terça-feira, 26 de julho de 2011

CHICO 2011

Por Ricardo Moreno

   O lançamento de um disco, ou livro, do Sr. Francisco Buarque de Holanda, é por si, para a tristeza e irritação do cantor Lobão, um acontecimento cultural de grande magnitude. Refiro-me ao roqueiro pelo fato dele ter recentemente atacado a obra de Chico Buarque com um agastamento (bom esse termo, hein...) que me causou espécie.
O disco foi lançado no último dia 22 de julho com uma estratégia diferente que envolvia diretamente a internet. A gravadora Biscoito Fino iniciou as vendas antecipadas no dia 22 de junho, exatamente um mês antes do lançamento, e possibilitou aos compradores o acesso a momentos íntimos das gravações. Aqueles momentos que outrora todo fã ficava imaginando e especulando como teria sido. Pois então, todos os dias um novo vídeo era postado com trechos de músicas ou diálogos entre Chico e alguns integrantes do processo. Tem em particular um vídeo em que Chico dá boas risadas comentando as cartas virtuais que são enviadas ao site “Chico bastidores”, criado especialmente para o lançamento, nas quais alguns declaravam morrer de amor pelo compositor, e outras que o “espinafravam”. Enfim, coisas do mundo virtual. “Não sabia que o jogo era tão pesado”, disse o cantor.
Recentemente perguntaram a Chico Buarque por que ele não fazia mais canções como aquelas de antigamente. Ele respondeu que a razão era porque não precisava mais, pois as que tinham que ser compostas, já o tinham sido. Ele parece ser desses criadores que não querem ficar presos ao passado, mesmo que este tenha sido glorioso. Creio que seja até certo ponto normal que os fãs, ou parte deles, tenham esse tipo de apego, afinal as canções vão tecendo a nossa história, e poderíamos mesmo dizer que as canções vão nos compondo. Mas é preciso criar margens para compreender as nuances que uma obra precisa ter, no momento mesmo que ela está sendo composta. Há uma relação entre a obra e o tempo. Isso é inescapável.
As novas tecnologias não estão presentes apenas como aparato tecnológico para o lançamento do disco, mas também é tema da belíssima valsa “Nina”. Nela o narrador revela sutilmente que a relação dos dois se dá através de conversas virtuais, pois eles estão longe: “Nina adora viajar, mas não se atreve / num país distante como o meu”. Ou ainda: “Nina anseia por me conhecer em breve / me levar pra noite de Moscou”.  Recursos como o Google earth também são sutilmente mencionados: “Nina diz que posso ver na tela / a cidade, o bairro, a chaminé da casa dela / posso imaginar por dentro a casa / a roupa que ela usa, as mechas, a tiara...”. Em outro momento da canção, como bom poeta que é, extrai das palavras em português sonoridades que remetem à língua russa como em “Nina diz que embora nova”.
Na faixa “Sem você nº 2” Chico dialoga explicitamente com Tom Jobim, criando uma atmosfera e um ambiente tanto na letra quanto na música, semelhante à canção “Sem você”, uma das primeiras parecerias de Tom e Vinícius. Mas as referências a Tom não ficam só aí, e pra não deixar barato e também fazer uma brincadeira, eu diria que enquanto todo mundo quer ser Chico Buarque, ele próprio quer ser Tom Jobim. Na canção “Se eu soubesse” Chico abusa da influência jobiniana, mas abusar é só um modo de falar, pois o velho Tom ficaria feliz em ouvir essa bela canção, filha em linha direta do aprendizado que Chico fez com o ele. E ficaria feliz também em ouvir a bela voz de Thais Gulin, que divide com Chico a parte vocal da faixa.
O samba, que foi sempre uma marca tão forte na obra de Chico aparece, pois não poderia ser diferente, mas de uma forma mais discreta, pois só lá na sétima faixa é que ele dá o ar da graça. Mas também vem em alto nível. É a faixa “Sou eu” parceria com Ivan Lins cantada no disco pelo próprio Chico e por Wilson das Neves, que sabe tudo de samba além de ter uma voz sensacional. E o samba continua em “Barafunda”, cujo texto tematiza um assunto bem caro ao autor: a memória. Lembra um pouco o “Velho Francisco” e também o seu romance “Leite derramado”. Em todas essas obras a memória recebe um tratamento semelhante, a saber, é tratada como uma invenção e ora aqui, ora ali, se confunde e vai sendo re-significada a partir das velhas imagens guardadas (“Foi na Penha, não / Foi na Glória / Gravei na memória / Mas perdi a senha / Misturam-se os fatos / As fotos são velhas / Cabelos pretos, bandeiras vermelhas / Foi Garrincha, não / Foi de bicicleta / Juro que vi aquela bola entrar na gaveta / Tiro de meta...”). O samba vai deslizando e quando vemos, ou melhor, ouvimos, ele já virou salsa, pra voltar ao samba de novo.
Mas o ponto alto do disco está na última faixa, guardada talvez de propósito pra pegar o ouvinte de jeito. Pois quando não se espera mais muita coisa, somos surpreendidos com uma canção cuja densidade emotiva nos leva a uma reflexão emocionada sobre a experiência do cativeiro no Brasil. É uma parceria de Chico com João Bosco, que participa tocando violão e num discreto vocal. A levada, de um samba mais pra rural do que urbano, nos conduz a um ambiente estético que reforça o texto lamurioso. Nele, vemos um negro prestes a ser chicoteado por conta de ter visto a sinhá da fazenda a tomar banho nua no rio. Ele tenta se explicar negando que a tenha visto: “Para que me pôr no tronco /Para que me aleijar / Eu juro a vosmecê / Que nunca vi Sinhá / Porque me faz tão mal / com olhos tão azuis / Me benzo com o sinal da santa cruz” . Ao longo do seu arrazoado o escravo vai utilizando todas as corruptelas da palavra você, “vosmicê”, “vosmincê” e “vassuncê”, e vai perdendo as forças e “chorando em yorubá” e “orando por Jesus”. Por fim o narrador do texto descreve a própria condição de mestiço dizendo ter a “voz de pelourinho” e “ares de senhor”.
O time de músicos que acompanha Chico nesse novo empreendimento é o mesmo de sempre. Competentíssimo!! Com destaque para Franklin da Flauta, que reaparece, depois de muitos anos, tocando outra vez com Chico.
Chico Buarque não faz concessões e não simplifica sua arte. É um artista de seu tempo e elabora suas ideias musicais e textuais com o rigor dos que sabem o que estão fazendo, apesar das eternas maledicências da revista Veja, mas isso já é outra história... 

sábado, 23 de julho de 2011

Chico Buarque e mais uma canção do novo cd...

