quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Zé Celso: Lula faz política culta e com arte.

Não poderia deixar de reproduzir aqui no blog, esse belíssimo artigo que me foi enviado pela Glória, sobre o que pensa o Dramaturgo Zé Celso sobre política brasileira, e em particular sobre o Lula. O próprio Zé agradece ao Caetano por ter escrito o que escreveu, pois dessa forma ele, o Zé Celso, pode manifestar tudo que sente sobre o governo atual. É um texto bem ao estilo do Zé Celso: sensível-delirante mas muito articulado.
Tenho a impressão que Caetano se afasta cada vez mais de um campo político-ideológico ao qual, pelo menos em tese, esteve ligado um dia. Sua postura iconoclasta parece ceder espaço (e olha que já vem fazendo isso há muito tempo) cada vez mais para um espaço habitado pela elite da Casa Grande. E olha que belíssima contradição esta, hein... Se inspira na senzala, extrai dela o sumo, traduz tudo poeticamente, para no final tecer loas aos "sinhozinhos" da vida.
Viva Zé Celso, que como outros intelectuais e artistas brasileiros, reconhecem Lula como um gênio político capaz de, com seu jogo de cintura, reverter uma situação histórica de desigualdade e miserabilidade. Afora a extrema direita, só quem não vê isso é a extrema esquerda, que até hoje espera um desfecho histórico nos moldes da canção: "é a volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dar". A história tomou outro rumo!



Zé Celso: Lula faz política culta e com arte.



Por José Celso Martinez Corrêa*

Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencializaçã o da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto. Por outro lado, meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo
seu voto para Marina Silva.
Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.
Percebi isso ao prefaciar a tradução em português crioulo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: Brutality Garden, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira, na Tulane University de New Orleans.
Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem
fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu
pintar.
Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder
humano, mais que humano.
Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a "res pública". Tudo dentro de um futebol democrático admirável de cintura. Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.
Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo, quando convoca os jornalistas da Folha de S. Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A interpretação da editoria é a do jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro,
Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.
Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus
como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num teatro grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, lula é um intérprete dela: a vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômenos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?
Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.
Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalizaçã o do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarte grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na Estrela Brasyleira a Vagar - Cacilda!! para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendendo este
programa tétrico.
Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. "Amor Ordem e Progresso." O amor guilhotinado de nossa bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.
Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta categoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos, como a sagração da natureza, a liberdade e a paixão pelo amor energia, santíssima eletricidade. Sinto que nessas duas pessoas de que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do
governo Lula, ainda não caíram.
A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai dedicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde
ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.
Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Essa "estasia", Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que exista!
Lula faz política culta e com arte. Sabe que a cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é super, é infra estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazyleiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:

"Vício na fala
Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor, dizem mió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhado"

SamPã, 6 de novembro, sob o signo de escorpião, sexo da cabeça aos pés,
minha Lua de Ariano, evoéros!

sábado, 7 de novembro de 2009

As últimas (quem dera) do Caetano

já virou lugar comum comentar as besteiras ou "polêmicas", como querem uns, do Caetano Veloso. Confesso que isso me cansa um pouco, e ao ler sobre sua mais recente entrevista ao jornal Estado de São Paulo não fui tomado por nenhuma surpresa. Mas resolvi fazer esse comentário porque há dias atrás postei um sobre Gilberto Gil no qual Gil se liga a um conjunto de idéias que parece ser oposto ao que seu colega conterrâneo professa.
Chamar Lula de analfabeto e cafona é fazer ecoar uma série de preconceitos mesquinhos e tacanhos tão ao gosto da nossa bem escolarizada elite reacionária. Aquela elite do tipo "Cansei", que acha lindo fazer cartazes fazendo menção ao dedo amputado de Lula.
Para quem gosta e consegue rir dessas coisas, deve ser interessante ler a entrevista. Há nela, por exemplo, verdadeiras pérolas, como a que afirma que José Serra, uma vez que tivese ganho a eleição faria uma gestão econômica de esquerda. Enfim...abaixo reproduzo um excelente comentário de Mauro Carrara sobre a entrevista de Caetano, e um link para a entrevista (para quem tiver estômago).
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Caetano Veloso e a perfeita imbecilidade ególatra


por
Mauro Carrara

Disse o baiano ao jornalão dos Mesquitas, declarando seu voto em Marina Silva:

- Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.

A declaração é reveladora. Serve bem a desmascarar esse Caetano ególatra, subproduto pós-moderno de si mesmo, tolo que substituiu o poeta sem lenço e sem documento.

O atual Caetano, aliás, converteu-se numa espécie de Gabeira sem carreira parlamentar.

Folga em construir frases de efeito (?) que ecoem o pensamento da malta conservadora.

Aliás, ególatras, tanto um quanto outro, pronunciam aquilo que os eleva a ícones publicitários da mídia reacionária e monopolista.

Para Cagabeira, bons alunos de FHC, princípios e história estão em segundo plano. Vale a exaltação do "eu", muitas vezes doentia, muitas vezes ridícula, quase sempre deprimente.

Cabe lembrar que, no agora decadente, ambos não se envergonham de adular o tucano-demismo. Julgam-se, assim, diferentes, autônomos, batutas...

No caso do compositor baiano, não há acanhamento na rotina de visitas à casa grande. Pede-se a "bença" ao coronel, como se isso fosse "bonitinho", supimpa.

Logicamente, ao sair, entregam-lhe na varanda uma cesta de pães amanhecidos, uns maracujás murchos e até uns tostões, prova da generosidade do senhor de engenho.

Caetano se julga o gênio da raça, o supra-sumo da cultura mestiça brasileira, o sol da Tropicália, o sabe-tudo que, de tão sabedor, pode desprezar os incultos da pátria. Blasé por desejo divino e necessidade.

O poeta se julga mais poeta porque inventa coisas enigmáticas que o povo não compreende. Acredita, desde sempre, que se distinguiu dos mortais da arte ao reproduzir os voos concretistas dos irmãos Campos e de Décio Pignatari.

Qual seria, então, o conceito caetanista de analfabetismo? E o que seria "saber falar"? Para quem cagou montes para a regra, o vetusto Caetano agora se arroga protetor da norma culta.

Metido com os descolados gurus da Semiótica, tão afeitos à subversão das formalidades da língua, Caetano vai terminando a vida como um ortodoxo, rabugento e tolo capataz copista.

Talvez o que incomode Caetano seja justamente a inteligência de Lula, sem verniz, sem laços, fitas e rimas forçadas. O pernambucano comunica-se, transmite a mensagem e, mais que isso, faz de sua locução uma poderosa arma de transformação. Lula, para completar, é autêntico e "faz acontecer".

Ora, isso causa muita inveja nessa turma dos pedidores de "bença", tantos deles enfiados na boa Bahia, uns rebolando em cima de trios elétricos pagos pela Philips, outros servindo de escribas para a família Marinho.

Ironicamente, o Caetano envelhecido, cruzado da gramática, também levaria puxões de orelha dos Pasquales da vida. Pontua mal, embanana-se em conjugações e, não raro, confunde-se nas regências.

Por fim, talvez "cafona" seja a palavra mais "cafona" da língua. Perceba-se: somente cafonas e afetados a utilizam.

E a que será que se destina, a cajuína?

No caso de Caetano, fazer papel de imbecil ególatra. Esta, pois, virou a sua sina.
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link para a entrevista
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,as-ultimas-de-caetano-veloso-em-entrevista-exclusiva,461281,0.htm

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Outros viram

No novo disco de Gilberto Gil, Banda Larga Cordel, há uma canção na qual ele tematiza a questão do Brasil ter sido visto por várias personalidades ilustres (Tagore, Maiakovski, Walt Whitman) como um país interessante de onde iria ou poderia sair uma novidade ímpar no mundo. Em outros tempos isso soaria como ufanismo nacionalista digno das patriotadas perpetradas pela ditadura militar, ou mesmo antes, no século XIX, quando Um Afonso Celso escreve: "porque me ufano de meu país". Mas não é nada disso. A reflexão de Gil é atualíssima e tenta justamente responder a uma cambada tacanha que só consegue ver o Brasil como o Cronicamente inviável.

Essa mesma percepção de certa forma está disseminada por certo meio popular, que vez por outra aparece dizendo que nossa infelicidade é um mal de raiz, e que o problema que a miscigenação nos faz uma "raça" indecisa e vagabunda. Enfim... o comentário que Gil faz sobre sua própria canção é emocionado e visceral. Nele, Gil tenta falar diretamente aos detratores do Brasil, aos que pensam (pensam??) a inviabilidade do país como um fato e destino. "Outros viram" e Gil também viu..



sábado, 31 de outubro de 2009

Atual situação do PIG e do PSDB...

