sábado, 29 de outubro de 2011

William Waack: entre o amor platônico e a relação carnal





                                                           
   Quanta ingenuidade a minha. O que pensava ser amor platônico entre o jornalista William Waack e os EUA trata-se na verdade de relações carnais de primeiro grau. Não pode ser outra a constatação após as revelações do Wikileaks. Quem acompanha o jornal da noite da Globo e tem um pouco de massa cinzenta já percebeu de longa data a subalternidade do jornalista global, quando o assunto é os Estados Unidos. Mas o que se configura agora é gravíssimo. Trata-se de um funcionário, que deve até ter carteira assinada. Ou ele faz tudo isso por simples "patriotismo"??
 Curioso também é o fato de que os grandes meios tentaram ocultar esse fato. Que eu saiba só o JB online divulgou. Não vi a indignação do Jabour; nem o bordão "isso é uma vergonha" do Bóris Casoy, ou qualquer coisa parecida. Talvez seja isso que eles chamam de liberdade de imprensa. Isso é um escândalo e deve ser repudiado por todos aqueles que acreditam na possibilidade da autonomia dos povos. Todos sabem o papel que os Estados Unidos têm no cenário internacional. No financiamento de golpes, sequestros e outros crimes, tais como a utilização de sua máquina de guerra (quando a ação dos informantes não possibilita uma ação de domínio mais "suave") para o desenvolvimento de suas corporações. Quem tiver dúvida sobre isso leia o livro de Naomi Klein (entre tantos outros) "A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre".
 O envolvimento de um jornalista da importância de Waack, por um lado, e o silêncio quase absoluto da grande mídia por outro, deve nos servir de alerta para que reflitamos sobre o que essa mídia pensa sobre democracia.

domingo, 9 de outubro de 2011

Occupy Wall Street: a coisa mais importante do mundo hoje


Por Naomi Klein em 07/10/2011
A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle.
Eu amo vocês. 
E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto. 
Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão. 
   Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. 
Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.
Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou. 
“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”. 
Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos antiglobalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”. 
Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte. 
O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados. 
Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá. 
Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria. 
Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.
Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.
Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.
A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.
Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.
Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.
A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.
A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.
Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.
É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.
Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:
Nossas roupas.
Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.
Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.
E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:
Nossa coragem.
Nossa bússola moral.
Como tratamos uns aos outros.
Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.
Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.
Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.


* Naomi Klein é escritora, autora dos livros 'Sem Logo: a tirania das marcas em um planeta vendido' e, mais recentemente, de 'Cercas e Janelas: na linha de frente do debate sobre a globalização'. Seu último livro é 'A Doutrina do Choque'. Discurso originalmente publicado no The Nation.

domingo, 2 de outubro de 2011

NEUROPOLIS

  Sabe essas ideias que quando a gente vê alguém realizando nos ocorre a pergunta: “puxa como é que não pensei nisso antes?” Pois é... me deparei com uma dessas outro dia. Milton Nascimento fez, em parceria com Tunai, uma bela canção sobre esse assunto – “certas canções” (“certas canções que ouço / cabem tão dentro de mim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz...”) –. Mas a ideia a qual me refiro era tão boa que mesmo antes de vê-la realizada já pressenti sua qualidade. Estou me referindo ao projeto “neuropolis” de autoria do músico e compositor paulista Lívio Tragtenberg. A palavra é escrita assim sem o acento agudo no primeiro ‘o’, mas é para ser pronunciada como se tivesse. Excentricidade do autor.

  Nesse projeto Lívio pôs no estúdio artistas, músicos e compositores que fazem das ruas de São Paulo o seu espaço de exibição. Claramente se coloca já de cara um grande problema: que unidade é possível dentro de uma tremenda diversidade que esses músicos encarnam? Pra se ter uma ideia do arco musical de Sampa representado no projeto, temos desde os emboladores Sonhador e Peneira à Yuko Ogura, musicista e professora de koto e sanguen, instrumentos tradicionais japoneses. Porém, não obstante a dificuldade, Lívio consegue não só produzir um clima de unidade no trabalho, como consegue interessantes encontros, com excelentes resultados timbrísticos.

  A praça pública, já sabemos, é o espaço, como diria o mestre russo Mikail Bakhtin, do vozerio e da polifonia. Ele é o lugar do multifacetado, do divergente, ou numa última palavra: da democracia. Ao contrário das mídias, no seu viés corporativo, o espaço da rua possibilita a emergência das singularidades e das experiências, estabelecendo um fluxo vital estético-sonoro tão plural quanto plural somos nós, seres humanos. Desde tempos imemoriais temos músicos ambulantes a transitar pela corte ou pelas cidades fazendo a crônica do tempo, ou, trabalhando a soldo de algum poderoso, tecendo loas em sua honraria. Comum também era a presença do poeta-cantor exercendo o puro e simples entretenimento.

