segunda-feira, 31 de outubro de 2011

DE PALÍNDROMOS E CANÇÕES



          Em um verso inesquecível da música popular brasileira, na canção “Clube da esquina nº2”, o letrista Márcio Borges diz que “de tudo se faz canção”. E é mesmo! Nada que é humano escapa aos cronistas e letristas de nossa MPB. Talvez tenhamos apenas que lamentar o fato de não haver um maior número de experimentações de temas e formas para se compor letras de canções em tempos mais recentes. É claro, por outro lado, que muito se fez nesse sentido e podemos contar em nosso cancioneiro com um repertório de temas muito variados. Alguns até diriam, fazendo eco ao vulgo, que estou chorando de barriga cheia... Pode ser!
            Mas de toda essa trama de assuntos que inspiram os nossos artesãos da palavra cantada, uma me chama atenção para esta breve nota/comentário: é a canção “Relp” de José Miguel Wisnik. Nela o autor, um experimentado nas lides literárias, pois é professor de Literatura na USP, escritor e ensaísta de mancheia, constrói um ambiente um tanto fantástico – como o de “Alice no país das maravilhas” –. Ambiente labiríntico e enigmático no qual as palavras refletidas ganham novo colorido e se espraiam tal qual um cristal a refratar sentidos. Tudo isso em uma atmosfera infantil, ou, para ser mais preciso, infanto-juvenil.
            Esta situação “espelhar” ou refletida para a qual a canção nos remete é elaborada primeiramente com o recurso do palíndromo, que para quem não conhece, é uma construção escrita na qual a leitura da esquerda para a direita, que é a nossa forma normal de leitura, se iguala a leitura feita da direita para a esquerda. A palavra “arara” é um bom exemplo. Só que um bom palíndromo é feito com frases, e para além da brincadeira e do jogo “espelhado”, ele também tem, quando bem feito, uma carga de deslocamento de sentido muito interessante.
            No início da canção, na gravação feita pelo próprio Wisnik, Jussara Silveira e Arnaldo Antunes, este último, com sua inconfundível voz grave nos diz o primeiro dos palíndromos que vão se desdobrar durante a canção: “lá vou eu em meu eu oval”. Ressoa bastante psicodélico, não? O que seria um eu oval?  A frase é dita sem nenhum acompanhamento instrumental, a título de introdução mesmo, como que para nos situar dentro da atmosfera onírica a qual a canção irá em breve nos conduzir.  Em seguida instaura-se o ambiente “Alice nos país das maravilhas” quando ele diz: “a menina olha no espelho pelo ralo e diz oi rato otário, que que tu faz aí?” (colocarei em negrito os palíndromos do versos). Mas quem responde não é o rato e sim a própria voz da menina que na condição de eco, e olha aí a situação “espelhar” de novo, diz “eco vejo hoje você.
            A canção segue desvelando a situação psicológica da menina: “a menina fica assim, meio assim, quer ser cor e ser ocres”. E “num repente começa a sussurrar a rezar, uma reza que mais parece um rap / um help pro céu um salmo / ó mãe tu era réu te amo / ó mãe tu era réu te amo”. Aqui o clima deriva para uma situação psicanalítica, ou então, como disse o próprio Wisnik, para um tema do escritor russo Dostoievski. A nossa “Alice” fica ali, “rindo e polindo / o que parece ter dentro e fora de si / ou então construindo um lindo palíndromo (e aqui a canção torna-se auto-referente) / outro tesouro de ouro e marfim / que mima a mina e anima a mim / num breque sem fim (e aqui “breque” poderia ser uma referência consciente ou inconsciente ao pintor cubista Georges Braque) / de um samba tão velho que bate no espelho e se vê no cristal / ela faz o seu e o meu carnaval cantando assim: só dote e dádiva é a vida de todos... o ambiente agora se abre para um gozo dionisíaco no qual o coletivo “todos” é indício de uma totalidade que exercita o pleno direito ao prazer e a um gozo comunal proporcionado pelo carnaval, festa do des-limite e do prazer orgiástico.
            A canção palíndromo de José Miguel Wisnik, como é próprio da linguagem dos grandes poetas, pode ser explorada e tateada milimetricamente até nos cansarmos de encontrar nela os múltiplos sentidos de sua polissemia. E, como disse o próprio Wisnik comentando as relações entre canção popular e literatura no Brasil: “isso não é pouca coisa”.

Os. Os palíndromos contidos na canção foram construídos pela filha do compositor, cujo nome no momento me escapa.

