências, estabelecendo um fluxo vital estético-sonoro tão plural quanto plural somos nós, seres humanos. Desde tempos imemoriais temos músicos ambulantes a transitar pela corte ou pelas cidades fazendo a crônica do tempo, ou, trabalhando a soldo de algum poderoso, tecendo loas em sua honraria. Comum também era a presença do poeta-cantor exercendo o puro e simples entretenimento.

  O termo “neuropolis”, explica o autor, está intimamente ligado a ideia de um fluxo nervoso que atravessa a polis e que lhe dá organicidade. São esses nervos que dão consistência vital e unidade ao complexo urbano citadino. Cidade é tumulto, troca, experiência e vitalidade. É música e paisagem sonora. E desse nervosismo e dessa pressa é que os músicos-artistas-compositores extraem sua matéria e a devolve em forma de sons e canções. O poeta-cantor é um fio e dessa forma ele dá estrutura nervosa ao caos-cosmo urbano.

  Os temas vão se seguindo nos dando o sabor da experiência estética da rua. Lívio foi muito feliz nisso: ele conseguiu, e obviamente não é só mérito seu, transpor para dentro do estúdio toda graça, dinâmica e leveza das apresentações da via pública. Destacaremos aqui apenas algumas faixas. O disco é aberto com um delicioso híbrido de samba e carimbó “aforrozado”, em cujo título já se encontra as marcas da mestiçagem que vai dar o tom do projeto: “Nega samurai”. Em “Lombada, curva: pare” Lívio se junta ao cantador Sonhador para compor um coco cujo tema é a percepção da cidade de São Paulo que tem um migrante nordestino. Diz a letra: “a maior agitação se vê na praça da Sé / mendigos e cachaceiros, fazendo o maior banzé / turista tirando foto e crente falando rouco / uns dizem que aqui é bom, outros diz: lugar de louco”.

   “Pajaro Choguy” é um tema tradicional paraguaio muito comovente. Ela se encaixa num tipo de conto que Câmara Cascudo definiu como um conto de exemplo. Diz a letra que uma antiga lenda conta a história de um indiozinho que estando em cima de uma árvore, se assustou com o grito da própria mãe caiu e morreu. Mas por um estranho sortilégio, ao se encontrar nos braços da mãe se transformou num pássaro choguy. É uma melodia comovente interpretada por Ruben Vera, paraguaio, e Frank, brasileiro do Mato Grosso do Sul.
A mistura é caleidoscópica e estonteante, mas dá certo. Os sotaques se misturam e se destilam compondo um mosaico afirmativo da cultura musical urbana da maior metrópole brasileira: São Paulo. O projeto sinaliza a permanência de uma longeva tradição de cantares públicos que no passado foi dos trovadores na França, dos griôs africanos e dos cantadores árabes. Saudemos!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

QUE TAL O SILÊNCIO?