  O termo “neuropolis”, explica o autor, está intimamente ligado a ideia de um fluxo nervoso que atravessa a polis e que lhe dá organicidade. São esses nervos que dão consistência vital e unidade ao complexo urbano citadino. Cidade é tumulto, troca, experiência e vitalidade. É música e paisagem sonora. E desse nervosismo e dessa pressa é que os músicos-artistas-compositores extraem sua matéria e a devolve em forma de sons e canções. O poeta-cantor é um fio e dessa forma ele dá estrutura nervosa ao caos-cosmo urbano.

  Os temas vão se seguindo nos dando o sabor da experiência estética da rua. Lívio foi muito feliz nisso: ele conseguiu, e obviamente não é só mérito seu, transpor para dentro do estúdio toda graça, dinâmica e leveza das apresentações da via pública. Destacaremos aqui apenas algumas faixas. O disco é aberto com um delicioso híbrido de samba e carimbó “aforrozado”, em cujo título já se encontra as marcas da mestiçagem que vai dar o tom do projeto: “Nega samurai”. Em “Lombada, curva: pare” Lívio se junta ao cantador Sonhador para compor um coco cujo tema é a percepção da cidade de São Paulo que tem um migrante nordestino. Diz a letra: “a maior agitação se vê na praça da Sé / mendigos e cachaceiros, fazendo o maior banzé / turista tirando foto e crente falando rouco / uns dizem que aqui é bom, outros diz: lugar de louco”.

   “Pajaro Choguy” é um tema tradicional paraguaio muito comovente. Ela se encaixa num tipo de conto que Câmara Cascudo definiu como um conto de exemplo. Diz a letra que uma antiga lenda conta a história de um indiozinho que estando em cima de uma árvore, se assustou com o grito da própria mãe caiu e morreu. Mas por um estranho sortilégio, ao se encontrar nos braços da mãe se transformou num pássaro choguy. É uma melodia comovente interpretada por Ruben Vera, paraguaio, e Frank, brasileiro do Mato Grosso do Sul.
A mistura é caleidoscópica e estonteante, mas dá certo. Os sotaques se misturam e se destilam compondo um mosaico afirmativo da cultura musical urbana da maior metrópole brasileira: São Paulo. O projeto sinaliza a permanência de uma longeva tradição de cantares públicos que no passado foi dos trovadores na França, dos griôs africanos e dos cantadores árabes. Saudemos!

sábado, 17 de setembro de 2011

PLANO NACIONAL DE CULTURA


 Na próxima quarta-feira, 21 de setembro, o Ministério da Cultura abrirá consulta pública para receber sugestões às metas propostas para o Plano Nacional de Cultura (PNC), instituído pela Lei nº 12.343/2010.  O objetivo da consulta é  receber contribuições da sociedade civil e de gestores públicos para o processo de construção das metas que nortearão as políticas públicas no campo cultural, no período de dez anos de vigência do PNC.
A consulta, disponível até o dia 20 de outubro, reafirma o compromisso do MinC com os processos democráticos, participativos e abertos com relação à formulação de políticas culturais.
Logo após o período da consulta pública, representantes do MinC e do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) – órgão colegiado integrante da estrutura básica do Ministério da Cultura – se reunirão para a consolidação final das metas, as quais serão publicadas em dezembro próximo.
Para enviar contribuições ao PNC, acesse aqui.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Novos bancos comunitários...

Os bancos comunitários vão se expandindo cada vez mais, e as histórias de sucesso seguem no mesmo rumo. No passado, nos tempos sombrios de FHC, eles chegaram a ter dificuldades, pois estavam fazendo circular moedas próprias, e como se sabe, cunhar moeda é um monopólio do estado. Só que deixava-se de perceber o enorme potencial de crescimento local, além de outros tantos dividendos, tais como o empoderamento comunitário, e a concomitante consciência das possibilidades cidadãs que daí advinham. Cidade de Deus, no Rio; Saracuruna, em Caxias e Preventório, em Niterói, se somam a outras tantas comunidades Brasil afora que adotaram essa iniciativa. Vida longa aos Bancos comunitários.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Todos os caminhos levam a Roma. O Papa e a pedofilia...


Do Terra notícias


     Os dirigentes da associação SNAP, orientados pelos advogados da ONG americana "Centro para Direitos Constitucionais", entraram com uma ação para que o Papa seja julgado por "responsabilidade direta e superior por crimes contra a humanidade por estupro e outras violências sexuais cometidas em todo o mundo".
   A organização acusa o chefe da Igreja católica de "ter tolerado e ocultado sistematicamente os crimes sexuais contra crianças em todo o mundo". À queixa acrescentaram 10.000 páginas de documentação de casos de pedofilia. Uma associação americana de vítimas de padres pedófilos anunciou nesta terça-feira ter apresentado uma queixa ante o Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o Papa Bento 16 e outros dirigentes da Igreja católica por crimes contra a humanidade.
    A SNAP possui membros nos Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Bélgica, quatro países muito afetados pelo grande escândalo de pedofilia que envolve a Igreja. "Crimes contra a dezenas de milhares de vítimas, a maioria crianças, foram escondidos pelos líderes nos mais altos níveis do Vaticano. Neste caso, todos os caminhos levam a Roma", declarou a advogada Pamela Spees. Os bispos e, em alguns casos, o próprio Vaticano rejeitou ou ignorou muitas das queixas das vítimas de padres pedófilos. O escândalo desacreditou a Igreja em vários países na Europa. A SNAP não acredita nesse desejo de transparência e justiça, e não moderou suas acusações.
O Papa Bento 16 expressou sua vergonha e pediu desculpas, apelando para a tolerância zero contra os pedófilos. Ele também pediu aos bispos do mundo, que têm a responsabilidade primária sobre seus sacerdotes, a plena cooperação com os tribunais criminais.



