sábado, 3 de outubro de 2009

Tambor d'água




















Este é o tambor d'água. Invenção, segundo o Arthur Andrés Ribeiro do grupo Uakti, dos índios da Guatemala. Ele é muito simples de fazer e tem um efeito sonoro muito interessante. Ele faz parte de um projeto que tenho tentado desenvolver, que visa introduzir na educação musical elementos "diferentes" na prática musical dos alunos. Curioso foi perceber que assim que eu mostrei esse instrumento para os alunos, eles começaram a tocar funk...

Distantes da Civilização

Segue abaixo um texto do Eduardo Guimarães sobre a posição do PIG (partido da imprensa golpista) com relação aos últimos acontecimentos em Honduras.



Distantes da civilização

Por Eduardo Guimarães

O fato político mais importante do momento, sem dúvida, é o impasse político-institucional em Honduras, que mobilizou todos os organismos multilaterais mais importantes do mundo e despertou a indignação e o inconformismo de todas as nações. Mais de sessenta países recusam-se a reconhecer o governo golpista.

Mas por que um paiseco da América Central, absolutamente irrelevante do ponto de vista econômico ou cultural, atraiu e mobilizou tanta atenção? Por que Honduras desperta tantas paixões num mundo em que governos despóticos se sucedem na África, na Ásia, cometendo barbaridades inimagináveis sem atraírem atenção sequer parecida?

Em primeiro lugar, há que entender que Honduras é o protótipo da nação latino-americana desigual e institucionalmente atrasada. Reproduz, em larga medida, a mentalidade iníqua e atrasada que ainda tem fôlego até em um país industrializado e rico como o nosso.

É por conta de Honduras ser essa mini América Latina que assusta tanto o precedente de um grupelho de “trogloditas de direita” (perdão, mas não resisti à expressão) derrubar um governo detentor de legítimo e inquestionável mandato popular.

Diante de tais fatos é que surgiu a reflexão que intitula este texto, um texto envolvendo o estágio civilizatório não só do Brasil, mas de toda a América Latina.

A espantosa e inacreditavelmente explícita adesão da imprensa e da oposição tucano-pefelista às teses da ditadura hondurenha não poderia acontecer em um país civilizado. Tal fenômeno, ao suceder aqui, revela o quanto ainda estamos distantes da plena civilização deste país.

Em qualquer nação civilizada ninguém teria coragem de defender o que o mundo inteiro condena com veemência poucas vezes vista. Não me lembro de outra oportunidade em que houve um consenso mundial tão completo sobre um fato estritamente político. Só num país ainda incivilizado a imprensa poderia dedicar 99% de seu espaço a demonizar a vítima do golpe enquanto despersonaliza os golpistas, poupando “Gorilleti” de qualquer crítica pessoal.

Quantas charges ridicularizando e acusando Manuel Zelaya você viu nos jornalões e revistões e quantas viu fazendo o mesmo contra “Gorilleti”? No segundo caso, eu, ao menos, não vi nenhuma – vejam bem: nas Folhas, Vejas, Estadões e Globos.

No Brasil e em outros países latinos conseguimos produzir o fenômeno de a imprensa atacar muito mais o golpeado do que os golpistas. Se alguém se der ao trabalho de fazer essa pesquisa nos veículos supra mencionados ou em seus apêndices, espantar-se-á ao constatar o fato.

Apesar de nos EUA e no resto do mundo rico ser possível ver, aqui e ali, algum tarado defendendo o golpe ou dizendo que não existiu, são manifestações absolutamente escassas e totalmente envergonhadas. Aqui (na América Latina), elas dominaram a grande imprensa.

Pior ainda foi constatar, ao menos no Brasil, a existência de uma ínfima minoria de acadêmicos dispostos a legitimar o estupro da democracia que ocorreu em Honduras. E constatar que, em meio a uma maioria avassaladora de estudiosos de direito internacional que condenaram o golpe, os meios de comunicação dão muito mais espaço às raras exceções dos que defendem alguma “legalidade” desse golpe.

Isso por que essa imprensa latino-americana acha que seu público não tem cultura e noção do que é democracia o suficiente para entender o absurdo que é a defesa do golpe em Honduras. Porque a direita e seus jornais e tevês querem manter a receptividade popular a golpes de Estado, receptividade que sempre vigeu nesta parte do mundo, pois golpes sempre foram o instrumento das elites quando a ralé, amplamente majoritária, não lhes acompanhou as decisões eleitorais.

Não tenho a menor dúvida de que, neste momento, nada mais importa além de o mundo livre impedir que o golpe de Estado em Honduras tenha sucesso.

A desenvoltura com que grandes empresas de comunicação e partidos políticos defendem o golpe e até, absurdo dos absurdos, o ataque feroz (com cerco, bombardeio sonoro e gás tóxico) dos golpistas ao território brasileiro que é nossa embaixada em Honduras, fala ainda mais sobre o estágio pré-civilizatório em que se encontra este país.

Não basta derrotar os golpistas hondurenhos. É preciso explicar aos brasileiros, didaticamente, por que não se pode aceitar precedentes antidemocráticos, e por que, num país civilizado, quando ele é atacado toda a sua sociedade deve se unir.

Alguém minimamente informado é capaz de conceber o congresso norte-americano ou o parlamento francês deixando de condenar um cerco – e tantas outras afrontas – a uma de suas representações diplomáticas? Seria impensável, mesmo que essa representação tivesse praticado de fato alguma ingerência indevida no país em que estivesse sediada.

Mas, aqui no Brasil, a oposição no Congresso defende abertamente os que esbofeteiam o país. Sem nenhum constrangimento.

É aterrador o que a crise em Honduras revelou. A mídia, o PSDB e o PFL apóiam o golpe e tratam de tentar desmoralizar Zelaya porque querem manter no imaginário popular a aceitação do golpismo, a idéia que tanto já venderam de que derrubar governos legitimamente eleitos é aceitável se, depois do golpe, os golpistas forjarem uma eleição, mesmo sendo uma eleição em que o povo votaria sob a mira de armas.

Para mim, portanto, nada mais importará enquanto a crise hondurenha não for resolvida, pois estamos muito distantes da civilização para nos darmos ao luxo de permitir que nosso povo não entenda plenamente por que não se pode aceitar golpes de Estado. O presidente Lula perdeu uma excelente oportunidade de fazer um pronunciamento à nação.

domingo, 27 de setembro de 2009

De América Latina, de Abya Yala, de América Mestiça, de América Criolla e de suas Contradições