Chico Buarque, como parte do lançamento do seu novo disco, fez nessa última quarta-feira, 20 de julho, uma apresentação ao vivo junto com João Bosco, cantando uma das canções que integra o novo cd. A canção em questão, "sinhá", é uma composição dos dois. A apresentação foi feita no portal "chicobastidores" criado pela gravadora biscoito fino justamente para a divulgação pela internet do novo cd, cujo nome é apenas "Chico".

Watch live streaming video from chicobastidores at livestream.com

Jackson do Pandeiro em "Chiclete com banana"

Presença aqui no blog desse que considero um dos maiores cantores da nossa música popular brasileira: Jackson do Pandeiro. Aqui ele interpreta uma das canções de maior sucesso na sua voz: "chiclete com banana", de autoria de Gordurinha e Almira Castilho do ano de 1959.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

¿Avanzamos hacia un "Planeta de los Simios"?

Cientistas Britânicos estão preocupados com o avanço das pesquisas com animais que utilizam células humanas. Há, na visão deles, riscos com relação a utilização dessas células em macacos, pois poder-se-ia estar criando mutações do tipo "macacos pensantes", que seriam seres racionais não humanos. Reconhecem que as pesquisas são muito úteis, mas que carecem de uma ordenação jurídica que dê conta dessas novas possibilidades. A matéria é da BBC notícias.
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La línea divisoria es muy tenue: ¿hasta dónde debe experimentarse con animales para entender mejor el organismo humano y avanzar en los tratamientos de enfermedades?

   Este tipo de estudios, en los que se introduce tejido o células humanas en animales, son esenciales en la investigación médica. Pero si no se marca un límite ético claro, la ciencia está en peligro de crear "monstruos tipo Frankenstein". Esa es la advertencia de la Academia de Ciencias Médicas del Reino Unido, que está pidiendo al gobierno británico establecer regulaciones más estrictas para controlar el rápido y extenso avance de la "delicada" investigación con animales.
El informe de la Academia expresa temores por lo que dice es la posibilidad real de crear simios que tengan la capacidad de pensar y hablar como los humanos. Sin embargo, la Academia no está pidiendo prohibir estos estudios. Al contrario, afirma que éstos son esenciales para la investigación del tratamiento de enfermedades humanas.
Pero expresa que con el avance las técnicas y descubrimientos están surgiendo nuevos asuntos éticos que necesitan urgentemente ser regulados.

Estudios "importantes"

Por ejemplo, hoy en día los investigadores introducen células humanas de tumores de mama en ratones para probar nuevos fármacos de cáncer en tejido humano. También se crean ratas con lesiones similares a las que causan un derrame cerebral en humanos para probar si se logra una mejora inyectándoles en el cerebro células madre humanas. Se han introducido genes humanos en el genoma de cabras para producir una proteína humana que se usa en el tratamiento de trastornos de coagulación. Y el estudio de ratones con síndrome de Down, a los cuales se les ha añadido un cromosoma humano en el genoma, ha sido esencial para el entendimiento de la enfermedad.
Todos estos estudios, expresa el profesor Christopher Shaw, del King's College de Londres y uno de los autores del informe, "son extraordinariamente importantes". "¿Se va a reducir (este campo) o va a desaparecer? No. Y estoy seguro de que conducirá a nuevos tratamientos", agrega. La mayoría de estos experimentos se llevan a cabo con ratones y ratas. Pero los científicos están particularmente preocupados por las investigaciones con simios.
En el Reino Unido están prohibidas las investigaciones con grandes simios, gorilas, chimpancés y orangutanes, pero éstas sí están permitidas en muchos otros países, como Estados Unidos. Y los científicos británicos sí pueden experimentar con monos. Y aquí es donde se expresan temores por la posibilidad de crear simios que tengan la capacidad de pensar y hablar como los humanos.
"Lo que tememos es que si se comienzan a introducir grandes números de células cerebrales humanas en el cerebro de primates se podrá transformar súbitamente al primate en algo que posee algunas de las capacidades que se consideran distintivamente humanas, como el lenguaje" expresa el profesor Thomas Baldwin, miembro de la Academia. "Estas son posibilidades que han sido ampliamente exploradas en la ficción, pero necesitamos comenzar a pensar en ellas", agrega.

Áreas "delicadas"



El informe establece tres áreas particularmente "delicadas" en la investigación con animales: la cognitiva, la de reproducción y la creación de características visuales que se perciban como singularmente humanas.
"Una cuestión fundamental es si poblar el cerebro de un animal con células humanas puede resultar en la producción de un animal con una capacidad cognitiva humana, por ejemplo la conciencia, " afirman los autores.
El profesor Martin Bobrow, principal autor del informe, sugiere establecer lo que llama la "prueba del gran simio": si un mono modificado con material humano comienza a adquirir capacidades similares a las de un chimpancé, es momento de frenar los experimentos, dice.
Los científicos de la Academia no sugieren que alguien ya esté llevando a cabo estos experimentos. Lo que dicen es que se debe llevar a cabo una discusión ética y regulatoria ahora, antes de que empiecen a planearse esos estudios inusuales.
El área de la reproducción también es delicada y recomiendan que no se permita que un embrión animal producido con óvulos o esperma humano se desarrolle después de los 14 días.
Pero quizás el campo más controvertido es el de animales con características "singularmente humanas".
Tal como señala uno de los autores del informe "crear características como el lenguaje o la apariencia humana, como forma facial o textura de la piel, en animales presenta temores éticos muy fuertes".
Es necesario, dicen los científicos, tomar con seriedad la posibilidad de que esto ocurra en el futuro y de que existe un temor por los experimentos "tipo Frankestein con animales humanizados" que pueden generar monstruos.
"Porque una cosa es que llegues a tu casa y tu loro te diga: ¡hola niño bonito!. Pero si llegas a tu casa y tu mono te saluda así, eso es algo muy distinto".