domingo, 11 de setembro de 2011

Qual 11 de setembro??


  Em um passado recente éramos todos, de alguma forma, reféns das informações que circulavam na grande mídia. Os canais paralelos eram, não obstante sua importância, muito limitados a abrangiam proporcionalmente poucas pessoas. As novas tecnologias de comunicação possibilitam uma menor assimetria na medida em que faz  de todo consumidor de informação um produtor, ao menos potencialmente. 
  Dia 11 de setembro é uma data que a grande mídia elege como o dia que devemos todos relembrar os atentados contra as torres gêmeas na cidade de Nova York. Obviamente que foi um acontecimento de grande magnitude e que deve ser lembrado por todos. Mas ao mesmo tempo em que comemora-se (no sentido de lembrar junto) essa ocorrência elide-se, ou tenta-se elidir o que representa essa mesma data para um país vizinho, o Chile, ou mesmo para todo o continente visto que a incursão estadunidense era continental. Nesse dia o Chile mergulhou em uma grande noite escura, e seu presidente foi deposto e assassinado por uma ação militar patrocinada pelo governo dos EUA. Esse mesmo país, cujo estado terrorista tem sido denunciado até mesmo por pessoas lá nascidas,  que chora as vítimas de um atentado terrorista supostamente praticado por grupos fundamentalistas muçulmanos, teria que fazer uma profunda reflexão do que representa no cenário mundial. Recentemente o crítico Herold Bloom nos alertou com relação as similitudes que envolvem os EUA hoje e o ambiente nazista da Alemanha pré Hitler. Mas, parece que ao contrário de uma reflexão que os leve a compreender que a sanha belicista encetada por eles acaba por levar todo o mundo, e eles mesmos, a instabilidade e que isso só interessa a poucos grupos privados, eles preferem fazer crescer movimentos como o direitista tea party, e outros grupos direitistas que estão dentro do partido republicano.
 Para que comemoremos juntos esse dia 11 de setembro, nada melhor do que este vídeo do cineasta inglês Ken Loach. Vejam:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Rede da Legalidade faz 50 anos

  
  Em agosto passado foi comemorado o aniversário de 50 anos da Rede da Legalidade, episódio este da maior importância da história recente do Brasil. Apesar de sua grande envergadura ele não é muito falado e grande parte dos brasileiros não têm notícia do que efetivamente se deu naquele ano de 1961. Importante também é perceber o papel desempenhado pelos então atores da cena histórica. Estava lá, naquele momento, a odiosa figura de Tancredo Neves, cuja herança política se encontra hoje nas mãos de seu neto Aécio Neves. Tancredo conspirou como pode em favor dos interesses reacionários na época, agindo como porta-voz dos militares golpistas, que por sua vez agiam - como depois ficou evidenciado no golpe de 64 -, sintonizados com os interesses estadunidenses. Tancredo tinha pretensões de se tornar o primeiro-ministro num parlamentarismo que esvaziaria o poder do presidente João Goulart. Os militares golpistas fizeram o que foi possível para em 1961 impedir sua posse, mas a rede da legalidade liderada por Brizola foi um impedimento não previsto pelos golpistas.
 Em 1985 lá estava de novo Tancredo fingindo ser um dos articuladores das diretas, quando na verdade articulava para ser o presidente numa eleição indireta. Conseguiu o que queria, mas o destino lhe roubou o cetro. Ganhou mas não levou. 
 Segue abaixo um documentário sobre a rede da legalidade em dois capítulos. Vejam:


terça-feira, 30 de agosto de 2011

"LÁ VINHA O BONDE NO SOBE E DESCE LADEIRA"

Era uma vez um lugar no coração de uma grande cidade. Mas seu tempo era outro, seu fluxo era outro e seu recorte geográfico já avisava aos que ali se aventuravam que se tratava de um lugar diferente, para o qual seria necessário um modo também diferente de percorrê-lo. Havia nesse lugar muita dança, muita música e de todos os recantos da cidade acorriam pessoas dispostas a penetrar naquela atmosfera. A comungar com ela. Era, sem dúvida, muito sedutor.