domingo, 30 de outubro de 2011

Tem aldeia no hip hop


Cristiano Navarro, de Dourados (MS)
Para o Jornal Brasil de Fato


  Na apresentação de um trabalho de escola sobre meio ambiente, Bruno começou a rimar. No ano de 2005, o improviso com as palavras era apenas uma brincadeira que o aluno Guarani Kaiowá da escola Araporã, da terra indígena de Dourados, gostava de fazer com seus colegas no recreio. Hoje Bruno é o líder do Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena no Brasil a lançar um disco.
E o que canta o Brô MC’s? Segundo eles mesmos, canta rap com compromisso. “A gente canta nossa realidade, porque a mentira não cola com a nossa cara”, afirma Bruno.
Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena no Brasil a lançar um disco
Com mais de 11 mil pessoas vivendo em 3,5 mil hectares, a reserva indígena de Dourados está longe da imagem idílica de uma aldeia espaçosa de natureza exuberante e muito próxima da realidade das favelas das grandes cidades. Consumo de drogas, trabalho infantil e altos índices assassinatos estão presentes no cotidiano dos jovens do Brô. E no entorno de sua aldeia, a restrição do acesso aos seus territórios, o preconceito e o racismo da sociedade envolvente. “A gente tenta mostrar a verdade do que a acontece na aldeia, na nossa comunidade. O pessoal da aldeia quando vai para a cidade sofre muito preconceito, os lugares que fecham a porta na cara dos índios. Isso a gente coloca no rap. Na verdade o rap já um protesto” explica Clemerson, irmão de Bruno.
Mas o caminho até o primeiro disco demo foi longo. Os irmãos Clemerson e Bruno iniciaram sua carreira artística descobertos durante as gravações do filme Terra vermelha, do diretor Marco Bechis, sobre a luta pela reconquista do território, quando compuseram a primeira letra “Saudação da Aldeia”. Mais tarde, em parceria com o grupo Fase Terminal, a música recebeu uma base e outro nome, “Yankee No”. “A música era um canto que o pajé do Panambizinho fazia nas gravações do filme. Daí, eu vi e modifiquei pra levada do rap”, conta Bruno.


Capaz em tudo”
Em seguida ao filme, uma oficina de hip hop organizada pela Central Única de Favelas (Cufa) aproximou outros dois irmãos, Kelvin e Charlie. Assim os quatro formaram o primeiro grupo de rap indígena brasileiro. Ao final da série de oficinas os rappers gravaram um disco demo em cima de bases de outras músicas.
No início da gravação do CD os caciques passaram a criticá-los. “Diziam que esse não era o nosso futuro. Meu avô, que é cacique, veio me perguntar por que a gente gravou isso. Foi aí que eu peguei um CD e falei ‘senta aqui que eu vou mostrar pra você. Presta a atenção nas letras. O que tá falando é coisa da nossa realidade, da nossa cultura’. E depois eu mostrei para todas as lideranças da região e mostrei a música e a letra. Numa reunião onde estavam todas as lideranças eles falaram: ‘está certo é isso mesmo que acontece’”, relata Clemerson. “Os mais velhos entenderam e sabem que a gente tem que mostrar que o índio é capaz em tudo. E pode ser professor, agente de saúde, advogado ou cantor de rap. E que nosso povo não é só isso ou aquilo, a gente é o que pode fazer a diferença”, completa o irmão.
Higor Lobo, do grupo Fase Terminal e membro do Cufa, que produziu o disco da banda, conta que a formação feita na aldeia não se dedicou apenas ao aprendizado das “técnicas” do rap, mas também à leitura crítica da realidade. Hoje, o produtor, que também é geógrafo e militante do movimento hip hop desde 1995, percebe “uma formação crítica consistente nas letras”.

Multicultural

Bruno: “A gente canta nossa realidade, porque a
mentira não cola com a nossa cara - Foto: Divulgação
Misturando letras em guarani e português, o grupo também introduziu instrumentos da música de sua etnia. “As músicas surgem em conjunto, sentado na roda, trocando altas ideias. E a bases foram usadas de outros grupos, de que a gente só modificou usando os instrumentos da aldeia mbaraka, para a base ficar legal, para diferenciar e ter a nossa cara. Porque o grupo sai da aldeia e leva o conhecimento daqui para fora”, explica Bruno.
Se no Brasil o Brô MC’s é um grande surpresa no meio do movimento hip hop, em outros países da América Latina, não. O antropólogo Spensy Pimentel, autor do Livro vermelho do Hip-Hop, chama atenção para a penetração do movimento. “A internet tem nos permitido descobrir, pouco a pouco, o quanto o movimento hip hop espalhouse pela América Latina. Até onde eu descobri, há grupos de rap cantando em língua indígena em lugares como Bolívia (aymara) e Chile (mapuche). Independente da questão linguística, a identificação étnica/racial com a matriz indígena aparece em inúmeros contextos. Há muito rap em favor das comunidades zapatistas de Chiapas, por exemplo, não necessariamente feito por quem mora nas comunidades”.
Além do ineditismo, Lobo destaca o fato de o grupo trabalhar contra os estereótipos negativos e preconceituosos. “O hip hop serve como ferramenta de acesso para as demandas deles e acesso para os não indígenas. A partir do Brô se cria outra perspectiva de protagonismo. São eles mesmos falando dos problemas deles, pra eles e pra os não índios”.