   Por Ricardo Moreno

  Há anos atrás quando eu fazia graduação em música, eu costumava passar pela livraria da Universidade e dar uma olhada nas novidades. Um dia dei de cara com um título que me chamou atenção, pela sua natureza inusitada. O livro se chamava “ódio à música”. Tentei ler de novo achando que estava sendo traído pela minha visão, afinal não era razoável um manifesto contra a música numa universidade que forma músicos, professores e pesquisadores de música. Não era nem mesmo razoável imaginar alguém com tanto ódio dessa arte a ponto de escrever um livro. Que não goste, tudo bem, mas daí escrever um livro, já era demais.
            Esperei um momento em que tivesse mais tempo para saciar minha curiosidade, e quando pude voltei à livraria para acertar contas com ela. Fiquei muito surpreso quando ainda na introdução vi que o autor, Pascal Quignard, era um compositor, regente e educador musical. Realmente um espanto! Mas ainda nas primeiras páginas ficou clara a razão que o levou a tal empreitada. Ele estava simplesmente se rebelando contra uma prática que se tornou, se não universal, ao menos muito disseminada. Refiro-me à prática da banalização da música e a ampliação geral do nível sônico nas sociedades contemporâneas.
            Pensa-se muito pouco nisso, mas os efeitos do som sobre os corpos humanos e dos demais animais não são desprezíveis. Pesquisas militares do governo dos Estados Unidos feitas desde a década de 1960, já apontavam os efeitos danosos do som em altos decibéis em animais. O compositor canadense Murray Schafer relata em seu livro “O ouvido pensante” algumas dessas ocorrências. Numa, por exemplo, ele descreve a morte de um rato quando colocado em um campo sonoro de altos decibéis. Na autópsia fica demonstrado que ele morreu de superaquecimento instantâneo. Outros testes científicos demonstraram que ocorrem mudanças na circulação sanguínea e no funcionamento do coração quando uma pessoa é exposta a uma determinada intensidade de ruído. Na mesma perspectiva, cientistas do Instituto Max Planck realizaram há tempos atrás pesquisas para saber por que pessoas que trabalham em ambientes muito barulhentos tendem a ter mais problemas emocionais e familiares.
            A falta de reflexão sobre os ambientes sonoros acaba por gerar situações esdrúxulas, como a que eu mesmo presenciei anos atrás numa viagem de ônibus que ligava a Penha ao Cosme Velho. A empresa, para demonstrar atenção com seu público resolveu instalar televisores em toda a sua frota. Acontece que os ônibus já possuíam um serviço de rádio, o qual não foi desativado para a instalação do novo serviço. Talvez para agregar mais valor, ficavam os dois meios de comunicação funcionando ao mesmo tempo. É verdade que a televisão ficava sem som, mas era possível, como eu mesmo vi, o vídeo transmitir uma imagem de um guitarrista tocando rock numa performance típica de guitarrista solo, enquanto o rádio tocava um pagodão a todo vapor. Uma loucura!  
            Há uma relação inversamente proporcional entre sociedades pré-industriais de um lado e sociedades industriais, de outro, no que diz respeito aos sons naturais, humanos e de utensílios tecnológicos. Segundo Schafer nas culturas pré-industriais a presença de sons naturais era de 69% dos sons vivenciados, enquanto os sons humanos eram de 26%, e os sons de utensílios e tecnológicos alcançavam apenas 5%. Nas sociedades contemporâneas a proporção é de 68% de sons tecnológicos, 26% de sons humanos e apenas 6% de sons naturais. Isso explica as razões pelas quais o ruído vem sendo incorporado ao discurso musical. Ainda no começo do século XX, em 1913, o compositor Luigi Russolo, escreveu um manifesto no qual defendia a incorporação dos ruídos, presença marcante na vida cotidiana do período industrial, na música desse momento. É “A arte dos Ruídos” o título de seu manifesto futurista.
            De todo modo, é preciso estar consciente das marchas e contra-marchas do nosso tempo e perceber de que modo podemos interferir nos rumos da nossa jornada. A ideia de assimilar os ruídos ao discurso musical pode até ser um jeito de esconjurar, em parte, o demônio-ruído, mas faz-se necessário reduzir seus efeitos nocivos e para isso são necessários consciência do problema e educação para transformá-lo. Urge uma gestão social e democrática do som.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

NATIONAL JUKEBOX - GRAVAÇÕES HISTÓRICAS DISPONÍVEL AO GRANDE PÚBLICO

A biblioteca do congresso dos EUA tornou disponível um grande acervo de áudio para o grande público. São gravações históricas que foram digitalizadas e postas no site da biblioteca. Procurei pelo compositor Pixinguinha e encontrei várias gravações. Uma delas é esta que está abaixo:




o site da Biblioteca do Congresso para este serviço é: http://www.loc.gov/jukebox/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