Vitória da democracia em Honduras - Viva o povo hondurenho


A imprensa brasileira deveria se sentir envergonhada pela cobertura que fez sobre o golpe militar em Honduras, que eufemisticamente ela chamava de "crise hondurenha". Mas é claro que ninguém vai se desculpar por ter atacado a diplomacia brasileira, por exemplo. É claro que o famigerado Bóris Casói (o boca mole), não vai se retratar por ter dito que o Brasil deveria "olhar" para países que valessem a pena (leia-se Estados Unidos, ou países europeus), numa clara postura, típica por sinal, de submissão e de complexo de colonizado. Falavam da enrascada em que o Brasil tinha se metido, pagando um "mico" histórico.
Agora, que os golpistas vão ter que devolver o poder a quem de direito, essa mesma imprensa fala em vitória dos EUA, tentando elidir a participação fundamental da mesma diplomacia que eles atacaram e tentaram, em vão, ridicularizar. A isso tudo eles querem chamar de imprensa livre. Livre de que? Como muito bem questionou o Emir Sader. Livre do controle social; livre para atuar ideologicamente a serviço de interesses privados, no mesmo momento que se pretendem imparciais. Desculpem a linguagem chula, mas eles agora só enganam otários. A vitória da diplomacia brasileira se mostra patente e insofismável. O presidente eleito Manuel Zelaya deverá ser reconduzido ao seu cargo e conduzir as eleições hondurenhas marcadas para esta ano ainda. Viva o povo hondurenho! e viva a democracia! Chomsky tem razão quando diz que esse continente é atualmente o lugar, politicamente, mais interessante do planeta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Senado Federal aprova fim da DRU para a educação

A notícia abaixo parece bastante alvissareira, pois ela dá conta do fim de um procedimento legal (contigenciamento) que tirava da educação pública brasileira um conjunto de recursos que sem dúvida fazia muita falta. Mesmo sem ser especialista no assunto, eu imagino que o problema da educação pública do Brasil não se resume a recursos financeiros, mas que um incremento desses recursos pode ajudar muito, ninguém pode duvidar (acho que só a revista Veja).

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Senado Federal aprova fim da DRU para a educação



O plenário do Senado Federal aprovou em dois turnos nesta quarta, 28/10, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 277/08, que dispõe sobre o fim da Desvinculação de Receitas da União (DRU) para a educação. O texto também torna obrigatório o ensino dos quatro aos 17 anos de idade, ou seja, da educação infantil ao ensino médio. Com o fim da DRU para a educação, a área terá 9 bilhões a mais em seu orçamento de 2011. O montante representa 21% do orçamento da área em 2009, que foi de R$ 41 bi.

A proposta de emenda à Constituição foi aprovada por unanimidade pelo plenário do Senado, após seis anos de tramitação no Congresso. Agora precisa ser promulgada em sessão conjunta da Câmara e do Senado para entrar em vigor.

O mecanismo da DRU foi criado no Plano Real, em 1994, para desbloquear 20% das receitas da União que têm gasto obrigatório por lei. Assim, o governo garantiu uma margem para redirecionar dinheiro das contribuições sociais (como o PIS/Cofins e a antiga CPMF) para outras áreas. Com a aprovação do texto, em 2009 e 2010 serão descontados 12,5% e 5%, respectivamente. Em 2011, não haverá incidência da DRU na educação.

A estimativa do Ministério da Educação é a de que o setor perdeu cerca de R$ 100 bilhões desde 1996, quando a DRU foi instituída. "Se pudéssemos contar com estes recursos, teríamos mais professores com nível superior, mais crianças na pré-escola e mais jovens no ensino médio", disse a senadora Ideli Salvatti (PT/SC), autora da proposta.

Além de garantir mais recursos para a educação, a PEC aprovada também amplia a obrigatoriedade do ensino, passando a incluir a pré-escola e o ensino médio. Hoje apenas o ensino fundamental (dos 7 aos 14 anos) é obrigatório. O texto prevê que essa ampliação ocorra de forma gradual até 2016.

e-mail enviado à Band news

Ouço quase todos as manhãs uma boa parte do programa cujo âncora é Ricardo Boechat. Concordo muitas vezes com suas reações indignadas. Mas o afã crítico do Boechat as vezes vai longe demais, com perdão da brincadeira, parece até que ele em alguns dias tomou viagra em dose excessiva, e chega ainda de manhã com aquela volúpia oral, quer dizer, verbal toda. Dizer como ele disse outro dia que Lula ao discursar fala de um Brasil que ele francamente não vê, é simplesmente um atestado de cegueira. Isso porque basta ver o números da economia do Brasil para ver o por quê de tanta popularidade do presidente. Eu sei que economia boa não significa obrigatoriamente a apropriação das riquezas por parte do povão. Claro! Mas o que acontece de verdade é que foi criado mecanismos de transferência de renda, sim! Está havendo uma melhora de vida, sim! A ponto do professor Márcio Porchamann presidente do IPEA, afirmar que a continuar esses processo de tranferência de renda em curso, oBrasil poderá ser chamado de um país justo em 20 anos. Isso não é pouca coisa não, senhor Ricardo Boechat.

domingo, 25 de outubro de 2009

as tradições afro-brasileiras frente à televisão ou uma história de apropriação.

As pessoas que me conhecem sabem que gosto de contar histórias. Atribuo isso, em parte, a minha formação cultural nordestina. Cresci vendo e ouvindo pessoas contarem histórias, e percebia como a audiência ficava atenta ao narrador numa espécie de transe lúdico-mágico. Pois bem, durante uma aula no mestrado o professor nos falava a respeito do conceito de apropriação, desenvolvido pelo historiador Michel de Certeau e muito utilizado pelo seu pupilo, o Roger Chartier. No momento em que ele falava me ocorreu à memória uma interessante história contada pela antropóloga Rita Segato quando de sua pesquisa sobre o Xangô em Pernambuco. Daí perguntei ao professor se eu poderia contar a história, e se ela explicava o fenômeno da apropriação. A história é a que segue:

Rita Segato quando de sua pesquisa sobre os cultos de Xangô, na década de 1980, na cidade de Recife, Pernambuco, percebeu uma curiosidade interessante. Todos os dias às 20:00 Hs. a comunidade do terreiro no qual realizava a pesquisa suspendia as atividades do culto para assistirem coletivamente a uma determinada novela, veiculada nacionalmente por uma grande emissora de televisão. No início parecia bastante enfadonho e aborrecido para a “doutora”, aquele tipo de procedimento. Aos poucos, no entanto, ela foi se dando conta do fenômeno que transcorria à sua frente. A comunidade do santo, enquanto audiência daquela novela elaborava uma recepção do que estava sendo produzido e veiculado pela televisão, se utilizando de uma espécie de filtro cuja mediação era dada pelo metro do mito. Em outras palavras, a Antropóloga percebeu que ela e o resto do auditório não estavam vendo a mesma coisa. Ela ficava intrigada quando ouvia determinadas pessoas da comunidade se referir aos personagens chamando-os, muitas vezes, pelos nomes das entidades com as quais eles estavam sendo identificados. A realidade e a ficção em suas fugacidades intrínsecas eram examinadas contra um pano de fundo estável: o mito. Este em sua eterna potência atualizadora mediava a compreensão do enredo remetendo-o ao universo mítico da comunidade. Dessa forma, os personagens Nélson Fragonard (Reginaldo Farias) e Miguel Fragonard (Raul Cortez) eram respectivamente Xangô e Ogum. E ambos disputavam, conforme a narrativa mítica, o amor de Lígia (Betty Farias), que representava Iansã. O desfecho dessa história é ainda mais interessante na medida em que revela, reforçando a leitura mítica, a eficácia preditiva do prognóstico mítico. No final, os personagens cumprem um destino já previsto pelo mito. Conforme previsto neste, os filhos de Ogum costumam ter uma morte violenta. Assim como assassinatos ou acidentes. Não foi outro o destino de Miguel/Ogum. Este personagem, conforme a predição do mito encontra a morte através de um assassinato.Essa história nos revela de como uma determinada produção no âmbito da cultura massiva veiculada pela televisão, pode ser recepcionada e apropriada de uma forma imprevista. A comunidade do santo de Recife, dessa forma, se apropriou da narrativa televisiva através da narrativa mítica, reforçando seus laços simbólicos de pertencimento.

