sábado, 10 de outubro de 2009

Celso Amorim - melhor chanceler do mundo?

Direto do Blog do Paulo Henrique Amorim. Aliás, há tempos atrás eu dizia que o Celso Amorim era meu candidato à presidência da república.


Amorim é o melhor chanceler do mundo. O que farão os da Globo ?


Na foto, uma reação espontânea ao assistir à entrevista de um chanceler da Globo

Na foto, uma reação espontânea ao assistir à entrevista de um chanceler da Globo

O portal Vermelho chama a atenção para texto da revista americana The New Foreign Policy, que considera Celso Amorim o melhor chanceler do mundo, já que nenhum outro conseguiu “com tanta eficácia uma transformação de tal magnitude do papel internacional de seu país”.

Temos aí, amigo navegante, um problema muito sério.

Como ficarão os chanceleres de O Globo e do PiG (*)?

Celso Lafer, Luiz Felipe Lampreia, Rubens Barbosa, Marcos Azambuja e até o Farol de Alexandria, que foi Ministro das Relações Exteriores do Governo Itamar (**)e deixou marca indelével na política externa brasileira (qual, mesmo, hein?)

Como ficam esses chanceles ou wanna-be chanceleres que vão para a Globo e para o PiG (*) meter o pau no Brasil, e não abrem mão da aposentadoria que recebem do Itamaraty ?

É um problema sério.

Assistiremos a uma cerimônia coletiva de cortação de pulsos …

Paulo Henrique Amorim

(*)Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Fernando Henrique tinha tanta vontade de ser chanceler que aceitou o convite de Collor e chegou a nomear o Secretario Geral do Itamaraty, Sebastião do Rego Barros. O Covas é que não deixou ele ser chanceler de Collor.

Golpe em Honduras - uma outra visão

É abslutamente inacreditável o modo como compramos notícias truncadas e torcidas. Essa manipulação visa única e exclusivamente a construção de uma representação, ou produção de consenso, para satistazer determinados grupos políticos. Mas as vezes penso que o PIG (partido da imprensa golpista) está indo longe demais. A ausência de contradito é um sintoma e tanto da parcialidade das "notícias" dos jornalões. Estou dizendo isso com referência ao caso do golpe militar de Honduras (e olha que quase eu me referia a "crise" hondurenha como faz o PIG). Durante todo o tempo a grande mídia quase dizia c om todas as letras que o golpe foi um acontecimento para salvaguardar os interesses democráticos daquele país, pois o presidente Manoel Zelaya, este sim, um verdadeiro golpista, queria alterar a constituição para se reeleger. Ou seja, o golpefoi democrático. O ra, pensava eu, foi isso que fizeram vários presidentes da América Latina, incluindo FHC no Brasil. E ademais, alterar constituições não é nenhuma ilegalidade, desde que seja encaminhado através de conjunto de forças que representem (sei que esta palavra é complicada) o interesse da maioria.
Mas o fato é que, em uma matéria para a revista de história da biblioteca nacional, o cientista político hondurenho naturalizado brasileiro Carlo Domínguez, afirma que o golpe não foi por causa da tentativa de re-eleição do presidente Zelaya, pois este nem sequer era candidato por nenhum partido para as eleições que aconteceriam em novembro deste ano. O que está efetivamente por trás de todas essa movimentação golpista , segundo Domínguez, eram as transformações constitucioanais propostas pelo governo, que visava, entre outras coisas, a criação de consultas populares que não se restringissem unicamente às consultas eleitorais. aí fica a pergunta: esse dado não era conhecido de nossos jornalistas? Impossível!
Quem quiser ler a matéria na íntegra (ela é bem curtinha) é só clicar no link abaixo:

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2673

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Baião de Luiz Gonzaga com as flautas de Maria Carolina e Lucas Leandro

e mais as percussões de Isaac, Jackson e Erick.

Os povos originários do Equador

Há muitos anos atrás, em uma festa com pessoas da esquerda latino-americana, eu ouvi de uma uruguaia, que nós brasileiros somos vistos na América Latina como arrogantes e metidos. Fiquei pasmo, pois jamais imaginei que pudéssemos ser vistos dessa forma. Ela acrescentou que a nós brasileiros não interessava nada que dissesse respeito ao nosso continente, e que só nos interessamos por assuntos referentes a Europa ou aos EUA. De fato me dei conta de que sabemos muito pouco do nossos vizinhos. Sabemos muito pouco de literatura, por exemplo, e mesmo assim, nos interessamos pelos que foram "reconhecidos" pelo dito primeiro mundo.
A matéria cujo link ponho aqui em baixo, nos ajuda a entender um pouco sobre as discussões que estão se dando hoje no Equador. Não foi à toa que o Noam Chomsky se referiu recentemente à América Latina, ou Abya Yala como nos informa o professor Carlos Walter, como o "lugar mais estimulante do mundo". Discussões sobre temas como a constituição de um Estado plurinacional faz avançar a compreensão sobre novas formas organizativas, cujos princípios se assentam em outras bases epistemológicas. Segundo a Elaine Tavares, autora da matéria da revista Caros Amigos, os "povos originários" - organização indígena equatoriana - apoia o governo do Rafael Correa, mas ao mesmo tempo aponta para contradições históricas que clamam por serem equacionadas. A matéria nos instrui muito a cerca das contradições presentes no Governo Correa. Mas não poderia ser diferente. De todo modo, é flagrante como existe o diálogo e como os indígenas são ouvidos (ao invés de olvidados como sempre foram).
Recomendo a leitura. Entrem no link abaixo e cliquem na matéria "as origens do Equador".
Boa leitura!!

http://carosamigos.terra.com.br/

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

o MST e a destruição das laranjas....

Meus amigos e amigas, furar o cerco diário do PIG (partido da imprensa golpista) é um exercício trabalhoso, porém necessário. É verdade que hoje com os recursos da internet e em particular com o trabalho dos blogs a coisa ficou mais fácil. Ainda hoje escutei a Dora Kramer lançar seu veneno contra o MST, falando sobre a CPI do MST, e sobre uma "destruição" de um laranjal perpetrada pelos comunistas raivosos (meu Deus, por que ainda ouço essas coisas???). Fico sempre tentando decifrar e entender o que de fato está por trás da "notícia". Mas muitas vezes não consigo, pois nem sempre tenho os dados necessários. Enfim... Eis aqui uma carta aberta da Comissão Pastoral da Terra, sobre o ocorrido.