            Além das ladeiras, curvas, casario do século passado e outras idiossincrasias, havia a presença de um bonde. Este sim parecia que vinha de um tempo sem tempo, como o tempo da poesia, do sonho, ou da música. Talvez o “tempo dos quintais”, tempo que, como diz o poeta do cancioneiro popular, havia fadas e bondes, e nesse bonde havia sempre um anjo pra guiar, e outro pra dar lugar, pra quem quisesse sentar... este bonde cumpria dois tipos de itinerários: em um, ele saia de um ponto físico material e chegava em outro, também físico e material; em outro, ele nos fazia percorrer outro tipo de roteiro. Menos material e mais espiritual, seja lá o que possa significar esta palavra. Ele nos levava diretamente a um país da delicadeza perdida, para citar outro poeta do nosso cancioneiro. Por um momento poderíamos estar como que encantados pela poesia que ele emanava e nos sentir em um país cordial e generoso.

            Este bonde, assim como o do poeta Carlos Drummond de Andrade no seu poema das sete faces, também passava cheio de pernas. E eram também pernas pretas, amarelas, brancas, etc. isto porque não acorriam apenas pessoas da cidade para este lugar, mas gente do mundo todo. Poderíamos até pensar que o mundo vivia em paz. Que os homens enfim tinham abandonado suas ganâncias, loucuras e vontade de subjugar o outro homem. Mas não era! Era que esse bondinho nos deixava tão terno e tão amolecido (como o conhaque do poeta mineiro), que por um átimo de tempo tínhamos do mundo outras notícias. Mas tratava-se de sonho, e sonho, como nos diz um outro poeta Calderón, sonhos são...

            Por estas ladeiras de tanto sobes e desces o motorneiro parava a orquestra um minuto. Largava a batuta e contava casos de outros tempos e outras campanhas. Campanhas contra a privatização, campanha contra o desmantelamento daquele mais que meio de transporte, um verdadeiro símbolo de que outro mundo é possível, outra forma de se relacionar é possível.  Mas não era só poesia e música a serem transportadas por essas ladeiras, curvas e paralelepípedos. Lá estavam os próprios poetas. Lá estava Bandeira a pedir em oração que a própria santa, a Teresa, olhasse pelos que ali moravam: “Santa Teresa olhai por nós / moradores de Santa Teresa”. Lá estava também Drª Nise da Silveira, com Bandeira, a discutir filosofia no Curvelo... enquanto o bonde não vinha.
            Assim como Milton Nascimento em sua bela canção “conversando no bar”, eu também levei um susto imenso: o sonho, a música e a poesia que eram o bondinho de um lugar de verdade chamado Santa Teresa descarrilou e se chocou contra a dureza e o concreto da indiferença dos marqueses de terras perdidas. Chocou-se também contra a negligência e a mesquinhez. Chocou-se contra a aspereza das almas sebosas cujo afã acumulador as fazem cegas.

            No momento em que escrevo essas linhas, não ouço, compondo a paisagem sonora do meu lugar, os sons do bom e velho bondinho. É um silêncio que incomoda e entristece. Mas torçamos e lutemos, sobretudo, para que esse silêncio seja apenas momentâneo, e nesse sentido conclamo toda cidade a se unir e se solidarizar com o bairro de Santa Teresa e seus moradores, para que o descaso e a mesquinhez não se tornem a regra e triunfem sobre a poesia e o sonho.  Vivo estarão na nossa memória o motorneiro-maestro-anjo Nelson e os demais passageiros que foram vitimados no último sábado dia 27 de agosto, ao cair da tarde.

domingo, 28 de agosto de 2011

Tragédia em Santa Teresa

Preferimos colocar aqui o bondinho na sua forma festiva
integrado às atividades culturais do nosso bairro.
 Em face da tragédia ocorrida no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro (a poucos metros da casa do animador deste blog), vamos publicar abaixo a nota oficial da AMAST, Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa. Como diz a nota, esta tragédia não pode ser vista como uma fatalidade do destino. Antes trata-se de uma tragédia anunciada por conta do descaso e abandono do poder público para com este misto de transporte e cartão postal que é o nosso querido bondinho. As pessoas que não moram em Santa Teresa talvez não tenham a dimensão do amor que os moradores nutrem por este transporte. Ele é o símbolo do nosso bairro. Mas lamenta-se aqui também, e com maior pesar, a falecimento das 05 pessoas que perderam suas vidas, e entre eles o querido motorneiro Nelson. O momento é de tristeza, mas também deve ser de indignação e luta.