PS. o texto no qual a antropóloga conta essa história chama-se "as tradições afro-brasileiras frente a televisão"

sábado, 24 de outubro de 2009

manifesto em defesa do MST

Intelectuais, artistas e pessoas das mais diferentes áreas se articulam nesse momento em torno de um manifesto em defesa dos trabalhadores rurais e seu grande movimento, o MST. Essa iniciativa visa produzir um fato político que marque uma posição contra a grande ofensiva parlamentar-midiática que tenta criminalizar o movimento social. Segundo alguns analistas o que de fato está por trás dessa ofensiva é a tentativa de desvirtuar o foco da questão principal: a revisão dos índices de produtividade rural.
Segundo recente pesquisa do IBGE continua no Brasil uma tendência de concentração de terra, em um país já marcado pela grande concentração fundiária. E tem mais, conforme já publicamos aqui mesmo no blog a necessidade da revisão não se dá apenas por uma questão social, o que já justificaria sua implementação,mas também por uma questão de produtividade mesmo e de segurança alimentar, visto que mais da metade do que é consumido no Brasil, não vem do agronegócio e sim das pequenas propriedades familiares.
É flagrante a necessidade de fazer avançar a luta do MST. Convoco a todos que concordam com essa tese a assinar o manifesto cujo link segue abaixo.



http://www.petitiononline.com/boit1995/petition.html

Todos os olhos de Tom Zé

Esta capa ao lado é a capa do disco "Todos os olhos", um famoso lp do Tom Zé lançado em 1973. O disco é maravilhoso, com arranjos bem transados e criativos, letras bem sacadas e tudo mais. A capa, que tem uma coisa assim meio enigmática foi durante muitos anos, inclusive o Tom Zé confirmava isso, um deboche do artista para com a censura, no qual apareceria na estampa um ânus com uma bola de gude. Segundo era contado, a idéia era do poeta concretista Décio Pignatari. Pois bem, o título, como já disse, era "Todos os olhos" e a graça estava em brincar com a idéia de associação entre olho da face e o olho do cu, mas sem que, naturalmente, os censores percebessem. De fato, segundo está escrito no blog "Mopho discos", a tentativa foi feita, e uma jovem, namorada de Reinaldo um integrante da agência de publicidade do Décio, responsável pela realização da capa, seria a modelo para a tal proeza.
A moça foi facilmente convencida (que tempos loucos estes, hein...), e numa tarde qualquer do ano de 1972, lá foram os dois para um motel para fazer a foto. Até aí tudo corria bem, o problema viria logo em seguida com as dificuldades técnicas que surgiriam. O negócio se mostrou mais difícil do que se pensava, e era um tal de vira pra lá e vira pra cá, um monte de bolinhas de gude rolando pelo chão do quarto, e nada de se conseguir fazer com que uma delas (a bolinha) parasse no centro do orifício anal da jovem. Ao cabo de algumas horas de tentativas acabaram desistindo. Reinaldo voltou a agência de disse ao Pignatari que não foi possível. Ele até levou algumas fotos que conseguiu fazer, mas não estava a contento. Décio pediu que Reinaldo tentasse outra vez, e este hesitou, pois não tinha certeza de que conseguiria convencer a moça a outra sessão. Conseguiu, mas ao invés de irem a um motel, os dois foram para a casa de uma amiga da moça. Mas antes mesmo que começassem a sessão de tortura, quer dizer de fotos, a moça teve uma idéia: por que não utilizar um outro orifício imitando o ânus. Qual? A boca. Nossa, que labirinto de imitações. A idéia era fazer o cu imitar o olho, e agora ampliavasse o circuito de simulações fazendo com o que o olho imitasse o cu que estava imitando o olho. Entenderam?? Isso deixaria Platão - avesso a imitações-, desnorteado.
E assim foi feito. A foto que aparece na capa é a de uma boca, mas não importa, todo espírito de rebeldia e deboche estão ali presentes. O citado blog acima conta que o próprio Tom Zé ao saber dessa história deu uma grande gargalhada dizendo: "f.d.p. me enganaram esse tempo todo, há, há, há.
Acho que toda esse história, se se confirmar como verdadeira, torna esta a capa mais importante da música popular brasileira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

fotos da leitura do pavão misterioso




Tentei postar essas fotos juntas com o texto abaixo, mas não foi possível. Elas foram tiradas logo em seguida à leitura do Romance do pavão misterioso. Tentei também postar um vídeo que fiz, mas era muito grande e não foi possível. Essa turma aí é a 1701 da Escola Emiliano Galdino.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

literatura de cordel em sala de aula

Estou desenvolvendo um projeto com duas turmas do sétimo ano (antiga sexta série), que visa o desenvolvimento da leitura a partir dos romances de cordel. Nessa empreitada lemos diversos folhetos: "história de Lampião", "proezas de João Grilo", "a peleja de Riachão com o diabo", e, claro, "o romance do pavão misterioso". É muito interessante perceber como a exigência da leitura rítmica induz o aluno a uma leitura mais fluente. Fizemos vários exercícios de expressão, para que a história pudesse ser assimilida por um ouvinte imaginário.
É curioso também que a estrutura de sete sílabas, presente na maioria dos romances de cordel, também está presente na maior parte, ou pelo menos em boa parte dos funks que a rapaziada canta. Esse paralelismo, se pudemos chamar assim, facilita muito as coisas, para que eles compreendam o "desenho" rítmico dessa forma poética.
Muitos outros dividendos podem ser extraídos dessa atividade, pois ela mexe com muitos aspectos. A nossa atração por histórias, por exemplo. Não é novidade para ninguém o fascínio que elas exercem em talvez todos os seres humanos. Os alunos, nesse sentido, se mostraram bem interessados pelos enredos, pelos aspectos jocosos da história, enfim, pela narratividade como um todo.
Há um outro aspecto também muito intressante. A literatura de cordel funciona como se fosse uma dobradiça entre o univesos das tradições orais e escritas. Ela é sem dúvida um literatura escrita, mas que guarda em si todo um sabor das narrativas orais. É como se fosse uma escrita para ser lida em voz alta, como num passado em que a voz vivificava o texto. A leitura silenciosa é um hábito, se não recente, pelo menos tardio com relação a leitura em voz alta. Nas próprias condições "originais" de consumo dos folhetos, era muito comum a leitura em voz alta para uma audiência que não dominava o código da leitura. Há um estudo da professora Ana Maria de Oliveira Galvão, sobre processos de letramentos realizados entre 1930 e 1950, período de grandes vendagens dos folhetos, no interior de Pernambuco. A pesquisadora descreve verdadeiros processos de letramento em torno da leitura/escuta de romances populares. Mostra como grupos sociais, que se encontravam fora das instituições como a escolar tradicionalmente mediadoras da alfabetização, se inseriam na cultura escrita através da “socialização do escrito” nas rodas de leitura dos romances de cordel.
Enfim, esse é um assunto palpitante que dá margem a uma série enorme de desdobramentos e reflexões.







domingo, 18 de outubro de 2009

Blog para baixar discos

O compartilhamento de arquivos sonoros é uma realidade contra a qual não é possível mais se lutar para impedir. Nesse sentido apresentamos aqui um blog co-irmão que está disponibilizando na rede uma série de discos raros ou simplesmente interessantes. Vale a pena conferir.

http://encantoradical.blogspot.com/

as 100 canções mais ouvidas a cada ano...

Gente, é o seguinte, tem um site na internet que é muito interessante. O cara simplesmente fez um levantamento das canções mais tocadas desde o ano de 1904. É um levantamento difícil de fazer, pois só para dar uma idéia da dificuldade o rádio começou no Brasil em 1922. De todo modo, é muito interessante dar uma olhada.

http://www.planetarei.com.br/100anos/index.htm

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Pontos de cultura





No nosso dia a dia temos tantos afazeres que muitas vezes ficamos impossibilitados de tomar conhecimento de coisas importantes que estão acontecendo na nossa sociedade. A essa quantidade de tarefas, soma-se o desinteresse dos meios de comunicação em dar destaque a uma pauta do bem. Cotidianemente esses meios nos brindam (bombardeiam, na verdade) com uma verdadeira "pauta do mal".
O Ministério da Cultura tem desenvolvido um trabalho muito interessante, primeiro com Gilberto Gil e agora com o Juca Ferreira, que articula cultura popular e economia solidária. Chama-se "ponto de cultura". Hoje já são em torno de 650 espalhados pelo Brasil. Eles são encontrados tanto nas periferias das grandes cidades, quanto em pequenas cidades. Além de articular cultura e cidadania, está em curso também o reconhecimento pelo Estado brasileiro de que esses fazeres são legítimos do ponto de vista da produção cultural brasileira. Isso quer dizer que tanto a "alta cultura" como a "cultura popular" são reconhecidas e financiadas pelo Estado. Cada ponto de cultura recebe apoio financeiro de até R$ 185.000,00 para ser utilizado conforme o projeto apreentado.
A articulação de cultura e cidadania gera importantes ganhos simbólicos e materiais para as comunidades detentoras dos saberes tradicionais. Isso é muito importante e gera inclusão social, pois muitas dessas comunidades estão em situação de risco social.
Para o economista Paul Singer, há muita cultura na economia soildária, e muita economia solidária na cultura. É preciso, no entanto, juntar essas pontas. Para ele, um novo Brasil está surgindo a partir da idealização dos "pontos de cultura".
Outro aspecto importante a ser observado nessa nova realidade legal que os pontos de cultura representam, é que durante outros momentos da história do Brasil, as culturas populares foram valorizadas sem que isso implicasse na valorização das comunidades que eram detentoras desses saberes. Quer dizer, valorizava-se os fazeres imateriais ao mesmo tempo que se desvalorizava os sujeitos portadores desses saberes. Foi assim na década de 1930 com Getúlio. Foi assim também na década de 1970 no regime militar através da Funarte. Pela primeira vez se tem uma política pública cuja ação valoriza o patrimônio imaterial ao mesmo tempo que se valoriza a comunidade detentora desses saberes.
Penso que só por isso a passagem do Gilberto Gil pelo ministério da cultura deveria ser saudada como de bom alvitre.