LUIGI RUSSOLO E SUA MÁQUINA DE FAZER RUÍDO

Lembro de uma aula de história da música contemporânea quando o professor falava das experiências sonoras do pessoal da música concreta, e um amigo se virou de lado e disse: "puxa, meu avô nem era nascido e esse pessoal já tava pirando". Pois é, e tava mesmo! Abaixo uma peça de Luigi Russolo DE 1913, que foi um dos pioneiros nesse movimento. Ele foi autor de um manifesto intitulado "a arte do ruído" e estava vinculado ao ideário do futurismo. Sua ideia então, era criar arte com o ruído ou estetizá-lo e para isso criou alguns intrumentos de produzir ruídos. Este do vídeo ele chamou de ntonarumori. Vejam:

domingo, 1 de maio de 2011

A SEDE DO PEIXE (DOCUMENTÁRIO SOBRE A OBRA DE MILTON NASCIMENTO)

Em dezembro de 1997, no Rio, Milton Nascimento juntou amigos e convidados como Caetano Veloso, Alcione, Skank, Nana Caymmi e Gilberto Gil no especial A Sede do Peixe. Dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, o programa foi exibido pelos canais Multishow e HBO e, agora, sai em DVD.

Bonito e bem realizado, A Sede do Peixe tem seus maiores encantos nos encontros musicais inusitados e nos papos descontraídos. Com o expansivo baiano Carlinhos Brown, por exemplo, o anfitrião canta Samba Lelê, música de domínio público, e Cravo e Canela, parceria de Milton com Ronaldo Bastos.

Outros artistas que também atenderam ao chamado de Milton foram Zélia Duncan ("Foi o nosso primeiro encontro e ficou lindo a gente cantando San Vicente", diz o cantor), Wagner Tiso, Fernando Brant, Lô Borges, Tavinho Moura, Beto Guedes, Nana Caymmi, Uakti e Alaíde Costa. A comadre Elis canta Canção do Sal, num videofonograma cedido pela TV Bandeirantes.


quinta-feira, 10 de março de 2011

Música favorece recuperação de AVC

Escutar música nas fases iniciais de um Acidente Vascular Cerebral (Derrame) pode melhorar a recuperação do paciente, segundo um estudo da Universidade de Helsinki, Finlândia, publicado na revista médica “Brain”. Os pesquisadores descobriram que pacientes com AVC que ouviam música durante duas horas diárias recuperavam mais rapidamente a memória verbal e a capacidade de atenção. Assinalam que esta é a primeira vez que um efeito desse tipo é observado em humanos e acreditam que estes resultados terão importantes implicações na prática médica.

Durante o estudo, que durou seis meses e pesquisou 60 pacientes, observou-se que três meses depois do AVC a melhora verbal melhorava desde a primeira semana em 60% deles contra 29% dos que não escutavam nada. De forma similar, a atenção focalizada, a capacidade de controlar e realizar operações mentais e resolver conflitos entre respostas melhorou 17%. Além disso, descobriu-se que o grupo de pacientes que escutava música experimentou menos estados de depressão e confusão do que os pacientes do grupo controle.

Essas diferenças na recuperação cognitiva podem ser atribuídas diretamente ao efeito de ouvir música, chamando a atenção o fato de que a maioria das músicas acompanhada por voz sugeria que este componente musical, ou a combinação de música e voz teria um papel crucial na melhor recuperação dos pacientes. Esses resultados deverão ser replicados em estudos posteriores, sendo necessário investigar os mecanismos neurais que determinam a melhora. Por isso, houve o alerta de que a terapia com música não funciona em todos os pacientes, não é um tratamento alternativo, mas sim uma medida adicional a outras formas de terapia, como a reabilitação da linguagem ou a recuperação neurosociológica.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

NEUROPOLIS

O compositor e pesquisador musical paulista Lívio Tragtenberg teve uma daquelas ideias que a gente fica pensando como é que não fomos nós que a tivemos. Ele realizou um projeto de juntar vários músicos que tocam nas ruas de São Paulo para forma uma orquestra popular. Disso resultou o disco e o documentário neuropolis, que o compositor quer que escreva sem acento, mas que se pronuncie como se tivesse. O disco soa muito bem com timbres inusitados que mistura pandeiro, uma espécie de cítara japonesa, sax, acordeon e sotaque boliviano (ou é colombiano?).

Ganhei o disco de presente de minha amiga Lenira, e assim que ouvi achei o máximo. Vejam aqui um pouco do documentário:

domingo, 16 de janeiro de 2011

Cocaína, a canção...

