terça-feira, 7 de junho de 2011

A Educação e a prova dos nove


    Belíssimo artigo do professor Antonio Lassance. Explica, por exemplo, o porquê de tantos ataques ao ministro Fernando Haddad. Não nos iludamos, a sanha privatista continua a todo vapor, e no caso da educação ela traria danos enormes tanto a democratização da mesma quanto a autonomia dos professores. Os lucros parecem muito promissores, e essa turma não medirá esforços para abocanhar essa fatia. Leiam, reflitam e repassem...

____________________________________________
Por Antonio Lassance para o site "Carta Maior"

  Ao contrário do que parece, não existe e nunca existiu no Brasil o propalado consenso sobre a importância da educação. O que impera é não só o dissenso, fustigado pelo obscurantismo, como um disputa sobre o papel do sistema público, seu peso no orçamento do Estado e sua relação com o mercado da educação, um dos mais rentáveis do País. 

É curioso, mas dificilmente fruto de uma mera coincidência, que o fogo cruzado contra o ministro da Educação, Fernando Haddad, tenha se intensificado justamente quando o debate sobre o Plano Nacional de Educação e sobre o futuro de suas políticas no País deveria ser o mais relevante a ser travado neste momento. 

Apesar de inúmeros e significativos avanços nos últimos anos, estamos apenas caminhando em uma área na qual o País precisaria estar voando. 

O principal obstáculo decorre do fato de que a educação sofreu um profundo processo de fragmentação, confusão gerencial, subfinanciamento, desmonte de suas estruturas e desarticulação dos setores defensores do sistema público. 

A Constituição de 1988 promoveu uma positiva institucionalização da autonomia dos sistemas estaduais, municipais e da universidade. Promoveu a descentralização e a expansão da oferta de vagas, rumo à quase universalização do ensino fundamental. 

Todavia, sobretudo a partir dos anos 1990, o federalismo brasileiro passou por um processo de grave distorção. A falência econômica de muitos Estados, por conta de gestões irresponsáveis ao longo dos anos 1980, e suas políticas de terra arrasada (torrar recursos e deixar a casa destruída para governos seguintes) levaram a um contexto favorável ao ajuste fiscal rígido. 

Estados e Municípios foram obrigados a reduzir custos, e a educação foi um dos setores prioritários da operação-desmonte. Salários dos professores foram achatados e proliferaram os contratos temporários. Muitos se tornaram “concurseiros”, policiais, funcionários de bancos, analistas de carreiras vinculadas à gestão da máquina do Estado (tributação, orçamento, administração) e tudo o que, com salários bem mais elevados, demonstrava que a educação não era prioridade. 

Ao mesmo tempo, escolas desmoronavam sobre a cabeça de alunos e professores. O ensino técnico havia sido abandonado. O ensino médio, excluído do Fundef, foi deixado à míngua. A maioria dos governadores, na prática, abandonou por completo seu compromisso com a educação, preferindo redirecionar a missão essencial dos Estados às políticas de desenvolvimento econômico, com estímulo à guerra fiscal e obsessão por atrair empresas e e empreendimentos que guardariam relação direta com o financimento de campanhas políticas.

A educação chegou ao fundo do poço, e é por isso que ainda é tão difícil esperar que ela dê saltos. Cada tentativa tem o provável resultado de bater com a cabeça na parede. 

A fragmentação é tal que há diferenças muito pronunciadas de desempenho entre Estados vizinhos, em uma mesma região, e mesmo de escolas vizinhas, em um mesmo município. A depender do governador, do prefeito e até do diretor, a cada quatro anos tudo pode ser perdido, e a educação passar do vinho ao vinagre. Avanços de uma gestão podem ser revertidos pelas gestões seguintes.

O governo Lula patrocinou grandes conquistas, sob o comando do ministro Haddad. Elevou o gasto com educação e transformou o Fundef em Fundeb, finalmente abrangendo o Ensino Médio. Lula também tomou a decisão crucial de suspender a Desvinculação das Receitas da União (a famigerada DRU), que diminuía o valor dos recursos a serem repassados para a educação. Desde 2003, foram construídos 214 centros de formação profissional e tecnológica, mais do que os 140 erigidos desde 1909. Há 14 novas universidades, além de mais de 30 novos campi ligados às universidades já existentes. 

O Judiciário brasileiro também deu uma contribuição importante, recentemente, derrotando cinco governadores que haviam pedido a decretação da inconstitucionalidade do piso salarial dos professores estabelecido nacionalmente. 

Reverteu-se a absurda situação anterior, na qual, em nome da “responsabilidade” fiscal, o Governo Federal se desincumbia de cumprir sua responsabilidade com a educação.

O fato de o Brasil ocupar, segundo a Unesco, o 88º lugar, entre 127 países, e o 53º, entre 65 países pesquisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem muito a ver com o fato de a educação ser, igualmente, não a primeira, mas a 53ª ou a 88ª prioridade de muitos governos estaduais e municipais.

É fácil jogar toda a culpa, ou a maior parte dela, sobre o Ministério da Educação (MEC), e mais especificamente, sobre os ombros do ministro Fernando Haddad. Fácil, mas simplista.

Certamente, o MEC cometeu vários erros. O ministério não se empenhou por consolidar a coalizão de defesa do sistema público para além de suas reuniões com outros governos. Demorou muito para fazer a Conferência Nacional de Educação e está longe de ter uma boa relação com as organizações nacionais de professores. Não priorizou o tema da gestão democrática, verdadeira pedra de toque da autonomia do ensino, mas que precisa de parâmetros claros para que não seja mais um ingrediente de desagregação do sistema.

Também não conseguiu estabelecer uma nova estratégia de relacionamento com Estados, Municípios e DF. Hoje, a política do Governo Federal para a educação não é uma política de educação nacional. O que existe são diferentes políticas educacionais espalhadas pelo país, e o esforço do MEC no sentido de harmonizá-las por estratégias de apoio e cooperação. 

Mas os ataques que Haddad tem sofrido ultimamente vêm de quem nunca o aplaudiu, quando de seus acertos. A coalizão que mira no MEC quer acertar na testa destes avanços proporcionados em menos de uma década

Quem conhece um pouco da história da educação no Brasil sabe que inúmeras tentativas de transformá-la mais profundamente são estigmatizadas com pesadelos e fantasmas. 

Por exemplo, nos anos 1930, o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, chamou para conduzir seu projeto de reforma do ensino ninguém menos do que o honorável Anísio Teixeira, velho batalhador da educação pública, laica e inovadora. Ambos criaram, como modelo, a Universidade do Distrito Federal. Entre em seus quadros, estavam nomes que reinventaram as ideias sobre o Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda, Cândido Portinari, Heitor Villa Lobos, Cecília Meirelles, Álvaro Vieira Pinto, Josué de Castro, Gilberto Freyre e Mário de Andrade. Portanto, gente de todos os matizes. 