Esporte radical no Vietnã...

Isso que se vê abaixo poderia ser a demonstração de um mestre zen atravessando uma rua no Vietnã, ele dá uma aula de auto-controle. Ou pode ser apenas um praticante de esporte radical...

Sobre a descriminalização da maconha

  O Growroom, maior portal sobre cultura canábica do Brasil, sai em defesa de quem nos defende e vem manifestar apoio total ao deputado federal do estado de São Paulo, Paulo Teixeira, em sua luta por um debate amplo e sem estigmas sobre a legalização da canabis em todas as esferas da sociedade brasieira.

  A busca de alternativas que combatam a violência imposta pela “guerra às droga”, que respeitem as liberdades individuais e que viabilizem o acesso à canabis de qualidade e com segurança ao usuário, tanto ele medicinal quanto recreativo é pluripartidária e deve ser entendida como o elo de união entre os diferentes movimentos que lutam pela legalização do cultivo e do uso no Brasil.

  O deputado Paulo Teixeira é lider do governo Dilma Rousef na Câmara dos Deputados e expoente da luta pela legalização da canabis. A notícia de sua escolha para liderança do governo, junto a nomeação de Pedro Abramovay para o SENADO, criaram a expectativa de uma reformulação na política de drogas do país.

Antes mesmo de tomar posse, as declarações de Abramovay foram “bombardeadas’ por setores conservadores da mídia, o que resultou em um recuo da presidenta passando o cargo da SENAD então para Paulina do Carmo Vieira.

  Paulo Teixeira tem sofrido pressão semelhante nos últimos dias, desde que em entrevista declarou que levaria aos lideres do PT uma proposta de criação de cooperativas de cultivo de canabis para o uso legal.
O Growroom reafirma que estará sempre apoiando o debate e incentivando iniciativas como a do deputado Paulo Teixeira e se coloca á disposição de todos que compartilem de tais ideais.

domingo, 17 de julho de 2011

MANIFESTO CONTRA PROPAGANDA DIRIGIDA ÀS CRIANÇAS

 Abaixo o manifesto contra à veiculação de propaganda dirigida às crianças. Esta campanha me fez lembrar uma canção da década de 1970 do compositor Ednardo, na qual ele tematiza essa questão. Abaixo do manifesto eu disponibilizo a canção com a letra.


MANIFESTO pelo fim da publicidade e da comunicação mercadológica dirigida ao público infantil


     Em defesa dos diretos da infância, da Justiça e da construção de um futuro mais solidário e sustentável para a sociedade brasileira, pessoas, organizações e entidades abaixo assinadas reafirmam a importância da proteção da criança frente aos apelos mercadológicos e pedem o fim das mensagens publicitárias dirigidas ao público infantil.

A criança é hipervulnerável. Ainda está em processo de desenvolvimento bio-físico e psíquico. Por isso, não possui a totalidade das habilidades necessárias para o desempenho de uma adequada interpretação crítica dos inúmeros apelos mercadológicos que lhe são especialmente dirigidos.

Consideramos que a publicidade de produtos e serviços dirigidos à criança deveria ser voltada aos seus pais ou responsáveis, estes sim, com condições muito mais favoráveis de análise e discernimento. Acreditamos que a utilização da criança como meio para a venda de qualquer produto ou serviço constitui prática antiética e abusiva, principalmente quando se sabe que 27 milhões de crianças brasileiras vivem em condição de miséria e dificilmente têm atendidos os desejos despertados pelo marketing.

A publicidade voltada à criança contribui para a disseminação de valores materialistas e para o aumento de problemas sociais como a obesidade infantil, erotização precoce, estresse familiar, violência pela apropriação indevida de produtos caros e alcoolismo precoce.

Acreditamos que o fim da publicidade dirigida ao público infantil será um marco importante na história de um país que quer honrar suas crianças.

Por tudo isso, pedimos, respeitosamente, àqueles que representam os Poderes da Nação que se comprometam com a infância brasileira e efetivamente promovam o fim da publicidade e da comunicação mercadológica voltada ao público menor de 12 anos de idade.




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RECEITA DE FELICIDADE
(EDNARDO)

Ultimamente ando às vezes preocupado
Vendo as caras tão risonhas das crianças
Nas fotos dos anúncios
Nos cartazes da parede
Dando idéias que algo vai acontecer
É receita certa pra sensibilizar
Pra esconder, pra mentir ou pra vender
Veja as caras tão risonhas
Tão lindinhas, tão risonhas
Nos jornais, nas paredes, nas TVs
Eu não gosto desses dedos que me apontam
Eu não gosto dessas frases que me dizem
"O futuro deles está em suas mãos..."
Pois é seu Zé, sei não
Não esqueço que algum dia fui risonho
Com u'a carinha bonitinha pra valer
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro - me dê


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UM POUCO DE HUMOR...

Conversas entre clientes e operadoras de telemarketing têm rendido boas piadas e situações engraçadas. Aqui, o ator Benvindo Siqueira tem uma conversa muito íntima e sincera com uma tal "Dona Rosângela". Vejam:

sábado, 16 de julho de 2011

A ORDEM CRIMINAL DO MUNDO

Documentário exibido pela TVE espanhola, que aborda a visão de dois grandes humanistas contemporâneos sobre o mundo atual: Eduardo Galeano e Jean Ziegler.
Pode se dizer que há algo de profético em seus depoimentos, pois o documentário foi feito antes da crise que assolou os países periféricos da Europa, como a Espanha.
A Ordem Criminal do Mundo, o cinismo assassino que a cada dia enriquece uma pequena oligarquia mundial em detrimento da miséria de cada vez mais pessoas pelo mundo. O poder se concentrando cada vez mais nas mãos de poucos, os direitos das pessoas cada vez mais restritos. As corporações controlando os governos de quase todo o planeta, dispondo também de instituições como FMI, OMC e Banco Mundial para defender seus interesses. Hoje 500 empresas detém mais de 50% do PIB Mundial, muitas delas pertencentes a um mesmo grupo. (Docverdade)
(Somente em Espanhol).