O vídeo abaixo é de uma apresentação da cantora Anabel Albernaz cantando uma composição da década de 1920 intitulada "Cocaína". Seu autor é nada mais nada menos que Sinhô, um dos integrantes da primeira geração de compositores de samba. Na partitura vem escrita uma dedicatória: "ao meu amigo Roberto Marinho". Mas tudo isso deve ser evidentemente contextualizado, pois se não poderemos incorrer no risco de perder a dimensão histórica da coisa. Lembro que minha vó, que trabalhou em farmácia bem depois dessa época, me disse que vendia livremente essa substância no balcão, e segundo consta em trabalhos históricos, não era necessário nem mesmo receita.
  Aliás, na virada do século a sociedade médica internacional era uma das mais entusiastas do uso dessa substância nas mais variadas formas: xaropes, sprays, pastilhas, etc. Sem trocadilho, mas ela criou uma verdadeira euforia nos meios médicos, pois era quase uma panacéia, e melhor, sem contraindicações. Consta também, e isso é bem sabido, que o boom da cocaína, não obstante ela já ser bem conhecida, se deu a partir do artigo de Sigmund Freud, "Über Coca", de 1884, que sintetizava o que já vinha sendo escrito e pesquisado por diversos autores. Dentre as maravilhas produzidas pela cocaína, e exaltadas por Freud, estavam coisas tais como: a capacidade da substância de exaltar o humor, combater o 'morfinismo' e o 'alcoolismo', transtornos gástricos, caquexia e a asma, além de ser afrodisíaco e anestésico local. Como se vê, não era pouca coisa.
   Não obstante a sociedade médica já fazer muitas críticas ao uso da cocaína já no início do século XX, o entusiasmo acrítico deve ainda ter permanecido em alta durante muito tempo. Mas, para finalizar, consta que essa canção do Sinhô estava no repertório da cantora Marlene num show da década de 1970, e que a artista hesitou em colocá-la para não parecer uma apologia e com isso ter problema com a censura do regime militar. Mas, o poeta Carlos Drummond de Andrade teria a encorajado, alegando que na época isso era normal. Teriam sido estas as palavras do poeta: "Diga para a Marlene cantar, naquela época todo mundo cheirava, eu também cheirei cocaína e para mim fez efeito de bicarbonato"...
Vejam o vídeo:

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Choro Acadêmico - Nonato Luiz

Aqui, Nonato Luiz interpreta o seu belíssimo "choro acadêmico", acompanhado por Wilson Asfora e bandolim com intérprete não identificado. Essa música integra o seu primeiro lp do início da década de 1980, intitulado "Terra". É um disco muito bonito e já na estreia Nonato chamou atenção do mundo musical brasileiro. Em seguida Nonato começa uma carreira internacional principalmente na Alemanha. Vejam:

Uma violonista de primeira

Recebi de uma amiga e professora de música este vídeo. Achei a técnica da vilonista muito interessante. Postei no youtube e compartilho aqui. Infelizmente não sei nada sobre a instrumentista. Quem souber alguma coisa sobre ela envie-me por favor. Vejam:

sábado, 11 de setembro de 2010

The iPad Orchestra

Participo de uma lista de discussões em torno do tema da disciplina Etnomusicologia e lá deu pano pra muita manga a disponibilização desse video que divulgo abaixo. É sem dúvida um tema interessante: uma peça musical do século XV ou XVI executada por um grupo de pessoas que ao invés de estarem portando violinos, violas, clarinetes etc. estão na verdade com pequenos computadores na mão imitando os sons dos instrumentos, vamos dizer assim, "reais" (com bastante aspas). Um dos debatedores colocou que achava uma pena uma tecnologia hiper-moderna para executar coisas de trezentos anos atrás. De qualquer modo, essa possibilidade demonstrada pelo grupo que realiza a performance, The iPad orchestra, abre a possibilidade para outras experiências, tais como experiências formais e timbrísticas. Vejam e tirem suas conclusões:

The iPad Orchestra from Alex Shpil on Vimeo.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

o que é que Beethoven tem??