CPT

A Coordenação Nacional da CPT vem a público para manifestar sua estranheza diante do “requentamento” por toda a grande mídia de um fato ocorrido na segunda feira da semana passada, 28 de setembro, e que foi noticiado naquela ocasião, mas que voltou com maior destaque, uma semana depois, a partir do dia 5 de outubro até hoje.

Trata-se do seguinte: no dia 28 de setembro, integrantes do MST ocuparam a Fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do estado de São Paulo. A área faz parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e que pertencem à União. A fazenda Capim, com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale, uma das maiores empresas produtora de suco de laranja do mundo, para a monocultura de laranja. O MST destruiu dois hectares de laranjeiras para neles plantar alimentos básicos. A ação tinha por objetivo chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União.

As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos econômicos. A Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que houvesse regularização fundiária a seu favor.

As imagens da televisão, feitas de helicóptero, mostram um trator destruindo as plantas. As reações, depois da notícia ser novamente colocada em pauta, vieram inclusive de pessoas do governo, mas, sobretudo, de membros da bancada ruralista que acusam o movimento de criminoso e terrorista.

A quem interessa a repetição da notícia, uma semana depois?

No mesmo dia da ação dos sem-terra foi entregue aos presidentes do Senado e da Câmara, um Manifesto, assinado por mais de 4.000 pessoas, entre as quais muitas personalidades nacionais e internacionais, declarando seu apoio ao MST, diante da tentativa de instalação de uma CPMI para investigar os repasses de recursos públicos a entidades ligadas ao Movimento. Logo no dia 30, foi lido em plenário o requerimento para sua instalação, que acabou frustrada porque mais de 40 deputados retiraram seu nome e com isso não atingiu o número regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu.

A ação do MST do dia 28, que ao ser divulgada pela primeira vez não provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para novamente se propor uma CPI contra o MST. E numa ação articulada entre os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da ocupação da fazenda da Cutrale.

A ação do MST, por mais radical que possa parecer, escancara aos olhos da nação a realidade brasileira. Enquanto milhares de famílias sem terra continuam acampadas Brasil afora, grandes empresas praticam a grilagem e ainda conseguem a cobertura do poder público.

Algumas perguntam martelam nossa consciência:

Por que a imprensa não dá destaque à grilagem da Cutrale?

Por que a bancada ruralista se empenha tanto em querer destruir os movimentos dos trabalhadores rurais? Por que não se propõe uma grande investigação parlamentar sobre os recursos repassados às entidades do agronegócio, ao perdão rotineiro das dívidas dos grandes produtores que não honram seus compromissos com as instituições financeiras?

Por que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), declarou, nas eleições ao Senado em 2006, o valor de menos de oito reais o hectare de uma área de sua propriedade em Campos Lindos, Tocantins? Por que por um lado, o agronegócio alardeia os ganhos de produtividade no campo, o que é uma realidade, e se opõe com unhas e dentes á atualização dos índices de produtividade? Por que a PEC 438, que propõe o confisco de terras onde for flagrado o trabalho escravo nunca é votada? E por fim, por que o presidente Lula que em agosto prometeu em 15 dias assinar a portaria com os novos índices de produtividade, até agora, mais de um mês e meio depois, não o fez?

São perguntas que a Coordenação Nacional da CPT gostaria de ver respondidas.

Goiânia, 7 de outubro de 2009.

Coordenação Nacional da CPT

Nota da Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional, publicada pelo EcoDebate, 08/10/2009


Fome Come

O que você vê neste vídeo é uma apresentação que fizemos em um Centro Cultural em Santa Cruz. É também uma demonstração de um trabalho que faço com alunos do 6º ano do ensino fundamental nas escolas em que trabalho. Aqui no vídeo, se apresentam nas latinhas os alunos Erick e Rodrigo; nos vocais: Maria, Camila, Jussena e Vitória; no chocalho o Jackson e no violão junto comigo a Alana.
Este trabalho foi desenvolvido originalmente por Paulo Tatit e Sandra Peres, e título da cançao é "Fome Come".

domingo, 4 de outubro de 2009

Entrevista com o educador Moacir Gadotti

Belíssima entrevista com o educador Moacir Gadotti. Imperdível para quem de alguma forma está ligado com o tema da educação. Gadotti trabalhou com Paulo Freire, e é hoje um dos mais destacados pensadores da educação no Brasil.



http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=7567

desdobramentos de uma reflexão original

Reflexões originais têm, muitas vezes, a capacidade de nos fazer pensar sobre coisas que normalmente passam desapercebidas. Práticas cotidianas que incorporamos em algum momento de nossas vidas e que nos acompanha quase como se fossem naturais. Aliás, a naturalização de processos sócio-culturais foi uma das "descobertas" feita pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, contra a qual ele lutou oferecendo subsídios teóricos para que esse processo fosse sempre desmascarado. Mas voltando às reflexões originais, eu estava pensando no artigo do Carlos Walter (postado aqui no blog), que discute justamente como o termo América Latina está "naturalizado" em nosso vocabulário sem que nos demos conta de que o mesmo remete a um campo de significados, portanto, de produção de sentidos.
Fiquei pensando, por exemplo, como no campo da música nós nos referimos à "música latina", ou quando queremos descrever uma música que ouvimos e dizemos assim: "ela tem uma 'levada' meio latina", para dizer que a tal música tem um swing assim meio salsa, mambo, etc. Ora, o termo "Latino", como nos mostrou Carlos Walter nos remete a uma matriz européia, ocultando ou tentando ocultar nossa formação negra e indígena. O que acontece é que essas músicas ou essas 'levadas' as quais nos referimos quando usamos o termo latino, é de fato afro-americana. Ocorre aí um verdadeiro sequestro simbólico. Um roubo, bem ao estilo das pilhagens coloniais.
É oportuno que fiquemos atentos a esses processos que estão embutidos em termos aparentemente neutros, para que não sejamos nós reprodutores e cúmplices dessas pilhagens.

sábado, 3 de outubro de 2009

Tambor d'água




















Este é o tambor d'água. Invenção, segundo o Arthur Andrés Ribeiro do grupo Uakti, dos índios da Guatemala. Ele é muito simples de fazer e tem um efeito sonoro muito interessante. Ele faz parte de um projeto que tenho tentado desenvolver, que visa introduzir na educação musical elementos "diferentes" na prática musical dos alunos. Curioso foi perceber que assim que eu mostrei esse instrumento para os alunos, eles começaram a tocar funk...