Natural
Lobo esclarece que o interesse pelo hip hop surgiu espontaneamente e não é apenas dos quatro integrantes do Brô. “Do ano de 2000 ao ano de 2008 havia um programa de rádio muito popular chamado “Ritmos da batida”, do Naldo Rocha. Logo todo o pessoal começou a ouvir o som e procurar as roupas do rap”.
Uma década depois, entre os jovens da aldeia, o movimento hip hop avança. O sucesso do Brô fez nascer uma série de grupos de break, grafite e novas bandas rap. “Tem grupos novos na aldeia e em outras também. Grupos de break e até um pessoal que tirou o desenho do papel para por na parede”, diz Bruno.
E o sucesso do Brô tem ultrapassado os limites do seu povo. “Agora a gente toca nas rádios, principalmente no programa Blackout, na rádio AM Tupinambá. Os pedidos vêm de fãs da cidade, especialmente das universidades locais”, comenta Clemerson, entusiasmado.
Além da realidade urbanizada da aldeia de Dourados com a qual convivem os rappers, outro tema é importante para o grupo. “Nossas letras falam muito das lideranças que morreram nas áreas de conflito. Muitas vezes a gente recebe notícias, relatos e vídeos contando como foram esses confl itos. Como o vídeo que assistimos sobre o confl ito em Paranhos e aí mostraram a expulsão das famílias que foram retiradas. Os pistoleiros chegaram atirando, contra os velhos, contra as crianças e xingavam os Guarani dizendo que eram porcos, que só queriam a terra para sujar. Isso para gente é tema pra música”.

Além do MS
Fora do Mato Grosso do Sul, o Brô se apresentou em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, onde ganhou o respeito de artistas reconhecidos. “A gente tem parceiros que moram longe. Lá em São Paulo, a gente conheceu o Xis, que acolheu o grupo. Em Brasília, o Gog ajudou a gente para caramba. Foi bem bacana ouvir ele dizer: ‘segue em frente, que essa é a realidade que vocês têm que mostrar para o mundo e através disso mudar a vida de outras pessoas’”, lembra Bruno. Alguns destes parceiros citados pelo rapper devem aparecer no próximo disco do grupo. Além dos parceiros, o próximo disco deve ter produção e distribuição profi ssionais e 80% das faixas serão cantadas só em Guarani.
Perguntados sobre influências, os nomes que surgem são Racionais MC’s, Gog, MV Bill, A Família, Dexter, Fase Terminal, no Brasil. Internacionais são Notorious B.I.G., Tupac Shakur, Eminem e até um artista mais pop como Chris Brown. Outros ritmos, não. “A gente é rap na veia”, brinca Clemerson. “Mas claro, tudo na levada do Guaxiré [dança típica]”, ressalta o irmão.

sábado, 29 de outubro de 2011

William Waack: entre o amor platônico e a relação carnal





                                                           
   Quanta ingenuidade a minha. O que pensava ser amor platônico entre o jornalista William Waack e os EUA trata-se na verdade de relações carnais de primeiro grau. Não pode ser outra a constatação após as revelações do Wikileaks. Quem acompanha o jornal da noite da Globo e tem um pouco de massa cinzenta já percebeu de longa data a subalternidade do jornalista global, quando o assunto é os Estados Unidos. Mas o que se configura agora é gravíssimo. Trata-se de um funcionário, que deve até ter carteira assinada. Ou ele faz tudo isso por simples "patriotismo"??
 Curioso também é o fato de que os grandes meios tentaram ocultar esse fato. Que eu saiba só o JB online divulgou. Não vi a indignação do Jabour; nem o bordão "isso é uma vergonha" do Bóris Casoy, ou qualquer coisa parecida. Talvez seja isso que eles chamam de liberdade de imprensa. Isso é um escândalo e deve ser repudiado por todos aqueles que acreditam na possibilidade da autonomia dos povos. Todos sabem o papel que os Estados Unidos têm no cenário internacional. No financiamento de golpes, sequestros e outros crimes, tais como a utilização de sua máquina de guerra (quando a ação dos informantes não possibilita uma ação de domínio mais "suave") para o desenvolvimento de suas corporações. Quem tiver dúvida sobre isso leia o livro de Naomi Klein (entre tantos outros) "A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre".
 O envolvimento de um jornalista da importância de Waack, por um lado, e o silêncio quase absoluto da grande mídia por outro, deve nos servir de alerta para que reflitamos sobre o que essa mídia pensa sobre democracia.

domingo, 9 de outubro de 2011

Occupy Wall Street: a coisa mais importante do mundo hoje


Por Naomi Klein em 07/10/2011
A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle.
Eu amo vocês. 
E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto. 
Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão. 
   Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. 
Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.
Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou. 
“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”. 
Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”. 
Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte. 
O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados. 
Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá. 
Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria. 
Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.
Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.
Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.
A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.
Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.
Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.
A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.
A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.
Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.
É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.
Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:
Nossas roupas.
Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.
Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.
E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:
Nossa coragem.
Nossa bússola moral.
Como tratamos uns aos outros.
Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.
Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.
Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.