O que isso rendeu a Pedro Ernesto? A acusação, feita pelos conservadores, de abrigar comunistas, de ser um ateu, contrário ao ensino da palavra de Deus. Anísio Teixeira demitiu-se. O prefeito foi exonerado e preso, acusado de simpatia com comunistas. A UDF foi absorvida, no Estado Novo, pela Universidade do Brasil (atual UFRJ) e seus professores passaram a ser contratados com crivo sobre suas convicções ideológicas e religiosas, sob a lupa de Alceu Amoroso Lima e do Cardeal Leme. 

O projeto de Anísio Teixeira retornou revigorado, décadas depois, em Brasília, no projeto de Escola Parque, de tempo integral, e com Darcy Ribeiro, com a Universidade de Brasília. Nova ditadura, a de 1964, interrompeu o experimento.

A educação no Brasil, sucessivamente golpeada pelo autoritarismo, em períodos democráticos é bloqueada quando pretende avançar. É por isso que ela se arrasta vagarosamente. A primeira Lei de Diretrizes e Bases só foi promulgada em 1961, sendo que estava prevista desde a Constituição de 1934 (na forma de um Plano Nacional de Educação). Foram 13 anos de tramitação, desde o envio de seu projeto, em 1948. A segunda LDB, estabelecida pela Constituição de 1988, só chegaria à sua redação final em 1996. 

A institucionalização das regras nacionais para a educação é sempre muito lenta. Isso nada tem a ver com democracia e tempo de debate. Pelo contrário. Esses projetos são deliberadamente entregues a uma tramitação modorrenta, com parlamentares que se esmeram por mantê-los em total monotonia, enquanto agridem a compreensão pública com polêmicas disparatadas. Atiram para todos os lados em questões pontuais, enquanto agem solenemente em prol do silêncio de cemitério, trilha sonora mais comum do debate sobre os rumos da educação.

Enquanto esperamos que o MEC seja rápido para corrigir seus erros e evitar que eles se repitam (como no caso do 10-7=4), é preciso ter clareza dos grandes desafios que se tem pela frente. O importante já não é apenas superá-los, evitando retrocessos, mas fazê-lo ainda mais rapidamente. O atraso histórico amargado pelo sistema público de educação é de tal monta que mesmo alguns resultados exuberantes colecionados nos últimos anos deixam a sensação de uma vitória de Pirro para professores e estudantes.

Mais do que dar continuidade ao que foi feito, seria hora de uma guinada.

domingo, 5 de junho de 2011

Bancos Comunitários II - Uma moeda para chamar de sua.

Matéria do Jornal "O Globo".

 Moradores do Preventório, em Charitas, estão às voltas com a escolha do nome de uma moeda que será lançada entre junho e julho deste ano para circular exclusivamente dentro da comunidade. O que, num primeiro olhar, parece uma brincadeira nos moldes do Banco Imobiliário é iniciativa séria, com 52 cases de sucesso espalhados pelo Brasil. O Preventório e seus cerca de 12 mil habitantes serão os primeiros em Niterói a receber um banco comunitário, que vai oferecer microcrédito a empreendedores e moradores e fará circular, na favela, uma moeda social com valor igual ao do real.


 A novidade está sendo desenvolvida pela Incubadora de Empreendimentos em Economia Solidária da Universidade Federal Fluminense (UFF), cuja equipe multidisciplinar reúne economistas, psicólogos e sociólogos. A Ampla apoia o projeto, concedendo descontos na conta de luz dos moradores, que serão convertidos para a moeda social.


 Líder do projeto, a professora de Sociologia da UFF Bárbara França explica que o banco será gerido exclusivamente pelos moradores, sem participação do poder público. A instituição financeira realizará a troca de reais por moeda social e oferecerá linhas de microcrédito aos moradores, para incentivar o desenvolvimento da comunidade. Mesmo quem estiver com o nome sujo poderá ter acesso a empréstimos, desde que sejam aprovados pelos funcionários do banco, também moradores do Preventório.

— A inadimplência costuma ser baixa, porque a cobrança é diária e realizada pelos próprios vizinhos. Há bancos que colam papéis com os nomes dos maus pagadores na porta e passam carros de som pela comunidade divulgado quem são os inadimplentes — explica Bárbara.

 Os empréstimos podem ser feitos em real ou na moeda social, que será aceita nos estabelecimentos da comunidade. Quem usá-la terá desconto na compra de produtos, como forma de impulsionar a circulação. Desta forma, o banco comunitário incentiva que moradores priorizem adquirir itens dentro do Preventório, aquecendo o mercado interno.

Bancos comunitários I

 A iniciativa não é tão nova, mas tem cada vez mais mobilizado pessoas e comunidades pelo Brasil afora. Trata-se de Bancos Comunitários, cuja finalidade é dinamizar as economias locais e conscientizar os moradores das comunidades do potencial político do ato de consumir. Como desdobramento desse processo surge a consciência dos poderes locais, ou, como dizem atualmente, do empoderamento local. Joaquim de Melo, que não é economista formado, e sim um teológo, é um dos mais importantes defensores dessa ideia. Certa vez o vi em um programa da TV Brasil (ele só encontraria espaço numa TV pública) e fiquei realmente impressionado com a proposta que ele defendia, pois articulava num só movimento vários aspectos da vida social. 
 Abaixo segue uma pequena entrevista do Joaquim:
______________________________________________