Por Carlos Walter Porto-Gonçalves, Edir Augusto Dias Pereira


Certa vez, quando me deslocava pela cidade de São Paulo, vi um grafite que dizia: “essa boca que sempre me beijou agora me nega um sorriso”. A frase, aparentemente romântica, se mostrava mais instigante para a reflexão do que a declaração de amor explícita quando se presta atenção ao lugar onde estava inscrita: o muro de um cemitério. Ali, definitivamente, vi que uma frase nunca pode ser dissociada do lugar onde está inscrita.
Recentemente (2004) os povos indígenas começaram a inserir no léxico político um novo nome, Abya Yala, para designar o continente que, desde finais do século 18 e, sobretudo desde o século 19, passamos a conhecer por América[1]. E, sendo mais específicos, desde a segunda metade do século 19, por iniciativa do colombiano José Maria Torres Caicedo, América Latina é o nome como passou a ser designada a parte desse continente que nos cabe viver. Não olvidemos que os espanhóis designavam essa região por Índias Ocidentais que, diga-se de passagem, abrangia uma vasta região que ia desde o Caribe, passava por México e Peru e suas áreas adjacentes, e ia até as Filipinas, terra de Filipe. E que Portugal ignorava essa designação de América chamando sua colônia pelo nome do pau com que começaram a explorar esse território que nos deu um adjetivo pátrio incômodo – brasileiro[2].
Assim, o nome América foi enunciado pelas elites criollas para se afirmar com/contra as metrópoles européias, a geografia aqui servindo para afirmar uma territorialidade própria que se distinguia das metrópoles européias, e o nome América Latina[3] afirmado por José Maria Torres Caicedo, com seu poema Las Dos Américas, publicado em 1856, para nominar o que Bolívar já havia denunciado em 1826 contra a Doutrina Monroe (1823), inscrevendo assim a distinção entre uma América Anglo-saxônica e uma Latina que, mais tarde, levaria José Martí a falar de “nuestra América”. Enfim, um anti-imperialismo precoce distingue as duas Américas.
Ora, América Latina ainda é uma América que se vê européia – latina – e, com isso, silencia outros grupos sociais e nações que longe estavam da latinidade, a não ser sofrendo seus desdobramentos imperiais que tão marcadamente caracteriza a tradição eurocêntrica. Afinal, nos dirá Walter Mignolo, foi a latinidade e não a africanidade ou a indianidade que se impôs como nome do subcontinente[4]. De certa forma é isso que os povos originários de Abya Yala querem afirmar com seu nome próprio por meio do qual buscam se re-apropriar do território que lhes foi arrebatado que, como se vê, não definitivamente. Mas a expressão, a princípio, também deixa de fora os afrodescendentes e outros grupos subalternos.
O interessante é que a ideologia da mestiçagem buscou exatamente suprimir essa tensão entre os diferentes grupos sociais e, com isso, introduzindo uma identidade – a mestiça – que silencia, sobretudo os grupos sociais que foram racializados pela tradição colonial. As ciências sociais têm sofrido com essa transposição de conceitos oriundos das ciências da natureza, como esse de mestiçagem que, no fundo, dá sobrevida ao pseudo-conceito científico de raça. Enfim, a ideologia da mestiçagem contribui para que se olvide a construção epistêmica das relações sociais e de poder de modo racializado. Afinal, aqui na América não havia índios, assim como na África não havia negros. Foi o encontro colonial, La Boétie chamou mal-encontro, que classificou o outro pela cor da pele e, com isso, instituiu um sistema de classes sociais racializado, conforme Aníbal Quijano nos esclarece[5]. Ou como bem disse nos anos 60 o intelectual e ativista aymara Fausto Reinaga: “Danem-se, eu não sou um índio, sou um aymara. Mas você me fez um índio e como índio lutarei pela libertação”. Definitivamente há uma racialização na instituição das classes sociais entre nós.
É sintomático que a elite criolla tenha nos brindado com a expressão América Latina e não América Criolla que, talvez, nos ajude a dar conta das contradições que se inscrevem nesse continente e que nos atravessa de norte a sul. E nos diz muito do poder de enunciação dos diferentes grupos sociais, no caso, a hegemonia criolla que, como toda hegemonia dominante, esconde seu lugar de enunciação. Assim, a elite criolla não nomeou o continente com seu lugar de enunciação e, por isso, não nos ofereceu uma América criolla.
Mas se criollo é aquele de outro lugar nascido na América, a expressão não tem o mesmo sentido quando vista dos Andes e da América Central ou quando vista do Caribe e do Brasil. Se na América andina e centro-americana ela está claramente identificada com o fidalgos, ou seja, com os filhos d´alguém (de onde vem a expressão fidalgo), no Caribe e no Brasil a expressão crioulo se refere aos negros ou seja aos filhos de ninguém, aos dannés, ou seja, aos condenados da terra de Franz Fanon. A expressão de Robson, jogador do Fluminense dos anos sessenta, “Já fui negro, sei o que isso significa” é emblemática do que está implicado nos debates ora em curso em torno do tema racial.
Não vai ser invisibilizando essa tensão que seremos capazes de superar as contradições que nos habitam enquanto história in-corpo-rada há 500 anos. A experiência ora em curso na Bolívia e no Equador, onde o protagonismo indígena é indiscutível, mostra que é possível, com a interculturalidade, superar as limitações dos estudos culturais estadunidenses e seu multiculturalismo e ainda o pós-modernismo[6] que mantendo cada macaco em seu galho dá azo a nefastos fundamentalismos essencialistas. Afinal, é possível superar as xenofobias de inspiração racistas a partir de outros projetos epistêmicos e políticos e isso implica aceitar que a tradição liberal com seu princípio individualista tem cor e lugar de origem: a Europa. Mas, diga-se de passagem, não toda a Europa, mas uma Europa branca, falocrática e burguesa. Enfim, essa tradição é provinciana e como todo mau provincianismo pensa que seu mundo é O Mundo. E o pior provincianismo é aquele que detendo poder tenta se apresentar como uni-versal olvidando a pluri-versalidade do mundo. É bem o caso do eurocentrismo.
O nome próprio do espaço
De fato, nomear os lugares envolve uma apropriação. O espaço conforme é designado é apropriado pelos sujeitos, enfim, é tornado espaço próprio (território). Mas, cada qual se vê implicado nas designações/apropriações dos outros, dando-lhe outros sentidos sempre em circunstâncias historicamente indeterminadas[7]. Ao transformarmos o significado do termo com que nos designam, mudamos o modo de nos relacionarmos e de nos representarmos. Que designação melhor denomina o espaço em que vivemos com as nossas diferenças? Essa é a questão de fundo que envolve essas denominações que estrategicamente vêm servindo de invólucro e determinando conteúdo para esse continente.
Este texto busca explicitar que a luta pela classificação do espaço está profundamente implicada em lutas/relações sociais e de poder que se travam há pelo menos 500 anos nesses espaços “americanos”. É, desse modo, um embate entre política de identidade e o nosso investimento identitário na política (Mignolo, 2008) e, assim, há uma geopolítica para além (ou para aquém) dos Estados que, na verdade, os constituem. Afinal, o Estado ao se querer nacional se quer nascido naturalmente e é aí que reside todo o ocultar político de sua invenção (instituição), a começar pelo fato de se querer um território uni-nacional onde quase sempre residem múltiplas nacionalidades, distintas territorialidades. Enfim, há uma luta epistêmica e política que se trava em torno do espaço. Mudar o nome, obviamente, não significa mudar o objeto, nem o sentido do objeto porque isso depende da autoridade de quem nomeia, de quem designa (Bourdieu), e com que finalidade, consciente ou não, dá nome aos lugares. E essa própria autoridade é construída como bem destaca, nesse caso, Gramsci com seu conceito de hegemonia.
Enfim, haveremos de compreender essas lutas sociais nesses espaços reunidos sob a denominação de América como lutas epistêmicas e políticas. Isso significa muito mais do que mudar o nome, já que as “identidades nacionais” jogam ainda um papel político e simbólico central nessas lutas. Apesar de tudo, nós brasileiros, em geral, nunca nos sentimos latino-americanos. Há uma especificidade na construção identitária do brasiliano[8]. E as diferenças não podem caber em baixo do mesmo termo guarda-chuva. Não se trata, portanto, de criar um novo termo guarda-chuva ou de criar uma identidade que suprima diferenças, em nome de uma identidade verdadeira.
O que, afinal, estamos enfrentando é um deslocamento profundo no sentimento e no sentido de pertença de grupos a um espaço que lhes foi subtraído, inclusive cognitivamente. Por isso, a busca da identidade e de alguma unidade precisa levar em conta as diferenças – as diferenças coloniais, de que nos fala Walter Mignolo, em particular. Tudo indica que precisamos construir alternativas às alternativas que-aí-estão, conforme Boaventura de Souza Santos. Isso significa que a unidade que devemos buscar é a unidade de projetos coletivos de emancipações e libertações sociais, conforme sugere Hector Diaz-Polanco[9]. Se cambiar o nome do espaço envolve a construção dessas alternativas e projetos outros, temos que agenciar estrategicamente esse dispositivo. Afinal, “o espaço importa” e, assim, deve importar o modo como o nomeamos, porque isso acaba nos constituindo em nossa plenitude política e epistêmica ao conquistarmos o direito de nomear. A transmodernidade, de Enrique Dussel, e a interculturalidade, proposta a partir do mundo dos povos originários, são mais inclusivas do que as tradições eurocêntricas, sobretudo liberais (multiculturalismo e pós-modernismo). Cabe avançar no modo como essa proposta dialógica se inscreve no mundo material dos territórios com todo esse investimento de valores que admite o outro na sua diversidade. E que as relações de poder não se confundam com relações de dominação[10].
- Carlos Walter Porto-Gonçalves, Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - e de CLACSO (GT Hegemonia e Emancipações). Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira. Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000).
- Edir Augusto Dias Pereira, Professor da Faculdade de Educação da UFPA – Campus de Cametá.


[1] Ver o verbete Abya Yala, de Carlos Walter Porto-Gonçalves, publicado na versão em língua espanhola da Latinoamericana: Enciclopedia Contemporânea da América Latina e Caribe, Madrid, 2009.
[2] - Que originariamente designava o português que vivia de explorar o Brasil. Ver As Identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC, de José Carlos Reis. Ed. FGV, Rio de Janeiro, 1999.
[3] Admite-se também que o termo teria sido utilizado pelo do filósofo chileno Franciso Bilbao no mesmo ano.
[4] Agradeço ao Prof. Pedro Quental essa observação.
[5] Quijano, Aníbal, 2007 [1999] O que é essa tal de raça? In dos Santos, Renato Emerson (org.) Diversidade, espaço e relações étnico-raciais: o Negro na Geografia do Brasil. Ed. Autêntica, Belo Horizonte.
[6] Walter Mignolo diz que o pós-modernismo ainda permanece eurocêntrico em sua crítica à modernidade por não ser capaz de dar conta da colonialidade que lhe é constitutiva.
[7] Com essa idéia tentamos escapar de um determinismo histórico quase sempre reducionista, sem abrir mão das determinações que sendo históricas são, sempre, dialeticamente abertas. Enfim, as indeterminações não são indeterminadas, são historicamente situadas e, assim, também geográficas.
[8] O termo é dicionarizado (Ver o Dicionário do Aurélio Buarque de Hollanda) e com seu uso procuramos nos distanciar e acusar um sentido oculto de brasileiro – o que vive de explorar o Brasil – com o qual não nos identificamos.
[9] Ver Diaz,-Polanco, Héctor. 2004. El Canon Snorri, Ed. UACM, México.
[10] Conforme nos ensina Pierre Clastres, 1988 [1974]. A sociedade contra o Estado, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves.