Distantes da Civilização

Segue abaixo um texto do Eduardo Guimarães sobre a posição do PIG (partido da imprensa golpista) com relação aos últimos acontecimentos em Honduras.



Distantes da civilização

Por Eduardo Guimarães

O fato político mais importante do momento, sem dúvida, é o impasse político-institucional em Honduras, que mobilizou todos os organismos multilaterais mais importantes do mundo e despertou a indignação e o inconformismo de todas as nações. Mais de sessenta países recusam-se a reconhecer o governo golpista.

Mas por que um paiseco da América Central, absolutamente irrelevante do ponto de vista econômico ou cultural, atraiu e mobilizou tanta atenção? Por que Honduras desperta tantas paixões num mundo em que governos despóticos se sucedem na África, na Ásia, cometendo barbaridades inimagináveis sem atraírem atenção sequer parecida?

Em primeiro lugar, há que entender que Honduras é o protótipo da nação latino-americana desigual e institucionalmente atrasada. Reproduz, em larga medida, a mentalidade iníqua e atrasada que ainda tem fôlego até em um país industrializado e rico como o nosso.

É por conta de Honduras ser essa mini América Latina que assusta tanto o precedente de um grupelho de “trogloditas de direita” (perdão, mas não resisti à expressão) derrubar um governo detentor de legítimo e inquestionável mandato popular.

Diante de tais fatos é que surgiu a reflexão que intitula este texto, um texto envolvendo o estágio civilizatório não só do Brasil, mas de toda a América Latina.

A espantosa e inacreditavelmente explícita adesão da imprensa e da oposição tucano-pefelista às teses da ditadura hondurenha não poderia acontecer em um país civilizado. Tal fenômeno, ao suceder aqui, revela o quanto ainda estamos distantes da plena civilização deste país.

Em qualquer nação civilizada ninguém teria coragem de defender o que o mundo inteiro condena com veemência poucas vezes vista. Não me lembro de outra oportunidade em que houve um consenso mundial tão completo sobre um fato estritamente político. Só num país ainda incivilizado a imprensa poderia dedicar 99% de seu espaço a demonizar a vítima do golpe enquanto despersonaliza os golpistas, poupando “Gorilleti” de qualquer crítica pessoal.

Quantas charges ridicularizando e acusando Manuel Zelaya você viu nos jornalões e revistões e quantas viu fazendo o mesmo contra “Gorilleti”? No segundo caso, eu, ao menos, não vi nenhuma – vejam bem: nas Folhas, Vejas, Estadões e Globos.

No Brasil e em outros países latinos conseguimos produzir o fenômeno de a imprensa atacar muito mais o golpeado do que os golpistas. Se alguém se der ao trabalho de fazer essa pesquisa nos veículos supra mencionados ou em seus apêndices, espantar-se-á ao constatar o fato.

Apesar de nos EUA e no resto do mundo rico ser possível ver, aqui e ali, algum tarado defendendo o golpe ou dizendo que não existiu, são manifestações absolutamente escassas e totalmente envergonhadas. Aqui (na América Latina), elas dominaram a grande imprensa.

Pior ainda foi constatar, ao menos no Brasil, a existência de uma ínfima minoria de acadêmicos dispostos a legitimar o estupro da democracia que ocorreu em Honduras. E constatar que, em meio a uma maioria avassaladora de estudiosos de direito internacional que condenaram o golpe, os meios de comunicação dão muito mais espaço às raras exceções dos que defendem alguma “legalidade” desse golpe.

Isso por que essa imprensa latino-americana acha que seu público não tem cultura e noção do que é democracia o suficiente para entender o absurdo que é a defesa do golpe em Honduras. Porque a direita e seus jornais e tevês querem manter a receptividade popular a golpes de Estado, receptividade que sempre vigeu nesta parte do mundo, pois golpes sempre foram o instrumento das elites quando a ralé, amplamente majoritária, não lhes acompanhou as decisões eleitorais.

Não tenho a menor dúvida de que, neste momento, nada mais importa além de o mundo livre impedir que o golpe de Estado em Honduras tenha sucesso.

A desenvoltura com que grandes empresas de comunicação e partidos políticos defendem o golpe e até, absurdo dos absurdos, o ataque feroz (com cerco, bombardeio sonoro e gás tóxico) dos golpistas ao território brasileiro que é nossa embaixada em Honduras, fala ainda mais sobre o estágio pré-civilizatório em que se encontra este país.

Não basta derrotar os golpistas hondurenhos. É preciso explicar aos brasileiros, didaticamente, por que não se pode aceitar precedentes antidemocráticos, e por que, num país civilizado, quando ele é atacado toda a sua sociedade deve se unir.

Alguém minimamente informado é capaz de conceber o congresso norte-americano ou o parlamento francês deixando de condenar um cerco – e tantas outras afrontas – a uma de suas representações diplomáticas? Seria impensável, mesmo que essa representação tivesse praticado de fato alguma ingerência indevida no país em que estivesse sediada.

Mas, aqui no Brasil, a oposição no Congresso defende abertamente os que esbofeteiam o país. Sem nenhum constrangimento.

É aterrador o que a crise em Honduras revelou. A mídia, o PSDB e o PFL apóiam o golpe e tratam de tentar desmoralizar Zelaya porque querem manter no imaginário popular a aceitação do golpismo, a idéia que tanto já venderam de que derrubar governos legitimamente eleitos é aceitável se, depois do golpe, os golpistas forjarem uma eleição, mesmo sendo uma eleição em que o povo votaria sob a mira de armas.