  Acabei de assistir o filme "o solista", baseado no livro do jornalista Steve Lopez. O enredo é baseado em uma história real acontecida na cidade de Los Angeles envolvendo o próprio Steve. O jornalista andava atrás de uma história para sua coluna no jornal onde trabalhava, quando meio sem querer dá de cara com um sem-teto, Nathaniel Ayers, que tinha sido, em outros tempos, aluno da prestigiada escola de música Julliard, de Nova York. A relação entre os dois é tensa, pois Nathaniel não é só um homeless, mas também sofre de esquizofrenia. Apesar disso tudo Nathaniel continua apaixonado por música e em particular por Beethoven. Essa paixão deixa Lopez perplexo. Em dado momento ele chega a afirmar que nunca amou nada com tanta intensidade como o músico ama a música (sobretudo Beethoven).
  Aliás, vez em quando ocorre no cinema de algum personagem ser apaixonado pelo compositor alemão. lembro de "Laranja Mecânica", filme no qual o personagem principal, um sujeito completamente desajustado, que vive dando porrada e fazendo assaltos, chega em casa e põe pra tocar o compositor.  Recentemente teve o "A vida dos outros", no qual Beethoven também é reverenciado. Neste o personagem central é o Capitão Wiesler, chefe de um serviço de espionagem na Alemanha Oriental. Depois de muitas idas e vindas ele sofre uma tremenda modificação (que não vou contar aqui). Essa modificação não se dá exatamente por conta da música, mas esta, sem dúvida, tem um impacto muito forte na sua vida. E não é qualquer música: é Beethoven.
  Daí é o caso de se perguntar: "o que é que Beethoven tem?". Que emoções potentes sua música é capaz de provocar? Que combinação de força e delicadeza se revela em suas melodias?
 Pois bem, acabei de ver o filme e me deu uma vontade danada de ouvir Beethoven. Daí fui procurar algumas coisas disponíveis na rede. Encontrei, e compartilho aqui com os leitores, um link no qual a alma generosa colocou a disposição se não a obra completa, ao menos uma boa parte dela. Lá estão as sonatas para piano e para violoncelo; as sinfonias; os concertos e outras coisas mais. Enfim, quem quiser baixar é só acessar o link.