"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Noam Chomsky deu uma longa entrevista ao jornal La jornada, em comemoração aos vinte cinco anos deste periódico mexicano. Suas reflexões são bombásticas e muito bem fundamentadas. Nela, Chomsky fala longamente sobre o que chama "a ilusão Obama". Apesar de extensa, vale a pena ler no sítio Carta Maior a íntegra das declarações desse grande pensador da contemporaneidade.


"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Em entrevista ao La Jornada, Noam Chomsky fala sobre a América Latina, definindo-a como uma das únicas regiões do mundo onde há uma resistência real ao poder do império. "Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os EUA derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo", diz Chomsky.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16160&boletim_id=594&componente_id=10006

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pesquisa do IPEA sobre à desigualdade social no Brasil



Todos os grandes veículos de comunicação do Brasil alardearam em alto e bom som os resultados de uma avaliação feita pelo IPEA sobre os dados do PNAD (pesquisa nacional por amostra de domicílio) para o ano de 2008. A análise dá conta de que um rico gasta apenas em três dias o que um pobre leva um ano inteiro para gastar. Esses dados sempre são chocantes, mas não chegam a ser inesperados para aqueles que têm o hábito de acompanhar as vicissitudes históricas e políticas do Brasil. De fato, a quantificação sempre nos dá calafrios e ânsia de vômito.
Alguns meios de comunicação chegaram a mencionar a tendência de queda dessa desigualdade nos últimos anos. Mas o que eles "efetivamente" não revelaram foi o comentário feito pelo coordeador da pesquisa Sergei Soares. Ele explica que mantendo essa tendência recente de redução da desigualdade registrada nos últimos anos, que em média foi de -0,007, “o Brasil levará 20 anos para chegar a um patamar que pode ser considerado justo”. Segundo ele, isso corresponde a um valor de 0,40 no índice de Gini (índice que mede a destribuição de renda numa sociedade). O pesquisador sugeriu ainda que o governo “continue fazendo mais do mesmo”, estimulando programas como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo, e invista em educação e estimule a formalidade no mercado de trabalho.
Como se vê, as medidas sociais desenvolvidas pelo governo, tem sim, atuado no sentido de minorar o flagelo da desigualdade social em nosso país. Não é a primeira vez que o programa "Bolsa família" é citado como peça estratégica para o combate à desigualdade social. Por outro lado, o que se vê é um esforço sobre-humano da grande mídia brasileira em tergirversar, no sentido de ocultar e desinformar os seus leitores.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Música brega, o que é isso?




Música brega, o que é isso?

Por Ricardo Moreno

O termo brega sempre esteve pejorativamente associado ao mau gosto, a algo desqualificado e cafona. Não sei exatamente desde quando o termo é usado, mas com relação à música, o meu primeiro contato com o termo foi associado a uma geração de cantores que chegou ao sucesso em fins da década de 1960 e início dos 1970. Essa geração a qual me refiro contava, entre outros integrantes, com: Odair José; Fernando Mendes; José Augusto; Reginaldo Rossi e Evaldo Braga, o ídolo negro. Havia muitos outros, mas estes acima, compunham, entre si, uma unidade. Eles surgem num momento em que do ponto de vista de consumo de massa para a juventude, o que estava fazendo sucesso era a jovem guarda.

Se por um lado a jovem guarda era uma espécie de diluição ou de tradução para os brasileiros do que estava acontecendo no cenário pop internacional, do outro, esta geração chamada de brega, era uma tradução ou diluição da jovem guarda, para uma juventude mais popular. Não obstante essa ligação com a jovem guarda, os compositores das canções “bregas” criavam em suas letras um ambiente muito próximo dos antigos boleros, e, não raro, construíam letras ainda mais dramáticas e carregadas. Títulos como “cadeira de rodas”, que fala de amor não realizado com uma paraplégica; “eu vou tirar você desse lugar”, que trata do amor de um jovem por uma prostituta, entre outras, denotam bem essa tendência.

Se é certo que essa geração nunca compôs propriamente um movimento, e nunca deram a si, pelo menos em um primeiro momento, o nome de brega, de onde vem essa definição? É quase inescapável, quando tentamos responder a essa questão, perceber o viés classista nela embutida. Se formos falar do ponto de vista absolutamente musicológico pode ser (não estou certo disso) que encontremos elementos que nos dê alguma unidade para a definição. Mas é possível que o que se chama brega ou mau gosto esteja menos na melodia do que no arranjo e na letra. Na letra sim, porque ela fala diretamente à emoção de milhares de pessoas das classes subalternas da sociedade. A forma que usa para falar desses temas também não se pauta pelos cânones da “boa” escrita. Os temas e personagens que desfilam são também todos de um mundo socialmente subalterno: empregadas domésticas, prostitutas, amores suburbanos, etc.

No fundo, talvez, a definição do que é ou que não é brega, esteja por conta de determinados grupos que se encontram na posição de “legítimos” definidores do que é o bom e o mau gosto. A definição me parece, portanto, produzida pelos grupos que não são bregas, ou em outras palavras: brega é uma determinada música ou cultura produzida e consumida pelos grupos socialmente subalternos, que não são os possuidores da legitimidade de dizer o que é e o que não é “bom gosto”.

Sobre a etimologia da palavra brega paira um mistério. Há várias versões, e também vou produzir a minha, com licença: o termo brega vem de um outro termo maior chamado “xumbrega” – consignado inclusive no dicionário Houaiss, como coisa reles, ordinária e de mau gosto – este termo, muito utilizado no nordeste brasileiro, por sua vez, deriva de uma situação curiosa: quando da expulsão dos holandeses de Pernambuco no século XVII, foi designado para governador desse estado um homem chamado Jerônimo Furtado. Este ganhou do povo o apelido de Xumberga, por usar bigodes parecidos com os do general alemão Von Schomberg. Ora, este último gozava de muito respeito por ter tido presença de destaque nas lutas contra os holandeses. Havia entre os naturais de Pernambuco a intenção de enxovalhar a figura de Jerônimo Furtado, uma vez que este se identificava com a corte portuguesa justamente em um momento de grande sentimento nativista naquele estado. O apelido de “xumberga” para o novo governador, tinha então a intenção de designá-lo como uma cópia inferior e ridícula do general Schomberg.

Resumindo, portanto, podemos deduzir que a palavra brega vem do adjetivo “xumbrega”, que por sua vez deriva de Schomberg, nome de um general alemão. Claro que esta é apenas mais uma hipótese para a etimologia da misteriosa palavra “brega”...




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mais um blog militante

Navegando pela blogsfera descobri esse blog de documentários. Parece ser muito bom. Chama-se Doc verdade. Quem tiver interesse, segue o link abaixo.

http://docverdade.blogspot.com/

Mais uma da rede Bandeirantes

Acabo de assitir mais uma vez aos ataques da rede bandeirantes às propostas de mudanças nos índices de produtividade da terra com vistas a reforma agrária. O fato novo é que pela primeira vez eles botam no ar alguém favorável às mudanças: o presidente Lula. Foi preciso a fala do presidente para que essa empresa, membro do PIG (Partido da Imprensa Golpista) desse voz ao outro lado da questão. Mesmo assim só por alguns segundos. Em contrapartida eles fizeram um editorial horrendo, apelando para o medo, a mentira, e o ódio. Mas não se pode esperar nada mesmo desse pessoal que representa tão bem a Casa grande, as capitanias hereditárias, etc.
Repudiemos essa odiosa postura da rede bandeirantes, com e-mails para a emissora.

Convite aos professores

Convite aos professores


O Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA – inicia uma pesquisa com estudantes dos ensinos fundamental e médio de modo a analisar as motivações que levam este grupo de estudantes a adotar a prática do vício de fumar.

Tendo como base pesquisa que acabamos de concluir – com 1800 universitários, de 31 cursos e de 5 Estados – o NEPA pretende levar esta pesquisa a maior
número de Estados possíveis.

Para isso necessitamos de professora(e)s dos ensino fundamental e médio (escolas públicas e privadas) da Região Sudeste que tenham interesse em
atuar como pesquisadora(e)s junto a suas escolas, tomando como base metodologia que será transferida e apoiada pelo NEPA em relação a cada
interessado.

Os que tiverem interesse – maiores detalhes sobre a pesquisa e a metodologia – devem fazer contato com o NEPA ( roosevelt@ebrnet.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ).

O nome de todos os pesquisadores envolvidos na pesquisa farão parte do trabalho final (produto da pesquisa) que visa conhecer o perfil nacional do
Tabagismo (motivações que levam a ele) entre estudantes do ensino fundamental e do médio.

Roosevelt - NEPA / UNIVIX

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um paralelo curioso: Debussy e Luiz Gonzaga

Por Ricardo Moreno

Na história da música, tanto popular quanto erudita, e até mesmo, no sentido mais geral, na história das artes e das ciências, encontramos sempre o que podemos chamar de pontos de inflexão. São momentos em que ocorrem guinadas, mudanças de curso, enfim, mudanças. Desta forma, alguns autores constituem-se como liminares, no sentido de que servem como pontos de passagem para a construção de um novo momento naquela atividade. Em certo sentido, foi isso o que aconteceu com os autores acima citados.