* Naomi Klein é escritora, autora dos livros 'Sem Logo: a tirania das marcas em um planeta vendido' e, mais recentemente, de 'Cercas e Janelas: na linha de frente do debate sobre a globalização'. Seu último livro é 'A Doutrina do Choque'. Discurso originalmente publicado no The Nation.

domingo, 2 de outubro de 2011

NEUROPOLIS

  Sabe essas ideias que quando a gente vê alguém realizando nos ocorre a pergunta: “puxa como é que não pensei nisso antes?” Pois é... me deparei com uma dessas outro dia. Milton Nascimento fez, em parceria com Tunai, uma bela canção sobre esse assunto – “certas canções” (“certas canções que ouço / cabem tão dentro de mim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz...”) –. Mas a ideia a qual me refiro era tão boa que mesmo antes de vê-la realizada já pressenti sua qualidade. Estou me referindo ao projeto “neuropolis” de autoria do músico e compositor paulista Lívio Tragtenberg. A palavra é escrita assim sem o acento agudo no primeiro ‘o’, mas é para ser pronunciada como se tivesse. Excentricidade do autor.

  Nesse projeto Lívio pôs no estúdio artistas, músicos e compositores que fazem das ruas de São Paulo o seu espaço de exibição. Claramente se coloca já de cara um grande problema: que unidade é possível dentro de uma tremenda diversidade que esses músicos encarnam? Pra se ter uma ideia do arco musical de Sampa representado no projeto, temos desde os emboladores Sonhador e Peneira à Yuko Ogura, musicista e professora de koto e sanguen, instrumentos tradicionais japoneses. Porém, não obstante a dificuldade, Lívio consegue não só produzir um clima de unidade no trabalho, como consegue interessantes encontros, com excelentes resultados timbrísticos.

  A praça pública, já sabemos, é o espaço, como diria o mestre russo Mikail Bakhtin, do vozerio e da polifonia. Ele é o lugar do multifacetado, do divergente, ou numa última palavra: da democracia. Ao contrário das mídias, no seu viés corporativo, o espaço da rua possibilita a emergência das singularidades e das experiências, estabelecendo um fluxo vital estético-sonoro tão plural quanto plural somos nós, seres humanos. Desde tempos imemoriais temos músicos ambulantes a transitar pela corte ou pelas cidades fazendo a crônica do tempo, ou, trabalhando a soldo de algum poderoso, tecendo loas em sua honraria. Comum também era a presença do poeta-cantor exercendo o puro e simples entretenimento.

  O termo “neuropolis”, explica o autor, está intimamente ligado a ideia de um fluxo nervoso que atravessa a polis e que lhe dá organicidade. São esses nervos que dão consistência vital e unidade ao complexo urbano citadino. Cidade é tumulto, troca, experiência e vitalidade. É música e paisagem sonora. E desse nervosismo e dessa pressa é que os músicos-artistas-compositores extraem sua matéria e a devolve em forma de sons e canções. O poeta-cantor é um fio e dessa forma ele dá estrutura nervosa ao caos-cosmo urbano.

  Os temas vão se seguindo nos dando o sabor da experiência estética da rua. Lívio foi muito feliz nisso: ele conseguiu, e obviamente não é só mérito seu, transpor para dentro do estúdio toda graça, dinâmica e leveza das apresentações da via pública. Destacaremos aqui apenas algumas faixas. O disco é aberto com um delicioso híbrido de samba e carimbó “aforrozado”, em cujo título já se encontra as marcas da mestiçagem que vai dar o tom do projeto: “Nega samurai”. Em “Lombada, curva: pare” Lívio se junta ao cantador Sonhador para compor um coco cujo tema é a percepção da cidade de São Paulo que tem um migrante nordestino. Diz a letra: “a maior agitação se vê na praça da Sé / mendigos e cachaceiros, fazendo o maior banzé / turista tirando foto e crente falando rouco / uns dizem que aqui é bom, outros diz: lugar de louco”.

   “Pajaro Choguy” é um tema tradicional paraguaio muito comovente. Ela se encaixa num tipo de conto que Câmara Cascudo definiu como um conto de exemplo. Diz a letra que uma antiga lenda conta a história de um indiozinho que estando em cima de uma árvore, se assustou com o grito da própria mãe caiu e morreu. Mas por um estranho sortilégio, ao se encontrar nos braços da mãe se transformou num pássaro choguy. É uma melodia comovente interpretada por Ruben Vera, paraguaio, e Frank, brasileiro do Mato Grosso do Sul.
A mistura é caleidoscópica e estonteante, mas dá certo. Os sotaques se misturam e se destilam compondo um mosaico afirmativo da cultura musical urbana da maior metrópole brasileira: São Paulo. O projeto sinaliza a permanência de uma longeva tradição de cantares públicos que no passado foi dos trovadores na França, dos griôs africanos e dos cantadores árabes. Saudemos!

sábado, 17 de setembro de 2011

PLANO NACIONAL DE CULTURA


 Na próxima quarta-feira, 21 de setembro, o Ministério da Cultura abrirá consulta pública para receber sugestões às metas propostas para o Plano Nacional de Cultura (PNC), instituído pela Lei nº 12.343/2010.  O objetivo da consulta é  receber contribuições da sociedade civil e de gestores públicos para o processo de construção das metas que nortearão as políticas públicas no campo cultural, no período de dez anos de vigência do PNC.
A consulta, disponível até o dia 20 de outubro, reafirma o compromisso do MinC com os processos democráticos, participativos e abertos com relação à formulação de políticas culturais.
Logo após o período da consulta pública, representantes do MinC e do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) – órgão colegiado integrante da estrutura básica do Ministério da Cultura – se reunirão para a consolidação final das metas, as quais serão publicadas em dezembro próximo.
Para enviar contribuições ao PNC, acesse aqui.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Novos bancos comunitários...