 Ele criou o primeiro Banco Comunitário do Brasil em conjunto com a Associação de Moradores do Conjunto Palmeiras, bairro da zona sul de Fortaleza, no Estado do Ceará. Formado em Teologia preferiu dedicar seu tempo ao desenvolvimento de comunidades pobres. Hoje ele está com a Incubadora de Empreendimentos em Economia Solidária da UFF para ajudar as comunidades de Saracuruna e do Preventório a criarem seus próprios bancos.
Como você avalia a participação das comunidades do Preventório e de Saracuruna no Projeto?
O povo das duas comunidades está muito feliz com a ideia de terem seus Bancos Comunitários. E participam muito das reuniões, são criativos e principalmente gostam do lugar em que vivem. Por isso querem melhorar a vida das pessoas que moram lá.
Qual a diferença entre um Banco Comercial e um Banco Comunitário?
Os Bancos Comerciais são todos iguais, atendem as pessoas de forma linear. No Banco Comunitário quem trabalha lá são as pessoas da comunidade. Então o atendimento é humanizado. Se uma senhora chega precisando pagar uma conta com algum problema de saúde é atendida primeiro, pode sentar, beber uma água. As pessoas que trabalham lá conhecem ela e vão cuidar dela. Isso faz a diferença! O atendimento humanizado e feito por pessoas da sua rua, do seu bairro. Sem falar que o Banco Comercial pega o dinheiro da comunidade e vai investir onde ele achar que pode dar mais lucro e o Banco Comunitário é feito para que o dinheiro da comunidade seja usado no próprio local, gerando consumo e desenvolvimento da região.
Uma comunidade é pobre porque suas riquezas vão ser usadas fora dela. O dinheiro que os trabalhadores ganham é gasto em produtos feitos em outras cidades. A comunidade não é pobre, apenas não tem ferramentas para segurar o seu dinheiro ali, no local. E a Moeda Social foi pensada para esse fim, ser usada dentro da própria comunidade. Aí as riquezas começam a aparecer.
E as condições de Saracuruna e do Preventório, são boas para a criação dos Bancos?
Muito boas! A oportunidade que a Ampla está dando é única! Eu queria uma dessas lá no Banco Palmas, no Ceará. Além desse empurrão inicial com o patrocínio dos bancos durante o primeiro ano, a concessionária ainda vai dar um bônus para cada pessoa que for no banco pagar sua conta de luz em dia. Vai dar o bônus em moeda social. Já pensou? Receber um troco na hora de pagar a conta de luz? Qual banco faz isso?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A EDUCAÇÃO BRASILEIRA E AS MANOBRAS PRIVATISTAS...

  
   É possível que alguém venha me dizer que estou, como diziam os antigos, vendo chifre em cabeça de cavalo. Mas acho que não. Senão, vejamos:  O que tem a ver esses fatos? A) a professora sindicalista Amanda Gurgel, que bombou nas redes sociais recentemente com um pronunciamento comovente numa audiência pública no Rio Grande do Norte, ter sido convidada para o programa do Faustão e terem lhe concedido preciosos 27 minutos de um horário nobilíssimo. lembrando que neste horário muitas mães e pais de alunos de rede pública de educação estão devidamente conectados à telinha numa espécie de liturgia dominical; B) a mídia escrita, televisada e radiofônica fez um ataque  fortíssimo ao MEC por este ter admitido um livro que supostamente ensinava o português errado (por mais que tenha saído em defesa do livro instituições como a ABRALIN - Associação Brasileira de Linguística, e  linguístas da maior importância como Marcos Bagno); C) o grupo Abril, dono da revista Veja, que tem escrito sistematicamente sobre o tema da educação brasileira, sempre numa perspectiva conservadora, adquiriu recentemente um dos maiores colégios privados do Brasil, o PH. 
  Essas três ocorrências citadas acima tem uma conexão clara ao meu ver: um programa de privatização para a educação, visto que esta aparenta ser um dos "gargalos" que impediram o Brasil de dar o salto para o futuro. As denúncias sistemáticas dos problemas da educação, que realmente existem, visam na verdade criar um consenso. O ardil se colocaria da seguinte forma: o Estado se mostrou historicamente incapaz de resolver o problema da educação no Brasil, de modo que a única solução é a contratação de grupos privados, o grupo Abril, por exemplo, ou Fundações, como a Fundação Roberto Marinho ou Ayrton Sena. E por aí vai... o modelo de privatização não seria obviamente feito naquele molde feito por FHC, pois seria até inconstitucional, visto que nossa carta magna declara que a educação, sem prejuízo à educação privada, seja feita pelo Estado. O processo seria feito através de parceria, na qual os grupos privados entraria com o "software", ou seja, com a tecnologia, estabelecendo metas, fiscalizando professores, criando apostilas, etc.
  Creio que seja muito grave tudo isso, e conclamo que fiquemos espertos a manobras que venham a ser feitas nesse sentido. Escola pública é pública e o estado brasileiro tem que prover os recursos para que possamos superar o atraso e realizar uma educação pública de qualidade. 10% já!!!!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AS PEDRAS ENCANTADAS DE LULA CORTES

A noite era convidativa. Uma lua alta e minguante desenhava no céu uma luminosidade inspiradora. Afora o problema de estacionamento, tudo concorria para uma noite auspiciosa para assistir um documentário, que para além de suas qualidades intrínsecas, era pra mim um encontro com uma cena musical que – apesar de eu não ter convivido com ela diretamente – fazia parte de minha adolescência. O documentário era “Nas paredes das pedras encantadas” dos diretores Leonardo Bonfim e Cristiano Bastos, e veiculado no Rio de Janeiro na mostra de documentários musicais In-Edit.

            O documentário é uma tentativa de recriar as histórias em torno do álbum “Paebiru” gravado em 1975 pelos então desconhecidos artistas Zé Ramalho e Lula Cortes – artista recentemente falecido. Foi o primeiro disco do Zé, e o segundo de Lula, que dois anos antes, 1973, havia gravado o não menos psicodélico “Satwa”, com o hoje cartunista Laílson. Paebiru seguiu uma trajetória que o envolveria anos mais tarde em uma atmosfera meio mítica. Isso porque logo depois de concluído, a Rozemblit, gravadora pernambucana na qual o disco foi gravado, sofreu uma inundação (uma cheia como dizemos em bom pernambuquês) e sobraram apenas algumas centenas do LP. Esse acontecimento fez com que as poucas unidades que circularam na época fossem vendidas “a peso de ouro”. Parte deles, inclusive, foi vendida pra gente de outros países, o que acabou fazendo-o conhecido de pesquisadores estrangeiros ensejando com isso seu lançamento em cd na Inglaterra e Alemanha.

            A inspiração desse disco está num sítio arqueológico situado na Paraíba em uma localidade chamada Ingá do Bacamarte, na qual se encontra uma pedra com muitos desenhos supostamente criados por uma antiga civilização já extinta. O primeiro contato que se tem notícia com este acervo arqueológico foi feito em 1598 pelos soldados liderados pelo capitão-mor da Paraíba, Feliciano Coelho de Carvalho, quando os mesmos iam no encalço dos índios potiguares.  Essa história foi contada no citadíssimo livro “Diálogos das grandezas do Brasil”, de 1618, cujo autor, Ambrósio Fernandes Brandão, interpretava os tais símbolos como “figurativos de coisas vindouras”. Algo como uma profecia.

