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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O PORTUGUÊS DO BRASIL

 Já falamos aqui sobre o lançamento da "Gramática do português brasileiro" do professor Mário Perini, e suas implicações ideológicas no que diz respeito à luta de muitos linguistas contemporâneos. Nessa luta destaca-se a figura do professor Marcos Bagno, que com contundência denuncia a língua como um campo no qual se explicita as lutas ideológicas e sociais e as formações autoritárias implícitas na cultura brasileira. Postamos aqui o artigo do professor Bagno quando do lançamento da Gramática do seu colega Mário Perini. Leiam:

ENFIM, UMA GRAMÁTICA BRASILEIRA!


Por Marcos Bagno

  Demorou, mas chegou. Exatos 188 anos. Finalmente, temos à nossa disposição uma gramática que descreve o que realmente acontece na nossa língua: a Gramática do português brasileiro, de Mário Perini, que acaba de ser lançada (Parábola Editorial). O fato histórico merecia banda de música e fogos de artifício. Afinal, vamos poder nos livrar dos mofados compêndios que, mesmo publicados no Brasil, mesmo publicados recentemente, continuam a chamar nossa língua simplesmente de “português” e a tentar impor como modelos de correção as opções de um punhado de escritores lusitanos mortos há uns bons 200 anos. Chega! Xevra! Xispa! Xô!
  Mário Perini é um linguista que há muito tempo vem se dedicando ao exame atento do que é a língua majoritária dos brasileiros. Já em 1985, propôs que se abandonasse a prática multissecular de recorrer à escrita literária em favor de uma referência ao padrão que de fato se verifica na prática escrita das pessoas altamente letradas. Em vez do romance e da poesia, que a gramática se debruce sobre a escrita jornalística, acadêmica, ensaística, técnico-científica. Se é para ensinar os brasileiros a escrever, que se ensine a escrever como se escreve no Brasil, e não como Eça de Queiroz ou Camilo Castelo Branco nem, muito menos, Machado de Assis (um gênio assim só a cada 500 anos!).
  É preciso libertar a língua da retumbante maioria das pessoas do peso insuportável de ser comparada aos usos feitos pelos grandes escritores. É preciso que professores de português, dicionaristas, gramáticos e neogramatiqueiros (esses que invadiram a mídia brasileira atual para vender um peixe linguístico mais podre e fedido que as águas do Tietê) parem de dizer que tal uso é “errado”, “não existe” ou “não é português” só porque não aparece na obra dos “clássicos”. Além de ser uma mentira, também é uma grande injustiça, e por duas razões. Primeiro, porque na obra dos grandes escritores também aparecem transgressões das normas tradicionais (embora os gramáticos se esforcem por escondê-las, como se os grandes autores só escrevessem de acordo com as regras que eles, gramáticos, tentam impor). Segundo, porque os escritores não devem nem querem ser transformados em régua para corrigir, em peso e medida para avaliar a produção linguística de ninguém.
  Se lá em cima escrevi que esperamos 188 anos por uma gramática da nossa língua é porque a nossa independência política (1822) não representou uma independência linguística. Nem poderia. Afinal, foi uma independência tramada de cima para baixo, proclamada pelo próprio representante da potência colonial que, mais tarde, para provar o quanto tinha ficado “independente”, abandonou seu império tropical para defender o trono português e se sentar nele com o nome de Pedro IV. Isso explica por que, no estudo e no ensino de língua, permanecemos igualmente atrelados aos manuais que vinham de Lisboa. E mesmo quando se começou a produzir gramáticas no Brasil, elas ofereciam como norma linguística uma modalidade extremamente restrita de língua literária lusitana pós-Romantismo.
  Bem-vinda, Gramática do português brasileiro! Talvez agora os autores de livros didáticos parem de tentar ensinar uma língua que nunca existiu por aqui (e, pensando bem, nem em Portugal) e reconheçam que a língua que nossos alunos querem aprender é o português brasileiro urbano culto, a língua que de fato molda a nossa identidade nacional e é moldada por ela. Libertas quae sera…!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Gramática brasileira