Para mim, portanto, nada mais importará enquanto a crise hondurenha não for resolvida, pois estamos muito distantes da civilização para nos darmos ao luxo de permitir que nosso povo não entenda plenamente por que não se pode aceitar golpes de Estado. O presidente Lula perdeu uma excelente oportunidade de fazer um pronunciamento à nação.

domingo, 27 de setembro de 2009

De América Latina, de Abya Yala, de América Mestiça, de América Criolla e de suas Contradições

Por Carlos Walter Porto-Gonçalves, Edir Augusto Dias Pereira


Certa vez, quando me deslocava pela cidade de São Paulo, vi um grafite que dizia: “essa boca que sempre me beijou agora me nega um sorriso”. A frase, aparentemente romântica, se mostrava mais instigante para a reflexão do que a declaração de amor explícita quando se presta atenção ao lugar onde estava inscrita: o muro de um cemitério. Ali, definitivamente, vi que uma frase nunca pode ser dissociada do lugar onde está inscrita.
Recentemente (2004) os povos indígenas começaram a inserir no léxico político um novo nome, Abya Yala, para designar o continente que, desde finais do século 18 e, sobretudo desde o século 19, passamos a conhecer por América[1]. E, sendo mais específicos, desde a segunda metade do século 19, por iniciativa do colombiano José Maria Torres Caicedo, América Latina é o nome como passou a ser designada a parte desse continente que nos cabe viver. Não olvidemos que os espanhóis designavam essa região por Índias Ocidentais que, diga-se de passagem, abrangia uma vasta região que ia desde o Caribe, passava por México e Peru e suas áreas adjacentes, e ia até as Filipinas, terra de Filipe. E que Portugal ignorava essa designação de América chamando sua colônia pelo nome do pau com que começaram a explorar esse território que nos deu um adjetivo pátrio incômodo – brasileiro[2].
Assim, o nome América foi enunciado pelas elites criollas para se afirmar com/contra as metrópoles européias, a geografia aqui servindo para afirmar uma territorialidade própria que se distinguia das metrópoles européias, e o nome América Latina[3] afirmado por José Maria Torres Caicedo, com seu poema Las Dos Américas, publicado em 1856, para nominar o que Bolívar já havia denunciado em 1826 contra a Doutrina Monroe (1823), inscrevendo assim a distinção entre uma América Anglo-saxônica e uma Latina que, mais tarde, levaria José Martí a falar de “nuestra América”. Enfim, um anti-imperialismo precoce distingue as duas Américas.
Ora, América Latina ainda é uma América que se vê européia – latina – e, com isso, silencia outros grupos sociais e nações que longe estavam da latinidade, a não ser sofrendo seus desdobramentos imperiais que tão marcadamente caracteriza a tradição eurocêntrica. Afinal, nos dirá Walter Mignolo, foi a latinidade e não a africanidade ou a indianidade que se impôs como nome do subcontinente[4]. De certa forma é isso que os povos originários de Abya Yala querem afirmar com seu nome próprio por meio do qual buscam se re-apropriar do território que lhes foi arrebatado que, como se vê, não definitivamente. Mas a expressão, a princípio, também deixa de fora os afrodescendentes e outros grupos subalternos.
O interessante é que a ideologia da mestiçagem buscou exatamente suprimir essa tensão entre os diferentes grupos sociais e, com isso, introduzindo uma identidade – a mestiça – que silencia, sobretudo os grupos sociais que foram racializados pela tradição colonial. As ciências sociais têm sofrido com essa transposição de conceitos oriundos das ciências da natureza, como esse de mestiçagem que, no fundo, dá sobrevida ao pseudo-conceito científico de raça. Enfim, a ideologia da mestiçagem contribui para que se olvide a construção epistêmica das relações sociais e de poder de modo racializado. Afinal, aqui na América não havia índios, assim como na África não havia negros. Foi o encontro colonial, La Boétie chamou mal-encontro, que classificou o outro pela cor da pele e, com isso, instituiu um sistema de classes sociais racializado, conforme Aníbal Quijano nos esclarece[5]. Ou como bem disse nos anos 60 o intelectual e ativista aymara Fausto Reinaga: “Danem-se, eu não sou um índio, sou um aymara. Mas você me fez um índio e como índio lutarei pela libertação”. Definitivamente há uma racialização na instituição das classes sociais entre nós.
É sintomático que a elite criolla tenha nos brindado com a expressão América Latina e não América Criolla que, talvez, nos ajude a dar conta das contradições que se inscrevem nesse continente e que nos atravessa de norte a sul. E nos diz muito do poder de enunciação dos diferentes grupos sociais, no caso, a hegemonia criolla que, como toda hegemonia dominante, esconde seu lugar de enunciação. Assim, a elite criolla não nomeou o continente com seu lugar de enunciação e, por isso, não nos ofereceu uma América criolla.
Mas se criollo é aquele de outro lugar nascido na América, a expressão não tem o mesmo sentido quando vista dos Andes e da América Central ou quando vista do Caribe e do Brasil. Se na América andina e centro-americana ela está claramente identificada com o fidalgos, ou seja, com os filhos d´alguém (de onde vem a expressão fidalgo), no Caribe e no Brasil a expressão crioulo se refere aos negros ou seja aos filhos de ninguém, aos dannés, ou seja, aos condenados da terra de Franz Fanon. A expressão de Robson, jogador do Fluminense dos anos sessenta, “Já fui negro, sei o que isso significa” é emblemática do que está implicado nos debates ora em curso em torno do tema racial.
Não vai ser invisibilizando essa tensão que seremos capazes de superar as contradições que nos habitam enquanto história in-corpo-rada há 500 anos. A experiência ora em curso na Bolívia e no Equador, onde o protagonismo indígena é indiscutível, mostra que é possível, com a interculturalidade, superar as limitações dos estudos culturais estadunidenses e seu multiculturalismo e ainda o pós-modernismo[6] que mantendo cada macaco em seu galho dá azo a nefastos fundamentalismos essencialistas. Afinal, é possível superar as xenofobias de inspiração racistas a partir de outros projetos epistêmicos e políticos e isso implica aceitar que a tradição liberal com seu princípio individualista tem cor e lugar de origem: a Europa. Mas, diga-se de passagem, não toda a Europa, mas uma Europa branca, falocrática e burguesa. Enfim, essa tradição é provinciana e como todo mau provincianismo pensa que seu mundo é O Mundo. E o pior provincianismo é aquele que detendo poder tenta se apresentar como uni-versal olvidando a pluri-versalidade do mundo. É bem o caso do eurocentrismo.
O nome próprio do espaço
De fato, nomear os lugares envolve uma apropriação. O espaço conforme é designado é apropriado pelos sujeitos, enfim, é tornado espaço próprio (território). Mas, cada qual se vê implicado nas designações/apropriações dos outros, dando-lhe outros sentidos sempre em circunstâncias historicamente indeterminadas[7]. Ao transformarmos o significado do termo com que nos designam, mudamos o modo de nos relacionarmos e de nos representarmos. Que designação melhor denomina o espaço em que vivemos com as nossas diferenças? Essa é a questão de fundo que envolve essas denominações que estrategicamente vêm servindo de invólucro e determinando conteúdo para esse continente.
Este texto busca explicitar que a luta pela classificação do espaço está profundamente implicada em lutas/relações sociais e de poder que se travam há pelo menos 500 anos nesses espaços “americanos”. É, desse modo, um embate entre política de identidade e o nosso investimento identitário na política (Mignolo, 2008) e, assim, há uma geopolítica para além (ou para aquém) dos Estados que, na verdade, os constituem. Afinal, o Estado ao se querer nacional se quer nascido naturalmente e é aí que reside todo o ocultar político de sua invenção (instituição), a começar pelo fato de se querer um território uni-nacional onde quase sempre residem múltiplas nacionalidades, distintas territorialidades. Enfim, há uma luta epistêmica e política que se trava em torno do espaço. Mudar o nome, obviamente, não significa mudar o objeto, nem o sentido do objeto porque isso depende da autoridade de quem nomeia, de quem designa (Bourdieu), e com que finalidade, consciente ou não, dá nome aos lugares. E essa própria autoridade é construída como bem destaca, nesse caso, Gramsci com seu conceito de hegemonia.
Enfim, haveremos de compreender essas lutas sociais nesses espaços reunidos sob a denominação de América como lutas epistêmicas e políticas. Isso significa muito mais do que mudar o nome, já que as “identidades nacionais” jogam ainda um papel político e simbólico central nessas lutas. Apesar de tudo, nós brasileiros, em geral, nunca nos sentimos latino-americanos. Há uma especificidade na construção identitária do brasiliano[8]. E as diferenças não podem caber em baixo do mesmo termo guarda-chuva. Não se trata, portanto, de criar um novo termo guarda-chuva ou de criar uma identidade que suprima diferenças, em nome de uma identidade verdadeira.
O que, afinal, estamos enfrentando é um deslocamento profundo no sentimento e no sentido de pertença de grupos a um espaço que lhes foi subtraído, inclusive cognitivamente. Por isso, a busca da identidade e de alguma unidade precisa levar em conta as diferenças – as diferenças coloniais, de que nos fala Walter Mignolo, em particular. Tudo indica que precisamos construir alternativas às alternativas que-aí-estão, conforme Boaventura de Souza Santos. Isso significa que a unidade que devemos buscar é a unidade de projetos coletivos de emancipações e libertações sociais, conforme sugere Hector Diaz-Polanco[9]. Se cambiar o nome do espaço envolve a construção dessas alternativas e projetos outros, temos que agenciar estrategicamente esse dispositivo. Afinal, “o espaço importa” e, assim, deve importar o modo como o nomeamos, porque isso acaba nos constituindo em nossa plenitude política e epistêmica ao conquistarmos o direito de nomear. A transmodernidade, de Enrique Dussel, e a interculturalidade, proposta a partir do mundo dos povos originários, são mais inclusivas do que as tradições eurocêntricas, sobretudo liberais (multiculturalismo e pós-modernismo). Cabe avançar no modo como essa proposta dialógica se inscreve no mundo material dos territórios com todo esse investimento de valores que admite o outro na sua diversidade. E que as relações de poder não se confundam com relações de dominação[10].
- Carlos Walter Porto-Gonçalves, Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - e de CLACSO (GT Hegemonia e Emancipações). Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira. Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000).
- Edir Augusto Dias Pereira, Professor da Faculdade de Educação da UFPA – Campus de Cametá.