Quando da crise no sistema tonal (simplificando ao máximo, podemos dizer que este sistema é o que usa aquela escala que aprendemos, quando crianças, na escola: dó, ré, mi... si, dó) na chamada música de concerto, ocorrida no século XIX, os compositores estavam à procura de estabelecer novos caminhos para a produção musical. A produção da chamada Escola de Viena com Schoenberg, Alban Berg e Webern, foi, de certa forma, uma modo de responder a esta crise. Como afirmava Schoenberg, o trabalho de Wagner já tinha anunciado a crise do sistema tonal, e que depois dele não era possível mais nenhum retorno. Foi desse entendimento que surgiu a necessidade de construir um novo código que fosse mais longe do que Wagner já tinha ido. Esse código seria o dodeca-fonismo e depois o serialismo integral.

Uma outra solução vinha da França: Claude Debussy. Além da questão timbrística (novos sons resultantes de novas combinações de instrumentos) que preocupava este compositor, havia também a possibilidade de usos dos modos (sistema que organiza as notas da escala de forma diferente do sistema tonal) que ele descobriu, ou pelo menos teve um precioso insight, a partir da audição de músicas orientais na Feira Mundial de Paris, por ocasião das comemorações do centenário da Revolução Francesa (1899). Além dos modos, havia também a questão das polirritmias (sistema pelo qual várias “linhas” rítmicas são articuladas simultaneamente), que Debussy afirmou ser imensamente superior às formas rítmicas usadas na tradição da música ocidental.

Ora, a utilização de estruturas modais antigas e advindas de outras tradições não ocidentais, acabou sendo uma forma de oxigenação para a música ocidental. Quer dizer, uma forma aparentemente superada de estruturar os sons retorna através de novos usos perfazendo um novo sistema, ou melhor, uma nova forma de usar o antigo sistema. Outros compositores de música contemporânea também utilizaram elementos modais em suas peças. Esse é o caso, segundo José Miguel Wisnik, de Steve Reich que encontrou na música balinesa e africana, elementos modais e mesmo estruturais, e os utilizou em seus próprios processos composi-cionais minimalistas.

O caso Luiz Gonzaga na música popular segue um esquema aproximado ao de Debussy na música erudita. Isto porque quando Gonzaga surge no cenário musical brasileiro, na década de 1940, este era de natureza predominantemente tonal. E continuou sendo mesmo depois que ele introduziu elementos modais no cancioneiro popular brasileiro. É possível pensar que Luiz Gonzaga tenha feito essas introduções de modalismos sem refletir muito sobre isso, mas o mesmo não se pode dizer das gerações de compositores jovens que surgem nos anos 1960, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo, que se valeram desse conhecimento para produzir inflexões estéticas na música brasileira, como forma mesmo de “oxigenar” e renovar os caminhos da MPB.

É sintomático que tenha sido do Nordeste brasileiro que tenha vindo esta “solução”. Isto porque, como se sabe, esta é uma das regiões brasileiras mais atrasadas do ponto de vista econômico, e com baixos níveis de escolarização. Mas talvez seja por isso mesmo que os artistas dessa região puderam ter contatos com indivíduos que por estarem fora da tradição escolar, continuavam a produzir seus cantos e sua modas fora dos esquemas eleitos como canônicos pela tradição letrada. É dessa forma que um modo musical, que possivelmente remonta a antiguidade, o chamado mixolídio, possa ter permanecido em uso nos aboios cantados pelos vaqueiros sertanejos. Luiz Gonzaga ouviu e com essa estrutura compôs: “eu vou mostrar pra vocês, como se dança o baião...”. Este verso foi construído em cima da referida estrutura mixolídia.

O importante é que entendamos que o código musical, como qualquer outro código comunicativo, corre o risco de enfraquecimento quando começa a se tornar redundante. Nesse momento ele precisa do aporte de novas informações, e foi de certa maneira isso que aconteceu com o modalismo tanto na música popular brasileira do século XX, quanto na música de concerto européia do século XIX. Outra lição que podemos tirar daí é que esta revigoração do código pode vir de conhecimentos aparentemente ultrapassados e antigos. É preciso estar atento às novidades do velho!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Um sonho de Gilberto Gil

A propósito da discussão em torno dos novos papéis da cultura, que tratei no texto "cultura em novos cenários", há uma canção do Gilberto Gil da década de 1970, que desenvolve muito bem esse tema. A canção chama-se "um sonho", e a ouvi pela primeira vez numa gravação primorosa do quinteto violado. Aliás o Lp que contém essa canção é uma obra primorosa. O seu título é "Pilogamia do baião". Não, caro leitor, não me equivoquei na digitação. O título é esse mesmo, e não adianta procurar no "Aurélio", pois trata-se de um dos tantos neologismo criado pelo poeta-visionário-místico Zé Limeira, o poeta do absurdo. Dizem que o Zé Limeira é uma invenção do jornalista Orlando Tejo, mas isso já é outra história...
Segue abaixo o texto no qual eu faço uma pequena análise da letra:

Há uma canção de Gilberto Gil dos anos 1970, que expressa bem as discussões em torno dos valores modernos (industriais) e pós-modernos (Pós-industrais). Ela chama-se “um sonho”. Diz a letra:
Eu tive um sonho
Que eu estava certo dia
Num congresso mundial
Discutindo economia.
Argumentava
Em favor de mais trabalho,
Mais emprego, mais esforço,
Mais controle, mais-valia.
Falei de pólos
Industriais, de energia,
Demonstrei de mil maneiras,
Como que um país crescia
E me bati
Pela pujança econômica,
Baseada na tônica
Da tecnologia.
Apresentei
Estatísticas e gráficos
Demonstrando os maléficos
Efeitos da teoria,
Principalmente,
A do lazer, do descanso,
Da ampliação do espaço
Cultural, da poesia.
Disse por fim,
Para todos os presentes,
Que um país só vai pra frente,
Se trabalhar todo dia.
Estava certo
De que tudo o que eu dizia
Representava a verdade
Pra todo mundo que ouvia.
Foi quando um velho
Levantou-se da cadeira
E saiu assoviando
Uma triste melodia,
Que parecia,
Um prelúdio bachiano,
Um frevo pernambucano,
Um choro do Pixinguinha.
E no salão,
Todas as bocas sorriram,
Todos os olhos me olharam,
Todos os homens saíram,
Um por um, um por um, um por um, um por um.
Fiquei ali,
Naquele salão vazio,
De repente senti frio,
Reparei: estava nu.
Me despertei,
Assustado e ainda tonto,
Me levantei e fui de pronto
Pra calçada ver o céu azul.
Os estudantes
E operários que passavam
Davam risada e gritavam:
"Viva o índio do Xingu! "Viva o índio do Xingu! Viva o índio do Xingu! Viva o índio do Xingu! Viva o índio do Xingu!"


Esta letra, que tem estrutura poética semelhante ao côco nordestino (estrofes de 4 versos com o primeiro contendo 4 sílabas e os restantes com 7), apresenta o relato de um sonho ocorrido ao eu lírico. Não é revelada a posição ideológica do mesmo, mas no sonho ele assume a posição “moderna” - industrialista-burguesa. Estando ele num congresso de economia, defende a criação de mais emprego, mais esforço e defende a mais-valia. Tudo isso através da criação de indústrias, de pólos de energia, isto sim, signos de desenvolvimento e prosperidade. O crescimento, dessa forma, viria da tecnologia, entendida aqui, como tecnologias tradicionais: máquinas (signo moderno).
O discurso racionalista (estatísticas e gráficos) não poupava os signos do atraso: o lúdico, o lazer, o descanso e o “espaço cultural da poesia”. Só o trabalho (o país só vai pra frente se trabalhar todo dia) pode gerar a riqueza e a acumulação que se deseja. Inebriado pelo seu próprio discurso, o orador não se dava conta do anacronismo e inadequação do seu discurso (estava certo de que tudo que eu dizia representava verdade pra todo mundo que ouvia). Só se apercebe quando um velho levanta-se da cadeira e sai assobiando. Notem que contra o discurso lógico-racionalista do defensor da “pujança econômica”, se opõe matreiramente uma atitude não discursiva, mas cheia de significados. Com seu gesto lúdico (sair assoviando) o velho desarma toda a racionalidade e verborragia do orador. E não é qualquer coisa que o velho assovia.
A indefinição da melodia, que está entre um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano ou um choro de Pixinguinha, produz um arco de solidariedade entre a cultura popular e erudita. A música, como contra-discurso, desestabiliza o discurso lógico racional. A ação do velho (emblematicamente um portador da tradição) é devastadora para o orador, que repentinamente se vê nu (o rei está nu). Ato contínuo ele é exposto ao ridículo e todas as bocas sorriem, todos os olhos o olham, e todos os homens se retiram... ele fica só e sente frio. E agora José? Nesse momento ele acorda assustado e vai para a calçada ver o céu. Nas ruas a cena que ele vê parece que continua a reforçar o contra-discurso iniciado pelo velho. O que ele vê ainda lhe parece insólito. Jovens estudantes e operários gritam entre risadas: “viva o índio do Xingu”. O índio aqui pode ser entendido como o antípoda da mentalidade industrialista, um signo macunaímico (ai, que preguiça).