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=10568

Música na escola


A lei 11.769 que instituiu a obrigatoriedade da disciplina música no ensino básico brasileiro é quase uma unanimidade. Sem dúvida ela devolve aos estudantes brasileiros a possibilidade de um contato com a música mediado pela escola. Digo devolve porque até o início da década de 1970 ela era obrigatória, quando foi sumariamente suprimida pela ditadura militar sem nenhuma explicação.
Trinta anos depois a música volta à cena educacional como matéria, e inevitavelmente surge a pergunta: "que música ensinar nas escolas?" É verdade que os alunos do ensino fundamental, por exemplo, chegam à escola já com uma grande vivência musical. Isso não é novidade para ninguém. O que logo se coloca no horizonte das discussões é a questão do repertório. O campo da cultura é atravessado por clivagens que em última instância reproduz as clivagens e hierarquizações comuns a uma sociedade hierarquizadora e excludente.
Não é demais lembrar que a escola tal qual nós a conhecemos é herdeira dos ideais iluministas do século XVIII. Foi a partir da revolução francesa, no final desse século, que vai se instituindo o ensino universal. Ela é, então, na origem uma instituição burguesa, no que isso tem de bom e de ruim. A escola, dessa forma, não ficou fora das hierarquizações e raciocínios valorativos, que põe certos saberes acima de outros, ou até mesmo considerando determinados saberes como não-saberes.
Toda essa discussão vai transbordar para o âmbito da educação musical que se pretende instituir no ensino básico. Já avançamos muito, sem dúvida, mas não é absolutamente incomum encontrar educadores musicais que pensam que o seu papel é o de levar a verdadeira cultura - aquela que o sociólogo Pierre Bourdieu identificou com a cultura das altas classes - para as massas ignaras, carentes e indigentes culturais.
Assim como a disciplina história, por exemplo,não tem como finalidade formar historiadores, a música na escola também não tem como objetivo precípuo formar músicos profissionais. Dessa premissa surge como desdobramento uma segunda pergunta: "quem deve lecionar essa disciplina?" Parece óbvio que o profissional indicado para esse mister é o professor de música. Sim, mas quem é esse professor? Um músico profissional, por exemplo, poderá dar aula na escola regular? Me parece qur aulas no ensino básico. Isso me parece uma barbaridade. A não ser que a intenção da disciplina seja a de formar músicos, havendo aulas, portanto, de violão, sax, ,piano, etc. A intenção não é essa, claramente, sendo essa opção, portanto, um equívoco.
A professora e educadora Violeta Hemsy de Gainza, em prefácio do livro da também educadora Marisa Trench O. Fonterrada, nos alerta de que "a música, como a maior parte das disciplinas, deve ser ensinada por maneiras diretas, abertas, transversais e interdisciplinares, que permitam integrar os diferentes aspectos da pessoa, domundo, do conhecimento. Porque a música, como costumamos repetir, não pode continuar sendo considerada como uma atividade meramente estético, pois trata-se de uma experiência multidimensional, um direito humano, que deveria estar ao alcançe do todas as pessoas, a partir de seu nascimento, e por toda a vida."
É necessário que o quanto antes se inicie as discussões em torno da lei 11.769, sob pena de que a lei "não pegue", ou que a disciplina cumpra uma presença meramente figurativa.
A revista Carta Capital deu uma contribuição realizando um seminário em agosto passado com a presença de Tom Zé, Paulo Tatit e Sandra Peres e mais alguns educadores. A intenção era mesmo o de criar um ambiente de discussão para se explicite as diferenças e que se aponte caminhos. O link para a matéria segue abaixo:

http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/40/sons-sussurros-e-batucadas/?searchterm=m%C3%BAsica

O que está por trás da ofensiva midiática contra o MST e a agricultura familiar?

O que está por trás da grande ofensiva reacionária do agronegócio e da mídia corporativa contra o MST e a agricultura familiar??? Recentemente os meios de comunicação veicularam uma pesquisa que tenta mostrar que os assentamentos são improdutivos e que as iniciativas tradicionais são inviáveis na contemporaneidade. Aliás, essa é a tese conservadora que tenta jogar água no moinho do agronegócio. Mas o que essa chamada grande imprensa não revelou - não por desconhecimento, certamente-, foi a pesquisa feita pelo IBGE, que evidencia números completamente diferentes dos do Ibope. Mesmo desprezando todos os ganhos sociais que a agricultura familiar representa impedindo o êxodo rural, etc., se constata um nível de produtividade muito maior do que o ldo agronegócio. Quando se coloca em perspecitiva os investimentos públicos, os impactos sobre o meio ambiente, entre outros aspectos, chega-se facimente a uma compreensão clara da situação. Não há mistério!
A artigo "O incômodo censo agropecuário" de Roberto Malvezzi, coloca os pingos nos "is", e nos dá a justa medida dessa situação. Ah, e quem quiser se divertir (se for possível) dê uma olhada no sítio eletrônico da "Confederação Nacional da Agricultura", esse antro do reacionarismo brasileiro, para ver as barbaridades que lá estão. Um verdadeirao festival de loucura e insanidade.
Segue abaixo o artigo do Malvezzi:




O Incômodo Censo Agropecuário, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)




Agricultura familiar emprega quase 75% da mão-de-obra no campo e é responsável pela segurança alimentar dos brasileiros, produzindo 70% do feijão, 87% da mandioca e 58% do leite consumidos no país. Foto de Tamires Kopp

O último censo agropecuário trouxe verdades incômodas, que atiçaram a ira do agronegócio brasileiro. Afinal, a pobre agricultura familiar, com apenas 24,3% (ou 80,25 milhões de hectares) da área agrícola, é responsável “por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café , 34% do arroz, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar foi a soja (16%). O valor médio da produção anual da agricultura familiar foi de R$ 13,99 mil”, segundo o IBGE. Quando se fala em agricultura orgânica, chega a 80%. Além do mais, provou que tem peso econômico, sendo responsável por 10% do PIB Nacional.

Acontece que a agricultura familiar, além de ter menos terras, tem menos recurso público como suporte de suas atividades. Recebeu cerca de 13 bilhões de reais em 2008 contra cerca de 100 bilhões do agronegócio. Portanto, essa pobre, marginal e odiada agricultura tem peso econômico, social e uma sustentabilidade muito maior que os grandes empreendimentos. Retire os 100 bilhões de suporte público do agronegócio e veremos qual é realmente sua sustentabilidade, inclusive econômica. Retire as unidades familiares produtivas dos frangos e suínos e vamos ver o que sobra das grandes empresas que se alicerçam em sua produção.

Mas, a agricultura familiar continua perdendo espaço. A concentração da terra aumentou e diminuiu o espaço dos pequenos. A tendência, como dizem os cientistas, parece apontar para o desaparecimento dessas atividades agrícolas.

Porém, saber produzir comida é uma arte. Exige presença contínua, proximidade com as culturas, cuidado de artesão. O grande negócio não tem o “saber fazer” dessa agricultura de pequenos. E, bom que se diga, não se constrói uma cultura de agricultura de um dia para o outro. A Venezuela, dominada secularmente por latifúndios, não é auto suficiente em nenhum produto da cesta básica. Exporta petróleo para comprar comida. Chávez, ao chegar ao poder, insiste em criar um campesinato. Mas está difícil, já que a tradição é fundamental para haver uma geração de agricultores produtores de alimentos.

O Brasil ainda tem – cada vez menos – agricultores que tem a arte de plantar e produzir comida. No Norte e Nordeste mais a tradição negra e indígena. No sul e sudeste mais a tradição européia de italianos, alemães, polacos, etc. É preciso ainda considerar a presença japonesa na produção de hortifrutigranjeiros nos cinturões das grandes cidades.

Preservar esses agricultores é preservar o “saber fazer” de produtos alimentares. Se um dia eles desaparecerem, o povo brasileiro na sua totalidade sofrerá com essa ausência. Para que eles se mantenham no campo são necessárias políticas que os apóiem ostensivamente, inclusive com subsídio, como faz a Europa.

Do contrário, se dependermos do agronegócio, vamos comer soja, chupar cana e beber etanol.