[1] Ver o verbete Abya Yala, de Carlos Walter Porto-Gonçalves, publicado na versão em língua espanhola da Latinoamericana: Enciclopedia Contemporânea da América Latina e Caribe, Madrid, 2009.
[2] - Que originariamente designava o português que vivia de explorar o Brasil. Ver As Identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC, de José Carlos Reis. Ed. FGV, Rio de Janeiro, 1999.
[3] Admite-se também que o termo teria sido utilizado pelo do filósofo chileno Franciso Bilbao no mesmo ano.
[4] Agradeço ao Prof. Pedro Quental essa observação.
[5] Quijano, Aníbal, 2007 [1999] O que é essa tal de raça? In dos Santos, Renato Emerson (org.) Diversidade, espaço e relações étnico-raciais: o Negro na Geografia do Brasil. Ed. Autêntica, Belo Horizonte.
[6] Walter Mignolo diz que o pós-modernismo ainda permanece eurocêntrico em sua crítica à modernidade por não ser capaz de dar conta da colonialidade que lhe é constitutiva.
[7] Com essa idéia tentamos escapar de um determinismo histórico quase sempre reducionista, sem abrir mão das determinações que sendo históricas são, sempre, dialeticamente abertas. Enfim, as indeterminações não são indeterminadas, são historicamente situadas e, assim, também geográficas.
[8] O termo é dicionarizado (Ver o Dicionário do Aurélio Buarque de Hollanda) e com seu uso procuramos nos distanciar e acusar um sentido oculto de brasileiro – o que vive de explorar o Brasil – com o qual não nos identificamos.
[9] Ver Diaz,-Polanco, Héctor. 2004. El Canon Snorri, Ed. UACM, México.
[10] Conforme nos ensina Pierre Clastres, 1988 [1974]. A sociedade contra o Estado, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves.

"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Noam Chomsky deu uma longa entrevista ao jornal La jornada, em comemoração aos vinte cinco anos deste periódico mexicano. Suas reflexões são bombásticas e muito bem fundamentadas. Nela, Chomsky fala longamente sobre o que chama "a ilusão Obama". Apesar de extensa, vale a pena ler no sítio Carta Maior a íntegra das declarações desse grande pensador da contemporaneidade.


"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"

Em entrevista ao La Jornada, Noam Chomsky fala sobre a América Latina, definindo-a como uma das únicas regiões do mundo onde há uma resistência real ao poder do império. "Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os EUA derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo", diz Chomsky.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16160&boletim_id=594&componente_id=10006

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pesquisa do IPEA sobre à desigualdade social no Brasil