Os bancos comunitários vão se expandindo cada vez mais, e as histórias de sucesso seguem no mesmo rumo. No passado, nos tempos sombrios de FHC, eles chegaram a ter dificuldades, pois estavam fazendo circular moedas próprias, e como se sabe, cunhar moeda é um monopólio do estado. Só que deixava-se de perceber o enorme potencial de crescimento local, além de outros tantos dividendos, tais como o empoderamento comunitário, e a concomitante consciência das possibilidades cidadãs que daí advinham. Cidade de Deus, no Rio; Saracuruna, em Caxias e Preventório, em Niterói, se somam a outras tantas comunidades Brasil afora que adotaram essa iniciativa. Vida longa aos Bancos comunitários.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Todos os caminhos levam a Roma. O Papa e a pedofilia...


Do Terra notícias


     Os dirigentes da associação SNAP, orientados pelos advogados da ONG americana "Centro para Direitos Constitucionais", entraram com uma ação para que o Papa seja julgado por "responsabilidade direta e superior por crimes contra a humanidade por estupro e outras violências sexuais cometidas em todo o mundo".
   A organização acusa o chefe da Igreja católica de "ter tolerado e ocultado sistematicamente os crimes sexuais contra crianças em todo o mundo". À queixa acrescentaram 10.000 páginas de documentação de casos de pedofilia. Uma associação americana de vítimas de padres pedófilos anunciou nesta terça-feira ter apresentado uma queixa ante o Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o Papa Bento 16 e outros dirigentes da Igreja católica por crimes contra a humanidade.
    A SNAP possui membros nos Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Bélgica, quatro países muito afetados pelo grande escândalo de pedofilia que envolve a Igreja. "Crimes contra a dezenas de milhares de vítimas, a maioria crianças, foram escondidos pelos líderes nos mais altos níveis do Vaticano. Neste caso, todos os caminhos levam a Roma", declarou a advogada Pamela Spees. Os bispos e, em alguns casos, o próprio Vaticano rejeitou ou ignorou muitas das queixas das vítimas de padres pedófilos. O escândalo desacreditou a Igreja em vários países na Europa. A SNAP não acredita nesse desejo de transparência e justiça, e não moderou suas acusações.
O Papa Bento 16 expressou sua vergonha e pediu desculpas, apelando para a tolerância zero contra os pedófilos. Ele também pediu aos bispos do mundo, que têm a responsabilidade primária sobre seus sacerdotes, a plena cooperação com os tribunais criminais.



domingo, 11 de setembro de 2011

Qual 11 de setembro??


  Em um passado recente éramos todos, de alguma forma, reféns das informações que circulavam na grande mídia. Os canais paralelos eram, não obstante sua importância, muito limitados a abrangiam proporcionalmente poucas pessoas. As novas tecnologias de comunicação possibilitam uma menor assimetria na medida em que faz  de todo consumidor de informação um produtor, ao menos potencialmente. 
  Dia 11 de setembro é uma data que a grande mídia elege como o dia que devemos todos relembrar os atentados contra as torres gêmeas na cidade de Nova York. Obviamente que foi um acontecimento de grande magnitude e que deve ser lembrado por todos. Mas ao mesmo tempo em que comemora-se (no sentido de lembrar junto) essa ocorrência elide-se, ou tenta-se elidir o que representa essa mesma data para um país vizinho, o Chile, ou mesmo para todo o continente visto que a incursão estadunidense era continental. Nesse dia o Chile mergulhou em uma grande noite escura, e seu presidente foi deposto e assassinado por uma ação militar patrocinada pelo governo dos EUA. Esse mesmo país, cujo estado terrorista tem sido denunciado até mesmo por pessoas lá nascidas,  que chora as vítimas de um atentado terrorista supostamente praticado por grupos fundamentalistas muçulmanos, teria que fazer uma profunda reflexão do que representa no cenário mundial. Recentemente o crítico Herold Bloom nos alertou com relação as similitudes que envolvem os EUA hoje e o ambiente nazista da Alemanha pré Hitler. Mas, parece que ao contrário de uma reflexão que os leve a compreender que a sanha belicista encetada por eles acaba por levar todo o mundo, e eles mesmos, a instabilidade e que isso só interessa a poucos grupos privados, eles preferem fazer crescer movimentos como o direitista tea party, e outros grupos direitistas que estão dentro do partido republicano.
 Para que comemoremos juntos esse dia 11 de setembro, nada melhor do que este vídeo do cineasta inglês Ken Loach. Vejam:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Rede da Legalidade faz 50 anos