            O documentário não apresenta imagens da época. Talvez porque não haja mesmo nenhum registro em filme daqueles momentos, mas ele consegue recriar o ambiente místico alucinógeno em que o disco foi concebido, e quais eram as ambições estéticas existenciais dos artistas envolvidos. Há momentos muito interessantes tais como o encontro de Lula e Alceu, ou as entrevistas dadas pelos moradores da redondeza da Pedra do Ingá, localidade onde se encontra a tal pedra mística que serviu de inspiração para Lula e Zé. Mas não há dúvida que o ponto alto do documentário são as falas bem humoradas e inteligentes do próprio Lula Cortes. Logo no início ele diz, em tom de chiste, que é muito dura a vida de um “pobre star” brasileiro. Isso ele fala quando estão indo na expedição à Pedra do Ingá “no pior carro do mundo, com a pista molhada e o motorista chama ‘Seu Morte’”. Sem dúvida, temos que concordar com ele!

            Lula Cortes foi um dos artistas mais “roots” (aprendi essa com meu filho) do cenário artístico musical do Brasil. Inquieto; culto; bom letrista; bom compositor e dono de um timbre de voz muito bonito, mas incapaz, assim me parece, de produzir sua própria carreira, como fizeram Alceu, Zé Ramalho e outros. Lula permaneceu até o final de sua vida como um marginal na MPB. No início da década de 1980 até que houve uma tentativa de colocá-lo em outro plano. Ele gravou pela gravadora Ariola, um álbum muito bem gravado, com encarte bonito e bom som, chamado “o gosto novo da vida”. O disco seria para colocá-lo num plano nacional, com shows de divulgação no Brasil inteiro. Era um disco que sem dúvida cairia no gosto do público, pelo menos de um público que curtia MPB, etc., mas o disco, apesar de muito bonito, não aconteceu. E não foi por causa de enchentes ou qualquer ocorrência fortuita, mas talvez por uma incapacidade de Lula em administrar a própria carreira. Uma pena para os amantes dessa senhora chamada MPB, pois muitos se tornariam, como eu me tornei, fã desse artista pernambucano.

            Em muitos momentos da projeção eu ficava pensando na necessidade de se fazer conhecer aquela cena musical que se desenvolvia em Pernambuco da década de 1970. Era sem dúvida uma ocorrência antropofágica, na qual os jovens músicos assimilavam o rock e o fundia com as manifestações culturais locais. Era uma re-leitura do rock na qual lisergia e contestação se associavam ao canto árido dos caminhos do sertão. Mas tudo isso feito por jovens urbanos cheios de referências culturais da chamada “alta-cultura” ocidental e elementos da cultura oriental (Lula trouxe do Marrocos uma cítara popular batizado por ele de tricórdio). Este foi um momento de uma florescência musical na qual muitos artistas despontaram e criaram coisas belíssimas. Ali estavam Flaviola, o grupo Ave Sangria, Marconi Notaro e outros tantos músicos como Zé da Flauta, Robertinho do Recife e Paulo Rafael. Esta cena precisa ser revisitada!

            Registre-se ainda que tudo isso acontecia em paralelo com o conhecido movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna. Como eram tempos bastante radicalizados esses dois grupos, por motivos estético-existenciais, não se misturavam. Depois tudo mudou, pois Antônio Nóbrega, filho dileto do movimento Armorial cantava junto no carnaval com Chico Science, filho dileto da cena rock-underground recifense.

            No final da película dei de cara com Lenine, que olhava absorto para a tela no momento em que rolavam os créditos. Seu olhar parecia focado em algum ponto do passado, em que uma geração de artistas pernambucanos, como ele, mostrou uma força e uma qualidade criativas dignas de serem conhecidas pelo Brasil e pelo mundo. Viva a multifacetada cultura musical brasileira!

ENTREVISTA COM OLIVER SACKS SOBRE MÚSICA E CÉREBRO HUMANO

O GLOBO: O senhor concorda com Charles Darwin quando ele diz que a música teve um papel importante na evolução? Especificamente na seleção sexual, como um atrativo a mais para o sexo oposto?
OLIVER SACKS: Como o comportamento e as suscetibilidades não deixam registros fósseis, é difícil saber como nossos ancestrais se comportavam.
Mas estou inclinado a pensar que a música surgiu muito cedo na espécie humana, tão cedo quanto a linguagem. Linguagem e música são fontes de comunicação primordiais.

O GLOBO: O senhor discorda, portanto, de Steven Pinker e de outros especialistas que sustentam que a música é um subproduto do aparato sensorial, prazerosa mas dispensável?
SACKS: Sim, discordo de Pinker.Não vejo a música como algo acidental e trivial, como um subproduto da linguagem.A música está presente em todas as culturas e apresenta, nos seres humanos, aspectos únicos que não têm paralelo na linguagem. Falo do ritmo, do fato de respondermos à música com movimentos. Nenhum outro animal faz isso. É preciso ver o ritmo como algo primordial na evolução humana.Porque todos os seres humanos respondem a ele. A música une as pessoas. E há conexões específicas no cérebro para isso.

O GLOBO: Unir as pessoas poderia ser uma vantagem evolutiva?
SACKS: Não posso dizer que a musicalidade humana se desenvolveu para unir as pessoas.Mas algo surgiu, se mostrou vantajoso e houve a seleção dessa característica. É claro que a musicalidade é uma vantagem evolutiva. Nenhum outro animal dança com ritmo, mas qualquer criança o faz. Isso pode ter sido um fenômeno quando surgiu, todos esses pequenos seres dançando.

O GLOBO: De que forma isso é marcado no cérebro humano?
SACKS: Muitas partes do cérebro se desenvolvem com a percepção, o aprendizado e a imaginação do ritmo. De novo, nenhum outro animal tem a capacidade de ouvir e analisar sons complexos, com tons, semitons, ritmos, palavras.Essa habilidade é especificamente humana. Mesmo pessoas que sofrem de mal de Alzheimer ou tiveram um derrame respondem à música.Várias estruturas do cérebro se relacionam a isso.

O GLOBO: De que forma?
SACKS: A música se apossou de muitas partes do cérebro humano. É possível ver como o cérebro se modifica em resposta à música. Estudos com imagens do cérebro já comprovaram a ampliação de determinadas regiões no cérebro de músicos. Vendo imagens de cérebros, não dá para dizer quem é matemático ou escritor. Mas dá para dizer facilmente quem é músico quando essas estruturas ampliadas aparecem.

O GLOBO: Há alguma parte do cérebro especialmente voltada para música? SACKS: Não há uma só parte do cérebro. A música está em todo mundo, por todo o cérebro, envolve várias partes desse órgão e não necessariamente as mesmas. Isso é que é o mais incrível.

Mas há também os que não respondem de forma alguma à música, não é?
SACKS: Sim, há algumas pessoas que não percebem musica e ficam muito impressionados com os relatos. Há outros que não ouvem determinados tons ou semitons. Essas amusias ocorrem em razão de danos no cérebro. Parte da rede que está faltando.