NOTA DA AMAST SOBRE O ACIDENTE DE HOJE, 27/08/2011, COM O BONDE Nº 10, EM SANTA TERESA

TRAGÉDIA ANUNCIADA (MAIS UMA!)
A Diretoria da AMAST lamenta profundamente o acidente ocorrido na tarde de hoje e se solidariza com a família das vítimas fatais e dos feridos. Nós, moradores de Santa Teresa, estamos profundamente abalados com a notícia e com a perda irreparável do motorneiro Nelson.
Nesse momento de dor e indignação, temos a dizer à imprensa, à sociedade civil e aos poderes constituídos que não aceitamos, em hipótese alguma, a classificação desse acidente como fatalidade. Trata-se de uma tragédia anunciada; mais uma, como foram a morte da Profa. Andréa de Jesus e, recentemente, do turista Francês Charles Damien.
Qualquer que seja o motivo apontado pela perícia, é certo que o Estado do Rio de Janeiro, na pessoa de seu Governador Sérgio Cabral e, principalmente, na pessoa do Secretário de Transportes Júlio Lopes, omite-se de forma vil e dolosa há anos, tratando o sistema de bondes de Santa Teresa com descaso.
Mais do que o abandono de um bem tombado, que, quando convém, tem a imagem utilizada para ilustrar interesses politiqueiros de divulgação da cidade, estamos diante de uma situação criminosa, na medida em que pessoas morrem ou sofrem lesões corporais de natureza grave, que certamente poderiam ser evitadas se o Governador e o Secretário cumprissem a decisão judicial que, há mais de 2 (dois) anos ordenou a recuperação integral do sistema de bondes, com a devolução dos 14 bondes tradicionais em perfeitas condições de operação.
A superlotação, alegada pelo Secretário à imprensa, é fruto do número reduzido de bondes em operação. A verba que deveria ter sido utilizada para restabelecer a operação dos 14 bondes foi aplicada indevidamente em uma tentativa fracassada de modernização dos bondes, verdadeira aventura tecnológica que resultou em pseudo-VLT's com aparência de bondes, os quais seguem apresentando problemas de freio, poluição sonora e instabilidade nas curvas. Em paralelo, os poucos bondes tradicionais que não sofreram desmantelamento, foram relegados ao abandono, à falta de manutenção preventiva e seguiram operando em condições totalmente precárias.
Estes fatos foram exaustivamente denunciados pela AMAST às autoridades competentes em âmbito administrativo e judicial, porém nada de concreto foi feito para reverter a situação.  
O CREA, em relatório da CAPA (Comissão de Prevenção de Acidentes) divulgado publicamente, recomendou que os bondes modificados não fossem colocados em circulação devido à falha grave na localização do sistema de freios. A recomendação foi solenemente ignorada pelo Governo do Estado (Sérgio Cabral), Secretaria de Transportes (Júlio Lopes) e Central Logística (empresa que administra o sistema de bondes).
O Ministério Público Estadual, apesar de ter movido Ação Civil Pública na qual obteve liminar, sentença e decisão em recurso favoráveis à restauração completa do sistema de bondes, jamais fez qualquer pedido à justiça de execução provisória das referidas decisões.
O Tribunal de Contas do Estado julgou ilegal o contrato da T'TRANS com a Central Logística (empresa estadual que administra o sistema de bondes de Santa Teresa), o que, em tese, acarretaria a necessidade de punir os responsáveis pela negociata e reparação dos prejuízos causados ao erário, mas até o momento não se teve notícia de qualquer punição e muito menos de restituição da verba pública ilegalmente empregada.
A Comissão de Transportes da Câmara Municipal, após intensos trabalhos, propôs uma série de medidas e recomendações, além de apontar fatos merecedores de atenção e providências, relacionados à ordenação do trânsito em Santa Teresa. Contudo, a Prefeitura do Rio de Janeiro (Eduardo Paes), a CET Rio e a Secretaria Municipal de Transportes não moveram uma palha para alterar a triste e perigosa realidade em que nós, moradores de Santa Teresa, vivemos diariamente.
Pelas razões acima, e por todos os outros motivos que até as pedras centenárias das ladeiras de Santa Teresa conhecem, reputamos como principais culpados as autoridades aqui mencionadas, com especial destaque para:
  1. O Governador Sérgio Cabral, que com sua habitual desfaçatez, suscitou à época do acidente que vitimou a Profa. Andréa de Jesus Rezende, uma possível municipalização dos bondes, com o único propósito de desviar o foco da imprensa quanto à raiz do problema, haja vista que nenhuma palavra voltou a ser dita sobre o assunto nos últimos 2 (dois) anos. 
  2. O Secretário Júlio Lopes, pela malversação da verba pública que deveria ter sido aplicada na recuperação dos 14 bondinhos tradicionais, e que foi aplicada na aventura tecnológica fracassada empreendida pela empresa T'TRANS, que resultou na criação de aberrações com aparência de bonde porém repletas de problemas de projeto que até hoje não foram superados;
  3. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, pela omissão em requerer à justiça a execução provisória das decisões que ordenaram a recuperação integral do sistema de bondes de Santa Teresa, mesmo após o esgotamento dos principais recursos em que o Estado saiu-se perdedor;

É duro e difícil acreditar que os verdadeiros responsáveis pelas mortes, ferimentos, famílias e sonhos destruídos algum dia serão culpados, mas é esse o nosso desejo e nossa luta, pois temos a convicção de que somente a punição exemplar seria eficaz no sentido de reverter a situação crítica que tem sido imposta ao nosso bairro, ao nosso sistema de transporte e às nossas vidas.