  
  Em agosto passado foi comemorado o aniversário de 50 anos da Rede da Legalidade, episódio este da maior importância da história recente do Brasil. Apesar de sua grande envergadura ele não é muito falado e grande parte dos brasileiros não têm notícia do que efetivamente se deu naquele ano de 1961. Importante também é perceber o papel desempenhado pelos então atores da cena histórica. Estava lá, naquele momento, a odiosa figura de Tancredo Neves, cuja herança política se encontra hoje nas mãos de seu neto Aécio Neves. Tancredo conspirou como pode em favor dos interesses reacionários na época, agindo como porta-voz dos militares golpistas, que por sua vez agiam - como depois ficou evidenciado no golpe de 64 -, sintonizados com os interesses estadunidenses. Tancredo tinha pretensões de se tornar o primeiro-ministro num parlamentarismo que esvaziaria o poder do presidente João Goulart. Os militares golpistas fizeram o que foi possível para em 1961 impedir sua posse, mas a rede da legalidade liderada por Brizola foi um impedimento não previsto pelos golpistas.
 Em 1985 lá estava de novo Tancredo fingindo ser um dos articuladores das diretas, quando na verdade articulava para ser o presidente numa eleição indireta. Conseguiu o que queria, mas o destino lhe roubou o cetro. Ganhou mas não levou. 
 Segue abaixo um documentário sobre a rede da legalidade em dois capítulos. Vejam:


terça-feira, 30 de agosto de 2011

"LÁ VINHA O BONDE NO SOBE E DESCE LADEIRA"

Era uma vez um lugar no coração de uma grande cidade. Mas seu tempo era outro, seu fluxo era outro e seu recorte geográfico já avisava aos que ali se aventuravam que se tratava de um lugar diferente, para o qual seria necessário um modo também diferente de percorrê-lo. Havia nesse lugar muita dança, muita música e de todos os recantos da cidade acorriam pessoas dispostas a penetrar naquela atmosfera. A comungar com ela. Era, sem dúvida, muito sedutor.


            Além das ladeiras, curvas, casario do século passado e outras idiossincrasias, havia a presença de um bonde. Este sim parecia que vinha de um tempo sem tempo, como o tempo da poesia, do sonho, ou da música. Talvez o “tempo dos quintais”, tempo que, como diz o poeta do cancioneiro popular, havia fadas e bondes, e nesse bonde havia sempre um anjo pra guiar, e outro pra dar lugar, pra quem quisesse sentar... este bonde cumpria dois tipos de itinerários: em um, ele saia de um ponto físico material e chegava em outro, também físico e material; em outro, ele nos fazia percorrer outro tipo de roteiro. Menos material e mais espiritual, seja lá o que possa significar esta palavra. Ele nos levava diretamente a um país da delicadeza perdida, para citar outro poeta do nosso cancioneiro. Por um momento poderíamos estar como que encantados pela poesia que ele emanava e nos sentir em um país cordial e generoso.

            Este bonde, assim como o do poeta Carlos Drummond de Andrade no seu poema das sete faces, também passava cheio de pernas. E eram também pernas pretas, amarelas, brancas, etc. isto porque não acorriam apenas pessoas da cidade para este lugar, mas gente do mundo todo. Poderíamos até pensar que o mundo vivia em paz. Que os homens enfim tinham abandonado suas ganâncias, loucuras e vontade de subjugar o outro homem. Mas não era! Era que esse bondinho nos deixava tão terno e tão amolecido (como o conhaque do poeta mineiro), que por um átimo de tempo tínhamos do mundo outras notícias. Mas tratava-se de sonho, e sonho, como nos diz um outro poeta Calderón, sonhos são...

            Por estas ladeiras de tanto sobes e desces o motorneiro parava a orquestra um minuto. Largava a batuta e contava casos de outros tempos e outras campanhas. Campanhas contra a privatização, campanha contra o desmantelamento daquele mais que meio de transporte, um verdadeiro símbolo de que outro mundo é possível, outra forma de se relacionar é possível.  Mas não era só poesia e música a serem transportadas por essas ladeiras, curvas e paralelepípedos. Lá estavam os próprios poetas. Lá estava Bandeira a pedir em oração que a própria santa, a Teresa, olhasse pelos que ali moravam: “Santa Teresa olhai por nós / moradores de Santa Teresa”. Lá estava também Drª Nise da Silveira, com Bandeira, a discutir filosofia no Curvelo... enquanto o bonde não vinha.
            Assim como Milton Nascimento em sua bela canção “conversando no bar”, eu também levei um susto imenso: o sonho, a música e a poesia que eram o bondinho de um lugar de verdade chamado Santa Teresa descarrilou e se chocou contra a dureza e o concreto da indiferença dos marqueses de terras perdidas. Chocou-se também contra a negligência e a mesquinhez. Chocou-se contra a aspereza das almas sebosas cujo afã acumulador as fazem cegas.