Alguns linguistas têm dito que é correto afirmar que existe uma língua brasileira. Não aprofundo a discussão por absoluta falta de competência, mas gosto de acompanhar as discussões. Quando li essa afirmação num texto do professor e linguista Marcos Bagno me lembrei de pronto de um samba de Noel Rosa chamado "não tem tradução". Lá pelas tantas diz o poeta: "Tudo aquilo que o malandro pronuncia / Com voz macia é brasileiro, já passou de português". Pois é, esses linguistas que estão arejando, digamos assim, as discussões em torno da norma culta e coisas afins, estão cada vez mais ganhando espaço e avançando. Mais um passo foi dado com o lançamento recente da "Gramática do Português Brasileiro" do professor Mário Perini. Ele diz que “A língua do brasileiro não é a língua que encontramos nos livros. É a língua falada pela totalidade da população, desde o trabalhador analfabeto na zona rural até o professor universitário ou o político. Na hora de conversar com os amigos, todos falamos basicamente a mesma língua”. Além de tratar das diferenças entre a língua oral e escrita, ele também discute sobre as noções do português ‘certo’ ou ‘errado’ – algo que, para ele, depende inteiramente do contexto: “A língua que eu uso para falar com amigos numa mesa de bar não pode ser a mesma que eu uso para escrever uma tese”, argumenta.
 Quem quiser pode ouvir uma bela entrevista do autor é só seguir o link abaixo:

sábado, 29 de maio de 2010

Correspondência com o professor Marcos Bagno

 Postei abaixo uma mensagem sobre a exposição "Menas - o certo do errado e o errado do certo". Disse também que um dos prinicipais formuladores desse modo de entender e denunciar os chamados preconceitos linguísticos, é o professor Marcos Bagno. Há algum tempo atrás tive o prazer de me corresponder, ainda que brevemente, com essa figura admirável, e resolvi postar a conversa aqui no blog.
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Prezado Marcos Bagno,

 Só hoje, 23 de fevereiro de 2008, pude ler sua carta à revista Veja de 2001. Infelizmente meu talento litarário não me possibilita traduzir o prazer e a emoção que senti em ler seu arrazoado pondo a discussão da norma culta em uma perspectiva verdadeiramente crítica. Há poucos meses começei a ler o seu belo livro " A norma (o)culta", mas nem pude terminá-lo porque uma amiga que trabalha com saúde e educação me pediu de empréstimo e ainda aguardo a devolução. Pretendo, assim que possível, terminá-lo e começar a leitura de outros livros seus.
 Trabalho com Educação Musical nas redes públicas do Rio de janeiro e de Duque de Caxias, na baixada fluminense. Encontrei no seu trabalho muita inspiração para desenvolver minha prática educativa  e minha luta contra os preconceitos que, assim como no campo linguístico, se multiplicam no campo da música. Estou organizando uma oficina intitulada: "O ser e o som: Ecologia, Linguagem e Invenção na Educação Musical", voltada para professores da rede pública de Duque de Caxias. Alguns de seus livros estão na bibliografia que indico aos professores.
 Sem querer tomar mais o seu tempo, eu me despeço parabenizando-o mais uma vez por emprestar o seu brilhantismo às boas causas do nosso tempo.
 Um forte abraço desse seu sincero admirador,
 Ricardo Moreno de Melo

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Caro colega Ricardo,
é muito bom abrir a caixa postal numa manhã nublada de domingo e encontrar uma mensagem tão estimulante quanto a sua. Fico sempre muito contente quando recebo reações de pessoas que atuam em outras áreas que não especificamente a das Letras. Isso mostra que os problemas que tento debater afetam a vida das pessoas de modo muito mais amplo.
Por coincidência, este mês saiu uma grande entrevista minha na revista Caros Amigos (com foto na capa e tudo!). Como é uma revista que se sustenta pelo trabalho dos próprios jornalistas, tentando manter uma linha indepedente da grande mídia (vinculada ao poder nacional e internacional), faço a divulgação para ajudar a preservar esse importante projeto. Conto com a sua colaboração.
Boa sorte em seus projetos e um abraço do