Por fim, convocamos os moradores de Santa Teresa e a população do Rio de Janeiro para se juntarem a nós nessa luta hercúlea e contínua que constitui uma missão histórica da AMAST. Pedimos que continuem acompanhando e participem dos atos públicos e manifestações, virtuais e presenciais, programados pela associação, com destaque para o dia do aniversário do bonde, 01/09, cuja comemoração já seria substituída por protesto em forma de luto, agora com mais razão de ser em função desse lamentável acontecimento.

A Diretoria

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Chico Buarque - Dia Voa

   Não tenho certeza, mas creio que este vídeo seja o material completo do qual saíram os pequenos vídeos que a produção do disco Chico (2011) foi lançando gradativamente a título de campanha publicitária. Nele Chico reflete sobre várias questões inerentes ao próprio disco, à música e à vida. Bom material para os que apreciam a obra desse artista.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Protestos na Inglaterra e a visão comprometida da Globonews

  Sinceramente, gostaria de saber quem vai ser demitido da Globonews por ter convidado o sociólogo Sílvio Caccia Bava, articulista do jornal Le Mond Diplomatique na sua seção brasileira, para uma entrevista. É evidente que não se trata de pluralidade de opiniões, pois até o reino mineral, como diz uma amigo, sabe que esse pessoal da "liberdade de imprensa" tem ojeriza dessa conversa de pluralidade. Na minha opinião alguém papou mosca. Reparem também o misto de despreparo e comprometimento ideológico dos apresentadores, que tentam tratar o assunto das insurgências juvenis na Inglaterra como fato meramente policial. Vejam:

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite - Naomi Klein

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saques são contagiosos. Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. O artigo é de Naomi Klein.



Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores tinham saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque[1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em http://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS...

Belíssima essa metáfora (ou alegoria)de Bertold Brecht sobre a civilização humana. Vi isso quando tinha lá meus vinte anos, e reencontrei agora no youtube. E também sou fã do Abujamra.


LISTA DE DEPUTADOS ESTADUAIS QUE VOTARAM CONTRA O AUMENTO DE 26% DOS PROFESSORES

Vejam aqui com todas as letras, os deputados que votaram contra o aumento de 26% aos professores da Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro. O aumento acabou sendo de 5%, menos do que a inflação dos últimos doze meses, o que faz com que tenha havido um decréscimo no poder aquisitivo de um salário já muito aquém do que deveria ser. Aí estão na lista figuras muito populares tais como: Bebeto, o Samuel Malafaia (irmão do famigerado Silas Malafaia), Myriam Rios. É muito bonito falar publicamente que é a favor da Educação, mas na hora "da onça beber água", é isso que vemos. Divulguem!!!!!!


Votaram “NÃO” os Senhores Deputados: 
Alessandro Calazans, 
Alexandre Correa, 
André Ceciliano, 
André Correa, 
André Lazoroni, 
Andréia Busatto, 
Átila Nunes, 
Bebeto, 
Bernardo Rossi, 
Chiquinho da Mangueira, 
Coronel Jairo, 
Dionísio Lins, 
Domingos Brazão, 
Edson Albertassi, 
Fabio Silva, 
Geraldo Moreira, 
Graça Matos, 
Graça Pereira, 
Gustavo Tutuca, 
Iranildo Campos, 
Janio dos Santos Mendes, 
João Peixoto, 
Luiz Martins, 
Marcus Vinicius, 
Myriam Rios, 
Paulo Melo, 
Rafael do Gordo, 
Rafael Picciani, 
Ricardo Abrão, 
Roberto Henriques, 
Rosângela Gomes, 
Samuel Malafaia, 
Waguinho 
Xandrinho.
Votaram 52 Senhores Deputados: 34 “NÃO” e 18 “SIM”. Abstenção: 0.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

BID: em 15 anos, emergentes vão liderar expansão global

  Não obstante ser uma análise conservadora, creio que seja importante se dar conta do que o Brasil representa hoje no cenário internacional e o que pode ainda representar.  Temos uma tarefa histórica pela frente. A matéria abaixo foi publicada, podem acreditar, no Estadão.
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O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Alberto Moreno, afirmou que em 15 anos 68% da expansão econômica global será gerada pelos países emergentes. Ele destacou que, no caso do Brasil, se o seu nível de expansão for mantido em duas décadas, a classe média deverá passar de 105 milhões para 144 milhões de pessoas. "O País avançou muito. Cerca de 40 milhões deixaram a pobreza desde 2003", destacou.

Para Moreno, duas estratégias adotadas pelo governo brasileiro desde 2003 estão sendo essenciais para melhorar os indicadores sociais e econômicos. Um deles é o avanço dos programas sociais, como o Bolsa Família. Além disso, segundo ele, o governo adotou uma postura rigorosa na gestão fiscal e monetária, com o objetivo de manter a inflação sob controle. Ele citou que a alta excessiva dos preços é o principal fator que ataca a renda das famílias, especialmente as mais simples.