            No momento em que escrevo essas linhas, não ouço, compondo a paisagem sonora do meu lugar, os sons do bom e velho bondinho. É um silêncio que incomoda e entristece. Mas torçamos e lutemos, sobretudo, para que esse silêncio seja apenas momentâneo, e nesse sentido conclamo toda cidade a se unir e se solidarizar com o bairro de Santa Teresa e seus moradores, para que o descaso e a mesquinhez não se tornem a regra e triunfem sobre a poesia e o sonho.  Vivo estarão na nossa memória o motorneiro-maestro-anjo Nelson e os demais passageiros que foram vitimados no último sábado dia 27 de agosto, ao cair da tarde.

domingo, 28 de agosto de 2011

Tragédia em Santa Teresa

Preferimos colocar aqui o bondinho na sua forma festiva
integrado às atividades culturais do nosso bairro.
 Em face da tragédia ocorrida no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro (a poucos metros da casa do animador deste blog), vamos publicar abaixo a nota oficial da AMAST, Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa. Como diz a nota, esta tragédia não pode ser vista como uma fatalidade do destino. Antes trata-se de uma tragédia anunciada por conta do descaso e abandono do poder público para com este misto de transporte e cartão postal que é o nosso querido bondinho. As pessoas que não moram em Santa Teresa talvez não tenham a dimensão do amor que os moradores nutrem por este transporte. Ele é o símbolo do nosso bairro. Mas lamenta-se aqui também, e com maior pesar, a falecimento das 05 pessoas que perderam suas vidas, e entre eles o querido motorneiro Nelson. O momento é de tristeza, mas também deve ser de indignação e luta.




NOTA DA AMAST SOBRE O ACIDENTE DE HOJE, 27/08/2011, COM O BONDE Nº 10, EM SANTA TERESA

TRAGÉDIA ANUNCIADA (MAIS UMA!)
A Diretoria da AMAST lamenta profundamente o acidente ocorrido na tarde de hoje e se solidariza com a família das vítimas fatais e dos feridos. Nós, moradores de Santa Teresa, estamos profundamente abalados com a notícia e com a perda irreparável do motorneiro Nelson.
Nesse momento de dor e indignação, temos a dizer à imprensa, à sociedade civil e aos poderes constituídos que não aceitamos, em hipótese alguma, a classificação desse acidente como fatalidade. Trata-se de uma tragédia anunciada; mais uma, como foram a morte da Profa. Andréa de Jesus e, recentemente, do turista Francês Charles Damien.
Qualquer que seja o motivo apontado pela perícia, é certo que o Estado do Rio de Janeiro, na pessoa de seu Governador Sérgio Cabral e, principalmente, na pessoa do Secretário de Transportes Júlio Lopes, omite-se de forma vil e dolosa há anos, tratando o sistema de bondes de Santa Teresa com descaso.
Mais do que o abandono de um bem tombado, que, quando convém, tem a imagem utilizada para ilustrar interesses politiqueiros de divulgação da cidade, estamos diante de uma situação criminosa, na medida em que pessoas morrem ou sofrem lesões corporais de natureza grave, que certamente poderiam ser evitadas se o Governador e o Secretário cumprissem a decisão judicial que, há mais de 2 (dois) anos ordenou a recuperação integral do sistema de bondes, com a devolução dos 14 bondes tradicionais em perfeitas condições de operação.
A superlotação, alegada pelo Secretário à imprensa, é fruto do número reduzido de bondes em operação. A verba que deveria ter sido utilizada para restabelecer a operação dos 14 bondes foi aplicada indevidamente em uma tentativa fracassada de modernização dos bondes, verdadeira aventura tecnológica que resultou em pseudo-VLT's com aparência de bondes, os quais seguem apresentando problemas de freio, poluição sonora e instabilidade nas curvas. Em paralelo, os poucos bondes tradicionais que não sofreram desmantelamento, foram relegados ao abandono, à falta de manutenção preventiva e seguiram operando em condições totalmente precárias.
Estes fatos foram exaustivamente denunciados pela AMAST às autoridades competentes em âmbito administrativo e judicial, porém nada de concreto foi feito para reverter a situação.  
O CREA, em relatório da CAPA (Comissão de Prevenção de Acidentes) divulgado publicamente, recomendou que os bondes modificados não fossem colocados em circulação devido à falha grave na localização do sistema de freios. A recomendação foi solenemente ignorada pelo Governo do Estado (Sérgio Cabral), Secretaria de Transportes (Júlio Lopes) e Central Logística (empresa que administra o sistema de bondes).
O Ministério Público Estadual, apesar de ter movido Ação Civil Pública na qual obteve liminar, sentença e decisão em recurso favoráveis à restauração completa do sistema de bondes, jamais fez qualquer pedido à justiça de execução provisória das referidas decisões.
O Tribunal de Contas do Estado julgou ilegal o contrato da T'TRANS com a Central Logística (empresa estadual que administra o sistema de bondes de Santa Teresa), o que, em tese, acarretaria a necessidade de punir os responsáveis pela negociata e reparação dos prejuízos causados ao erário, mas até o momento não se teve notícia de qualquer punição e muito menos de restituição da verba pública ilegalmente empregada.
A Comissão de Transportes da Câmara Municipal, após intensos trabalhos, propôs uma série de medidas e recomendações, além de apontar fatos merecedores de atenção e providências, relacionados à ordenação do trânsito em Santa Teresa. Contudo, a Prefeitura do Rio de Janeiro (Eduardo Paes), a CET Rio e a Secretaria Municipal de Transportes não moveram uma palha para alterar a triste e perigosa realidade em que nós, moradores de Santa Teresa, vivemos diariamente.
Pelas razões acima, e por todos os outros motivos que até as pedras centenárias das ladeiras de Santa Teresa conhecem, reputamos como principais culpados as autoridades aqui mencionadas, com especial destaque para:
  1. O Governador Sérgio Cabral, que com sua habitual desfaçatez, suscitou à época do acidente que vitimou a Profa. Andréa de Jesus Rezende, uma possível municipalização dos bondes, com o único propósito de desviar o foco da imprensa quanto à raiz do problema, haja vista que nenhuma palavra voltou a ser dita sobre o assunto nos últimos 2 (dois) anos. 
  2. O Secretário Júlio Lopes, pela malversação da verba pública que deveria ter sido aplicada na recuperação dos 14 bondinhos tradicionais, e que foi aplicada na aventura tecnológica fracassada empreendida pela empresa T'TRANS, que resultou na criação de aberrações com aparência de bonde porém repletas de problemas de projeto que até hoje não foram superados;
  3. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, pela omissão em requerer à justiça a execução provisória das decisões que ordenaram a recuperação integral do sistema de bondes de Santa Teresa, mesmo após o esgotamento dos principais recursos em que o Estado saiu-se perdedor;