EL ORDEN CRIMINAL DEL MUNDO por klaudia_daniela

Diretamente do excelente blog "DocVerdade".

sexta-feira, 8 de julho de 2011

SUA CASA PRÓPRIA NO BANCO CELESTIAL DE SILAS MALAFAIA...

Algumas pessoas podem achar que estou sofrendo de algum mal psicológico, para ficar dando atenção a este tipo de coisa que vou tratar nesse post. Mas não é coisa de somenos, não. Trata-se do que venho chamando de pentecostalização dos espaços públicos. Entendo esse processo como a ação de grupos fundamentalistas pentecostais cujo propósito não se limita apenas a uma ação evangelizadora ou catecúmena em buscas de neófitos. Há também embutido em seu ideário uma busca de poder político e, por que não dizer, financeiro. O segundo item já é de há muito que se sabe (e me pergunto se não é caso de uma ação por parte do ministério público), mas o que mais me preocupa mesmo é o primeiro: a busca de poder político e a ocupação de espaços consagrados (sem trocadilho) como espaços essencialmente laicos, tais como escola, movimento social, etc. Essa ocorrência solapa as bases da democracia na medida em que esvazia o debate horizontal entre os homens e o verticaliza sob a égide de uma instância transcendente: Deus... pronto está feita a desgraça. Ora, ora, não posso defender uma ideia num espaço público e querer convencer a todos que Deus quer ou deseja que aquela ideia seja vitoriosa (como fizeram em tom histérico algumas lideranças do movimento dos bombeiros recentemente). Isso anula o outro no debate e o desqualifica totalmente. se alguém é contra essa posição que Deus deseja, é porque certamente está a serviço de outra coisa, cujo nome nem é bom falar.
Tenho levantado este debate com pessoas de várias orientações religiosas: católicos, evangélicos, agnósticos, etc... e creio que seja necessário que este seja um tema de reflexão das instituições. Também tenho provocado a própria instituição em que trabalho, a escola, no sentido de que as pessoas pensem sobre isso e se posicionem. Dentro de uma das escolas em que trabalho eu vi uma cena de "exorcismo". Uma aluna passou mal e uma professora fez aquela cena que se vê na televisão e dizendo coisas do tipo "sai desse corpo", etc. Conquistas civilizatórias diversas podem correr risco de retrocesso caso sejamos omissos ao que está acontecendo. Há alguns anos atrás um ator/palhaço italiano chamado Leo Bassi teve problemas em Portugal por conta de seu espetáculo tocar no dogma de Maria. Sofreu várias ameaças de grupo conservadores católicos, até o ponto em que tentaram, mas sem êxito, colocar uma bomba dentro do teatro,no melhor estilo "terrorismo cristão fundamentalista".
Os fundamentalismos são sempre perigosos, dos religiosos aos de mercado, como no caso de neo-liberalismo. São perigosos porque a solução para os problemas se apresentam unicamente condicionada a uma resolução que passe pelo retorno aos fundamentos de sua seita, ou religião. E se a coisa não estiver dando certo, radicaliza-se mais ainda, como fez Milton Friedman quando aplicou suas perversas teses econômicas no Chile, sob a égide de uma ditadura sanguinária.
Bom, localizei este vídeo na internet, e este que está falando é o pastor Silas Malafaia. Para os que se interessarem existem depoimentos bem "fortes" sobre ele na rede. Mas pra bom entendedor um pingo é letra, de modo que não pode haver dúvida do caráter e das intenções desse falso líder religioso. Este é o mesmo que tem feito uma verdadeira cruzada (com trocadilhos) contra as leis anti-homofóbicas que estão em discussão atualmente. Ele também se colocou contra o PNDH elaborado no final do governo Lula. Tudo em nome da moral, da decência e outras pilhérias. Vejam abaixo como ele tenta construir um sistema de financiamento celestial para a aquisição da casa própria. Mas não é pra rir, pois é coisa séria.


sábado, 2 de julho de 2011

Keith Swanwick fala sobre o ensino de música nas escolas

Artigo originalmente publicado na revista "Nova Escola"


A história é conhecida: em agosto de 2008, o presidente Lula sancionou uma lei que torna obrigatório o ensino de Música na Educação Básica. Por enquanto, o que se sabe é que as redes têm até 2012 para se adaptar às exigências da norma. Sobre quase todo o resto, porém, paira uma atmosfera de indefinição. Haverá uma disciplina específica ou integrada ao currículo de Arte? A aula será teórica ou incluirá um componente prático? O professor polivalente poderá ensiná-la? Qual a formação mais adequada? Uma excelente fonte para refletir sobre essas dúvidas é a obra do inglês Keith Swanwick. Professor emérito do Instituto de Educação da Universidade de Londres e formado pela Royal Academy of Music, o mais aclamado conservatório musical da Grã-Bretanha, ele criou teorias sobre o desenvolvimento musical de crianças e adolescentes e investigou diferentes maneiras de ensinar o conteúdo. "Os interesses musicais dos alunos são muito variados: alguns gostam de ouvir, outros querem compor ou ainda cantar e tocar. O professor precisa dominar um leque de atividades para atender a essas demandas", defende.  Swanwick já esteve no Brasil 15 vezes, a mais recente delas em novembro do ano passado, a convite da Associação Amigos do Projeto Guri, em São Paulo, para uma palestra sobre Educação musical. Após o evento, ele conversou com NOVA ESCOLA.