Nesta canção Gilberto Gil realiza sinteticamente a discussão em torno do moderno e do pós-moderno no sentido que atribuímos aqui. E é sintomático que a frente do Ministério da Cultura, Gil seja um aguerrido defensor dos novos papéis da cultura nos novos cenários que se configuram na contemporaneidade.

sábado, 19 de setembro de 2009

Paulo Freire - Um mestre na periferia do capitalismo



Hoje, 19 de setembro de 2009, um grande pensador e educador brasileiro completaria 88 anos de existência. Refiro-me ao mestre Paulo Freire. Na condição de educador, que sou, tenho que reconhecer que infelizmente sua obra é muito mais citada do que lida e conhecida.
Como ele mesmo disse "não há prática de educação que seja neutra". É isso! Talvez aí esteja uma chave para seu aparente esquecimento. Digo aparente porque muitos pensadores, educadores e instituições não deixaram, graças a Deus, essa efeméride passar em branco. Hoje, quando se configura um novo campo teórico denominado "Teoria pós-colonial", ferramenta importante para discussões e práticas em torno da educação, estudos culturais, cultura e política, etc, a sua figura ganha mais vulto, na medida em que antes mesmo da consubstaciação desse campo de estudos, a sua obra já a prenunciava. Seu nome é citado contemporaneamente como um pensador cuja teoria e prática já se situava nesse campo.
A obra de Freire parece estar em plena sintonia com uma indagação da antropóloga Gayatri Spivak, que em uma obra já clássica na Antropologia de viés pós-colonial, "pode o subalterno falar?", indagava da possibilidade do subalterno se subjetivar plenamente, se livrando assim, da heteronomia e afirmando sua autonomia. Não foi outra a luta de Freire se não a de fazer do subalterno um sujeito autônomo e capaz de ser um agente pleno da história.
Por tudo isso e mais um milhão de coisas, é necessário que de vez em quando demos uma estudada na obra desse mestre inspirador (por mais que as vejas da vida diga o contrário). Salve o dia 19 de setembro!!

ps. Ah, o título desse postagem foi "arrastada" como diria Tom Zé em sua estética do plágio, de um título de Roberto Schwarz sobre Machado de Assis.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cultura em novos cenários

CULTURA EM NOVOS CENÁRIOS
texto de Ricardo Moreno

O termo cultura é um daqueles termos que diz tudo e não diz nada ao mesmo tempo. Ele tem sofrido diversas interpretações ao longo do tempo e variou muito ao sabor das disciplinas que tratam do tema. Até aproximadamente o século XVIII, na Europa, o termo tinha, entre os grupos letrados, a tendência de se referir à literatura, à arte ou à música. Gradativamente ele vai perdendo essa aura para se referir a quase tudo compreendido em uma dada sociedade. Coisas como comer beber, falar, vestir, entre outros, passaram a ser entendidas como culturais. Essa inflexão no termo vai praticamente consolidar a idéia de cultura como algo que se opõe à natureza. Nessa perspectiva o cultural vai se confundir com o social. Essa inflexão de viés culturalista foi importante na medida em que os diversos fazeres dos mais variados povos passaram a ser aceitos como cultura. Portanto, cultura não se definia mais como aquelas práticas identificadas com as classes superiores. No entanto, e não poderia ser diferente considerando uma sociedade complexa de classes e hierarquizada, outros termos passaram a ser agregados ao termo cultura para designar suas características. Daí vão surgir termos como “cultura erudita”, “cultura popular”, “alta cultura” etc.

No Brasil a introdução do termo na cena política/intelectual vai praticamente redimensionar as explicações e entendimentos que se tem do país. Foi a partir do trabalho do sociólogo Gilberto Freyre, nos anos 1930, que se operou uma tentativa de superação dos discursos raciológicos que estavam em voga na então emergente ciências sociais brasileira. Dessa forma buscava-se entender as condutas e valores dos grupos sociais, étnicos, etc., como construções ou estratégias frente a uma dada realidade, assumindo assim uma forma fluida e dinâmica em oposição a uma visão reificada ou naturalizada.

É, portanto, nessa perspectiva de entendimento de cultura como construção de subjetividades e valores, que ela vai cumprir um papel importante nos novos cenários no século XX. É sintomático, por exemplo, que no pensamento marxista do século XIX a cultura tenha apenas um papel secundário, sendo entendida meramente como superestrutura, ou seja, reflexo da infra-estrutura (modos de produção), esta sim, o verdadeiro fator determinante das condições objetivas da sociedade. No século XX autores de orientação marxista como Gramsci, Adorno, Hobsbawm, Raymond Williams e Fredric Jameson passam a dar mais peso à esfera cultural vendo-a não mais como condição reflexa da realidade infra-estrutural, mas como campo formador de consciências.

Tratando de uma forma muito esquemática e simplificada pode-se afirmar que na modernidade, momento identificado com a industrialização, o foco estava na produção, ou na infra-estrutura, na visão marxista. Simbolicamente podemos tomar a década de 1930 como emblemática, na medida em que ali ocorreu a conhecida crise no sistema capitalista em função da super abundância produtiva dos Estados Unidos. Há em seguida um deslocamento da produção para o consumo. Era preciso, a partir de um sistema midiático de comunicação (rádio, jornais, cinemas), atuar na construção de estilos de vida voltados para o consumo. É aí que começa o momento pós-industrial, ou pós-moderno como querem alguns. Fredric Jameson prefere chamar de capitalismo tardio, e a pós-modernidade seria então um novo estágio na configuração capitalista.

Desde a segunda metade do século XIX, mais enfaticamente no século XX, ocorreu a constituição de um grande aparato midiático de produção cultural conhecido como indústria cultural. Esse sistema, altamente monopolista e concentrador, guarda uma relação estreita com o sistema que o gera. Ele não é apenas um mero transmissor de entretenimento descompromissado com o poder. A indústria cultural, termo cunhado pelos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, foi muito estudada pelos criadores da Escola de Frankfurt. Adorno, fugindo da Alemanha nazista, residia nos Estados Unidos justamente no momento de consolidação desse grande aparato industrial, e, compreensivelmente manifestava uma visão um tanto pessimista quanto à eficácia do controle das mentes efetivadas por esse sistema.

No final do século XX e início do século XXI, talvez em sintonia com essa etapa pós-industrial, começa a surgir em vários países a preocupação em construir o que tem sido chamado de “economia da cultura”. Segundo o Banco Mundial essa economia já é responsável por 7% do PIB global. Na Inglaterra tem havido investimentos significativos nesse setor com vistas a produzir um substituto à indústria manufatureira. Importante também salientar a constituição de um mercado fonográfico internacional voltado para a música étnica.

O Brasil também está atento a esse processo, e em 2006 criou o PRODEC – Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura. O programa se porpõe a constituir um ambiente favorável ao desenvolvimento das empresas criativas e dos criadores, para que o mercado possa ampliar-se, ganhar eficiência e realizar o seu potencial, não apenas de sustentabilidade econômica, mas de ganhos sociais (emprego, renda, inclusão ao consumo de bens culturais). Nesse sentido as culturas populares têm sido contempladas e se constituem como importante lócus para o desenvolvimento econômico. A essa iniciativa ainda se juntam outras tais como os “pontos de cultura” e a constituição do patrimônio imaterial brasileiro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

United breaks guitars

Vejam que história interessante (não sei se é absolutamente verdadeira, mas...): um músico profissional estadonidense viajou pela empresa aérea United Airlines nos EUA, tendo despachado seus instrumentos como bagagem. Na chegada, a empresa entregou a sua guitarra Taylor quebrada. Ele tentou de todo jeito ser indenizado, em cerca de US$ 2.000.00. Depois de várias tentativas frustradas e muita
enrolação, ficou no prejuízo e, injuriado, compôs uma música como protesto e
fez um clip debochado - "United breaks guitars" - e sapecou no YouTube. A música é
do estilo country, tem uma levada bem prá cima, descontraída e alegre. O clipe tá fazendo o maior sucesso com milhões de acessos. A companhia aérea United Airlines já apresentou a ele várias propostas para que tirasse o clip do ar, todas recusadas. Já chegou a oferta de US$ 200.000.00 e o filminho continua no ar. E ele disse que agora só com U$ 2.000.000.00 O cara foi esperto e deu o troco, sacaneando a United... Segundo ele, o tempo dos "espertos" da United passou. E o clip continua arrasando!
Veja o clipe legendado em

http://www.youtube.com/watch?v=t53LYUamBZI

A historinha acima não é apenas divertida. Ela nos dá pistas de novas configurações políticas que estão em curso. Refiro-me ao que o antropólogo Néstor Canclini pensou com relação ao consumo como força política. Outra coisa é o papel da cultura frente a essas forças tradicionais, tipo empresas, mega-corporações, etc. Uma canção no youtube pode valer milhões, e aí vai pelos ares toda a prepotência da megacorporação...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Som do Imaginário ou Roqueiros de Antigamente

O Som do Imaginário ou Roqueiros de Antigamente

Por Ricardo Moreno


O articulista desta coluna escreve estas linhas ainda sob os afetos do falecimento do ídolo Zé Rodrix. É certo, talvez, que a morte seja para nós, como escreveu o filósofo Heidegger, “a possibilidade mais própria e incondicionada, certa e, como tal, indeterminada e insuperável”. Mas mesmo assim, acrescenta ele, a excluímos de nossa cotidianidade e a remetemos para um campo fora do nosso horizonte possível, como se ela dissesse respeito ao SER, mas não ao ser individual que somos. Não obstante esse exercício de exclusão existencial da morte, ela imiscui-se em nossas vidas e nos obriga ao exercício da reflexão e do sentimento.