Todos os grandes veículos de comunicação do Brasil alardearam em alto e bom som os resultados de uma avaliação feita pelo IPEA sobre os dados do PNAD (pesquisa nacional por amostra de domicílio) para o ano de 2008. A análise dá conta de que um rico gasta apenas em três dias o que um pobre leva um ano inteiro para gastar. Esses dados sempre são chocantes, mas não chegam a ser inesperados para aqueles que têm o hábito de acompanhar as vicissitudes históricas e políticas do Brasil. De fato, a quantificação sempre nos dá calafrios e ânsia de vômito.
Alguns meios de comunicação chegaram a mencionar a tendência de queda dessa desigualdade nos últimos anos. Mas o que eles "efetivamente" não revelaram foi o comentário feito pelo coordeador da pesquisa Sergei Soares. Ele explica que mantendo essa tendência recente de redução da desigualdade registrada nos últimos anos, que em média foi de -0,007, “o Brasil levará 20 anos para chegar a um patamar que pode ser considerado justo”. Segundo ele, isso corresponde a um valor de 0,40 no índice de Gini (índice que mede a destribuição de renda numa sociedade). O pesquisador sugeriu ainda que o governo “continue fazendo mais do mesmo”, estimulando programas como o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo, e invista em educação e estimule a formalidade no mercado de trabalho.
Como se vê, as medidas sociais desenvolvidas pelo governo, tem sim, atuado no sentido de minorar o flagelo da desigualdade social em nosso país. Não é a primeira vez que o programa "Bolsa família" é citado como peça estratégica para o combate à desigualdade social. Por outro lado, o que se vê é um esforço sobre-humano da grande mídia brasileira em tergirversar, no sentido de ocultar e desinformar os seus leitores.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Música brega, o que é isso?




Música brega, o que é isso?

Por Ricardo Moreno

O termo brega sempre esteve pejorativamente associado ao mau gosto, a algo desqualificado e cafona. Não sei exatamente desde quando o termo é usado, mas com relação à música, o meu primeiro contato com o termo foi associado a uma geração de cantores que chegou ao sucesso em fins da década de 1960 e início dos 1970. Essa geração a qual me refiro contava, entre outros integrantes, com: Odair José; Fernando Mendes; José Augusto; Reginaldo Rossi e Evaldo Braga, o ídolo negro. Havia muitos outros, mas estes acima, compunham, entre si, uma unidade. Eles surgem num momento em que do ponto de vista de consumo de massa para a juventude, o que estava fazendo sucesso era a jovem guarda.

Se por um lado a jovem guarda era uma espécie de diluição ou de tradução para os brasileiros do que estava acontecendo no cenário pop internacional, do outro, esta geração chamada de brega, era uma tradução ou diluição da jovem guarda, para uma juventude mais popular. Não obstante essa ligação com a jovem guarda, os compositores das canções “bregas” criavam em suas letras um ambiente muito próximo dos antigos boleros, e, não raro, construíam letras ainda mais dramáticas e carregadas. Títulos como “cadeira de rodas”, que fala de amor não realizado com uma paraplégica; “eu vou tirar você desse lugar”, que trata do amor de um jovem por uma prostituta, entre outras, denotam bem essa tendência.

Se é certo que essa geração nunca compôs propriamente um movimento, e nunca deram a si, pelo menos em um primeiro momento, o nome de brega, de onde vem essa definição? É quase inescapável, quando tentamos responder a essa questão, perceber o viés classista nela embutida. Se formos falar do ponto de vista absolutamente musicológico pode ser (não estou certo disso) que encontremos elementos que nos dê alguma unidade para a definição. Mas é possível que o que se chama brega ou mau gosto esteja menos na melodia do que no arranjo e na letra. Na letra sim, porque ela fala diretamente à emoção de milhares de pessoas das classes subalternas da sociedade. A forma que usa para falar desses temas também não se pauta pelos cânones da “boa” escrita. Os temas e personagens que desfilam são também todos de um mundo socialmente subalterno: empregadas domésticas, prostitutas, amores suburbanos, etc.

No fundo, talvez, a definição do que é ou que não é brega, esteja por conta de determinados grupos que se encontram na posição de “legítimos” definidores do que é o bom e o mau gosto. A definição me parece, portanto, produzida pelos grupos que não são bregas, ou em outras palavras: brega é uma determinada música ou cultura produzida e consumida pelos grupos socialmente subalternos, que não são os possuidores da legitimidade de dizer o que é e o que não é “bom gosto”.

Sobre a etimologia da palavra brega paira um mistério. Há várias versões, e também vou produzir a minha, com licença: o termo brega vem de um outro termo maior chamado “xumbrega” – consignado inclusive no dicionário Houaiss, como coisa reles, ordinária e de mau gosto – este termo, muito utilizado no nordeste brasileiro, por sua vez, deriva de uma situação curiosa: quando da expulsão dos holandeses de Pernambuco no século XVII, foi designado para governador desse estado um homem chamado Jerônimo Furtado. Este ganhou do povo o apelido de Xumberga, por usar bigodes parecidos com os do general alemão Von Schomberg. Ora, este último gozava de muito respeito por ter tido presença de destaque nas lutas contra os holandeses. Havia entre os naturais de Pernambuco a intenção de enxovalhar a figura de Jerônimo Furtado, uma vez que este se identificava com a corte portuguesa justamente em um momento de grande sentimento nativista naquele estado. O apelido de “xumberga” para o novo governador, tinha então a intenção de designá-lo como uma cópia inferior e ridícula do general Schomberg.

Resumindo, portanto, podemos deduzir que a palavra brega vem do adjetivo “xumbrega”, que por sua vez deriva de Schomberg, nome de um general alemão. Claro que esta é apenas mais uma hipótese para a etimologia da misteriosa palavra “brega”...




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mais um blog militante

Navegando pela blogsfera descobri esse blog de documentários. Parece ser muito bom. Chama-se Doc verdade. Quem tiver interesse, segue o link abaixo.

http://docverdade.blogspot.com/

Mais uma da rede Bandeirantes

Acabo de assitir mais uma vez aos ataques da rede bandeirantes às propostas de mudanças nos índices de produtividade da terra com vistas a reforma agrária. O fato novo é que pela primeira vez eles botam no ar alguém favorável às mudanças: o presidente Lula. Foi preciso a fala do presidente para que essa empresa, membro do PIG (Partido da Imprensa Golpista) desse voz ao outro lado da questão. Mesmo assim só por alguns segundos. Em contrapartida eles fizeram um editorial horrendo, apelando para o medo, a mentira, e o ódio. Mas não se pode esperar nada mesmo desse pessoal que representa tão bem a Casa grande, as capitanias hereditárias, etc.
Repudiemos essa odiosa postura da rede bandeirantes, com e-mails para a emissora.

Convite aos professores

Convite aos professores


O Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA – inicia uma pesquisa com estudantes dos ensinos fundamental e médio de modo a analisar as motivações que levam este grupo de estudantes a adotar a prática do vício de fumar.