Em linhas gerais, o que é preciso para ensinar bem Música?
KEITH SWANWICK 
O essencial é respeitar o estágio em que cada aluno se encontra. Tendo isso em mente, é preciso seguir três princípios. Primeiro, preocupar-se com a capacidade da criança de entender o que é proposto. Depois, observar o que ela traz de sua realidade, as coisas com que também pode contribuir. Por fim, tornar o ensino fluente, como se fosse uma conversa entre estudantes e professor. Isso se faz muito mais demonstrando os sons do que com o uso de notações musicais.

Como um aluno aprende Música?
SWANWICK 
Procurei responder a essa questão por meio de uma pesquisa com estudantes de Música ingleses com idades entre 3 e 14 anos. Aprendi que o desenvolvimento musical de cada indivíduo se dá numa sequência, dependendo das oportunidades de interação com os elementos da música, do ambiente musical que o cerca e de sua Educação. Com base nessas variáveis, posso dizer que o aprendizado musical guarda relação com a faixa etária. Cada uma corresponderia a um estágio de desenvolvimento. 

Quais as características de cada um desses estágios? 
SWANWICK
 O primeiro vai até mais ou menos os 4 anos. Sua marca principal são experimentações, com as crianças batendo coisas e explorando as possibilidades de produção de sons de cada instrumento. No segundo estágio, que vai dos 5 aos 9 anos, essa manipulação já funciona como uma forma de manifestação do pensamento, dando origem às primeiras composições, muito parecidas com as que os pequenos conhecem de tanto cantar, tocar e escutar. As criações se tornam mais variadas e supreendentes a partir dos 10 anos, num movimento que chamo de especulativo. Em seguida, já no início da adolescência, as variações passam a respeitar os padrões de algum estilo específico, muitas vezes o pop ou o rock, "idiomas" em que é possível estabelecer conexões com outros jovens. Por fim, a partir dos 15 anos, é possível desenvolver um quarto estágio, que engloba os outros três, em que a música representa um valor importantíssimo para a vida do adolescente, marcado mais por uma relação emocional individual e menos por modismos passageiros ou algum tipo de consenso social. 

Que aspectos devem ser considerados no ensino de música nas escolas? 
SWANWICK 
O fundamental é que os conteúdos sejam trabalhados de maneira integrada. Nos anos 1970, resumi essa ideia na expressão inglesa clasp. Além de ser uma sigla, um dos sentidos dessa palavra em português é "agregar". Proponho que há três atividades principais na música, que são compor (a letra C, de composition), ouvir música (A, de audition) e tocar (P, de performance). Essas três atividades, que formam o CAP, devem ser entremeadas pelo estudo da história da música (L, deliterature studies) e pela aquisição de habilidades (S, de skill aquisition). (No Brasil, esse processo ficou conhecido como TECLA: T de técnica, E de execução, C de composição, L de literatura e A de apreciação.) 

Qual a vantagem de trabalhar nessa perspectiva? 
SWANWICK
 Um ponto forte é considerar que todas essas coisas são importantes e que devem ser desenvolvidas em equilíbrio. A ideia do clasp também pode ser útil para o professor perceber se está gastando muito tempo, digamos, no L, descrevendo fatos históricos e desenhando instrumentos, por exemplo. Dar muito enfoque à história da música é uma forma simplificadora de achar que se está ensinando Música. Acontece que a história não é música - ela é sobre música. O mesmo excesso pode ocorrer com docentes que atuam na classe o tempo todo como intérpretes ou outros que apenas colocam CDs para a apreciação. 

É apropriado trabalhar com músicas que as crianças já conheçam? 
SWANWICK 
Sim, até para considerar o que cada criança traz de base. Mas o professor não pode se limitar ao repertório já conhecido. É preciso ampliá-lo. Para ficar em um exemplo típico do Brasil, posso dizer que é correto ensinar samba, mas é essencial explorar os diferentes tipos de samba e ir além desse ritmo, trazendo novas referências. 

Existem ritmos mais apropriados para cada uma das faixas etárias? 
SWANWICK
 Não. A variação de ritmos é importante para favorecer o desenvolvimento da turma. Também não diria que exista uma sequência mais adequada, do tipo "primeiro música clássica e depois popular". É claro que pode ser inadequado submeter a criança pequena ao rock pesado, por exemplo, porque ela não vai se identificar com esse tipo de som. Mas é interessante apresentar a ela alguns tipos de percussão. Na outra ponta, talvez os mais velhos não queiram se aproximar de canções de ninar porque elas não fazem mais parte de seu universo. De qualquer forma, um bom conselho é evitar rotular os estilos musicais, pois esse tipo de estereótipo pode afastar. Se eu digo para um adolescente para ouvir apenas Beethoven (1770-1827) quando seu interesse é o rock, ele não vai dar a devida atenção e pode pensar: "Isso não serve para mim". Por isso, não falo de antemão para os alunos que eles vão ouvir uma música de determinado tipo. É preciso contextualizar a criação de modo que o estilo seja apenas um dos dados sobre a música. 

É verdade que os adolescentes são menos interessados em educação musical do que as crianças? 
SWANWICK
 Adolescentes são outro mundo. (risos) Eles gostam de música de modo geral, mas normalmente não estão interessados em ouvir a música como ela é apresentada nas escolas. O professor tem de chegar a um acordo sobre o que trabalhar. É inevitável negociar. Se o docente tiver uma posição muito rígida, com nível de tolerância baixo, não vai funcionar. 

Criar uma lei que torne compulsório o ensino de Música é uma boa ideia? 
SWANWICK
 Acredito que é uma boa iniciativa porque oferece às diferentes classes sociais oportunidades iguais de aprender. Nem todas as crianças têm a chance de frequentar um curso de música pago por seus pais em uma instituição privada. Possibilitar esse acesso nas escolas públicas é muito bom. Mas é preciso ficar atento ao conteúdo dessas aulas. Toda criança gosta de música. É natural do ser humano. Mas uma aula de música mal dada pode estragar tudo. Se ela for distante demais da realidade do aluno ou excessivamente teórica, por exemplo, o estudante pode ficar resistente ao ensino de Música e piorar a situação. 