Zé Rodrix foi um desses artistas inquietos e versáteis que traduziu em canções todo um imaginário de uma época e de uma geração. Canções como “ama teu vizinho como a ti mesmo”, “hoje ainda é dia de rock”, “primeira canção da estrada” e “casa no campo”, não só traduziam todo um conjunto de desejos de uma geração insatisfeita com o status quo, como apontavam para um modo de vida que, independente de se fazer a opção de ir ou não morar em comunidades alternativas, estava ao alcance de todos em suas práticas cotidianas.

Rodrix participou, como quase todos de sua geração, dos festivais de música popular da década de 1960. Esteve no grupo vocal “momento quatro” que acompanhou Edu Lobo na interpretação da canção “ponteio” (vejam no youtube, ele é o mais baixinho e ainda não usava bigode); venceu, com “casa no campo”, parceria com Tavito, o festival de Juiz de Fora em 1971; participou também nessa época do grupo “som imaginário”, que acompanhou Milton Nascimento; e inventou uma nova sonoridade, o rock rural, ao lado de Sá e Guarabyra. Sua trajetória artística é um exemplo claro de uma dinâmica musical invejável. Em seu repertório incluem-se rumbas, rocks, baladas românticas, e até samba (xamêgo da nega). É nesse sentido, um compositor pós-tropicalista, que soube fundir em sua obra tendências diferentes, sempre com muita competência e humor.

Ao lado de Sá e Guarabyra gravou apenas dois Lp’s: “passado presente e futuro” de 1972 e “terra” de 1973. Estão nesses dois discos, pérolas como a psicodélica “zepelin”, cujo arranjo é francamente inspirado nos que George Martin fazia para os Beatles. Lá está também um hino da geração mochileira: “primeira canção da estrada” (“tinha apenas dezessete anos / no dia em que sai de casa / e não fazem (sic) mais de quatro semanas / que eu estou na estrada”). Outra que merece destaque é a belíssima “mestre Jonas” que recentemente foi incluída no filme “meu nome não é Johny”.

Os arranjos também compõem um aspecto importante na obra de Zé Rodrix. Uma quase constante em sua produção da década de 1970 é o uso dos metais. Destaco aqui o arranjo feito pelo próprio Zé, para a canção “casca de caracol” do Lp “I acto” (primeiro disco solo) de 1973. Neste arranjo os metais (trombone, trompete e trompa – esta última tocada pelo educador Bohumil Med) dialogam de forma muito sutil e criativa com a linha de baixo. Outro arranjo magistral foi o arranjo feito para a clássica canção cubana “guantana-mera” do disco “quando será?” de 1977. Se prestarmos atenção notaremos que durante toda a canção não há presença de nenhum instrumento típico de acompanhamento (baixo, bateria, violão etc) a base harmônica é feita por vozes de um coral, e uns sinos. Um primor de delicadeza e de utilização sutil dos recursos musicais.

A obra de Zé Rodrix é muito inspira-dora, e se posso aqui assumir a função de conselheiro, sugiro aos músicos e compositores mais jovens que ouçam a obra desse irrequieto compositor popular. Ah, e sugiro também que os amantes da boa e velha mpb se deliciem com a obra desse carioca e brasileiro de boa cepa.

Obs.: Algumas ideias desenvolvidas aqui foram concebidas em uma daquelas conversas instigantes no restaurante “ora pro nobis” em Santa Teresa. Uma parte do título foi sugerida pelo jornalista Jorge Veloso (o som do imaginário). A expressão “roqueiros de antigamente” era como meu filho, Ícaro, então com 6 anos, se referia aos discos de Sá, Rodrix e Guarabyra. Por fim agradeço a Jaime Bastos Filho, por me chamar a atenção para o arranjo de “guantanamera”.

20 anos da morte de Raul Seixas


20 ANOS SEM RAUL SEIXAS


No próximo dia 21 de agosto estará completando 20 anos da morte de Raul Seixas e uma efeméride como esta é sempre um momento para comemoração e reflexão. Um momento para que lembremos juntos (coo-memorar) um acontecimento ou alguém cuja existência, de alguma forma iluminou os caminhos de outrem. É sem dúvida, o caso da obra do maluco beleza Raul Seixas. Raul, como era seu desejo, deixou sua marca no planeta, e essa marca se traduz pela capacidade que teve de apontar caminhos, seduzir pessoas e traduzir sentimentos.
A sua obra é tão fácil de se apaixonar, quanto difícil de analisar. Difícil pelo fato dela ser multifacetada e até mesmo contraditória. Raul, como diz uma de suas letras mais autobiográficas – “metamorfose ambulante” – se define como um ator, abrindo aí, portanto a possibilidade de encarnar múltiplos personagens e discursos diversos. Num esforço classificatório poderíamos distinguir em sua obra dois momentos distintos: a primeira fase, que vai de 1973 – ano do lançamento do álbum Krig-Há-Bandolo – até o final da década, quando lança dois Lp’s: “o dia em que a terra parou” de 1978, e “mata virgem” de 1979. Esses dois últimos álbuns da década de 1970 são como uma transição para um Raul mais cheio de altos e baixos da década seguinte.
Musicalmente Raul pertence àquela geração denominada pós-tropicalista, que incorpora ao seu modo, as propostas estéticas do movimento tropicalista. Lembremos que na década de 1960 havia, em linhas gerais, dois grupos de contestação ao regime, ou ao sistema, no sentido mais amplo. De um lado uma produção de canções identificadas com uma esquerda mais engajada, vinculada aos Centros Populares de Cultura e a música de protesto; e do outro uma proposta mais conectada a uma estética contracultural ou hippie, cujo foco estava na atitude, no comportamento e nas transformações estéticas. Geraldo Vandré, que podemos tomar aqui como ícone do primeiro grupo dá uma “estocada” na rapaziada da contracultura, quando põe na letra da sua célebre “caminhando e cantando” os versos: “... pelas ruas marchando indecisos cordões / ainda fazem da flor seu mais forte refrão / e acreditam nas flores vencendo canhão...” um claro recado ao pessoal do flower Power.
Raul então funde tropicalisticamente a influência rock, a música brega e a música nordestina. Ele costumava dizer que tinha tanto influência de Elvis Presley quanto de Luiz Gonzaga. Aliás, ele escreveu em uma de suas últimas canções que há muito tempo tinha percebido que Genival Lacerda tinha a ver com Elvis e com Jerry Lee. Mas o que marcou mesmo Raul em sua primeira fase, foi aquela mistura de posturas na qual se fundiam a irreverência; a anarquia, como proposta político-existencial; o inconformismo e o misticismo oriental, tão ao gosto das correntes contraculturais estadunidense do final da década de 1960.
Raul era um entusiasta do individualismo – “eu sou meu país”, teria declarado certa feita –, talvez por isso nunca tenha estado ligado a nenhuma corrente musical. Artistas como Zé Ramalho, que chegou a gravar um cd fazendo uma releitura de sua obra; Tom Zé, que o cita em uma de suas canções e Belchior, que gravou “ouro de tolo”, tinham afinidades musicais com ele, mas nunca estiveram muito próximos musicalmente. Em um certo momento a gravadora WEA, na qual Raul gravou “o dia em que a terra parou” quis fazer uma aproximação musical entre ele e Gilberto Gil. A idéia era que os dois compusessem juntos uma canção para este disco do Raul. Mas não deu certo... o máximo que aconteceu foi Gil participar fazendo uns vocais da faixa “que luz é essa?”.
Se formos tomar de empréstimo a classificação feita pelo poeta Ezra Pound, na qual ele categoriza os artistas em inventores, diluidores e mestre (existem outras categorias, mas ficaremos apenas com as três), poderíamos afirmar que Raul estaria na condição de mestre. Pound define como inventores aqueles que instituem formas novas, anunciando uma nova configuração ainda desconhecida. Os diluidores são aqueles que se valem das formas já prontas, mas as simplificam, diluindo seus conteúdos mais profundos. E por fim, mestre seriam aqueles que se valem dos inventores, mas ao contrário dos diluidores, realizam uma obra de excelência. Consignamos Raul na condição de mestre (para a contrariedade de muitos fãs), por acreditar que ele se valeu de elementos oriundos da estética e da postura tropicalista, mas realizou com este espólio uma obra virtuosa.
Havia nas décadas de 1960 e 1970 discussões relativas ao que se chamava na época de música comercial versus música de qualidade. As duas eram como que antagônicas. Estava presente dentro da perspectiva dos tropicalistas de forma clara e consciente, a possibilidade de estar dentro das estruturas comercias de gravadoras, e, portanto, da indústria cultural, etc., e produzir canções de qualidade. Pensando as duas produções como não excludentes, era possível estar no programa do Chacrinha, sem se tornar uma arte menor por isso. Raul usou e abusou dessa “orientação”. Em uma de suas canções, “as aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor” ele diz textualmente: “pra se entrar num buraco de rato / de rato você tem que transar”, ou mais a frente, ainda de forma mais incisiva: “Raul Seixas e Raulzito / sempre foram o mesmo homem / mas pra aprender o jogo dos ratos transou com Deus e com lobisomem”. Ele foi, nessa perspectiva, uma invenção dele mesmo. Aprendeu dentro das estruturas burocráticas de produção de música comercial a criar um personagem cuja auto-mistificação servia para que ele pudesse passar a sua mensagem. Uma contradição total: Raul dizia mentiras para expressar a sua verdade e suas idéias.
Seja como for, Raul dos Santos Seixas, encarna como poucos o que já foi chamado de zeitgeist, ou o espírito do tempo. Sua obra dá corpo a um conjunto de inquietações que estavam pairando nos espíritos rebeldes de então. Ela viabiliza e faz escoar todo um conjunto de posturas que ansiavam por se manifestar, por isso sua aparição com o canto falado “ouro de tolo”, calou fundo nos corações e mentes da juventude brasileira do início da década de 1970.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Aquecimento global - é importante dar espaço aos diversos pontos de vista.