Moreno, contudo, afirmou que a América Latina ainda apresenta indicadores sociais inaceitáveis. Ele destacou que um em cada grupo de oito pessoas na região ainda vive em plena indigência. Além dos problemas provocados pela pobreza, que também existe em grandes proporções no Brasil, ele ressaltou que outra dificuldade estrutural que estes países enfrentam são obstáculos para mobilidade social. E tal questão está relacionada com a geração de oportunidades de educação e de empregos. O presidente do BID fez os comentários durante seminário em São Paulo, hoje, que contou com a participação de executivos de empresas.

Crise internacional

O presidente do BID concordou com o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, que disse no fim de semana que a crise econômica internacional está numa "fase perigosa". Moreno indicou que há o temor de que os atuais problemas enfrentados por governos na gestão de suas dívidas públicas possam acabar afetando a saúde de bancos comerciais. "Esta crise está mais concentrada em torno da dívida soberana. Mas certamente este problema tem capacidade de se estender sobre o sistema financeiro", afirmou Moreno.

Moreno disse que o mundo está passando por um momento muito difícil, pois todos os países estão interconectados e será necessário aguardar os próximos meses para avaliar os impactos que a crise pode trazer aos países emergentes. "Independente do nosso sucesso em alcançar estabilidade macroeconômica e crescimento bom, há muitos efeitos da crise sobre nós", comentou, referindo-se aos países em desenvolvimento.

Ele comentou que os países desenvolvidos podem aprender com as nações da América Latina quanto à gestão econômica em momentos de crise. "Nos últimos 25 anos ocorreram 31 crises financeiras. A capacidade de decisão dos países da América Latina é mais forte do que a de países em desenvolvimento", afirmou. Muitos analistas internacionais nos EUA e Europa vem apontando que as lideranças políticas não estão trabalhando com a rapidez necessária para atacar os problemas econômicos que estão envolvidos.

O presidente do BID destacou que os países da América Latina devem utilizar os principais instrumentos de gestão macroeconômica, especialmente os de ordem fiscal e monetária, para se proteger dos impactos da crise econômica mundial.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Veja e ouça mais do Teremim, estranho instrumento de quase um século


Do Site da BBC
Este ano aconteceu um simpósio sobre o estranho instrumento Teremim na cidade inglesa de Scarborough.

Ele foi o primeiro instrumento criado sem que fosse necessário o uso das mãos para tocá-lo, em 1920. Seu inventor, o russo Leon Teremim, teve uma vida singular, da fama nos Estados Unidos, a anos no gulag soviético. A compositora para Teremim e musicista Barbara Bushholz diz que, embora seja monofônico, ou seja, toca uma nota por vez, ela usa um recurso que repete a nota tocada indefinidamente, podendo adicionar outras por cima de forma harmônica.

sábado, 6 de agosto de 2011

HOJE, 06 DE AGOSTO, FAZ 66 ANOS QUE O ESTADO TERRORISTA DOS ESTADOS UNIDOS LANÇOU SUA PRIMEIRA BOMBA ATÔMICA SOBRE O JAPÃO

 O sentido da palavra comemoração é o de lembrarmos juntos, geralmente algo que seja importante para a constituição de uma comunidade. Somos, afinal, o resultado de um conjunto de ocorrências que vão se dando de forma aleatória fruto de escolhas anteriores. Essas escolhas vão gerando outras, que vão gerando outras num processo caleidoscópico e, de certa forma, caótico. Hoje, 06 de agosto, comemora-se (não no sentido de festejo, mas no sentido de um compartilhamento de uma memória) 66 anos do lançamento da primeira bomba atômica. O país que lançou a bomba foi os Estados Unidos da América, todos sabem. Este mesmo país que hoje se encontra numa encruzilhada que talvez o leve a perda da hegemonia mundial. Hegemonia esta construída justamente a partir daquela vitória. 
 Os Estados Unidos saíram daquele processo cuspindo fogo para todo lado, por mais que sempre tenha sustentado um discurso de paz e de democracia. Mas os fatos desautorizam completamente esse discurso, pois o que este país fez a partir dessa bomba, não obstante ele já ter uma atitude belicosa desde o final do século XIX, foi perpetrar invasões; atuar em conspirações; derrubar governos eleitos, como fizeram no Brasil e em vários países do continente. Se Hitler merece nosso repúdio, o que dizer dos Estados Unidos e seu Estado terrorista (como disse Chomsky). Enfim, o vídeo abaixo é difícil de ver até o fim, mas é importante, principalmente para as novas gerações, para que elas tenham uma visão mais clara da História.