Qual sua avaliação sobre a Educação musical no Brasil? 
SWANWICK 
Acho que vocês têm alguns problemas. Durante minha viagem, pensei bastante na seguinte questão: onde estão os professores que vão atender à demanda criada pela nova lei? Certamente há muitos profissionais ensinando música de qualidade, mas em geral eles estão em escolas de Música e não na rede de ensino. É preciso conceber formas de atrair essas pessoas para a escola ou melhorar a formação dos que já atuam. Talvez seja necessário um tempo para que se formem docentes prontos para cumprir a norma do governo. 

Muitos professores de Arte, disciplina que hoje engloba o ensino de música, reclamam que a área não é reconhecida no Brasil. Qual sua opinião? 
SWANWICK
 Eu entendo que muitas vezes o ensino se torna tão penoso que fica fácil esquecer o valor da música. Eu diria que cada professor também pode atuar para recuperar esse entusiasmo, independentemente de o reconhecimento existir ou não. Uma das maneiras é experimentar a música por si mesmo. Fiz um trabalho para uma organização do Reino Unido que queria avaliar a qualidade de seus professores de música. Eu dei vários cursos para esses docentes e, um dia, um deles me disse: "Eu estava desmotivado e suas aulas me despertaram. Eu até voltei a tocar piano". Imagine só: ele era professor e tinha parado de tocar seu instrumento! Além de tocar, o professor deve ouvir boa música - enfim, ficar em contato com a área de uma forma prazerosa fora da sala de aula. 

Na sua opinião, professores de Música precisam ser músicos? 
SWANWICK 
Evidentemente, não precisam ser pianistas de concerto. (risos) Mas é fundamental saber tocar um instrumento porque isso é muito útil na sala de aula. Ajuda a exemplificar e a responder as dúvidas, entre outras coisas. Além disso, é preciso entender muito bem do assunto, ter conhecimentos de História da Música, saber relacionar diferentes momentos históricos e estilos e construir uma visão crítica sobre o tema. 

Há uma idade mínima para a criança começar a aprender a tocar um instrumento? 
SWANWICK
 É difícil determinar essa faixa etária, pois costuma haver uma grande variação individual. Muitas crianças não escrevem nem leem com 3 anos, mas já têm alguns conhecimentos de gramática - eventualmente, podem usar o passado, o presente e o futuro em frases, por exemplo. Num paralelo com a música, elas não são capazes de escrever notas musicais, mas podem tocar para se expressar. Costumo dizer que a idade boa para começar a aprender é quando a criança demonstra interesse. 

Muitas vezes, o principal objetivo das aulas de Música é preparar as crianças para apresentações em datas comemorativas. Isso é ruim? 
SWANWICK 
Você não pode impedir os pais de querer ver os filhos no palco em uma festa. A tentação de mostrar a criança é muito grande não apenas na música como também nos esportes e em recitais de poesias, por exemplo. Entretanto, é preciso fugir da armadilha de reduzir o ensino de Música a essas atividades. Também não se pode cair na ideia de que o objetivo escolar é formar músicos ou apenas fazer com que as crianças gostem um pouco mais de música. 

Qual deve ser o cerne do trabalho? 
SWANWICK
 As aulas devem colaborar para que jovens e crianças compreendam a música como algo significativo na vida de pessoas e grupos, uma forma de interpretação do mundo e de expressão de valores, um espelho que reflete sistemas e redes culturais e que, ao mesmo tempo, funciona como uma janela para novas possibilidades de atuação na vida.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

SOBRE A MORTE DE PAULO RENATO

  De um modo geral, temos tanto respeito com relação à morte e somos tão cerimoniosos com relação a ela, que até mesmo diante do falecimento de pessoas públicas com as quais não concordamos, temos dificuldade em dizer o que de fato penamos delas. Claro que há momento pra tudo, e não seria de bom tom fazer crítica em um momento de dor e consternação de alguns. Mas do ponto de vista público, há uma tendência de se falar bem do finado, até mesmo com algum exagero. No caso particular de Paulo Renato a tendência de se falar bem é reforçada pela intensa "sintonia" existente entre ele e a grande mídia corporativa. As trocas de favores e as afinidades ideológicas existentes é de emocionar qualquer coração de pedra. o texto que segue faz-nos lembrar de algumas passagens da vida pública do ex-ministro que interessa não só aos professores, mas a todos aqueles que se interessam pela educação no Brasil. O seu legado (como disse uma colunista da grande imprensa), deve nos servir para que evitemos sua lógica privatista, de arrocho salarial e de descompromisso com os interesses da maioria. Leiam!!


O que você não leu na mídia sobre Paulo Renato (1945-2011)