A questão da variação climática no planeta terra tem despertado nos debatedores, uma série de questões que muitas vezes, me parece, não ter nada a ver com ciência. As discussões veiculadas pela grande mídia são muito rasas e nos leva mais a uma postura de torcedores do que outra coisa. Os próprios modelos racionais de análise e previsão devem estar sob observação crítica de todos nós. O fato é que de repente se construiu, a partir dos relatórios do IPCC, uma realidade que parecia ser um consenso no meio científico: "o aquecimento global é uma verdade incontestável" e "o aquecimento global é por conta das ações humanas" (antropogênico). Por outro lado, as mídias mundiais deram espaço apenas para esta tese, ampliando a sensação de que elas gozam de uma unanimidade do meio cientifico. Parece que não é bem assim, e o artigo que reproduzo abaixo parece mais ponderado. De todo modo, vale a pena ter acesso ao contradito.


Mundo vai entrar em período de resfriamento global, diz cientista do IPCC

Agostinho Rosa

1657Segundo o pesquisador, "nos próximos 10 ou 20 anos" uma tendência de resfriamento natural da Terra irá se sobrepor ao aquecimento causado pelos humanos. [Imagem: NOAA]
Discurso de um crédulo


"Eu não pertenço ao time dos céticos." Em princípio, não haveria motivos pelos quais Mojib Latif começasse assim sua apresentação durante a Conferência Mundial do Clima, realizada pela ONU em Genebra, na Suíça.

Afinal de contas, ele não estava fazendo uma apresentação para mais de 1.500 dos principais cientistas do clima do mundo todo por acaso - ele próprio é um dos autores diretos dos estudos feitos pelo IPCC, o órgão da ONU que vem alertando há anos sobre o aquecimento global e a participação do homem nesse aquecimento.

Ser considerado um cético, nesse caso, significa não concordar com as conclusões dos estudos feitos pelo IPCC, seja uma discordância total ou mesmo parcial. E, ao longo dos anos, à medida que mais e mais cientistas "aderiam" às conclusões dos estudos patrocinados pela ONU, contrariar essas conclusões passou a ser encarado como uma postura política, na qual os argumentos científicos foram deixando rapidamente de serem importantes.

Latif, aparentemente temendo ser relegado ao "ostracismo científico" reservado a quem tem ousado desafiar a postura oficial, achou melhor se antecipar a qualquer acusação

Duas décadas de resfriamento global

E não é para menos. As conclusões que ele iria apresentar a seguir, baseadas nos seus estudos mais recentes, aparentemente contrariam tudo o que o IPCC tem divulgado.

Segundo Latif, "nos próximos 10 ou 20 anos", uma tendência de resfriamento natural da Terra irá se sobrepor ao aquecimento causado pelos humanos. Se ele estiver correto, o mundo está no limiar de um período de uma ou duas décadas de resfriamento global. Somente depois, diz o cientista, é que o aquecimento global se fará novamente observável.

Mudanças climáticas naturais

O resfriamento seria causado por alterações cíclicas naturais nas correntes oceânicas e nas temperaturas do Atlântico Norte, um fenômeno conhecido como Oscilação do Atlântico Norte (NAO - North Atlantic Oscillation).

Opondo-se ao que hoje pode ser considerado a ortodoxia das mudanças climáticas e do aquecimento global, o pesquisador do IPCC afirmou que os ciclos oceânicos foram provavelmente os grandes responsáveis pela maior parte do aquecimento registrado nas últimas três décadas. E, agora, o NAO está se movendo rumo a uma fase mais fria.

Os dados sobre os ciclos naturais oceânicos são suficientes para explicar todas as recentes variações nas monções na Índia, nos furacões do Atlântico, o degelo no Ártico e vários outros eventos.

Degelo natural

E Latif não está sozinho em suas conclusões contestadoras. Vicky Pope, do Serviço Meteorológico do Reino Unido, lançou uma torrente de água gelada na estrela mais recente dos defensores do aquecimento global antropogênico: a redução da camada de gelo do Ártico.

Segundo ele, a perda dramática de gelo na cobertura do Ártico é parcialmente um produto de ciclos naturais, e não do aquecimento global. Relatórios preliminares sugerem que o degelo neste ano já é muito menor do que foi em 2007 e 2008.

Fim do aquecimento global?

"As pessoas vão dizer que isso significa o fim do aquecimento global. Mas nós temos que faz esses questionamentos nós mesmos, antes que outras pessoas os façam," defendeu-se novamente Latif.

O reconhecimento da importância dos fatores naturais sobre tantos eventos antes atribuídos ao aquecimento global causado pelo homem equivale a assumir que os modelos climáticos não são tão bons quanto se desejaria para predizer eventos de curto prazo.

"Em muitos sentidos, nós sabemos mais sobre o que irá acontecer em 2050 do que no próximo ano," admite Pope.

A afirmação tem mais sentido do que possa parecer à primeira vista. Os modelos climáticos, a grosso modo, são projeções estatísticas a partir de eventos passados. Isso os torna adequados para prever tendências, embora haja muito menos certeza sobre um ponto específico na curva de projeção - vale dizer, sobre a previsão para um ano específico.

Perda de credibilidade do IPCC

Mas isto não alivia muito as coisas. Os modelos do IPCC têm sido alvo de uma sequência de críticas (1, 2, 3) que podem minar muito mais a credibilidade das recomendações do órgão do que de suas conclusões científicas.

A rigor, a descoberta de inconsistências e incompletudes nos modelos climáticos é algo mais do que previsível e verdadeiramente faz parte do desenvolvimento do trabalho científico. Nenhum cientista jamais defenderia que esses modelos sejam completos ou acabados. Na verdade, essas críticas e defeitos são até mesmo desejáveis, na medida que demonstram que o conhecimento está fazendo progressos.

O grande problema é que esses modelos e seus resultados têm sido rotineiramente apresentados como fatos definitivos ao grande público, principalmente através do que se convencionou chamar de "catastrofismo climático" - uma série de projeções alarmistas, feitas por cientistas, que têm chegado ao noticiário mas que pouco têm a ver com ciência.

O próprio fato do IPCC apresentar projeções para o ano 2100 sempre foi alvo de críticas dentro da comunidade científica, já que nenhum outro campo das ciências se atreveria a tanto. E o campo específico da meteorologia sempre afirmou que a precisão das suas previsões está na exata medida do volume de dados coletados e do período de tempo coberto pela previsão - quanto mais curto o prazo, mais precisa seria a previsão.

Com isto, torna-se muito mais problemático convencer qualquer um de que as conclusões dos modelos climáticos acertarão as previsões para daqui a 50 ou 100 anos se eles não conseguem dar conta de eventos de curto prazo. Será mais difícil convencer sobretudo os políticos, que têm o poder para iniciar atitudes concretas de combate aos efeitos do atual estilo de desenvolvimento grandemente danoso ao meio ambiente, cause ele aquecimento global ou não.

Frei Betto e a mudança nos índices de produtividade da terra

Achei esse artigo do Frei Betto no portal Ecodebate, que aliás, recomendo a assinatura do boletim deles. Muito útil para quem quer compreender o que está se passando com relação à alteração dos índices de produtividade da terra, tão combatida pela grande imprensa, notadamente pela rede bandeirantes.



Índices de produtividade da terra: Entre a Constituição e a coligação, por Frei Betto


O governo Lula encontra-se num dilema hamletiano: respeitar a Constituição e desagradar o maior partido de sua coligação eleitoral, o PMDB, ou agradar os correligionários de José Sarney e desrespeitar a Constituição.

A Constituição Brasileira de 1988 traz, no bojo, inegável caráter social. Falta ao Executivo e ao Legislativo passá-lo do papel à realidade. Uma das exigências constitucionais é a revisão periódica — a cada 10 anos — dos índices de produtividade da terra. Eles são utilizados para classificar como produtivo ou improdutivo um imóvel rural e agilizar, com transparência, a desapropriação das terras para efeito de reforma agrária.