O GLOBO: E as alucinações musicais? Até que ponto elas poderiam ser interpretadas como um problema psicológico? SACKS: Quando uma pessoa tem alucinação musical (ouve música que ninguém mais está ouvindo), a primeira coisa que pensa é que ficou louco, que está ouvindo coisas. Mas é um processo completamente diferente de ouvir vozes como os esquizofrênicos. Eles recebem ordens, é bem diferente e as pessoas enfatizam isso. Alucinações musicais são bem comuns, são como velhas memórias que tocam na mente. Não é uma doença mental.

O GLOBO: Por que a música muitas vezes provoca uma reação emocional? Como o cérebro é capaz de diferenciar uma melodia triste de uma alegre?
SACKS: Um dos maiores poderes da música é controlar emoção, desenvolver, provocar respostas emocionais. Anatomicamente, podemos dizer que algumas regiões do cérebro afetadas pela música estão perto daquelas ligadas às emoções, envolvidas nas percepções dos cheiros que despertam memórias. Mas ainda não está claro como essas respostas emocionais ocorrem.
Não se sabe ainda o quanto depende da cultura.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Secretário diz que ditadura assassinou Neruda

Contribuição enviada pelo amigo Ronaldo Bortolini

A Agência Ansa, italiana, divulgou em sua página em português um notícia estarrecedora: o último assistente pessoal do poeta Pablo Neruda, Manuel Araya,afirmou que ele foi assassinado por agentes da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Araya contou à revista mexicana Proceso que, nos doze dias transcorridos entre o golpe militar, perpetrado em 11 de setembro de 1973, e a morte de Neruda, em 23 do mesmo mês, houve várias invasões de militares à casa do poeta, em Isla Negra.

Neruda, que sofria de câncer de próstata, foi internado na Clínica Santa Maria, em Santiago, pelo embaixador do México, que pretendia tira-lo da capital chilena. Segundo Araya, um dia antes da viagem foi administrada ao poeta uma injeção que provocou sua morte.

Esta clínica é a mesma em que se suspeita que o ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) tenha sido envenenado, em 1982, a mando do Governo Pinochet.

Em memória de Neruda, reproduzimos acima uma das última gravações que dele se tem, declamando dois dos seus “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”.

domingo, 22 de maio de 2011

Polêmica sobre o livro da discórdia e o poeta Zé da Luz...

  A associação Brasileira de Linguistas, ABRALIN, produziu em texto em resposta a toda essa controvérsia em torno do livro "Por uma vida melhor" da coleção Viver http://www.abralin.org/noticia/Did.pdf. Foi sem dúvida uma resposta técnica, lúcida e tranquila aos ataques histéricos (como diz a carta) de uma camada social que supostamente defende os interesses da língua portuguesa. Sem querer, muitas dessas pessoas foram, ao meu ver, instrumentalizadas a defender os "falares" da casa-grande. Este foi o caso do senador Cristóvam Buarque e também da ABL. Mas o que se pode esperar de uma instituição que institui José Sarney e Roberto Marinho como imortais da literatura brasileira.
  Aproveitando a ocasião gostaria de dizer que toda essa discussão me fez lembrar de um texto de um poeta "inculto". Dizem que esse poeta, Zé da Luz (nome bastante sugestivo) manifestou seu desejo de escrever um poema. Aí lhe disseram que poesia era coisa pra gente que sabe escrever; que conhece bem a língua, e não para um matuto que nem ele, Zé da Luz. Então Zé, do baixo de sua condição de iletrado, teria composto essa jóia que segue abaixo. Reparem como na sua linguagem "errada" ele constrói uma beleza de poema repleto de "fanopeia*", "melopeia*" e "logopeia*", tal como sugere Ezra Pound em seu "ABC da literatura".

AI SE SESSE
(Zé da Luz)

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse.


Fanopeia - Projetar o objeto (fixo ou em movimento) na imaginação visual.
Melopeia - Produzir correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala.
Logopeia - Produzir ambos os efeitos estimulando as associações (intelectuais ou emocionais) que permaneceram na consciência do receptor em relação às palavras ou grupos de palavras efetivamente empregados.

Extraído do livro "ABC da literatura" de Ezra Pound.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

NATIONAL JUKEBOX - GRAVAÇÕES HISTÓRICAS DISPONÍVEL AO GRANDE PÚBLICO

A biblioteca do congresso dos EUA tornou disponível um grande acervo de áudio para o grande público. São gravações históricas que foram digitalizadas e postas no site da biblioteca. Procurei pelo compositor Pixinguinha e encontrei várias gravações. Uma delas é esta que está abaixo:




o site da Biblioteca do Congresso para este serviço é: http://www.loc.gov/jukebox/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

LUIGI RUSSOLO E SUA MÁQUINA DE FAZER RUÍDO

Lembro de uma aula de história da música contemporânea quando o professor falava das experiências sonoras do pessoal da música concreta, e um amigo se virou de lado e disse: "puxa, meu avô nem era nascido e esse pessoal já tava pirando". Pois é, e tava mesmo! Abaixo uma peça de Luigi Russolo DE 1913, que foi um dos pioneiros nesse movimento. Ele foi autor de um manifesto intitulado "a arte do ruído" e estava vinculado ao ideário do futurismo. Sua ideia então, era criar arte com o ruído ou estetizá-lo e para isso criou alguns intrumentos de produzir ruídos. Este do vídeo ele chamou de ntonarumori. Vejam:

domingo, 8 de maio de 2011

Lula Cortes e as pedras encantadas do Ingá

Lula Côrtes foi uma das figuras mais "roots" (aprendi essa com meu filho) da música popular brasileira. Os depoimentos dele no documentário "nas paredes da pedra encantada - Paebirú" são realmente muito interessantes. Logo no início ele diz que é muito dura a vida de um "pobre star" no Brasil. Mas o documentário trata da concepção e criação do disco que Lula gravou na década de 1970 com Zé Ramalho - Paebirú. Segundo um dos diretores os dois autores não gostam muito de ficar falando sobre esse disco, pois ele não teve a repercussão que os dois achavam que teria, coisa e tal. Mas o Lula bem que falou bastante, e sempre ou quase sempre, de maneira muito divertida e sem afetação. Zé não apareceu, mas Alceu esteve lá e proseou e cantou com Lula. O documentário resvala na cena psicodélica na qual o disco estava inserido, mas sem entrar muito no assunto. De todo modo, fica claro que essa história da cena rock-psicodélica pernambucana ainda precisa sem contada.
O disco é cercado de várias histórias, tais como o fato dos álbuns terem desaparecido na cheia (é assim que nós pernambucanos nos referimos as enchentes)de 1975 em Recife, sobrando apenas algumas unidades, sendo que parte deles estão hoje na Europa e EUA. Este disco depois de anos e anos de obscuridade foi relançado na Inglaterra, Alemanha e EUA, fato que fez com que se lançasse luz sobre ele aqui no Brasil. O documentário passou aqui no Rio de Janeiro no Festival Internacional de Documentários Musicais IN-EDIT, e dificilmente entrará em circuito. Talvez daqui a algum tempo se possa vê-lo pelo Youtube... quem sabe?