Os Jardins murados da internet

Por Hermano Vianna
  Na semana passada, a seção Digital & Mídia deste jornal publicou página inteira sobre a migração da internet “tradicional” para as redes sociais. Talvez não haja fenômeno cultural mais importante acontecendo atualmente no mundo. Muitas pessoas embarcaram na onda e até já abandonaram seus emails, forma de correspondência que passou a ser considerada tão antiga quanto cartas de papel. Por isso esses migrantes são apontados como pioneiros das novas tendências bacanas. Mas podem ser vistos igualmente como garotos-propaganda — não-remunerados — de uma reação poderosa contra a liberdade na rede, que faz tudo para transformar nossa vida virtual (já a parte mais decisiva de nossas vidas?) em propriedade de meia-dúzia de megacorporações.
   Uma capa recente do Segundo Caderno também mostrou pessoas que passaram a usar o Facebook “para compartilhar seu conhecimento”, construindo excelentes guias culturais — que “antigamente” teriam lugar em blogs e sites pessoais — dentro do território do Mark Zuckerberg. Não sei se todos pensam, ao fazer essa opção de publicação numa rede social específica, que só outras pessoas inscritas no Facebook, tendo portanto aceitado os Termos de Uso do Facebook (permitindo que essa empresa utilize seus conteúdos com finalidades comerciais), terão acesso a seu valioso conhecimento. Não posso deixar de comparar: é como deixar as ruas comuns de uma cidade e passar a viver num condomínio cercado por muros e seguranças, com serviços “públicos” próprios e onde todas as casas são propriedade de uma única empresa e não de quem mora nelas.
Redes sociais como o Facebook são conhecidas justamente como “walled gardens”, ou — tradução apressada — “jardins murados”, que não possuem canais livres de troca de informações com o resto da rede (e que fazem inúmeras restrições técnicas para impedir a “portabilidade” dos dados que criamos por lá — tente, por exemplo, transferir a sua lista de “amigos” do Facebook para uma outra rede social — é praticamente impossível). A mudança da internet “tradicional” para dentro do muro é uma mudança radical de “estilo de vida”. Não sei se todo mundo tem consciência do que está fazendo ao trocar o “tradicional” pelo “novo”.
Não são só as redes sociais os vilões desta minha fábula moral. Perigosas também são todas essas apps que a Apple, com auxílio luxuoso de nossos impulsos consumistas e design genial, transformou em moda obrigatória para smartphones e tablets. Elas quase sempre nada mais são do que interfaces bonitinhas entre o usuário e a internet “tradicional”, tornando nossa vida on-line muito mais facilmente controlável pelas empresas. Tudo que uma app faz, um browser “antigão” poderia ser desenvolvido para fazer, com muito mais compatibilidade entre sistemas operacionais e aparelhos. Agora não: se quisermos que o público tenha acesso às informações que desejamos compartilhar, precisamos de apps diferentes para o iPhone, o iPad, o Android, o sistemasei-lá-qual-é-o-nome da Nokia e assim por diante. Desenvolver todas essas apps custa caro e precisamos ser aprovados pelas várias lojas — da Apple, do Google etc. — que passaram a ter o poder de aprovar tudo o que entra em suas redes. Labirintos de jardins, com muralhas cada vez mais altas.
O exemplo da Apple é seguido por milhares de outras empresas, como as fabricantes de televisão, que estão criando seus mundos fechados de comércio, onde só poderemos acessar apps específicas. Por exemplo: se isso vingar, numa TV da Sony só poderemos comprar vídeos na loja A, ou fazer ligações pela empresa Y, ou participar da rede social Z. Claro, tudo rodará por cima da internet, e um browser poderá ser o caminho secreto para fora do muro. Mas pouca gente saberá o que vem a ser um browser, e muitos dos novos serviços serão desenvolvidos somente para essa nova realidade pós-browser.
Os browsers foram criados nos tempos pioneiros da internet, quando surgiu a própria web, desenvolvida nos laboratórios do CERN, com dinheiro público europeu, pelo santo Tim Berners- Lee, que fez questão de manter sua invenção livre e gratuita. Naquele tempo, as grandes empresas, mesmo a Microsoft, não prestavam tanta atenção em qualquer rede que não fosse corporativa. Só embarcaram na grande aventura virtual depois, junto com outras empresas nascidas no mundo on-line, buscando fechar o que era aberto, para enquadrá-lo em seu “modelo de negócio”. Várias tentativas de transformar a internet em shopping center totalitário explodiram como bolhas. A estratégia atual parece ser a mais difícil de combater. As pessoas estão interessadas em máquinas e não nos conteúdos que elas podem apresentar (não há mais filas para lançamentos de discos — há filas para lançamento do iPhone 4). Compramos, e só depois vamos inventar um uso para os objetos comprados. Uma app colorida (sai dessa, Björk!) nos transmite a sensação de que não jogamos dinheiro fora.
Quando vou ficando pessimista, penso na Microsoft, que parecia invencível pré-internet, controlando cada vez mais áreas importantes de nossa vida. Hoje tem que correr atrás do Facebook, da Apple e do Google. Esperemos novos corredores, que vão surgir distantes da prisão divertida das apps e redes sociais que querem ser nossas únicas portas de entrada para a verdadeira riqueza das redes. Ainda acredito que a abertura é a única forma de aumentar essa riqueza. O resto vira bolha.