Roberto Malvezzi (Gogó) é Assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 16/10/2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"A procissão fantasma"


Nós professores sempre nos lamentamos por uma certa "indigência" cultural de nossos alunos. Não sabem ler, não sabem escrever e por aí vai. Eu mesmo já constatei a dificuldade deles em lidar com isso que chama norma culta. A parte toda discussão que envolve essa questão danorma culta,etc., posso afirmar que é, muitas vezes, doloroso corrigir certos trabalhos que envolvem texto.
Por outro lado, é importante reconhecer que certos trabalhos são primorosos. Gostaria de nesse blog compartilhar um trabalho sobre folclore que desenvolvi com alunos de uma turma da noite, do Ciep Paulo Mendes Campos em Duque de Caxias. Neste trabalho eu solicitei aos alunos que escrevessem um texto no qual eles contassem sobre algum tipo de envolvimento com o folclore brasileiro. Valia tudo: histórias que ouviram quando crianças; brincadeiras de qualquer tipo; jogo de capoeira, etc.
Uma aluna, Paula Christina, da turma 903, me entregou o seguinte trabalho, que vou reproduzir exatamente como ela me entregou:


"Bem, professor. Certa vez, em uma confraternização familiar, começamos a falar sobre mitos e lendas.
Minha avó Maria então pediu para que todos se reunissem para ouvir a história que ela iria contar. Dizia ela que isso havia acontecido há muitos anos, quando ainda era jovem e ainda morava na "roça". A história era mais ou menos assim:

Era uma pequena cidade interiorana, onde todos se conheciam e se cumprimentavam ao se ver na rua. Um povo marcado pela simplicidade e pela religiosidade. E como de costume, uma vez por mês as famílias se reuniam para passar adiante as lendas contadas por seus antepassados.
Em nossa família a lenda contada é sobre a procissão fantasma.
Numa cidade onde todos se conhecem, não é difícil saber quando algo de alguém de novo aparece.
Todo ano, na noite de 13 de junho, passava uma procissão fantasma entoando cantigas e carregando coisas como: velas, cruzes e bandeiras.
muitos ouviam, mas ninguém tinha coragem de abrir uma janela ou porta para ver o que de fato era. E em muito pouco tempo, questão de minutos o silêncio voltava a reinar e apenas um clarão no céu iluminava as casas, e de repente não havia mais nada.
minha avó, uma jovem curiosa e destemida resoolveu querer descobrir quem ou o que são aquelas coisas que todos temiam na determinada noite do ano.
Ela apareceu anciosamente, e quando chegou o dia ela estava preparada era só esperar chegar a noite, exatamente meia a noite nem um minuto a mais e nem a menos.
enquanto todos dormiam ela sentou-se à sala e esperou. Quando foi aproximando a hora, o coração de minha vó apertou de medo, mas sua curiosidade falava mais alto.
Exatamente a meia noite as cantigas já podiam ser ouvidas, e a cada minuto parecia estar mais perto de sua casa.
Ela rapidamente foi até a janela, e quando avistou a chama das velas tomou coragem e abriu as janelas. Algo de inseperado aconteceu.
Havia uma mulher pálida de cabelos longos e escuros e seus olhos saltavam fogo. Ela estava segurando uma vela.
Minha avó ficou sem ação e não conseguia parar de olhar para a tal mulher e o restante da procissão. A mulher entregou a vela para minha avó e foi afastando-se e desaparecendo junto com a procissão, e a última coisa que minha avó viu foi um enorme clarão no céu. Enfim, quando tudo passou e ela iria fechar a janela, reparou que algo ainda mais estranho havia acontecido.
A vela que a mulher entregou tranformou-se em um osso na mão de minha avó que espantada arremesso longe, e correu para sua cama.
No outro dia ao acordar não viu mais aquele osso apenas uma roseira que havera nascido embaixo de sua janela.
Enfim, acredito que esse seja o fim da história, afinal eu era muito pequena e já não me recordo tão bem."

FIM!

Aluna: Paula Christina O. da Silva

Lula, o filho do Brasil

Trailer do filme "Lula, o filho do Brasil" de Fábio Barreto.
Gostem dele ou não, Lula representa uma síntese do povo brasileiro. Sua trajetória expressa a trajetória de milhões de brasileiros.



domingo, 11 de outubro de 2009

La nuit

Esta é uma pequena passagem de um filme francês cujo título em português é "a voz do coração". É um filme lindo e recomendo principalmente aos professores de música.





Vois Sur Ton Chemin

sábado, 10 de outubro de 2009

Celso Amorim - melhor chanceler do mundo?

Direto do Blog do Paulo Henrique Amorim. Aliás, há tempos atrás eu dizia que o Celso Amorim era meu candidato à presidência da república.


Amorim é o melhor chanceler do mundo. O que farão os da Globo ?


Na foto, uma reação espontânea ao assistir à entrevista de um chanceler da Globo

Na foto, uma reação espontânea ao assistir à entrevista de um chanceler da Globo

O portal Vermelho chama a atenção para texto da revista americana The New Foreign Policy, que considera Celso Amorim o melhor chanceler do mundo, já que nenhum outro conseguiu “com tanta eficácia uma transformação de tal magnitude do papel internacional de seu país”.

Temos aí, amigo navegante, um problema muito sério.

Como ficarão os chanceleres de O Globo e do PiG (*)?

Celso Lafer, Luiz Felipe Lampreia, Rubens Barbosa, Marcos Azambuja e até o Farol de Alexandria, que foi Ministro das Relações Exteriores do Governo Itamar (**)e deixou marca indelével na política externa brasileira (qual, mesmo, hein?)

Como ficam esses chanceles ou wanna-be chanceleres que vão para a Globo e para o PiG (*) meter o pau no Brasil, e não abrem mão da aposentadoria que recebem do Itamaraty ?

É um problema sério.

Assistiremos a uma cerimônia coletiva de cortação de pulsos …

Paulo Henrique Amorim

(*)Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Fernando Henrique tinha tanta vontade de ser chanceler que aceitou o convite de Collor e chegou a nomear o Secretario Geral do Itamaraty, Sebastião do Rego Barros. O Covas é que não deixou ele ser chanceler de Collor.

Golpe em Honduras - uma outra visão

É abslutamente inacreditável o modo como compramos notícias truncadas e torcidas. Essa manipulação visa única e exclusivamente a construção de uma representação, ou produção de consenso, para satistazer determinados grupos políticos. Mas as vezes penso que o PIG (partido da imprensa golpista) está indo longe demais. A ausência de contradito é um sintoma e tanto da parcialidade das "notícias" dos jornalões. Estou dizendo isso com referência ao caso do golpe militar de Honduras (e olha que quase eu me referia a "crise" hondurenha como faz o PIG). Durante todo o tempo a grande mídia quase dizia c om todas as letras que o golpe foi um acontecimento para salvaguardar os interesses democráticos daquele país, pois o presidente Manoel Zelaya, este sim, um verdadeiro golpista, queria alterar a constituição para se reeleger. Ou seja, o golpefoi democrático. O ra, pensava eu, foi isso que fizeram vários presidentes da América Latina, incluindo FHC no Brasil. E ademais, alterar constituições não é nenhuma ilegalidade, desde que seja encaminhado através de conjunto de forças que representem (sei que esta palavra é complicada) o interesse da maioria.
Mas o fato é que, em uma matéria para a revista de história da biblioteca nacional, o cientista político hondurenho naturalizado brasileiro Carlo Domínguez, afirma que o golpe não foi por causa da tentativa de re-eleição do presidente Zelaya, pois este nem sequer era candidato por nenhum partido para as eleições que aconteceriam em novembro deste ano. O que está efetivamente por trás de todas essa movimentação golpista , segundo Domínguez, eram as transformações constitucioanais propostas pelo governo, que visava, entre outras coisas, a criação de consultas populares que não se restringissem unicamente às consultas eleitorais. aí fica a pergunta: esse dado não era conhecido de nossos jornalistas? Impossível!
Quem quiser ler a matéria na íntegra (ela é bem curtinha) é só clicar no link abaixo:

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2673

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Baião de Luiz Gonzaga com as flautas de Maria Carolina e Lucas Leandro

e mais as percussões de Isaac, Jackson e Erick.