Os índices atuais são os mesmos desde 1975! Os novos seriam calculados com base no período de produção entre 1996 e 2007, respaldados por estudos técnicos do IBGE, da Unicamp e da Embrapa. Os índices também serviriam de parâmetro para analisar a produtividade em assentamentos rurais.

Inúmeros ruralistas, latifundiários e empresários do agronegócio não querem nem ouvir falar de revisão dos índices de produtividade. É o reconhecimento implícito de que predominam no Brasil grandes propriedades rurais improdutivas e que, portanto, segundo a Constituição, deveriam ser desapropriadas para beneficiar a reforma agrária.

Na quarta, 12 de agosto de 2009, dirigentes do MST e ministros do governo Lula reuniram-se em Brasília. O MST havia promovido, nos dias anteriores, uma série de manifestações, consciente de que governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão. Além de reivindicar a revisão dos índices de produtividade da terra, o MST, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF) querem a reposição do corte de R$ 550 milhões feito este ano no orçamento do Incra, quantia destinada à obtenção de terras para a reforma agrária.

O representante do Ministério da Fazenda declarou que a crise é grave, a arrecadação diminuiu entre 30% e 50% no primeiro semestre deste ano, e que o governo tem dificuldades de repor o orçamento do Incra, embora conste da lei orçamentária aprovada pelo Congresso.

Os trabalhadores rurais querem apenas que se cumpra a lei. É impossível acreditar que o Ministério da Fazenda não tenha recursos. Se fosse verdade, não teria desonerado impostos de outros setores da sociedade, como a indústria automobilística, cujo IPI mereceu desoneração de cerca de R$ 20 bilhões, e o depósito à vista dos bancos, que possibilitou a eles reter, em seus cofres, R$ 80 bilhões. O governo tem dinheiro, mas reluta em investir na reforma agrária e na pequena agricultura.

A reforma agrária viria modernizar o capitalismo brasileiro. Inclusive conter os reflexos da crise financeira mundial no setor agrícola. No Brasil, a crise afetou a produção de soja, algodão e milho, e reduziu o preço das commodities e a taxa de lucro dos produtores rurais. Mas quem pagou a conta foram os trabalhadores rurais assalariados. Cerca de 300 mil ficaram desempregados.

O agronegócio é o modelo de produção que expulsa mão de obra porque adota a mecanização intensiva. Que rumo tomaram os desempregados? Vieram engrossar o cinturão de favelas em torno das cidades, viver de bicos, enquanto seus filhos são tentados e assediados pela criminalidade. Por que o governo não assentou essa gente?

O Brasil é, hoje, o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Na safra passada, jogaram 713 milhões de toneladas de veneno sobre o nosso solo, a nossa água e os nossos alimentos. Enquanto aumentam as exportações, aumenta também a produção de alimentos contaminados, responsáveis pela maior incidência de enfermidades letais, como o câncer. É preciso mudar o atual modelo agrícola, prejudicial ao meio ambiente e à agricultura familiar.

O prazo dado pelo presidente Lula para a revisão dos índices de produtividade da terra expirou em 2 de setembro, sem que o Planalto se posicionasse. A decisão sobre a atualização havia sido tomada em 18 de agosto, numa reunião de Lula com ministros, da qual não participou o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Na ocasião, foi estipulado um prazo de 15 dias.

A portaria de revisão dos índices precisa ser assinada por Stephanes e pelo ministro Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário, a tempo de entrar em vigor em 2010. Segundo a assessoria do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Cassel rubricou a medida um dia após a promessa feita por Lula, e a encaminhou a Stephanes.

O ministro da Agricultura, pressionado pela bancada do seu partido, o PMDB, já se manifestou publicamente contrário à proposta e não assinou a portaria. Resta ao presidente Lula decidir-se entre a Constituição, que ele assinou como constituinte e tem por obrigação respeitar, e o setor do PMDB que ainda encara o Brasil como um imenso latifúndio dividido entre a casa-grande e a senzala.

domingo, 13 de setembro de 2009

A revista época e seus dois enfoques...

É um exercício curioso este de escarafunchar os procedimentos midiáticos, principalmente com relação à corrida presidencial. Mas em 13/05/2008 a revista "época" publicou uma matéria sobre a então ministra do governo Lula, Marina Silva, a qual tratava a ministra como "A ministra criacionista". A ênfase em aspectos retrógrados do pensamento da ministra era flagrante. Afirmando que ela defendia o ensino do criacionismo nas escolas, etc.
Em 14/08/2009, com a senadora já fora do governo e do PT, no entanto, a mesma revista faz uma matéria tratando a ministra de forma completamente diferente. a ênfase passa a ser o "oxigênio novo" que ela trará a corrida presidencial. O criacionismo da ex-ministra é até citado, mas o enfoque...é completamente outro.
Quem quiser dar uma olhada nas matérias, segue abaixo os links. Divirtam-se!!



http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG81345-6010-506,00.html

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI88045-15223,00-SIM+ELA+E+CANDIDATA.html

FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS E PEDAGÓGICOS DO MÉTODO PRÉ-FIGURATIVO DE H. J. KOELLREUTTER ARTICULAÇÕES PRELIMINARES

Segue abaixo um texto de um grande amigo, o Pedro Albuquerque, que no momento está fazendo mestrado em educação na UERJ. O texto é apenas um resumo de um belo artigo, e quem se interessar em tê-lo na íntegra, é só mandar um e-mail que o envio com prazer.



FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS E PEDAGÓGICOS DO MÉTODO
PRÉ-FIGURATIVO DE H. J. KOELLREUTTER
ARTICULAÇÕES PRELIMINARES

Pedro de Albuquerque Araujo

Universidade de Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Resumo

O método/conceito1 pré-figurativo não propõe uma ruptura com os modos já
tradicionais de ensino de música, mas, ao contrário, complementá-los ampliando
horizontes existentes, acoplando ingredientes ao presente e, principalmente, procurando
vislumbrar o futuro, ou seja, pretende estabelecer um diálogo constante e uma crítica
permanente com seu objeto de estudo. Além disso o método/conceito de Koellreutter é
concebido como um modo de formação de músicos através da música, para além da
música. Em sua prática o professor, além de transmitir ao aluno conhecimentos
musicais já sedimentados, tem como objetivo estimulá-lo a questionar, pensar, produzir
conexões com o meio social em que se encontra. Questionar a posição dos próprios
professores, incitando-os a mudar da postura tradicional e passiva, a uma outra
produtora e ativa, é também uma das especificidades desta visão epistemológica e
pedagógica.
Pensar, para Nietzsche, seria uma atividade provocada por um poder, uma força
externa ao pensamento, não o exercício de uma faculdade (como diria Kant), mas algo
extraordinário ao próprio pensamento. Tal força exerce-se com tal potência e com
tamanha violência que lança o pensar num devir-ativo. Esse conceito de Cultura ou de
uma tipologia cultural exige a compreensão da violência expressa pelas forças que se
impõe ao pensamento, para dele fazer algo ativo, afirmativo, isto é, segundo Nietzsche,
a produção de adestramento e seleção. Este conceito nietzscheano de Cultura só poderá
ser entendido plenamente, a partir do momento em que sua oposição a “Método” for
tomada de maneira rigorosa, sendo este sempre compreendido como um determinante
interno do pensador, uma “boa vontade do pensador” diria Nietzsche e assim
compreendido pela história oficial da filosofia. Porém Deleuze, ao nos definir o
conceito de paidéia, nos traz uma outra leitura da história da filosofia. A cultura, ao
contrário do método, é a violência sofrida pelo pensamento, uma formação do
pensamento exercida sob a ação de forças externas ao pensador.
É disso que Koellreutter fala a todo o momento em seu método/conceito préfigurativo,
a potencialização do outro através da valorização das diferenças. O pensar no
sentido do “sem forma” fala dessa valorização da diferença, mas é na sua relação com a
violência da exterioridade, com o devir-ativo formador que a alteridade aparece.
Admite-se, então, o pré-filosófico e o conceitual, como partes constitutivas da filosofia,
própria e intrinsecamente. Então podemos considerar que a filosofia necessita dos
conceitos e do plano de imanência, “como duas asas ou duas nadadeiras”. Fazer a
comparação, a conexão, entre o pré-filosófico (o plano de imanência) e o método/conceito pré-figurativo agora é só uma questão de agenciamento. O plano pré filosófico ou imanente seria como uma clivagem, uma divisão (não necessariamente no
meio, não fazendo a divisão equânime das partes, das coisas ou dos fatos), no Caos que
pode ter uma existência tanto mental quanto física. Já o ensino pré-figurativo funciona
na lógica do rizoma, como um cérebro, não segue um plano estratificado, ou seja, se
aproxima do Caos, mas não se torna Caos. Exatamente porque existe esta clivagem
imanente, permite que se trace Linha de Fuga, no sentido de desterritorialização e
reterritorialização (estratificação), possibilitando o delineamento de um futuro para a
Educação.


1 Denomino desse modo o “método” pré-figurativo, por entender que ele, mais que um método, expressa uma visão epistemológica e pedagógica. O que significa dizer que, nesta forma de ensino, o processo se torna mais importante que o produto.


Palavras-chave: Koellreutter, Pré-Figurativo, devir-ativo, Nietzsche, Deleuze.