É duro e difícil acreditar que os verdadeiros responsáveis pelas mortes, ferimentos, famílias e sonhos destruídos algum dia serão culpados, mas é esse o nosso desejo e nossa luta, pois temos a convicção de que somente a punição exemplar seria eficaz no sentido de reverter a situação crítica que tem sido imposta ao nosso bairro, ao nosso sistema de transporte e às nossas vidas.

Por fim, convocamos os moradores de Santa Teresa e a população do Rio de Janeiro para se juntarem a nós nessa luta hercúlea e contínua que constitui uma missão histórica da AMAST. Pedimos que continuem acompanhando e participem dos atos públicos e manifestações, virtuais e presenciais, programados pela associação, com destaque para o dia do aniversário do bonde, 01/09, cuja comemoração já seria substituída por protesto em forma de luto, agora com mais razão de ser em função desse lamentável acontecimento.

A Diretoria

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Chico Buarque - Dia Voa

   Não tenho certeza, mas creio que este vídeo seja o material completo do qual saíram os pequenos vídeos que a produção do disco Chico (2011) foi lançando gradativamente a título de campanha publicitária. Nele Chico reflete sobre várias questões inerentes ao próprio disco, à música e à vida. Bom material para os que apreciam a obra desse artista.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Protestos na Inglaterra e a visão comprometida da Globonews

  Sinceramente, gostaria de saber quem vai ser demitido da Globonews por ter convidado o sociólogo Sílvio Caccia Bava, articulista do jornal Le Mond Diplomatique na sua seção brasileira, para uma entrevista. É evidente que não se trata de pluralidade de opiniões, pois até o reino mineral, como diz uma amigo, sabe que esse pessoal da "liberdade de imprensa" tem ojeriza dessa conversa de pluralidade. Na minha opinião alguém papou mosca. Reparem também o misto de despreparo e comprometimento ideológico dos apresentadores, que tentam tratar o assunto das insurgências juvenis na Inglaterra como fato meramente policial. Vejam:

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite - Naomi Klein

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saques são contagiosos. Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. O artigo é de Naomi Klein.



Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores tinham saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque[1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em http://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS...

Belíssima essa metáfora (ou alegoria)de Bertold Brecht sobre a civilização humana. Vi isso quando tinha lá meus vinte anos, e reencontrei agora no youtube. E também sou fã do Abujamra.


LISTA DE DEPUTADOS ESTADUAIS QUE VOTARAM CONTRA O AUMENTO DE 26% DOS PROFESSORES

Vejam aqui com todas as letras, os deputados que votaram contra o aumento de 26% aos professores da Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro. O aumento acabou sendo de 5%, menos do que a inflação dos últimos doze meses, o que faz com que tenha havido um decréscimo no poder aquisitivo de um salário já muito aquém do que deveria ser. Aí estão na lista figuras muito populares tais como: Bebeto, o Samuel Malafaia (irmão do famigerado Silas Malafaia), Myriam Rios. É muito bonito falar publicamente que é a favor da Educação, mas na hora "da onça beber água", é isso que vemos. Divulguem!!!!!!


Votaram “NÃO” os Senhores Deputados: 
Alessandro Calazans, 
Alexandre Correa, 
André Ceciliano, 
André Correa, 
André Lazoroni, 
Andréia Busatto, 
Átila Nunes, 
Bebeto, 
Bernardo Rossi, 
Chiquinho da Mangueira, 
Coronel Jairo, 
Dionísio Lins, 
Domingos Brazão, 
Edson Albertassi, 
Fabio Silva, 
Geraldo Moreira, 
Graça Matos, 
Graça Pereira, 
Gustavo Tutuca, 
Iranildo Campos, 
Janio dos Santos Mendes, 
João Peixoto, 
Luiz Martins, 
Marcus Vinicius, 
Myriam Rios, 
Paulo Melo, 
Rafael do Gordo, 
Rafael Picciani, 
Ricardo Abrão, 
Roberto Henriques, 
Rosângela Gomes, 
Samuel Malafaia, 
Waguinho 
Xandrinho.
Votaram 52 Senhores Deputados: 34 “NÃO” e 18 “SIM”. Abstenção: 0.