Tendo como base pesquisa que acabamos de concluir – com 1800 universitários, de 31 cursos e de 5 Estados – o NEPA pretende levar esta pesquisa a maior
número de Estados possíveis.

Para isso necessitamos de professora(e)s dos ensino fundamental e médio (escolas públicas e privadas) da Região Sudeste que tenham interesse em
atuar como pesquisadora(e)s junto a suas escolas, tomando como base metodologia que será transferida e apoiada pelo NEPA em relação a cada
interessado.

Os que tiverem interesse – maiores detalhes sobre a pesquisa e a metodologia – devem fazer contato com o NEPA ( roosevelt@ebrnet.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ).

O nome de todos os pesquisadores envolvidos na pesquisa farão parte do trabalho final (produto da pesquisa) que visa conhecer o perfil nacional do
Tabagismo (motivações que levam a ele) entre estudantes do ensino fundamental e do médio.

Roosevelt - NEPA / UNIVIX

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um paralelo curioso: Debussy e Luiz Gonzaga

Por Ricardo Moreno

Na história da música, tanto popular quanto erudita, e até mesmo, no sentido mais geral, na história das artes e das ciências, encontramos sempre o que podemos chamar de pontos de inflexão. São momentos em que ocorrem guinadas, mudanças de curso, enfim, mudanças. Desta forma, alguns autores constituem-se como liminares, no sentido de que servem como pontos de passagem para a construção de um novo momento naquela atividade. Em certo sentido, foi isso o que aconteceu com os autores acima citados.

Quando da crise no sistema tonal (simplificando ao máximo, podemos dizer que este sistema é o que usa aquela escala que aprendemos, quando crianças, na escola: dó, ré, mi... si, dó) na chamada música de concerto, ocorrida no século XIX, os compositores estavam à procura de estabelecer novos caminhos para a produção musical. A produção da chamada Escola de Viena com Schoenberg, Alban Berg e Webern, foi, de certa forma, uma modo de responder a esta crise. Como afirmava Schoenberg, o trabalho de Wagner já tinha anunciado a crise do sistema tonal, e que depois dele não era possível mais nenhum retorno. Foi desse entendimento que surgiu a necessidade de construir um novo código que fosse mais longe do que Wagner já tinha ido. Esse código seria o dodeca-fonismo e depois o serialismo integral.

Uma outra solução vinha da França: Claude Debussy. Além da questão timbrística (novos sons resultantes de novas combinações de instrumentos) que preocupava este compositor, havia também a possibilidade de usos dos modos (sistema que organiza as notas da escala de forma diferente do sistema tonal) que ele descobriu, ou pelo menos teve um precioso insight, a partir da audição de músicas orientais na Feira Mundial de Paris, por ocasião das comemorações do centenário da Revolução Francesa (1899). Além dos modos, havia também a questão das polirritmias (sistema pelo qual várias “linhas” rítmicas são articuladas simultaneamente), que Debussy afirmou ser imensamente superior às formas rítmicas usadas na tradição da música ocidental.

Ora, a utilização de estruturas modais antigas e advindas de outras tradições não ocidentais, acabou sendo uma forma de oxigenação para a música ocidental. Quer dizer, uma forma aparentemente superada de estruturar os sons retorna através de novos usos perfazendo um novo sistema, ou melhor, uma nova forma de usar o antigo sistema. Outros compositores de música contemporânea também utilizaram elementos modais em suas peças. Esse é o caso, segundo José Miguel Wisnik, de Steve Reich que encontrou na música balinesa e africana, elementos modais e mesmo estruturais, e os utilizou em seus próprios processos composi-cionais minimalistas.

O caso Luiz Gonzaga na música popular segue um esquema aproximado ao de Debussy na música erudita. Isto porque quando Gonzaga surge no cenário musical brasileiro, na década de 1940, este era de natureza predominantemente tonal. E continuou sendo mesmo depois que ele introduziu elementos modais no cancioneiro popular brasileiro. É possível pensar que Luiz Gonzaga tenha feito essas introduções de modalismos sem refletir muito sobre isso, mas o mesmo não se pode dizer das gerações de compositores jovens que surgem nos anos 1960, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo, que se valeram desse conhecimento para produzir inflexões estéticas na música brasileira, como forma mesmo de “oxigenar” e renovar os caminhos da MPB.

É sintomático que tenha sido do Nordeste brasileiro que tenha vindo esta “solução”. Isto porque, como se sabe, esta é uma das regiões brasileiras mais atrasadas do ponto de vista econômico, e com baixos níveis de escolarização. Mas talvez seja por isso mesmo que os artistas dessa região puderam ter contatos com indivíduos que por estarem fora da tradição escolar, continuavam a produzir seus cantos e sua modas fora dos esquemas eleitos como canônicos pela tradição letrada. É dessa forma que um modo musical, que possivelmente remonta a antiguidade, o chamado mixolídio, possa ter permanecido em uso nos aboios cantados pelos vaqueiros sertanejos. Luiz Gonzaga ouviu e com essa estrutura compôs: “eu vou mostrar pra vocês, como se dança o baião...”. Este verso foi construído em cima da referida estrutura mixolídia.

O importante é que entendamos que o código musical, como qualquer outro código comunicativo, corre o risco de enfraquecimento quando começa a se tornar redundante. Nesse momento ele precisa do aporte de novas informações, e foi de certa maneira isso que aconteceu com o modalismo tanto na música popular brasileira do século XX, quanto na música de concerto européia do século XIX. Outra lição que podemos tirar daí é que esta revigoração do código pode vir de conhecimentos aparentemente ultrapassados e antigos. É preciso estar atento às novidades do velho!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Um sonho de Gilberto Gil

A propósito da discussão em torno dos novos papéis da cultura, que tratei no texto "cultura em novos cenários", há uma canção do Gilberto Gil da década de 1970, que desenvolve muito bem esse tema. A canção chama-se "um sonho", e a ouvi pela primeira vez numa gravação primorosa do quinteto violado. Aliás o Lp que contém essa canção é uma obra primorosa. O seu título é "Pilogamia do baião". Não, caro leitor, não me equivoquei na digitação. O título é esse mesmo, e não adianta procurar no "Aurélio", pois trata-se de um dos tantos neologismo criado pelo poeta-visionário-místico Zé Limeira, o poeta do absurdo. Dizem que o Zé Limeira é uma invenção do jornalista Orlando Tejo, mas isso já é outra história...
Segue abaixo o texto no qual eu faço uma pequena análise da letra:

Há uma canção de Gilberto Gil dos anos 1970, que expressa bem as discussões em torno dos valores modernos (industriais) e pós-modernos (Pós-industrais). Ela chama-se “um sonho”. Diz a letra:
Eu tive um sonho
Que eu estava certo dia
Num congresso mundial
Discutindo economia.
Argumentava
Em favor de mais trabalho,
Mais emprego, mais esforço,
Mais controle, mais-valia.
Falei de pólos
Industriais, de energia,
Demonstrei de mil maneiras,
Como que um país crescia
E me bati
Pela pujança econômica,
Baseada na tônica
Da tecnologia.
Apresentei
Estatísticas e gráficos
Demonstrando os maléficos
Efeitos da teoria,
Principalmente,
A do lazer, do descanso,
Da ampliação do espaço
Cultural, da poesia.
Disse por fim,
Para todos os presentes,
Que um país só vai pra frente,
Se trabalhar todo dia.
Estava certo
De que tudo o que eu dizia
Representava a verdade
Pra todo mundo que ouvia.
Foi quando um velho
Levantou-se da cadeira
E saiu assoviando
Uma triste melodia,
Que parecia,
Um prelúdio bachiano,
Um frevo pernambucano,
Um choro do Pixinguinha.
E no salão,
Todas as bocas sorriram,
Todos os olhos me olharam,
Todos os homens saíram,
Um por um, um por um, um por um, um por um.
Fiquei ali,
Naquele salão vazio,
De repente senti frio,
Reparei: estava nu.
Me despertei,
Assustado e ainda tonto,
Me levantei e fui de pronto
Pra calçada ver o céu azul.
Os estudantes
E operários que passavam
Davam risada e gritavam:
"Viva o índio do Xingu! "Viva o índio do Xingu! Viva o índio do Xingu! Viva o índio do Xingu! Viva o índio do Xingu!"


Esta letra, que tem estrutura poética semelhante ao côco nordestino (estrofes de 4 versos com o primeiro contendo 4 sílabas e os restantes com 7), apresenta o relato de um sonho ocorrido ao eu lírico. Não é revelada a posição ideológica do mesmo, mas no sonho ele assume a posição “moderna” - industrialista-burguesa. Estando ele num congresso de economia, defende a criação de mais emprego, mais esforço e defende a mais-valia. Tudo isso através da criação de indústrias, de pólos de energia, isto sim, signos de desenvolvimento e prosperidade. O crescimento, dessa forma, viria da tecnologia, entendida aqui, como tecnologias tradicionais: máquinas (signo moderno).
O discurso racionalista (estatísticas e gráficos) não poupava os signos do atraso: o lúdico, o lazer, o descanso e o “espaço cultural da poesia”. Só o trabalho (o país só vai pra frente se trabalhar todo dia) pode gerar a riqueza e a acumulação que se deseja. Inebriado pelo seu próprio discurso, o orador não se dava conta do anacronismo e inadequação do seu discurso (estava certo de que tudo que eu dizia representava verdade pra todo mundo que ouvia). Só se apercebe quando um velho levanta-se da cadeira e sai assobiando. Notem que contra o discurso lógico-racionalista do defensor da “pujança econômica”, se opõe matreiramente uma atitude não discursiva, mas cheia de significados. Com seu gesto lúdico (sair assoviando) o velho desarma toda a racionalidade e verborragia do orador. E não é qualquer coisa que o velho assovia.
A indefinição da melodia, que está entre um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano ou um choro de Pixinguinha, produz um arco de solidariedade entre a cultura popular e erudita. A música, como contra-discurso, desestabiliza o discurso lógico racional. A ação do velho (emblematicamente um portador da tradição) é devastadora para o orador, que repentinamente se vê nu (o rei está nu). Ato contínuo ele é exposto ao ridículo e todas as bocas sorriem, todos os olhos o olham, e todos os homens se retiram... ele fica só e sente frio. E agora José? Nesse momento ele acorda assustado e vai para a calçada ver o céu. Nas ruas a cena que ele vê parece que continua a reforçar o contra-discurso iniciado pelo velho. O que ele vê ainda lhe parece insólito. Jovens estudantes e operários gritam entre risadas: “viva o índio do Xingu”. O índio aqui pode ser entendido como o antípoda da mentalidade industrialista, um signo macunaímico (ai, que preguiça).

Nesta canção Gilberto Gil realiza sinteticamente a discussão em torno do moderno e do pós-moderno no sentido que atribuímos aqui. E é sintomático que a frente do Ministério da Cultura, Gil seja um aguerrido defensor dos novos papéis da cultura nos novos cenários que se configuram na contemporaneidade.

sábado, 19 de setembro de 2009

Paulo Freire - Um mestre na periferia do capitalismo



Hoje, 19 de setembro de 2009, um grande pensador e educador brasileiro completaria 88 anos de existência. Refiro-me ao mestre Paulo Freire. Na condição de educador, que sou, tenho que reconhecer que infelizmente sua obra é muito mais citada do que lida e conhecida.
Como ele mesmo disse "não há prática de educação que seja neutra". É isso! Talvez aí esteja uma chave para seu aparente esquecimento. Digo aparente porque muitos pensadores, educadores e instituições não deixaram, graças a Deus, essa efeméride passar em branco. Hoje, quando se configura um novo campo teórico denominado "Teoria pós-colonial", ferramenta importante para discussões e práticas em torno da educação, estudos culturais, cultura e política, etc, a sua figura ganha mais vulto, na medida em que antes mesmo da consubstaciação desse campo de estudos, a sua obra já a prenunciava. Seu nome é citado contemporaneamente como um pensador cuja teoria e prática já se situava nesse campo.
A obra de Freire parece estar em plena sintonia com uma indagação da antropóloga Gayatri Spivak, que em uma obra já clássica na Antropologia de viés pós-colonial, "pode o subalterno falar?", indagava da possibilidade do subalterno se subjetivar plenamente, se livrando assim, da heteronomia e afirmando sua autonomia. Não foi outra a luta de Freire se não a de fazer do subalterno um sujeito autônomo e capaz de ser um agente pleno da história.
Por tudo isso e mais um milhão de coisas, é necessário que de vez em quando demos uma estudada na obra desse mestre inspirador (por mais que as vejas da vida diga o contrário). Salve o dia 19 de setembro!!

ps. Ah, o título desse postagem foi "arrastada" como diria Tom Zé em sua estética do plágio, de um título de Roberto Schwarz sobre Machado de Assis.