domingo, 1 de maio de 2011

O custo da qualidade


Nova proposta para o financiamento da Educação Básica determina os insumos mínimos para garantir a aprendizagem

Ao assumir a Presidência dos Estados Unidos em 1933, em meio aos efeitos da Grande Depressão, Franklin Roosevelt empreendeu o New Deal, um conjunto de programas socioeconômicos com o objetivo de recuperar e reformar a economia. Diante da necessidade de corte de gastos, Roosevelt determinou que o orçamento da educação não seria reduzido. Foram as políticas do New Deal, somadas ao forte e continuado investimento educacional, que produziram as condições para a economia estadunidense tornar-se soberana no pós-Segunda Guerra Mundial.
Do mesmo modo, Japão e Coreia do Sul investiram maciçamente em educação para se reconstruir no pós-Guerra, bem como fizeram os europeus. Os resultados são conhecidos: as nações que mais combinaram investimentos em infraestrutura, distribuição de renda e educação possuem hoje os melhores indicadores sociais.
Entre os emergentes do século XXI, China e Índia perseguem esse modelo, ao menos em termos de investimentos econômicos e educacionais, já que nos dois países não parece haver preocupação com uma melhor distribuição de riquezas.
Em 1988, os constituintesbrasileiros, pressionados pelos movimentos sociais e sensibilizados pela literatura sociológica da educação, incluíram na Carta Magna uma efetiva compreensão de prioridade educacional.
Consequentemente, a Constituição Federal, após determinar educação como um direito social, afirma que ela deve visar “ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
A desigualdade persiste
O Brasil está distante de cumprir com os objetivos constitucionais no tocante ao direito à educação. Pior, em vez de intimidar as desigualdades, as políticas educacionais têm servido para reproduzi-las e intensificá-las.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD) 2009, a média de anos de estudos entre jovens com 15 anos de idade é de 8,2 anos na Região Sudeste e apenas de 6,3 anos no Nordeste. Os negros têm menos 1,7 ano de estudo que os brancos e representam 13,4% dos analfabetos, ante os 5,9% de analfabetos brancos. Os pobres têm em média 1,8 ano a menos de escolarização do que a parcela rica da população.
Em termos de qualidade, as desigualdades também são persistentes. Divulgados no início de dezembro de 2010, os resultados do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa) revelam as iniquidades nacionais. No agregado o Brasil permanece mal, obtendo o 54º lugar entre os 65 países participantes do programa. Em uma escala de 0 a 6, a média obtida pelo País equivale ao nível 2 em leitura, 1 em ciências e 1 em matemática.
No entanto, os estudantes das escolas técnicas federais obtiveram desempenho tão bom ou melhor que os alunos de países desenvolvidos.
Padrão de qualidade
Fundamentalmente, a diferença de desempenho entre a rede pública federal e as redes públicas regulares (estaduais e municipais) reside em dois fatores. O primeiro é a oferta de insumos educacionais capazes de garantir um padrão mínimo de qualidade, tal como determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
O segundo é a seleção dos estudantes. Embora esse último fator expresse uma prática exclusivista, é imprescindível lembrar que os melhores alunos se submetem aos vestibulinhos para buscar educação de qualidade.
Os principais insumos educacionais são a remuneração condigna dos profissionais da educação com política de carreira, formação continuada, número adequado de alunos por sala de aula, oferta e devida utilização de equipamentos e materiais.
Para elencar esses insumos e dimensionar seus custos, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação publicou, em 2007, o estudo do Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi). O estudo mostra que o Brasil precisa investir, no mínimo, 31,4 bilhões de reais a mais em educação básica para garantir um padrão mínimo de qualidade aos quase 50 milhões de estudantes.
Hoje o País investe cerca de 125,7 bilhões de reais. Para fazer com que a educação se torne um instrumento de equidade e prosperidade, o Brasil precisa investir, por dez anos, cerca de 8% do PIB ao ano em educação básica. Hoje isso representaria um esforço total de cerca de 251 bilhões de reais, o dobro do que é investido.
Parece muito, mas é pouco em comparação com a arrecadação da União, que supera 1 trilhão de reais, mas destina apenas 60 bilhões de reais para a educação. Isso prova que educação ainda é uma prioridade apenas no discurso.
Escolas com o padrão de insumos do CAQi são, antes de mais nada, um direito dos estudantes. Desse modo, o desafio do CAQi, amplamente aprovado na Conferência Nacional de Educação Básica (Coneb, abril-2008) e na Conferência Nacional de Educação (Conae, abril-2010), é disseminar o padrão de qualidade já hoje verificado nas escolas técnicas federais.
Por estar baseado em uma planilha simples de custos de insumos, o CAQi também favorecerá o exercício do controle social pela sociedade, familiares e estudantes. É um instrumento poderoso que, se articulado a políticas como o Programa de Aceleração do Crescimento e o Bolsa Família, pode gerar efeitos positivos e duradouros próximos aos extraídos dos programas de Roosevelt, combinação inédita de políticas econômicas e sociais com investimentos em educação.

A SEDE DO PEIXE (DOCUMENTÁRIO SOBRE A OBRA DE MILTON NASCIMENTO)

Em dezembro de 1997, no Rio, Milton Nascimento juntou amigos e convidados como Caetano Veloso, Alcione, Skank, Nana Caymmi e Gilberto Gil no especial A Sede do Peixe. Dirigido por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, o programa foi exibido pelos canais Multishow e HBO e, agora, sai em DVD.

Bonito e bem realizado, A Sede do Peixe tem seus maiores encantos nos encontros musicais inusitados e nos papos descontraídos. Com o expansivo baiano Carlinhos Brown, por exemplo, o anfitrião canta Samba Lelê, música de domínio público, e Cravo e Canela, parceria de Milton com Ronaldo Bastos.

Outros artistas que também atenderam ao chamado de Milton foram Zélia Duncan ("Foi o nosso primeiro encontro e ficou lindo a gente cantando San Vicente", diz o cantor), Wagner Tiso, Fernando Brant, Lô Borges, Tavinho Moura, Beto Guedes, Nana Caymmi, Uakti e Alaíde Costa. A comadre Elis canta Canção do Sal, num videofonograma cedido pela TV Bandeirantes.


sábado, 30 de abril de 2011

OS SONHOS NÃO ENVELHECEM...