Marcos Bagno – Universidade de Brasília
www.marcosbagno.com.br

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Prezado Professor Marcos Magno,

 Foi também com muita prazer que recebi a sua resposta. Quanto à revista Caros Amigos eu já estou ciente que ela traz este mês uma entrevista com o senhor. Já fiz, inclusive, a divulgação da mesma, e espero ansiosamente que chegue amanhã para que eu possa comprá-la.
 Gostaria de lhe contar, sem querer tomar demasiadamente o seu tempo, um pequeno acontecimento ocorrido em uma escola em que trabalho. Certo dia eu estava finalizando meu trabalho em uma escola, e ouvi duas professoras do primeiro segmento conversando sobre um determinado aluno que falava "tudo errado". Naquele momento eu estava no meio da leitura do seu livro "A norma (o) culta", e não pude deixar de perceber que as referidas professoras estavam, como é de certa forma um costume entre professores, rindo dos supostos "erros" do garoto. Com todo cuidado eu me intrometi na conversa delas e tentei relativizar aquilo que seriam os "erros" do garoto. Para dar um tom mais relaxado a conversa falei para ela de uma história que ouvi sobre um certo poeta nordestino chamado Zé da Luz (nome ótimo para poeta, não acha?). Disse para elas que o tal poeta tinha sido informado que poesia era coisa para gente "culta", "inteligente", em suma, para gente que "sabe escrever". Foi  daí que o poeta escreveu a deliciosa peça "ai se sesse". Creio que o senhor conheça essa poesia, de todo modo transcrevo-a abaixo.
 Tentei dessa forma chamar a atenção das professoras para as "variedades dialetais", e para a necessidade dos professores entenderem sua posição de mediadores culturais, e não meros instrutores de normas. Sei que essas coisas são difíceis e que tomadas de consciência são processos que às vezes demoram. Mas não pude deixar de tentar interferir naquele momento.
 Bom, creio que  já tomei demais o seu tempo e acrescento apenas que é um prazer dialogar com uma personalidade tão inspiradora e fecunda como o senhor.
 Um abraço!
 Ricardo Moreno de Melo

Ai Se Sêsse

Composição: Zé Da Luz
Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arruminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Talvez que nois dois ficasse
Talvez que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.
 

Menas - o certo do errado e o errado do certo

 Ganha cada vez mais visibilidade, ao menos em certos setores mais arejados, a idéia de que os "erros de português" cometidos principalmente pelas camadas mais baixas da população brasileira devem ser colocados em uma perspectiva crítica. Isto quer dizer que eles, os erros, têem de ser vistos sob o prisma da história, das relações de força que operam na sociedade, etc. Essa perspectiva não é tão recente quanto parece. Ela já está no livro de Bourdieu "Economia das trocas linguísticas". 
 O professor da UNB Marcos Bagno tem sido um dos mais aguerridos intelectuais que atuam na defesa dessa perpectiva. Claro que não é o único, mas tem se destacado nos debates sobre o tema. Ele escreveu vários livros sobre o assunto: "A norma (o) culta" ; "Não é errado falar assim: em defesa do português brasileiro" e "Preconceito linguístico: o que é, como se faz".
 Nessa perspectiva então, o Museu da Língua Portugêsa, em São Paulo, está realizando uma exposição intiulada "Menas - o certo do errado e o errado do certo" . Se não for possível vê-la de perto, ao menos podemos dar uma "navegada" pela site da exposição. O link segue abaixo:

http://www.poiesis.org.br/mlp/expo/menas/index.html