Os povos originários do Equador

Há muitos anos atrás, em uma festa com pessoas da esquerda latino-americana, eu ouvi de uma uruguaia, que nós brasileiros somos vistos na América Latina como arrogantes e metidos. Fiquei pasmo, pois jamais imaginei que pudéssemos ser vistos dessa forma. Ela acrescentou que a nós brasileiros não interessava nada que dissesse respeito ao nosso continente, e que só nos interessamos por assuntos referentes a Europa ou aos EUA. De fato me dei conta de que sabemos muito pouco do nossos vizinhos. Sabemos muito pouco de literatura, por exemplo, e mesmo assim, nos interessamos pelos que foram "reconhecidos" pelo dito primeiro mundo.
A matéria cujo link ponho aqui em baixo, nos ajuda a entender um pouco sobre as discussões que estão se dando hoje no Equador. Não foi à toa que o Noam Chomsky se referiu recentemente à América Latina, ou Abya Yala como nos informa o professor Carlos Walter, como o "lugar mais estimulante do mundo". Discussões sobre temas como a constituição de um Estado plurinacional faz avançar a compreensão sobre novas formas organizativas, cujos princípios se assentam em outras bases epistemológicas. Segundo a Elaine Tavares, autora da matéria da revista Caros Amigos, os "povos originários" - organização indígena equatoriana - apoia o governo do Rafael Correa, mas ao mesmo tempo aponta para contradições históricas que clamam por serem equacionadas. A matéria nos instrui muito a cerca das contradições presentes no Governo Correa. Mas não poderia ser diferente. De todo modo, é flagrante como existe o diálogo e como os indígenas são ouvidos (ao invés de olvidados como sempre foram).
Recomendo a leitura. Entrem no link abaixo e cliquem na matéria "as origens do Equador".
Boa leitura!!

http://carosamigos.terra.com.br/

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

o MST e a destruição das laranjas....

Meus amigos e amigas, furar o cerco diário do PIG (partido da imprensa golpista) é um exercício trabalhoso, porém necessário. É verdade que hoje com os recursos da internet e em particular com o trabalho dos blogs a coisa ficou mais fácil. Ainda hoje escutei a Dora Kramer lançar seu veneno contra o MST, falando sobre a CPI do MST, e sobre uma "destruição" de um laranjal perpetrada pelos comunistas raivosos (meu Deus, por que ainda ouço essas coisas???). Fico sempre tentando decifrar e entender o que de fato está por trás da "notícia". Mas muitas vezes não consigo, pois nem sempre tenho os dados necessários. Enfim... Eis aqui uma carta aberta da Comissão Pastoral da Terra, sobre o ocorrido.





CPT

A Coordenação Nacional da CPT vem a público para manifestar sua estranheza diante do “requentamento” por toda a grande mídia de um fato ocorrido na segunda feira da semana passada, 28 de setembro, e que foi noticiado naquela ocasião, mas que voltou com maior destaque, uma semana depois, a partir do dia 5 de outubro até hoje.

Trata-se do seguinte: no dia 28 de setembro, integrantes do MST ocuparam a Fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do estado de São Paulo. A área faz parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e que pertencem à União. A fazenda Capim, com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale, uma das maiores empresas produtora de suco de laranja do mundo, para a monocultura de laranja. O MST destruiu dois hectares de laranjeiras para neles plantar alimentos básicos. A ação tinha por objetivo chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União.

As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos econômicos. A Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que houvesse regularização fundiária a seu favor.

As imagens da televisão, feitas de helicóptero, mostram um trator destruindo as plantas. As reações, depois da notícia ser novamente colocada em pauta, vieram inclusive de pessoas do governo, mas, sobretudo, de membros da bancada ruralista que acusam o movimento de criminoso e terrorista.

A quem interessa a repetição da notícia, uma semana depois?

No mesmo dia da ação dos sem-terra foi entregue aos presidentes do Senado e da Câmara, um Manifesto, assinado por mais de 4.000 pessoas, entre as quais muitas personalidades nacionais e internacionais, declarando seu apoio ao MST, diante da tentativa de instalação de uma CPMI para investigar os repasses de recursos públicos a entidades ligadas ao Movimento. Logo no dia 30, foi lido em plenário o requerimento para sua instalação, que acabou frustrada porque mais de 40 deputados retiraram seu nome e com isso não atingiu o número regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu.

A ação do MST do dia 28, que ao ser divulgada pela primeira vez não provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para novamente se propor uma CPI contra o MST. E numa ação articulada entre os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da ocupação da fazenda da Cutrale.

A ação do MST, por mais radical que possa parecer, escancara aos olhos da nação a realidade brasileira. Enquanto milhares de famílias sem terra continuam acampadas Brasil afora, grandes empresas praticam a grilagem e ainda conseguem a cobertura do poder público.

Algumas perguntam martelam nossa consciência:

Por que a imprensa não dá destaque à grilagem da Cutrale?

Por que a bancada ruralista se empenha tanto em querer destruir os movimentos dos trabalhadores rurais? Por que não se propõe uma grande investigação parlamentar sobre os recursos repassados às entidades do agronegócio, ao perdão rotineiro das dívidas dos grandes produtores que não honram seus compromissos com as instituições financeiras?

Por que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), declarou, nas eleições ao Senado em 2006, o valor de menos de oito reais o hectare de uma área de sua propriedade em Campos Lindos, Tocantins? Por que por um lado, o agronegócio alardeia os ganhos de produtividade no campo, o que é uma realidade, e se opõe com unhas e dentes á atualização dos índices de produtividade? Por que a PEC 438, que propõe o confisco de terras onde for flagrado o trabalho escravo nunca é votada? E por fim, por que o presidente Lula que em agosto prometeu em 15 dias assinar a portaria com os novos índices de produtividade, até agora, mais de um mês e meio depois, não o fez?

São perguntas que a Coordenação Nacional da CPT gostaria de ver respondidas.

Goiânia, 7 de outubro de 2009.

Coordenação Nacional da CPT

Nota da Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional, publicada pelo EcoDebate, 08/10/2009


Fome Come

O que você vê neste vídeo é uma apresentação que fizemos em um Centro Cultural em Santa Cruz. É também uma demonstração de um trabalho que faço com alunos do 6º ano do ensino fundamental nas escolas em que trabalho. Aqui no vídeo, se apresentam nas latinhas os alunos Erick e Rodrigo; nos vocais: Maria, Camila, Jussena e Vitória; no chocalho o Jackson e no violão junto comigo a Alana.
Este trabalho foi desenvolvido originalmente por Paulo Tatit e Sandra Peres, e título da cançao é "Fome Come".

domingo, 4 de outubro de 2009

Entrevista com o educador Moacir Gadotti

Belíssima entrevista com o educador Moacir Gadotti. Imperdível para quem de alguma forma está ligado com o tema da educação. Gadotti trabalhou com Paulo Freire, e é hoje um dos mais destacados pensadores da educação no Brasil.



http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=7567

desdobramentos de uma reflexão original

Reflexões originais têm, muitas vezes, a capacidade de nos fazer pensar sobre coisas que normalmente passam desapercebidas. Práticas cotidianas que incorporamos em algum momento de nossas vidas e que nos acompanha quase como se fossem naturais. Aliás, a naturalização de processos sócio-culturais foi uma das "descobertas" feita pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, contra a qual ele lutou oferecendo subsídios teóricos para que esse processo fosse sempre desmascarado. Mas voltando às reflexões originais, eu estava pensando no artigo do Carlos Walter (postado aqui no blog), que discute justamente como o termo América Latina está "naturalizado" em nosso vocabulário sem que nos demos conta de que o mesmo remete a um campo de significados, portanto, de produção de sentidos.
Fiquei pensando, por exemplo, como no campo da música nós nos referimos à "música latina", ou quando queremos descrever uma música que ouvimos e dizemos assim: "ela tem uma 'levada' meio latina", para dizer que a tal música tem um swing assim meio salsa, mambo, etc. Ora, o termo "Latino", como nos mostrou Carlos Walter nos remete a uma matriz européia, ocultando ou tentando ocultar nossa formação negra e indígena. O que acontece é que essas músicas ou essas 'levadas' as quais nos referimos quando usamos o termo latino, é de fato afro-americana. Ocorre aí um verdadeiro sequestro simbólico. Um roubo, bem ao estilo das pilhagens coloniais.
É oportuno que fiquemos atentos a esses processos que estão embutidos em termos aparentemente neutros, para que não sejamos nós reprodutores e cúmplices dessas pilhagens.

sábado, 3 de outubro de 2009

Tambor d'água




















Este é o tambor d'água. Invenção, segundo o Arthur Andrés Ribeiro do grupo Uakti, dos índios da Guatemala. Ele é muito simples de fazer e tem um efeito sonoro muito interessante. Ele faz parte de um projeto que tenho tentado desenvolver, que visa introduzir na educação musical elementos "diferentes" na prática musical dos alunos. Curioso foi perceber que assim que eu mostrei esse instrumento para os alunos, eles começaram a tocar funk...

Distantes da Civilização

Segue abaixo um texto do Eduardo Guimarães sobre a posição do PIG (partido da imprensa golpista) com relação aos últimos acontecimentos em Honduras.



Distantes da civilização

Por Eduardo Guimarães

O fato político mais importante do momento, sem dúvida, é o impasse político-institucional em Honduras, que mobilizou todos os organismos multilaterais mais importantes do mundo e despertou a indignação e o inconformismo de todas as nações. Mais de sessenta países recusam-se a reconhecer o governo golpista.