OS SONHOS NÃO ENVELHECEM,
Relato lítero-estético-humanista do poeta Márcio Borges.




     O escritor argentino Jorge Luís Borges, entusiasta das boas frases, dizia em seguida a proferir uma delas um comentário de que além de bonita a frase poderia ser verdadeira. O mestre argentino estava, obviamente, se referindo ao fato de que beleza e verdade não andam obrigatoriamente juntas. A frase acima, que dá título a este artigo, por exemplo, é bonita, mas não é verdadeira (assim o entendo). Os sonhos envelhecem; morrem; são esquecidos; renascem... enfim, tudo é possível nas dobras e desdobras do tempo. Esta frase, na verdade, é parte de uma das mais belas letras de MPB que eu conheço: “Clube da Esquina II” de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, este último autor da letra (porque se chamava homem / também se chamavan sonhos / e sonhos não envelhecem).

     Acontece que também esta bela frase dá nome a um importante livro que Márcio escreveu contando as histórias daquele tempo. É um relato lítero-político-estético-existencial daqueles tempos de angústias e descobertas para os jovens fundadores do Clube da Esquina. O livro, escrito em primeira pessoa traz as marcas de quem viveu com toda intensidade possível aquilo que depois veio a assombrar o mundo musical brasileiro e mundial. Digo assombrar porque há diversos relatos de artistas contemporâneos deles que afirmam certa dificuldade de compreender o que era aquilo. As harmonias, as levadas, os timbres, as letras, tudo era diferente do que se fazia. Não era bossa nova, não era tropicalismo, não era música de protesto, mas era um pouco de tudo isso, porém numa perspectiva absolutamente pessoal daquele grupo de mineiros. É como se eles viessem por fora, bordando o circuito musical brasileiro, mas sem adentrá-lo totalmente, mas mantendo com ele intenso debate.

     Fica evidente no texto de Márcio, como de resto parece evidente a todos que de alguma forma acompanharam esta cena, que a figura central de todo esse movimento era Milton Nascimento. De longe isso é sabido, mas o texto de Márcio nos revela como foi se construindo tanto em Milton como nos outros participantes do movimento – se é que o podemos chamar assim – a consciência de que caberia a ele, Milton, elaborar a síntese de tudo aquilo que estava sendo feito. Não foram raros os momentos de hesitação e descrença, mas a percepção de que estavam fazendo a coisa certa era, por outro lado, também muito forte. Bituca, apelido carinhoso de Milton, era como um estuário a receber águas de vários rios e a misturá-las, ao mesmo tempo em que se conectava ao grande mar da música internacional.

     Mas tudo isso era coisa de amigos, de turma de quase adolescentes, sem ainda uma percepção clara de que aquilo os levaria a uma profissionalização, e no caso mais específico do Milton, a uma carreira internacional. O relato de Márcio Borges nos mostra com muita densidade humana, que fazer música era pra aquela rapaziada uma necessidade vital dentro daquele contexto de guerra e opressão que eles viviam. Não era fácil... (em meios a tantos gases lacrimogêneos / ficam calmos, calmos, calmos). Em alguns momentos o cenário pintado pelo autor é de guerra mesmo. Mas há momentos de batida de limão, namoros, frustrações e alegrias.

     Entre tantas e tantas histórias há uma que contarei aqui: Milton, Márcio, Lô, Duca (então mulher do Márcio), Brant e um colega seu chamado Ildebrando encontraram por acaso o Ex-presidente Juscelino Kubitschek em Diamantina. Justamente este último, Ildebrando, não se conteve diante daquele personagem quase mítico e com toda sem cerimônia do mundo lhe diz: “ô Nonô! Que prazer, Nonô, dê cá um abraço meu velho”. Vejam se isso são modos de tratar um ex-presidente, e ainda mais da estatura de JK. Mas o presidente não se ofendeu, e o encontro acabou com Milton e a turma cantando para ele a canção “beco do mota”. O presidente riu, sabendo que o "beco", ao qual a canção se referia, era aquele lugar de "recreação" masculina, em frente à arquidiocese da cidade (a canção termina com o verso “o Brasil é o beco do Mota).

     Delícias de histórias vão correndo pela pena do Márcio sem que possamos nos dar conta da passagem do tempo. O relato é vertiginoso e tem a pressa e a angústia daqueles tempos. Mas acima de tudo, o mistério Minas continua, o mistério Milton permanece a nos desafiar. A desafiar novos corações e mentes que se debrucem sobre ele. Ver tudo aquilo que aconteceu pelos olhos e pelo texto de Márcio Borges é uma experiência que vale a pena. É coisa para rir e chorar, mas acima de tudo para se orgulhar da síntese estético-musical engendrada por aquela turma das Geraes.

domingo, 24 de abril de 2011

CHOMSKY E AS ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO

O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

 O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças
decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado “problema-reaçã o-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessemsido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irámelhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como
se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA
MEDIOCRIDADE.

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!


10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

SR. SKINNER (NÃO É O DOS SIMPSONS)

Vídeo histórico (legendado) do psicólogo estadunidense B. F. Skinner (foi ele quem serviu de inspiração para Matt Growing criar o personagem professor Skinner, da série "os Simpsons"), no qual ele apresenta a máquina de ensinar. Skinner era adepto daquela linha behaviorista e, não obstante suas contribuições, via as coisas meio mecanicamente, me parece. Ele não se preocupava muito com as questões sócio-culturais que envolviam os seres. Sua preocupação, ou ênfase, estava nas reações biológicas dos seres vivos. Essa mesma crítica se fazia a Piaget, por exemplo. Quem escapou disso, segundo alguns estudiosos, foi Vigotsky, para quem os aspectos culturais eram da maior importância quando se falava em aprendizagem. Vejam o vídeo:

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Quem vai fazer o CQC do CQC?