Por Idelber Avelar para a revista Fórum

  Morreu de infarto, no último dia 25, aos 65 anos, Paulo Renato Souza, fundador do PSDB. Paulo Renato foi Ministro da Educação no governo FHC, Deputado Federal pelo PSDB paulista, Secretário da Educação de São Paulo no governo José Serra e lobista de grupos privados. Exerceu outras atividades menos noticiadas pela mídia brasileira.
Nas hagiografias de Paulo Renato publicadas nos últimos dois dias, faltaram alguns detalhes. A Folha de São Paulo escalou Eliane Cantanhêde para dizer que Paulo Renato deixou um “legado e tanto” como Ministro da Educação. Esqueceu-se de dizer que esse “legado” incluiu o maior êxodo de pesquisadores da história do Brasil, nem uma única universidade ou escola técnica federal criada, nem um único aumento salarial para professores, congelamento do valor e redução do número de bolsas de pesquisa, uma onda de massivas aposentadorias precoces (causadas por medidas que retiravam direitos adquiridos dos docentes), a proliferação do “professor substituto” com salário de R$400,00 e um sucateamento que impôs às universidades federais penúria que lhes impedia até mesmo de pagar contas de luz. No blog de Cynthia Semíramis, é possível ler depoimento às dezenas sobre o que era a universidade brasileira nos anos 90.
Ainda na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein lamentou que o tucanato não tenha seguido a sugestão de Paulo Renato Souza de “lançar uma campanha publicitária falando dos programas de complementação de renda”. Dimenstein pareceu desconsolado com o fato de que “o PSDB perdeu a chance de garantir uma marca social”, atribuindo essa ausência a uma mera falha na campanha publicitária. O leitor talvez possa compreender melhor o lamento de Dimenstein ao saber que a sua Associação Cidade Escola Aprendiz recebeu de São Paulo a bagatela de três milhões, setecentos e vinte e cinco mil, duzentos e vinte e dois reais e setenta e quatro centavos, só no período 2006-2008.
Não surpreende que a Folha seja tão generosa com Paulo Renato. Gentileza gera gentileza, como dizemos na internet. A diferença é que a gentileza de Paulo Renato com o Grupo Folha foi sempre feita com dinheiro público. Numa canetada sem licitação, no dia 08 de junho de 2010, a FDE da Secretaria de Educação de São Paulo transfere para os cofres da Empresa Folha da Manhã S.A. a bagatela de R$ 2.581.280,00, referentes a assinaturas da Folha para escolas paulistas. Quatro anos antes, em 2006, a empresa Folha da Manhã havia doado a curiosa quantia–nas imortais palavras doSenhor Cloaca –de R$ 42.354,30 à campanha eleitoral de Paulo Renato. Foi a única doação feita pelo grupo Folha naquela eleição. Gentileza gera gentileza.
Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor do Grupo Folha. Os grupos Abril, Estado e Globo também receberam seus quinhões, sempre com dinheiro público. Numa única canetada do dia 28 de abril de 2010, a empresa S/A Estado de São Paulo recebeu dos cofres públicos paulistas–sempre sem licitação, claro, porque “sigilo” no fiofó dos outros é refresco–a módica quantia de R$ 2.568.800,00, referente a assinaturas do Estadão para escolas paulistas. No dia 11 de junho de 2010, a Editora Globo S.A. recebe sua parte no bolo, R$ 1.202.968,00, destinadas a pagar assinaturas da Revista Época. No caso do grupo Abril, a matemática é mais complicada. São 5.200 assinaturas da Revista Veja no dia 29 de maio de 2010, totalizando a módica quantia de R$1.202.968,00, logo depois acrescida, no dia 02 de abril, da bagatela de R$ 3.177.400, 00, por Guias do Estudante – Atualidades, material de preparação para o Vestibular de qualidade, digamos, duvidosíssima. O caso de amor entre Paulo Renato e o Grupo de Civita é umalonga história. De 2004 a 2010, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo transfere dos cofres públicos para a mídia pelo menosduzentos e cinquenta milhões de reais, boa parte depois da entrada de Paulo Renato na Secretaria de Educação.
Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grandes grupos de mídia brasileiros. Ele também atuou diligentemente em favor de grupos estrangeiros, muito especialmente a Fundação Santillana, pertencente ao Grupo Prisa, dono do jornal espanhol El País. Trata-se de um jornal que, como sabemos, está disponível para leitura na internet. Isso não impediu que a Secretaria de Educação de São Paulo, sob Paulo Renato, no dia28 de abril de 2010, transferisse mais dinheiro dos cofres públicos para o Grupo Prisa, referente a assinaturas do El País. O fato já seria curioso por si só, tratando-se de um jornal disponível gratuitamente na internet. Fica mais curioso ainda quando constatamos que o responsável pela compra, Paulo Renato, eraConselheiro Consultivo da própria Fundação Santillana! E as coincidências não param aí. Além de lobista da Santillana, Paulo Renato trabalhou, através de seu escritório PRS Consultores – cujo site misteriosamente desapareceu da internet depois de revelações dos blogsNa Maria News e Cloaca News  e –, prestando serviços ao …Grupo Santilhana, inclusive comcuriosíssima vizinhança, no mesmo prédio. De fato, gentileza gera gentileza. E coincidência gera coincidência: ao mesmo tempo em que El País “denunciava”, junto com grupos de mídia brasileiros, supostos “erros” ou “doutrinações” nos livros didáticos da sua concorrente Geração Editorial, uma das poucas ainda em mãos do capital nacional, Paulo Renatorepetia as "denúncias no congresso. O fato de a Santillana controlar a Editora Moderna e Paulo Renato ser consultor pago pelo Grupo Santillana deve ter sido, evidentemente, uma mera coincidência.
Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grupos de mídia, brasileiros e estrangeiros. O ex-Ministro também teve destacada atuação na defesa dos interesses de cursinhos pré-vestibular, conglomerados editoriais e empresas de software. Como noticiado na época peloCloaca News, no mesmo dia em que a FDE e a Secretaria de Educação de São Paulo dispensaram de licitação uma compra de mais R$10 milhões da InfoEducacional, mais uma inexigibilidade licitatória era anunciada, para comprar …o mesmíssimo produto, no caso o software “Tell me more pro”, do Colégio Bandeirantes, cujas doações em dinheiro irrigaram, em 2006, a campanha para Deputado Federal do candidato … Paulo Renato! Tudo isso para não falar, claro, doparque temático de $ 100 milhões de reais da Microsoft em São Paulo, feito sob os auspícios de Paulo Renato, ou a compra sem licitação, pelo Ministério da Educação de Paulo Renato, em 2001, de 233.000 cópias do sistema operacional Windows. Um dos advogados da Microsoft no Brasil era Marco Antonio Costa Souza, irmão de … Paulo Renato! A tramóia foi tão cabeluda queaté a Abril noticiou.
Pelo menos uma vez, portanto, a Revista Fórum terá que concordar com Eliane Cantanhêde. Foi um “legado e tanto”. Que o digam os grupos Folha, Abril, Santillana, Globo, Estado e Microsoft.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DANTE EM QUADRINHOS



A clássica história de Dante Alighieri, composta por 14 233 versos, ganha uma bela adaptação

Um dos maiores clássicos da literatura mundial, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, acaba de ganhar uma versão em quadrinhos. Os italianos Piero Bagnariol, quadrinista, e Giuseppe Bagnariol, roteirista, resumiram em apenas 72 páginas os momentos mais marcantes da viagem de Dante pelo inferno, purgatório e paraíso. Para isso, contaram com a ajuda de uma especialista na obra de Dante, a paulistana Maria Teresa Arrigoni, professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) de língua e literatura italianas. Ela conta com foi essa experiência.