http://www.4shared.com/dir/2684057/1da65c7/sharing.html

terça-feira, 6 de abril de 2010

Do vinil ao cd, do cd ao vinil

DO VINIL AO CD, DO CD AO VINIL

 Por Ricardo Moreno



Primeiro foi aquele entusiasmo por um tipo de mídia que prometia a possibilidade de uma escuta sem estalos e sem ruídos: o cd. O áudio digital assegurava um som “clean”: um sonho para os melômanos. Depois, talvez 10 anos, foi aquela nostalgia. Uma saudade inquietante. Alguns, com argumentos mais técnicos, apontavam para uma desqualificação do cd: a compressão de determinadas freqüências – principalmente dos graves. Outros sentiam, e falavam francamente, da saudade pura e simples dos estalos e chiados que os vinis produziam. Reconheciam essa saudade quase como uma tara.
Durante algum tempo essa saudade era compensada com a aquisição de antigos lp’s e a revitalização de antigos sistemas de som: compra de pick-ups, busca por agulhas que fossem compatíveis, etc. Dizem que foi o Ed Mota um dos primeiros, entre os artistas, a se manifestar em favor dos antigos bolachões. O fato é que essa saudade pressionou de tal forma a indústria, que novos tocadores de vinil foram sendo fabricados, e hoje, por exemplo, existem toca-discos com saída USB e RCA fabricados especialmente para que se possam digitalizar os lp’s. Atualmente um aparelho desses custa menos do que R$ 500,00.
Se o primeiro passo foi a fabricação dos aparelhos de tocar lp, não tardaria a aparecer os fabricantes dos próprios lp’s. Em março desse ano saem os primeiros álbuns da nova fase da Polysom, única fábrica de vinis em funcionamento no Brasil. Os artistas contemplados para essa nova fase do disco no Brasil foram as bandas Nação Zumbi e Cachorro Grande, e as cantoras Pitty e Fernanda Takai. Reparem que todos esses artistas escolhidos para a primeira leva são artistas identificados com um público mais jovem e de classe média. Ainda é cedo para sabermos sobre o sucesso comercial dessa empreitada. É esperar e ver.
Mas para além das questões técnicas e comerciais da volta do lp, é possível, eu creio, uma análise de outro ponto de vista: o simbólico. Na década de 1960 um sociólogo francês chamado Jean Baudrillard escreveu um livro chamado “o sistema dos objetos”. Nesse livro o autor analisa o modo como nos relacionamos com os objetos para além do simples uso que fazemos deles. Somos, alguém já disse, seres do símbolo, e como tal, não há atividade humana sem desdobramentos simbólicos.
Nessa perspectiva, afirma Baudrillard, o retorno de objetos antigos não é um acidente do sistema, pois o que ele perde em funcionalidade, ganha do ponto de vista do mito que representa. O antigo não é meramente “afuncional” ou simplesmente decorativo, mas cumpre o papel de significar o tempo. O objeto antigo tem um estatuto psicológico especial, pois da mesma forma que grupos ou sociedades subdesenvolvidas tentam adquirir objetos “modernos” por conta dos mesmos simbolizarem o que é novo e distinto, há uma tendência dos “contemporâneos” de buscarem simbolicamente o antigo. Baudrillard acrescenta que dessa forma a ilusão de domínio que temos sobre o objeto transforma sua funcionalidade em virtude. Torna-se um signo. Sendo assim, conclui, “o que falta ao homem se acha investido no objeto”.
Será que ocorreu essa nostalgia quando outras mudanças de mídia aconteceram? Será que houve saudade quando se deu a mudança do disco de 78 rotações por minuto para o lp?
A produção de lp no Brasil tem início na década de 1950, mas se desenvolve com força na década seguinte. É sintomático que esta produção esteja identificada justamente com um momento de ouro da música popular brasileira. O que hoje entendemos como MPB tem início justamente com a expansão do lp no Brasil. Pode ser que simbolicamente haja uma nostalgia de um tipo de produção musical. Uma saudade de um tempo que forçosamente não pode mais voltar, a não ser simbolicamente. Esta volta só pode acontecer com a abolição do tempo que intermedia o ontem e o hoje. O culto do disco de vinil cumpriria assim o sentido de um fetiche (objeto material ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais) capaz de “magicamente” abolir o tempo e nos reintegrar, ainda que psicologicamente, num passado irremediavelmente perdido.




sábado, 3 de abril de 2010

Versão baterística do "Barbeiro de Sevilha"

Interessante esta versão do "Barbeiro de Sevilha" com a bateria do primeiro plano.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Edvaldo Santana ou: a voz rouca das ruas

Edvaldo Santana ou: A voz rouca das ruas


           