Mas por que um paiseco da América Central, absolutamente irrelevante do ponto de vista econômico ou cultural, atraiu e mobilizou tanta atenção? Por que Honduras desperta tantas paixões num mundo em que governos despóticos se sucedem na África, na Ásia, cometendo barbaridades inimagináveis sem atraírem atenção sequer parecida?

Em primeiro lugar, há que entender que Honduras é o protótipo da nação latino-americana desigual e institucionalmente atrasada. Reproduz, em larga medida, a mentalidade iníqua e atrasada que ainda tem fôlego até em um país industrializado e rico como o nosso.

É por conta de Honduras ser essa mini América Latina que assusta tanto o precedente de um grupelho de “trogloditas de direita” (perdão, mas não resisti à expressão) derrubar um governo detentor de legítimo e inquestionável mandato popular.

Diante de tais fatos é que surgiu a reflexão que intitula este texto, um texto envolvendo o estágio civilizatório não só do Brasil, mas de toda a América Latina.

A espantosa e inacreditavelmente explícita adesão da imprensa e da oposição tucano-pefelista às teses da ditadura hondurenha não poderia acontecer em um país civilizado. Tal fenômeno, ao suceder aqui, revela o quanto ainda estamos distantes da plena civilização deste país.

Em qualquer nação civilizada ninguém teria coragem de defender o que o mundo inteiro condena com veemência poucas vezes vista. Não me lembro de outra oportunidade em que houve um consenso mundial tão completo sobre um fato estritamente político. Só num país ainda incivilizado a imprensa poderia dedicar 99% de seu espaço a demonizar a vítima do golpe enquanto despersonaliza os golpistas, poupando “Gorilleti” de qualquer crítica pessoal.

Quantas charges ridicularizando e acusando Manuel Zelaya você viu nos jornalões e revistões e quantas viu fazendo o mesmo contra “Gorilleti”? No segundo caso, eu, ao menos, não vi nenhuma – vejam bem: nas Folhas, Vejas, Estadões e Globos.

No Brasil e em outros países latinos conseguimos produzir o fenômeno de a imprensa atacar muito mais o golpeado do que os golpistas. Se alguém se der ao trabalho de fazer essa pesquisa nos veículos supra mencionados ou em seus apêndices, espantar-se-á ao constatar o fato.

Apesar de nos EUA e no resto do mundo rico ser possível ver, aqui e ali, algum tarado defendendo o golpe ou dizendo que não existiu, são manifestações absolutamente escassas e totalmente envergonhadas. Aqui (na América Latina), elas dominaram a grande imprensa.

Pior ainda foi constatar, ao menos no Brasil, a existência de uma ínfima minoria de acadêmicos dispostos a legitimar o estupro da democracia que ocorreu em Honduras. E constatar que, em meio a uma maioria avassaladora de estudiosos de direito internacional que condenaram o golpe, os meios de comunicação dão muito mais espaço às raras exceções dos que defendem alguma “legalidade” desse golpe.

Isso por que essa imprensa latino-americana acha que seu público não tem cultura e noção do que é democracia o suficiente para entender o absurdo que é a defesa do golpe em Honduras. Porque a direita e seus jornais e tevês querem manter a receptividade popular a golpes de Estado, receptividade que sempre vigeu nesta parte do mundo, pois golpes sempre foram o instrumento das elites quando a ralé, amplamente majoritária, não lhes acompanhou as decisões eleitorais.

Não tenho a menor dúvida de que, neste momento, nada mais importa além de o mundo livre impedir que o golpe de Estado em Honduras tenha sucesso.

A desenvoltura com que grandes empresas de comunicação e partidos políticos defendem o golpe e até, absurdo dos absurdos, o ataque feroz (com cerco, bombardeio sonoro e gás tóxico) dos golpistas ao território brasileiro que é nossa embaixada em Honduras, fala ainda mais sobre o estágio pré-civilizatório em que se encontra este país.

Não basta derrotar os golpistas hondurenhos. É preciso explicar aos brasileiros, didaticamente, por que não se pode aceitar precedentes antidemocráticos, e por que, num país civilizado, quando ele é atacado toda a sua sociedade deve se unir.

Alguém minimamente informado é capaz de conceber o congresso norte-americano ou o parlamento francês deixando de condenar um cerco – e tantas outras afrontas – a uma de suas representações diplomáticas? Seria impensável, mesmo que essa representação tivesse praticado de fato alguma ingerência indevida no país em que estivesse sediada.

Mas, aqui no Brasil, a oposição no Congresso defende abertamente os que esbofeteiam o país. Sem nenhum constrangimento.

É aterrador o que a crise em Honduras revelou. A mídia, o PSDB e o PFL apóiam o golpe e tratam de tentar desmoralizar Zelaya porque querem manter no imaginário popular a aceitação do golpismo, a idéia que tanto já venderam de que derrubar governos legitimamente eleitos é aceitável se, depois do golpe, os golpistas forjarem uma eleição, mesmo sendo uma eleição em que o povo votaria sob a mira de armas.

Para mim, portanto, nada mais importará enquanto a crise hondurenha não for resolvida, pois estamos muito distantes da civilização para nos darmos ao luxo de permitir que nosso povo não entenda plenamente por que não se pode aceitar golpes de Estado. O presidente Lula perdeu uma excelente oportunidade de fazer um pronunciamento à nação.

domingo, 27 de setembro de 2009

De América Latina, de Abya Yala, de América Mestiça, de América Criolla e de suas Contradições