  Tenho vários amigos (acho que a maioria) que adoram o progrma CQC, da Rede Bandeirantes. Fico sempre em palpos de aranha quando alguém conta uma passagem engraçada do programa e pergunta se eu assisti. Não nego que eles sejam engraçados, inteligentes, talentosos e até simpáticos. Mas é que tem uma questão de fundo que me incomoda: programas como o CQC são, mais do que os tele-jornais, a ponta-de-lança das empresas midiáticas para atuarem (sem que tenham sido eleitos para isso) como a salvaguarda dos interesses maiores da sociedade. Ora, ora, no máximo eles são a salvaguarda dos interesses maiores da própria empresa que defendem. Há hoje no meio dos estudiosos das relações entre mídia e poder a clara e distinta compreensão de que as mídias se colocam como instância de poder (o chamado quarto poder) disputando o espaço de legitimação com os tradicionais poderes constituídos. Vejam os casos da RCTV na Venezuela; da Rede Fox nos Estados Unidos; e do Instituto Millenium no Brasil, que nas última eleições falavam abertamente em impedir que Dilma Roussef ganhasse as eleições (isso é tarefa de partidos políticos e não de institutos que congregam empresas de comunicação, sendo que algumas delas sob regime de concessão)
   CQC pretende vender uma imagem de que age de forma livre e independente, sempre voltado para denunciar os desmandos praticados contra os interesses da maioria. Mas será assim mesmo? Reparem que este programa jamais fará uma denúncia sobre o Agronegócio e seu uso abusivo de pesticida e sua defesa empedernida do latifúndio, por exemplo. Sabem porquê??? Porque o dono da Rede Bandeirantes, patrões dos rapazes do CQC, é o Sr. João Carlos Saad, membro em nível de direção de entidades ruralistas ligados ao agronegócio brasileiro, e que usa o seu "jornal da band" para fazer matérias (sem direito a contradito, ferindo de morte a ética jornalística) absolutamente tendenciosas contra o movimento social rural.
  Claro que o nosso congresso é cheio de vícios. Claro que em alguns momentos temos vontade de jogar uma bomba lá. Mas a prática sistemática é a de desmoralizá-lo esvanziando-o como instância legítima e assumindo o trono da defesa da moral e dos bons costumes. Não esqueço de uma entrevista do Marcelo Tás sobre comunicação quando ele se mostrou um grande defensor dessa lenga-lenga de mercado regulador para as comunicações, que a criação de uma regulação pública não era legal, fazendo com isso coro ao discurso dos donos de mídia privada do Brasil. Estranhei porque na época ele trabalhava na TV Cultura, mas tudo ficou mais claro quando logo e seguida ele foi trabalhar na Band. 
   Finalmente eu pergunto: quem vai fazer o CQC do CQC??


ps. para entender bem as relações entre mídia e poder eu aconselho o livro do professor da Getúlio Vargas SP, Francisco Fonseca, intitulado justamente "Mídia e Poder". O livro está disponível gratuitamente na rede.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Entrevista com Gil

Gil compõe, canta e toca. Mas Gil também pensa e reflete sobre o mundo ao seu redor. Aqui ele fala um pouco sobre os novos processos de criação e recepção que estão em curso.


Gilberto Gil from FLi Multimídia on Vimeo.

sábado, 2 de abril de 2011

O DESAGUE DE THOMAS SABOGA

Artigo publicado originalmente no jornal Pôr-do-sol
por Ricardo Moreno


          Já não é de hoje que a música instrumental brasileira é uma promessa. É claro que ela já teve seu esplendor no final do século XIX, com Chiquinha Gonzaga, Nazareth, João Pernambuco e outros bambas, e depois atravessou o século XX com outros craques do ramo. Mas uma música instrumental mais contemporânea, vamos dizer assim, vai talvez ganhar um fôlego mais consistente na obra de dois grandes da música brasileira: Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal. Com elementos do jazz, mas com uma base rítmico-melódica absolutamente brasileira esses dois compositores deram uma ossatura vigorosa ao que podemos chamar de música popular instrumental brasileira. Ale disso, a música produzida por esses dois se inscrevem naquela área indefinida que poderíamos chamar, como falamos aqui mesmo sobre o compositor Chico Mário, de música de fronteira.


          Pois é, todo esse preâmbulo foi para falar do disco “O desague” do músico-violonista e compositor Thomas Saboga interpretado pelo fabuloso Quarteto Impresons. O quarteto é formado por um pessoal jovem, porém de primeiríssima linha: Larissa Goretkin na flauta; Renata Neves no violino; o já experiente Matias Correa no contrabaixo; e o próprio Thomas no violão. Esse pessoal se conheceu musicalmente na UNIRIO, no curso de música e após algumas apresentações no ambiente acadêmico da universidade o grupo foi percebendo que tinha espaço para pensar em outros vôos. Eu mesmo os vi tocando na universidade, e tornei-me mais um dos tantos entusiastas do grupo, e em particular das composições de Thomas.


      Ouve-se nas melodias do disco, muitas referências e sotaques. Percebe-se ali um cruzamento que vai de Capiba, como disse o compositor Guinga em brilhante texto de contracapa, ao argentino Astor Piazzolla, como digo eu. Como o leitor pode ver, não é pouca coisa. No quarteto não há, como nas formações de Piazzolla, instrumentos de percussão, não obstante a função percussiva estar presente nos ataques feitos pelos instrumentos harmônico-melódicos. Os timbres são também um aspecto forte da obra, pois as combinações de flauta e violino que se dobram em muitas passagens produz um colorido bonito e especial. Mas ocorrem também outros momentos, como na belíssima “Seresta em forma de profecia”, um jogo de contracanto entre os dois instrumentos no qual eles vão se tecendo e compondo um ambiente sonoro belíssimo, com ares de novena sofisticada.
  
Há poucas mas distintas participações especiais, e estas ficam por conta do violão de Luís Carlos Barbieri (do antigo duo de vilões Barbieri-Schneiter) tocando na faixa feita por Thomas em sua homenagem: “choro por Barbieri”. A outra digníssima participação fica por conta da Mariana Bernardes, que para muitos já dispensa comentários. Mariana canta a única peça do disco que não é instrumental, cujo título é “Frevo Santa”, um frevo de melodia nada fácil de ser interpretada, mas que é executado com maestria por esta, que é para vários admiradores, um sopro novo no canto brasileiro.
O Violão do Thomas aparece discretamente no disco, e não há nenhuma faixa dedicada ao instrumento. Mas percebe-se facilmente que toda obra está calcada na linguagem desse instrumento. Não foi sem razão que o excelente violinista Marco Pereira, que também dá um depoimento no disco, chamou atenção para a eficiência com que Thomas insere o violão no quarteto.

      Enfim, senhoras e senhores, “O desague” é um disco que dialoga com a longa e digníssima tradição musical brasileira. Tanto em seu viés instrumental quanto em sua vertente cancionista. Thomas ouviu tudo e digeriu como só os grande criadores sabem fazê-lo. Cabe agora aos mediadores, aqueles que estão entre os criadores e os consumidores: Distribuidores, animadores culturais, chefes de departamento em secretarias de cultura e empresários, estarem a altura dos criadores brasileiros, e em particular deste jovem criador chamado Thomas Saboga. Depois não digam que não avisei...