De que forma você ajudou na elaboração dos quadrinhos?
Eu escolhi as traduções que foram usadas como base e colaborei com toda a parte de texto. É uma obra super complexa, então, surgiam muitas questões sobre como transportar aquela história.

Como foi feita essa adaptação?
A história é bem fiel ao enredo de Dante, mas claro que os roteiristas criaram uma moldura que colore essa viagem, há uma liberdade. Devido à complexidade da obra, eles fizeram adaptações e nem todos os episódios e personagens foram retratados. Houve uma seleção. Mas o quadrinista teve um poder de síntese muito grande e, ao ver, as escolhas foram muito bem feitas.

Qual a importância da transposição de um texto clássico como este para os quadrinhos?
É uma forma de criar espaço para um leitor que ainda não teve contato com a Divina Comédia. O fato de ser em quadrinhos é uma quebra de barreiras. É algo que pode provocar a leitura e, no caso de Dante, de apresentar esses versos. Escolhi as traduções feitas em versos justamente por isso. Acho que a chegada dos HQs pode ser um primeiro passo para quem quiser se aprofundar no texto original.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mário Maestri: A peste integralista no Brasil


  Mais um belo texto do historiador Mario Maestri. Trata-se de um intelectual que não se furta às questões do seu tempo, e toma partido claro em defesa das conquistas progressistas da contemporaneidade. Mario está consciente de que estas conquistas têm um enraizamento histórico e como tal necessitam ser compreendidas e defendidas, sob o risco de extinguir-se por acomodação dos atores sociais. Recentemente vimos marchas em defesa da liberdade, organizada por grupos que defendem o direito ao consumo de maconha, os direitos da mulher, o direito ao aborto e o direito à união civil por pessoas do mesmo sexo, entre outros. Mas vimos também, por outro lado, marchas contrárias a estas organizadas, ao meu ver, por grupos obscurantistas-fundamentalistas (e é um direito deles se manifestarem). O texto também discute o argumento de que ao se instalar o direito de união civil entre pessoas do mesmo sexo e a lei contra a homofobia, ninguém poderá mais individualmente considerar erradas essas práticas. Leiam:

Mário Maestri: A peste integralista no Brasil

 É direito constitucional crer que os homossexuais queimarão no inferno. Ou que os negros descendem de macacos e os arianos de cisnes brancos. É lícito crer que o fato de Karl Marx ter escrito O capital comprova que o judeu só pensa em dinheiro. Ninguém pode ser reprimido por pensar que a mulher é um ser incompleto. Sequer há crime em sentir-se atraído por criança. As concepções e as pulsações individuais são direitos individuais inarredáveis, por exóticas e desviadas que sejam.

É socialmente inaceitável que homofóbicos, racistas, pedófilos, misóginos e assemelhados afirmem positivamente suas concepções e impulsos, com palavras ou ações, ferindo comunidades frágeis ou discriminadas e, através delas, a sociedade como um todo. Realidade que a lei toma crescentemente consciência, ao punir em forma cada vez mais ampla o racismo anti-negro, o anti-semitismo, o sexismo, a pedofilia e, ultimamente, a homofobia.

Preceitos religiosos não justificam atos anti-sociais. Quem incentivar ou praticar o bíblico “olho por olho, dente por dente” terminará diante do delegado. Ninguém defende hoje a condenação à morte do adúltero e da adúltera – que despovoaria nosso país! Todos concordam que não teríamos vereadora, governadora ou presidenta, se seguíssemos a ordem da Bíblia que as mulheres “sejam submissas aos maridos” e “fiquem caladas nas assembléias (...)”!

O integralismo – evangélico, católico, mulçumano, judaico etc. – não nasce da vontade de respeitar estritamente preceito religioso. Ele exacerba a consciência alienada e ferida das populações para propagandear conservadorismo que viabiliza seus objetivos políticos, ideológicos e econômicos. A família real saudita é a mais pia, a mais conservadora e a mais rica do Oriente. Edir Macedo construiu reino nesta terra prometendo a salvação na outra. Se fosse pelo papa, ele seguiria mandando sobre Roma, onde ninguém teria votado neste domingo!

O proselitismo integralista luta para formatar a sociedade segundo o seu arbítrio e a sua autoridade, apoiado no que diz ser a vontade divina inquestionável. Ancora seu reacionarismo na negação obscurantista da racionalidade como padrão de convivência e de organização social. Os integralismos comungam na defesa da superioridade da revelação sobre a razão; da autoridade sobre a autonomia; da tradição sobre o progresso. Em sua militância, recebem o apoio magnânimo dos grandes interesses econômicos, no Brasil e através do mundo, interessados na conservação dos privilégios sociais.

No Brasil, o integralismo mobiliza-se contra o divórcio; contra a interrupção voluntária da gravidez; contra o reconhecimento civil da homoafetividade; contra a escola laica, pública, de qualidade; contra os direitos plenos da mulher etc. Tudo em defesa de ordem natural, determinada pelos céus, onde reinam indiscutidos o patriarca sobre a mulher e os filhos, o patrão sobre os trabalhadores, os governadores sobre os governados, o pastor e o sacerdote sobre os fiéis.

No Brasil, avança a galope desenfreado o integralismo religioso, expandindo sua peste, suas sombras e suas tristezas sobre a mídia, sobre a educação, sobre a política, sobre o lazer, sobre a educação etc., com o apoio oportunista e interessado de autoridades e representantes públicos. Recua o laicismo acanhado, parido em 1889 pela República elitista, e apenas estendido, à custa de duras lutas, neste pouco mais de meio século.

Mário Maestri (publicado originalmente no blog Pragmatismo Político)