Por Carlos Walter Porto-Gonçalves, Edir Augusto Dias Pereira


Certa vez, quando me deslocava pela cidade de São Paulo, vi um grafite que dizia: “essa boca que sempre me beijou agora me nega um sorriso”. A frase, aparentemente romântica, se mostrava mais instigante para a reflexão do que a declaração de amor explícita quando se presta atenção ao lugar onde estava inscrita: o muro de um cemitério. Ali, definitivamente, vi que uma frase nunca pode ser dissociada do lugar onde está inscrita.
Recentemente (2004) os povos indígenas começaram a inserir no léxico político um novo nome, Abya Yala, para designar o continente que, desde finais do século 18 e, sobretudo desde o século 19, passamos a conhecer por América[1]. E, sendo mais específicos, desde a segunda metade do século 19, por iniciativa do colombiano José Maria Torres Caicedo, América Latina é o nome como passou a ser designada a parte desse continente que nos cabe viver. Não olvidemos que os espanhóis designavam essa região por Índias Ocidentais que, diga-se de passagem, abrangia uma vasta região que ia desde o Caribe, passava por México e Peru e suas áreas adjacentes, e ia até as Filipinas, terra de Filipe. E que Portugal ignorava essa designação de América chamando sua colônia pelo nome do pau com que começaram a explorar esse território que nos deu um adjetivo pátrio incômodo – brasileiro[2].
Assim, o nome América foi enunciado pelas elites criollas para se afirmar com/contra as metrópoles européias, a geografia aqui servindo para afirmar uma territorialidade própria que se distinguia das metrópoles européias, e o nome América Latina[3] afirmado por José Maria Torres Caicedo, com seu poema Las Dos Américas, publicado em 1856, para nominar o que Bolívar já havia denunciado em 1826 contra a Doutrina Monroe (1823), inscrevendo assim a distinção entre uma América Anglo-saxônica e uma Latina que, mais tarde, levaria José Martí a falar de “nuestra América”. Enfim, um anti-imperialismo precoce distingue as duas Américas.
Ora, América Latina ainda é uma América que se vê européia – latina – e, com isso, silencia outros grupos sociais e nações que longe estavam da latinidade, a não ser sofrendo seus desdobramentos imperiais que tão marcadamente caracteriza a tradição eurocêntrica. Afinal, nos dirá Walter Mignolo, foi a latinidade e não a africanidade ou a indianidade que se impôs como nome do subcontinente[4]. De certa forma é isso que os povos originários de Abya Yala querem afirmar com seu nome próprio por meio do qual buscam se re-apropriar do território que lhes foi arrebatado que, como se vê, não definitivamente. Mas a expressão, a princípio, também deixa de fora os afrodescendentes e outros grupos subalternos.
O interessante é que a ideologia da mestiçagem buscou exatamente suprimir essa tensão entre os diferentes grupos sociais e, com isso, introduzindo uma identidade – a mestiça – que silencia, sobretudo os grupos sociais que foram racializados pela tradição colonial. As ciências sociais têm sofrido com essa transposição de conceitos oriundos das ciências da natureza, como esse de mestiçagem que, no fundo, dá sobrevida ao pseudo-conceito científico de raça. Enfim, a ideologia da mestiçagem contribui para que se olvide a construção epistêmica das relações sociais e de poder de modo racializado. Afinal, aqui na América não havia índios, assim como na África não havia negros. Foi o encontro colonial, La Boétie chamou mal-encontro, que classificou o outro pela cor da pele e, com isso, instituiu um sistema de classes sociais racializado, conforme Aníbal Quijano nos esclarece[5]. Ou como bem disse nos anos 60 o intelectual e ativista aymara Fausto Reinaga: “Danem-se, eu não sou um índio, sou um aymara. Mas você me fez um índio e como índio lutarei pela libertação”. Definitivamente há uma racialização na instituição das classes sociais entre nós.
É sintomático que a elite criolla tenha nos brindado com a expressão América Latina e não América Criolla que, talvez, nos ajude a dar conta das contradições que se inscrevem nesse continente e que nos atravessa de norte a sul. E nos diz muito do poder de enunciação dos diferentes grupos sociais, no caso, a hegemonia criolla que, como toda hegemonia dominante, esconde seu lugar de enunciação. Assim, a elite criolla não nomeou o continente com seu lugar de enunciação e, por isso, não nos ofereceu uma América criolla.
Mas se criollo é aquele de outro lugar nascido na América, a expressão não tem o mesmo sentido quando vista dos Andes e da América Central ou quando vista do Caribe e do Brasil. Se na América andina e centro-americana ela está claramente identificada com o fidalgos, ou seja, com os filhos d´alguém (de onde vem a expressão fidalgo), no Caribe e no Brasil a expressão crioulo se refere aos negros ou seja aos filhos de ninguém, aos dannés, ou seja, aos condenados da terra de Franz Fanon. A expressão de Robson, jogador do Fluminense dos anos sessenta, “Já fui negro, sei o que isso significa” é emblemática do que está implicado nos debates ora em curso em torno do tema racial.
Não vai ser invisibilizando essa tensão que seremos capazes de superar as contradições que nos habitam enquanto história in-corpo-rada há 500 anos. A experiência ora em curso na Bolívia e no Equador, onde o protagonismo indígena é indiscutível, mostra que é possível, com a interculturalidade, superar as limitações dos estudos culturais estadunidenses e seu multiculturalismo e ainda o pós-modernismo[6] que mantendo cada macaco em seu galho dá azo a nefastos fundamentalismos essencialistas. Afinal, é possível superar as xenofobias de inspiração racistas a partir de outros projetos epistêmicos e políticos e isso implica aceitar que a tradição liberal com seu princípio individualista tem cor e lugar de origem: a Europa. Mas, diga-se de passagem, não toda a Europa, mas uma Europa branca, falocrática e burguesa. Enfim, essa tradição é provinciana e como todo mau provincianismo pensa que seu mundo é O Mundo. E o pior provincianismo é aquele que detendo poder tenta se apresentar como uni-versal olvidando a pluri-versalidade do mundo. É bem o caso do eurocentrismo.
O nome próprio do espaço
De fato, nomear os lugares envolve uma apropriação. O espaço conforme é designado é apropriado pelos sujeitos, enfim, é tornado espaço próprio (território). Mas, cada qual se vê implicado nas designações/apropriações dos outros, dando-lhe outros sentidos sempre em circunstâncias historicamente indeterminadas[7]. Ao transformarmos o significado do termo com que nos designam, mudamos o modo de nos relacionarmos e de nos representarmos. Que designação melhor denomina o espaço em que vivemos com as nossas diferenças? Essa é a questão de fundo que envolve essas denominações que estrategicamente vêm servindo de invólucro e determinando conteúdo para esse continente.
Este texto busca explicitar que a luta pela classificação do espaço está profundamente implicada em lutas/relações sociais e de poder que se travam há pelo menos 500 anos nesses espaços “americanos”. É, desse modo, um embate entre política de identidade e o nosso investimento identitário na política (Mignolo, 2008) e, assim, há uma geopolítica para além (ou para aquém) dos Estados que, na verdade, os constituem. Afinal, o Estado ao se querer nacional se quer nascido naturalmente e é aí que reside todo o ocultar político de sua invenção (instituição), a começar pelo fato de se querer um território uni-nacional onde quase sempre residem múltiplas nacionalidades, distintas territorialidades. Enfim, há uma luta epistêmica e política que se trava em torno do espaço. Mudar o nome, obviamente, não significa mudar o objeto, nem o sentido do objeto porque isso depende da autoridade de quem nomeia, de quem designa (Bourdieu), e com que finalidade, consciente ou não, dá nome aos lugares. E essa própria autoridade é construída como bem destaca, nesse caso, Gramsci com seu conceito de hegemonia.
Enfim, haveremos de compreender essas lutas sociais nesses espaços reunidos sob a denominação de América como lutas epistêmicas e políticas. Isso significa muito mais do que mudar o nome, já que as “identidades nacionais” jogam ainda um papel político e simbólico central nessas lutas. Apesar de tudo, nós brasileiros, em geral, nunca nos sentimos latino-americanos. Há uma especificidade na construção identitária do brasiliano[8]. E as diferenças não podem caber em baixo do mesmo termo guarda-chuva. Não se trata, portanto, de criar um novo termo guarda-chuva ou de criar uma identidade que suprima diferenças, em nome de uma identidade verdadeira.
O que, afinal, estamos enfrentando é um deslocamento profundo no sentimento e no sentido de pertença de grupos a um espaço que lhes foi subtraído, inclusive cognitivamente. Por isso, a busca da identidade e de alguma unidade precisa levar em conta as diferenças – as diferenças coloniais, de que nos fala Walter Mignolo, em particular. Tudo indica que precisamos construir alternativas às alternativas que-aí-estão, conforme Boaventura de Souza Santos. Isso significa que a unidade que devemos buscar é a unidade de projetos coletivos de emancipações e libertações sociais, conforme sugere Hector Diaz-Polanco[9]. Se cambiar o nome do espaço envolve a construção dessas alternativas e projetos outros, temos que agenciar estrategicamente esse dispositivo. Afinal, “o espaço importa” e, assim, deve importar o modo como o nomeamos, porque isso acaba nos constituindo em nossa plenitude política e epistêmica ao conquistarmos o direito de nomear. A transmodernidade, de Enrique Dussel, e a interculturalidade, proposta a partir do mundo dos povos originários, são mais inclusivas do que as tradições eurocêntricas, sobretudo liberais (multiculturalismo e pós-modernismo). Cabe avançar no modo como essa proposta dialógica se inscreve no mundo material dos territórios com todo esse investimento de valores que admite o outro na sua diversidade. E que as relações de poder não se confundam com relações de dominação[10].
- Carlos Walter Porto-Gonçalves, Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - e de CLACSO (GT Hegemonia e Emancipações). Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira. Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000).
- Edir Augusto Dias Pereira, Professor da Faculdade de Educação da UFPA – Campus de Cametá.


[1] Ver o verbete Abya Yala, de Carlos Walter Porto-Gonçalves, publicado na versão em língua espanhola da Latinoamericana: Enciclopedia Contemporânea da América Latina e Caribe, Madrid, 2009.
[2] - Que originariamente designava o português que vivia de explorar o Brasil. Ver As Identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC, de José Carlos Reis. Ed. FGV, Rio de Janeiro, 1999.
[3] Admite-se também que o termo teria sido utilizado pelo do filósofo chileno Franciso Bilbao no mesmo ano.
[4] Agradeço ao Prof. Pedro Quental essa observação.
[5] Quijano, Aníbal, 2007 [1999] O que é essa tal de raça? In dos Santos, Renato Emerson (org.) Diversidade, espaço e relações étnico-raciais: o Negro na Geografia do Brasil. Ed. Autêntica, Belo Horizonte.
[6] Walter Mignolo diz que o pós-modernismo ainda permanece eurocêntrico em sua crítica à modernidade por não ser capaz de dar conta da colonialidade que lhe é constitutiva.
[7] Com essa idéia tentamos escapar de um determinismo histórico quase sempre reducionista, sem abrir mão das determinações que sendo históricas são, sempre, dialeticamente abertas. Enfim, as indeterminações não são indeterminadas, são historicamente situadas e, assim, também geográficas.
[8] O termo é dicionarizado (Ver o Dicionário do Aurélio Buarque de Hollanda) e com seu uso procuramos nos distanciar e acusar um sentido oculto de brasileiro – o que vive de explorar o Brasil – com o qual não nos identificamos.
[9] Ver Diaz,-Polanco, Héctor. 2004. El Canon Snorri, Ed. UACM, México.
[10] Conforme nos ensina Pierre Clastres, 1988 [1974]. A sociedade contra o Estado, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves.

"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Noam Chomsky deu uma longa entrevista ao jornal La jornada, em comemoração aos vinte cinco anos deste periódico mexicano. Suas reflexões são bombásticas e muito bem fundamentadas. Nela, Chomsky fala longamente sobre o que chama "a ilusão Obama". Apesar de extensa, vale a pena ler no sítio Carta Maior a íntegra das declarações desse grande pensador da contemporaneidade.


"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Em entrevista ao La Jornada, Noam Chomsky fala sobre a América Latina, definindo-a como uma das únicas regiões do mundo onde há uma resistência real ao poder do império. "Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os EUA derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo", diz Chomsky.

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