Para quem não conhece, Edvaldo Santana é um militante e ao mesmo tempo legítimo herdeiro da boa e velha MPB. Não obstante sua já longa trajetória (já lançou cinco cd’s) e algumas inserções na mídia, ele ainda continua desconhecido do grande público brasileiro. Sua música vai do blues ao baião passando por baladas, boleros, salsas, sambas e outras levadas. Seus parceiros também não são poucos, e entre tantos se destacam: Tom Zé, Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, Haroldo de Campos, Itamar Assunção e outros mais.
            Filho de migrantes nordestinos, cresceu na periferia paulista (São Miguel Paulista), e foi essa periferia que lhe deu régua e compasso para construir sua obra. Suas letras, onde não raro se acham verdadeiras pérolas, estão absolutamente sintonizadas com seu tempo e lugar. Edvaldo é capaz de versos cortantes tratando de chacinas e meninos de rua, como também trata de temas românticos de forma muito lírica. Tudo isso cantado com uma voz rouca, que lhe é bem peculiar. Um verdadeiro achado é esse trecho da canção “variante”: “no rio São Francisco navega o vapor / que navegou no Mississipi / o rio São Francisco deságua sua dor no Tietê / Variante da estação do norte / de seu Joaquim da Luz / se eu pudesse aproximava os tempos / e adonirava o Blues”. Este último verso, transformando em verbo o nome do compositor Adoniran Barbosa, é qualquer coisa de muito bem sacado.
            Em sua obra há muitas canções que merecem destaque, mas como o espaço aqui é pequeno, vou destacar uma canção do seu primeiro cd “Lobo solitário” de 1993. A canção chama-se “A Rússia pegou fogo na Sapucaí”, e tem uma proposta caleidoscópica. Ela trata do cenário cultural e político da década de 1990, e toda aquela sensação – que já foi chamada de pós-moderna – de que tudo perdeu o sentido, que os acontecimentos se dão vertiginosamente e tudo mais. A canção é um blues daqueles bem tradicionais e o refrão diz: “Beats, Woodstock, Coréia, Vietnã / duas bombas atômicas no Japão / luzes na ribalta / Bush em cena com Sadam / a morte é o kitsch do verão / punks foram hippies / agora são titãs / a Rússia pegou fogo na Sapucaí / pra não dizer de flores / me alegra ser xamã / a gente só queria ser feliz”.
            A letra dessa canção é uma verdadeira síntese da década de 1990, falando das angústias e expectativas daqueles tempos neo-liberais. Mas conversando com o autor eu lhe perguntei sobre essa imagem da Rússia pegando fogo na Sapucaí. De onde ele tinha tirado aquilo? Entre risos, ele me respondeu que foi num certo carnaval carioca do início da década de 1990, em que ele estava assistindo a transmissão pela TV, e viu um carro alegórico, cujo tema era a Rússia, ser tomado por um incêndio. Que sacada, hein! E é bom lembrar que essa cena se deu logo em seguida do fim do chamado socialismo real na antiga U.R.S.S. Isso é o que podemos chamar de uma verdadeira alegoria.
            Há pouco tempo, em 2006, Edvaldo lançou o seu mais recente cd: “Reserva de alegria” que conta com as participações dos rappers Thaíde e Rappin’Hood, e do cantor Chico César. Neste cd Edvaldo continua sua linha de melodias simples, misturas de gêneros e letras cortantes com belos achados poéticos. Dialoga com elegância com as novas tendências da MPB, como no caso da parceria com Rappin’Hood no samba-rap “pra viver é sempre cedo”. Desafiando o cenário místico-empresarial que assola o país, diz a letra logo no início: “eu não dirijo carro / não uso celular / procuro um lugar calmo que eu possa trabalhar / não quero ser crente / com medo do “senhor” / Deus não deu patente / pra padre e pra pastor”.
            Edvaldo Santana é um guerrilheiro da MPB, e apesar da grande mídia não lhe dar bola, ele vai pacientemente compondo sua obra, apontando suas armas – o violão e a voz – para os que promovem as indigências de nosso tempo. E como ele mesmo diz “maluco beleza não se dá por vencido”.




domingo, 18 de outubro de 2009

Blog para baixar discos

O compartilhamento de arquivos sonoros é uma realidade contra a qual não é possível mais se lutar para impedir. Nesse sentido apresentamos aqui um blog co-irmão que está disponibilizando na rede uma série de discos raros ou simplesmente interessantes. Vale a pena conferir.

http://encantoradical.blogspot.com/

as 100 canções mais ouvidas a cada ano...

Gente, é o seguinte, tem um site na internet que é muito interessante. O cara simplesmente fez um levantamento das canções mais tocadas desde o ano de 1904. É um levantamento difícil de fazer, pois só para dar uma idéia da dificuldade o rádio começou no Brasil em 1922. De todo modo, é muito interessante dar uma olhada.

http://www.planetarei.com.br/100anos/index.htm

domingo, 11 de outubro de 2009

La nuit

Esta é uma pequena passagem de um filme francês cujo título em português é "a voz do coração". É um filme lindo e recomendo principalmente aos professores de música.





Vois Sur Ton Chemin